Lenda Ya Lena

2 Capítulo 2 - Mas fui modificado para um imortal que veio de um portal


Keit sentava-se a beira do riacho, ainda tentando raciocinar o que tinha acontecido. Mas não, aquilo estava além da compreensão humana. Observou novamente os seus novos contornos. Cabelo loiro, curto e espetado caindo sobre a testa, como o de um garoto que vivesse a brincar nas vielas. O rosto afinou-se e as orelhas ganharam um aspecto pontudo. Olhos azuis, um corpo magricelo com seios em desenvolvimento — que Keit inclusive já tocara diversas vezes — e um novo nome: Yalena.

Suas últimas lembranças tinham sido de um demônio atirando uma flecha em seu olho esquerdo, terminando o assassinato com um beijo na boca dele. Depois acordou em uma pequena casinha de madeira com uma horta ao lado e dois homens trabalhando nela, que agora eram seu pai e seu irmão. Keit tornara-se Yalena, mas não aquela robusta mulher que servia e se apaixonara, mas uma garotinha magricela de doze anos de idade.

— Yalena, o almoço está pronto — gritou a mulher idosa que deveria ser a mãe.

Porém Keit continuou parado observando seu reflexo no riacho, até que um garoto alto — a miúda Yalena tinha 1,62 metros de altura — de olhos pequenos o bateu na nuca, e não foi gentilmente.

— Anda logo, criatura, garotas que não fazem nada também precisam comer — disse o menino com um corpo bem definido graças a todo o trabalho pesado. Era o irmão de Yalena.

Mas Keit não respondeu, nunca soube que sua mestra tivera um irmão, logo ele que pensara ter toda o conhecimento da história dela. E ao contrário da irmã, o garoto não ganhara belos fios loiros, mas um simples castanho escurecido, combinando com olhos das mesmas cores. Porém ele não podia ser chamado de feio, afinal os belos aspectos de Yalena também estavam presentes no irmão.

— Vai ficar me olhando com essa cara de paisagem até quando? — Reclamou o garoto. — Tome — jogou um pouco das madeiras que carregava no colo de Keit —, você não é nenhuma princesinha, então trate de trabalhar.

— Er... — Keit tentou chamá-lo, porém não sabia seu nome.

— Cassan, meu nome é Cassan, por acaso se esqueceu dele? — Na mosca.

Keit seguiu o irmão de Yalena até a pequena casinha de madeira, muito diferente do grande castelo que sua mestra vivia. A casa tinha apenas três cômodos: o quarto dos pais, o quarto onde Yalena e Cassan dormiam e uma sala com uma mesa em seu centro. O banheiro era uma pequena casinha do lado de fora. A mobília pobre, camas de palha e alguns armários com parte da madeira já podre. Mas apesar disso tudo, comida não faltava.

Ao chegar na sala, a mãe servia a mesa. O almoço daquele dia seria galinha assada e alguns vegetais colhidos. A mulher temperava a comida com alguns condimentos que pareciam ser Nacy, aquilo despertou curiosidade em Keit.

— Como conseguiram temperos de Nacy no meio das expedições? — Questionou.

— Não entendi sua pergunta, pequena — respondeu seu pai em uma voz calma e serena, a aparência dele tinha o mesmo aspecto —. A guerra contra a nação Nacy cessou desde a morte do último rei em uma das batalhas. O novo rei está mais focado em destruir os inimigos internos.

— Mas é bem provável que logo ele inicie uma expedição para lá — acrescentou o irmão. — Ouvi falar na cidade que os Cavaleiros de Prata estão passando de vila em vila, recrutando novos homens. Espero que me chamem — encerrou o discurso com um brilho nos olhos e a mente em outro lugar.

— A única guerra que vocês irão lutar hoje será contra a fome — interrompeu a mãe, colocando a comida na mesa.

— Ei, Yalena — chamou Cassan enquanto espetava a coxa —, depois do almoço tá afim de tomar um sacode como ontem?

— Err... Do que você está falando? — Respondeu Keit em um tom relutante.

— Orra, o que aconteceu com seu cérebro hoje? Treino, espadas, lembra?

A mãe de Yalena tirou a mão do garfo e a pôs na testa da filha, tentava achar alguma alteração na temperatura da menina, mas parecia normal como sempre.

— Você está estranha desde manhã, quando correu para o riacho e depois deu um grito — comentou —. Os vizinhos acharam que tinha acontecido alguma coisa...

— Eu... — Keit se sentia perdido em todo aquele ambiente — preciso ir lá para fora. — Sem querer receber qualquer questionamento, levantou-se e saiu correndo.

Ele queria se esconder, mais do que isso, respostas. O que raios estava acontecendo? Voltara no tempo? Não, impossível. E mesmo se fosse verdade, por que na vida de Yalena? Nada fazia sentido.

Enquanto ele andava em volta dos campos de cultivo, onde vira o pai da mestra arando a terra e colhendo alguns rabanetes, avistou uma pequena casinha com a porta meio aberta. Sua curiosidade e o desejo de ficar sozinho o fizera entrar ali.

Não era nenhum lugar especial, apenas um local para guardar ferramentas. A pequena casa não tinha o tamanho muito maior do que um quarto e possuía alguns instrumentos de conserto pendurados na parede, utensílios jogados no chão e muito poeira.

— Ei, você, até que enfim chegou aqui — chamou uma voz parecida com a de Yalena.

Keit, no susto, olhou para todos os lugares possíveis afim de achar o dono da voz.

— Olhe para cá, não, para a direita, a sua direita, seu idiota. Isso, agora dê dois passos, muito bem — o escudeiro seguia as ordens com um tanto de medo —. Pare de tremer, seu covarde.

— Quem está aí?

— É por isso que eu odeio novatos.

— Apareça! — Keit empunhou um rastelo que pisara enquanto andava.

— Como se algo assim pudesse me machucar — debochou a voz —. EI! NÃO ME CHUTE!

Quando olhou para baixo, Keit viu uma espada. Parecia ser bem antiga e enferrujada, pelo atual estado não deveria nem cortar manteiga. Mas algo lhe chamou a atenção: o cabo em formato de fênix com olhos brilhando numa cor vermelha. Ele já tinha visto aquilo antes. Deixou o rastelo no chão e agachou-se.

— Isso, me pegue com cuidado, sou muito valiosa, você sabe disso — ele aproximou a arma de seu rosto para ter certeza.

Se já não bastasse ter morrido, depois acordado no corpo de Yalena não entendendo nada, agora a espada de sua mestra falava com ele.

— E PARE DE ME OLHAR COM ESSA CARA DE BOCÓ!

— Mas...

— Sem “mas”. Agora bata com a cabeça na parede, com toda a força possível — ordenou a espada.

— O quê?

— Ande logo, bata como se quisesse a derrubar.

— Eu não vou fazer isso, é loucura!

— Você quer respostas para o que está acontecendo ou não?

Keit não respondeu. A espada continuou.

— Ande, bata a cabeça como sua vida dependesse disso — o tom da arma se tornara mais furioso.

O jovem refletiu por alguns segundos, poderia confiar na espada? Era uma espada e espadas são confiáveis? Não sabia, todas as armas que conhecera não tinham voz, mas se tivesse provavelmente o odiariam, Keit não costumava a poli-las corretamente e de vez quando as batia em pedras e árvores. Considerava-se um espadachim mediano, não derrotaria, sozinho, um exército, como Yalena, mas podia derrubar vários soldados no mano a mano. E com aquele corpo, mais leve que o seu, porém bem fraco, a magrela Yalena serviria mais como ladra do que guerreira.

Percebendo que seus pensamentos se desvairaram, voltou a fitar a espada que se tivesse um rosto, teria agora uma expressão furiosa. Mas a falta de uma face era compensada pelas falas.

— O QUE ESTÁ ESPERANDO, CARAMBA? BATA COM ESSE SEU CABEÇÃO NA PAREDE. — Keit considerava a cabeça da jovem Yalena em um tamanho normal — VAMOS LOGO, SEU KEITINÚTIL.

Keit deu um passo para trás. Um trocadilho horrível, claro, mas para tê-lo sido feito, precisava saber seu nome e a espada sabia.

— Surpreendido? Já falei, tenho todas as respostas que precisa, bata com a cabeça na parede — ordenou novamente a espada.

Deve vez ele obedeceu. Deu alguns passos para trás, afim de pegar um impulso e lançou-se com toda a força até a parede mais próxima. A pequena casinha tremeu com impacto e algumas ferramentas caíram no chão, soltando sons metálico após uma se encontrar com a outra. E Keit, ele ajoelhava-se no chão, com as mãos apertando a cabeça e soltando, de vez em quando, alguns gemidos de dor.

— QUE IDIOTA VOCÊ É — disse a espada junto com uma frenética risada que durou pelo menos uns cinco minutos. — Pelos deuses — pelos o quê? —, não acredito que você caiu nessa, é um idiota mesmo.

— Mas foi você que... — entretanto, antes que pudesse questionar, Keit sentiu algo apertando seu coração, como se fossem garras de um pássaro e, logo em seguida, desmaiou.

Acordou com a visão meio embaçada, mas não demorou muito para que voltasse ao normal. Estava em um lugar diferente, não era a casa de Yalena ou a muralha onde ele morreu, mais parecia um novo mundo. Nuvens se estendiam por todo o horizonte até onde sua visão alcançava e o chão parecia um espelho meio desfocado. Ao abaixar sua cabeça, viu que tinha voltado para a aparência normal. Pele negra, cabelo crespo que se encaracolava nas pontas, nariz largo com sardas que se estendiam em uma linha de uma bochecha até outra. Também usava a mesma roupa de quando fora morto: uma túnica, aquelas medievais, de cor vermelha e com as mangas curtas e, debaixo dela, uma camisa branca sem manga. Era ele, com uma leve exceção, seus olhos — que por sorte não tinham uma flecha perfurando um deles — perderam a íris de cor preta e agora apresentava uma nova cor, púrpura.

Na frente dele, poucos metros, avistou uma espada, cravada no chão, idêntica a espada falante de Yalena. Caminhou até ela, mas antes que chegasse, uma esplêndida ave desceu do céu. Tinha penas douradas que pegavam fogo, mas não queimavam. Três cristas tornavam a ave ainda mais majestosa. Sabia o que era aquele pássaro de fogo, porém pensava que já tinham sido extintos a séculos em uma das inúmeras guerras do passado. Mas ali estava, aquele grandioso animal, do mesmo tamanho que deveria ser os antigos dragões.

— Uma fênix... — disse após a ave se equilibrar em cima da espada.

— Meu nome é Christina, a rainha das Fênix — apresentou-se o animal. Sua voz era idêntica à da espada. — Bem-vindo ao meu mundo, Keitinútil. — Era realmente a espada, concluiu Keit.

Keit percebeu que aquele não era um bom lugar para reclamar.

— Agora sente-se, irei contar-lhe sua missão.