Lena

7 VI - Lá vem a noiva


A semana passou surpreendentemente rápido e, nesse período, em meio a provas do vestido, muitos banhos de sol_ e de água também_ e alguns momentos de enjôo por conta da alimentação exagerada, Lena ganhou alguns quilos, estando visivelmente mais saudável naquela manhã de quinta-feira.

Ainda era cedo quando a garota se levantou. Não conseguia estar em paz pensando que, em 24 horas, estaria acordando ao lado de um homem que não era Henrique. Ela apertava o colar que havia ganhado do amado em seu aniversário, como se os dois pudessem estar mais próximos daquela maneira.

Caminhou até a janela, na qual se sentou, para olhar o horizonte: aqueles montes, aquelas árvores de pequeno porte e aquela... Aquela silhueta masculina parada no alto de um dos montes, refletida pela luz do sol que nascia às suas costas. Não era possível saber quem era, mas Lena tinha a certeza de que se tratava de Henrique. Seu coração ficou apertado, mas ela sabia que não tinha mais jeito, mas que um dia, nem que fosse na Vida Eterna, eles se encontrariam outra vez.

— Bom dia, senhorita._ Uma criada bateu na porta do quarto, despertando Lena dos mais belos sonhos que ela sonhava acordada, e entrou.

— Bom dia._ Ela respondeu, como se despertasse de um transe.

— Seu pai ordenou que eu te ajude a se arrumar.

— Diga a ele que eu sei me vestir sozinha.

— Desculpe, mas as ordens dele foram claras: eu não devo sair do seu lado.

— EU NÃO QUERO VOCÊ DO MEU LADO! EU QUERO A MINHA MÃE!

— Eu estou aqui, meu amor._ Alejandra apareceu na porta, carregando o vestido.

— Se alguém tiver que me vestir, quero que seja você.

— Seu pai ordenou que eu não fique sozinha com você. Talvez ele ainda esteja achando que tem como você fugir, mesmo com o esquema de segurança montado pra essa "festa".

— Que grande festa..._ Lena ironizou_ Meu pai me odeia tanto, que vai celebrar a minha ida direto pro inferno.

— Você vai sofrer muito mais se mantendo resistente dessa forma, minha filha.

— Desculpa, mãe, mas eu não pretendo ser a mulher resignada que você é. Eu quero viver, que é uma coisa que você não faz!

— Olha, minha filha, se for pra você continuar descontando em mim sua raiva com seu pai, eu vou embora.

— Não mamãe! Fica por favor. Eu preciso de você._ Ela correu até a mãe e a abraçou_ Eu vou ser forte por você e, um dia, depois que aquele maldito morrer, venho te buscar e você vai finalmente viver.

— Lembre-se sempre de que não se deve decidir o significado de vida para os outros. Não viva sonhando pra mim com uma vida com a qual eu não sonho. Sou feliz aqui, por mais que você não acredite, porque aprendi a amar o seu pai da forma que ele é, e viver ao lado do homem que eu aprendi a amar, para mim, é viver feliz.

— Eu queria ser como você. Seria tão mais fácil...

— Você é como é. Não queira ser como os outros e nem queira que os outros sejam como você. Somos pessoas e, por isso, diferentes uns dos outros, ou até diferentes daquilo que fomos ontem.

— Desculpem por incomodá-las,_ A criada interrompeu_ mas precisamos arrumar a garota, porque o casamento vai ser na hora do almoço.

— Tão cedo?_ Lena se assustou.

— Sim. O menino Roger quer ir para a lua de mel o mais rápido possível.

— Se arrume, minha filha. Você vai ficar linda.

Lena pegou o vestido e caminhou em direção ao closet de seu quarto, mas foi interrompida mais uma vez pela criada.

— Senhorita._ Lena se virou para a mulher, já sem paciência_ Seu pai pediu que eu não tire os olhos de você.

— Então eu vou ter que mudar de roupa na sua frente?_ A criada assentiu com a cabeça_ Sem problemas,_ A garota começou a tirar a blusa de pijama e o sutiã para colocar o corpete_ afinal, vou ter que tirar a roupa pra um cara que eu nem sequer conheço, em menos de 24 horas.

E assim ela se vestiu, ajudada pela mãe e em frente aos olhos sempre atentos da criada.

...

— Já está tudo pronto._ Um homem armado falou para o "chefe", assentado na grande cadeira.

— Ótimo._ Ele engatilhou seu revólver_ Em alguns minutos sairemos. Tenho certeza de que essa festa será muito animada. E o mais importante: tragam a garota, seja viva... Ou morta.

...

— Você tá parecendo uma princesa, minha irmã._ Rodrigo falou logo que entrou no quarto e viu a irmã, já vestida de noiva e com o cabelo preso em trança para o lado, as costas enfeitadas com um véu que descia de uma coroa no topo da cabeça.

— Eu queria estar assim pra me casar com o homem que amo.

— Fico mal de saber que, em partes, você tá desistindo do que acredita por mim e pela mamãe.

— Não. Eu tô desistindo do amor carnal por um amor maior: o amor pela família.

— Você é forte. Sei que o seu sacrifício não foi e nem será em vão.

— Assim espero._ Ela respirou fundo_ Agora você tem que me levar ao altar._ Ela sorriu para o irmão e os dois foram, de mãos dadas com a mãe, até as belas tendas montadas na frente da casa principal.

...

— Você conseguiu, meu filho._ Rogério deu tapinhas de cumprimento nas costas do filho_ Vai se casar com uma mulher linda e de berço.

— Você quer dizer "você vai domar uma fera que não vê a hora de te matar".

— Se imponha, moleque!_ Ele repreendeu o filho_ Você é o homem! Ela tem que te obedecer! E se não te obedecer, um tapa na cara resolve.

— Não pretendo bater na minha esposa.

— Sua mulher tem que te respeitar, senão ninguém mais vai. Não quero ver você sendo cavalheiro com uma mulher que te enfrenta, senão eu vou ensinar ela a ser mulher. Estamos entendidos?

— Estamos, papai. Posso falar com a minha mãe agora? Estou vendo que ela não para de olhar pra mim.

— Claro._ Ele olhou para a esposa_ Virgínia! Venha aqui!

A mulher de cabelos curtos e levemente cacheados se aproximou lentamente e olhou para o filho.

— Meu filho, só quero te desejar que seja feliz com essa moça.

— Ele não tem que ser feliz, Virgínia._ Rogério corrigiu_ Apenas respeitado e bem servido, em todos os sentidos._ Riu maliciosamente olhando para o filho.

— LÁ VEM A NOIVA!_ Anunciou o cerimonialista e todas as dezenas de convidados se levantaram de suas cadeiras. Realmente, o desejo de Armando em humilhar a filha fez com que ele convidasse toda a elite da cidade, além de importantes políticos de todo o país.

Todos estando em seus lugares, uma música suave começou a ser tocada no piano posicionado ao lado do altar.

Roger estava ansioso. Seu pai tinha razão em dizer que ele tinha uma mulher fantástica para chamar de sua, mas o casamento era algo que o deixava apreensivo.

E foi em meio a esse misto de emoções que ela surgiu, linda. Roger não conseguia deixar de pensar em como aquela Milena de aparência doce e, em alguns momentos, um tanto quanto infantil, podia ser uma mulher tão forte e madura por dentro.

Ela olhou para o altar e viu aquele noivo que não conhecia, mas que fazia seu coração bater de uma forma diferente. "Deve ser ódio", ela pensou, enquanto caminhava, de braço dado com o irmão, até o homem com quem dividiria a vida dali para frente. Para diminuir seu sofrimento, imaginava em Roger o rosto de Henrique. Sua imaginação naquele momento foi além, porque a garota pôde jurar ter visto seu amado parado entre os convidados e depois saindo pela lateral.

Seu coração ficou apertado e uma lágrima desceu de seu olho esquerdo.