Lenda Ya Lena

1 Capítulo 1 - Até mais e boa noite


CAPÍTULO 1

O funeral estava para marcado para seis e meia da tarde, entretanto uma chuva atrasou em alguns minutos a carruagem que carregava o corpo da falecida. Os amigos e companheiros de arma de Yalena aguardavam sentados nos bancos da pequena capela.

Já eram sete horas quando o jovem Keit avistou os cavalos negros que arrastavam em passos curtos a carruagem funerária. Correu até o condutor e lhe falou algumas ordens, depois voltou até a capela para avisar aos presentes.

Após uma missa de curtos quinze minutos, o enterro ocorreu logo depois. Keit aproximou-se do caixão para dar uma última olhada naquela que cuidou dele por tantos anos.

Yalena tinha perdido sua pele bronzeada, resultado de anos treinando sobre o sol, agora parecia mais uma estátua de mármore. Nem os olhos azuis ele veria mais, aqueles mesmo azul que o fitava com rancor toda vez que o escudeiro errava em algo. O jovem passou os dedos pelo fino queixo da mestra até chegar aos lábios caídos, marcados por uma cicatriz, que nunca conhecera um batom, mas que experimentara diversas outras bocas. Keit afastou os fios loiros da testa e encerrou a despedida com um longo beijo, tentando inutilmente segurar as lágrimas. E lá se fora a primeira pessoa que acreditou nele, aquela que mostrara os diferentes mundos da guerra e do sexo, a única mulher que ele amou de verdade.

Antes de sair dali, acariciou o cabo da espada, a espada que Yalena parecia não largar em nenhum minuto enquanto ainda vivia. A fênix de olhos vermelhos rubi continuava a apresentar seu aspecto dourado brilhante, mesmo depois de tantas lutas. Polida diariamente por sua dona, agora morreria junto com ela.

— E lá se vai a melhor guerreira do império — comentou um homem barbudo de pele morena. Seu nome era Lihj, tinha sido um dos mensageiros e companheiros de cama de Yalena. — De tantas formas de morrer e foi logo por uma flecha.

— Demônios são todos covardes — acrescentou Keit num tom raivoso —, ao invés de pegarem em uma espada, preferem se esconder nas florestas.

Yalena tinha sido morta em uma armadilha, quando fazia patrulha ao redor de uma cidade conquistada dos inimigos da humanidade. Seu grupo fora atraído por um incêndio até chegarem em um local onde acabaram sendo alvejados por uma saraivada de flechas, vinda de todos os lados. Keit, naquele momento, cuidava dos cavalos no estábulo quando recebeu a notícia. Não tinha acredito até ver uma flecha perfurando o coração de sua mestra.

— Mas enterrá-la logo em terras estrangeiras? Na terra do inimigo? — questionou o escudeiro.

— Queria o que? — respondeu Lihj. — Que levássemos o corpo dela em um barco até o império? Apenas os ossos chegariam lá.

Keit não retrucou, Lihj estava certo e nada mais podiam fazer. Resolveu se retirar para poder ficar a só com seus pensamentos. Seu lugar favorito eram as muralhas, não importasse qual fosse o castelo, geralmente quieta a noite e com uma ótima vista. De lá, podia ver o mar onde Yalena desembarcara corajosamente e vencera os demônios que guardavam a costa.

Mas naquele momento seus pensamentos estavam voltados para a flecha. Uma flecha, que ironia. Yalena sempre era a primeira a ir para linha de frente, derrubando uns vinte demônios de armaduras e pesadas espadas até que seu exército chegasse para dar apoio. E mais irônico disso tudo foi o local atingido, o coração, o frio coração de Yalana que Keit tentava esquentar com seu amor, quase sempre rejeitado. No fim, o coração dela foi destroçado para que, ninguém pudesse tê-lo.

— Não sabia que havia outras pessoas aqui — disse uma voz feminina. Keit olhou por todos os cantos, mas não encontrou quem pudesse ser o dono daquele som. Voltou seu olhar para o litoral, porém encontrou o rosto de uma garota em frente ao seu. — Ótimo, eu sempre me sinto sozinha, então gostaria de alguém para conversar.

O escudeiro soltou um curto grito e caiu para trás de susto. A garota terminou se subir a muralha e pulou para a parte de dentro, onde Keit estava.

— Aqui, segure, senhor assutado — ela estendeu a mão e Keit a agarrou. — Sou Tizara, qual o seu nome?

O escudeiro, ainda um pouco atordoado, observou a garota que de repente aparecera. Ela usava uma armadura de couro verde que protegia da cintura até a cabeça com um capuz da mesma cor. As costas portavam um longo arco, suas flechas foram colocadas em uma aljava presos numa cinta, junto com uma espada.

— Alo — chamou a garota —, eu perguntei qual é seu nome.

— Keit. E quem é você?

— Já disse, Tizara.

— Não é isso, o que está fazendo aqui? Por que escalou a muralha? Você é algum tipo de ladrão?

— Homens que perguntam demais são um tédio, sabia? — Tizara abaixou o capuz, revelando seu cabelo castanho preso em um rabo de cavalo. — E eu quem deveria estar perguntando o que você está fazendo aqui.

— Achei que aqui seria um bom lugar para pensar. E você ainda não respondeu minhas perguntas. O que é afinal? Por que carrega esse arco?

Tizara ignorou as perguntas e caminhou até a outra parte da muralha, que dava vista a um grande bosque. Keit a seguiu, estava sem armadura, porém a espada continuava na cintura.

— Nunca te vi por essas bandas — comentou a menina de cachos —, por acaso é do império?

— E você é... — As nuvens que cobriam a lua desapareceram, jogando um humilde brilho sobre Tizara, revelando quem realmente era a arqueira. Olhos de íris vermelha, mas com uma pupila negra e esclerótica, ao contrário da cor branca como tem os humanos, também era da cor preta. Orelha pontudas, três traços vermelhos em cada bochecha, dentes mais bicudos que o normal e a inconfundível pele branca, não pálida ou albina, mas branca como a lua e as estrelas. — Um demônio?

— E você um humano — Tizara cruzou os braços —, bem bonitinho por sinal.

Ao terminar de ouvir aquelas últimas palavras, o escudeiro sacou a espada e pulou para trás, afim de tomar distância.

— Então é uma inimiga. O que faz aqui?

— Queria entrar para ver o fruto de meu trabalho, porém estou meio perdida. Bem, se ela for importante como dizem, deve estar na capela nesse momento...

As últimas frases acabaram com toda paciência que sobrara de Keit. Sem hesitar, ele atacou a garota tentando fazer um corte em uma de suas costelas. Porém Tizara já tinha previsto seus movimentos e rapidamente deu um salto até a extremidade da muralha, armando o arco e uma flecha.

— DEMÔNIO MALDITO!

— Não se preocupe, ela teve uma morte rápida. Mas tenho que me vangloriar, sabe como foi difícil perfurar uma armadura? — Keit ignorou as declarações e novamente partiu para cima dela, mas Tizara largou uma flecha, atingindo a perna dele. — Olha, você tem um rostinho bonito, não posso simplesmente acabar com ele.

Keit, em uma inútil forma de demonstrar força, arrancou a flecha da perna e se preparava para uma terceira investida. Mas uma voz atraiu sua atenção.

— INVASORES! TODOS EM POSIÇÃO! — gritou algum soldado qualquer do exército de Yalena.

O escudeiro mancou até a extremidade da muralha e avistou um exército de demônios levantando escadas e atirando flechas contra os defensores.

— Olha só — reclamou a garota, fazendo Keit voltar sua atenção a ela. — Sabia que você nunca deve ignorar uma mulher. — Suas últimas palavras vieram com uma nova flecha, dessa vez acertando o olho de Keit e atravessando seu crânio.

O escudeiro largou a espada e tombou no chão. Ali ele morria, não do jeito que imaginava, mas da forma mais irônica o possível. Os mesmos olhos escuros, aqueles que tinham chamado a atenção de Yelena pela primeira vez, agora estava destruído pela mesma flecha que matou sua mestra. Ele preferia sua morte com uma espada atravessando o peito, defendendo a mulher que amou. Mas o destino era cruel e os demônios irônicos.

Entretanto, antes dele fechar seus olhos para sempre, Tizara agachou-se e deu-lhe um beijo nos lábios até a respiração do jovem porar.

— Bem, pelo menos agora posso falar que beijei um humano bonito. — E essas foram as últimas palavras que ele ouvira até enfim morrer.

E depois acordar deitado numa cama de palha, ao lado de uma mulher de cabelos grisalhos, chamando-o por outro nome.

— Então enfim você acordou — disse a mulher —, Yalena.