Lemniscata: A canção do arcanjo
1 Prólogo
Notas iniciais
Dormi e acordei diversas vezes, já não tinha controle sobre mim mesma. Minha vida desaparecia diante de meus olhos, e logo o mundo que se erguia ao meu redor se desfazia como nébula. As cinzas enchiam os lábios e o sal nos olhos tornavam-nos vermelhos e irritados. Minha mente por si só não era capaz de processar todas as tragédias e percebi então que estava presa, enjaulada em minha própria liberdade. Levantando os olhos, assustei-me com o sorriso desdentado da senhora de contas e cetim. Uma gargalhada interrompida por tosse saiu de sua garganta e então ela retirou uma das dezenas de cartas espalhadas e confusas sobre a mesa;
—Esta aqui é você- O indicador da mão direita livre tocou para um desenho mal feito e antigo de um homem com a corda no pescoço livre em praça pública. Sua risada se juntou à dos milhares que se aglomeravam em suas memórias. Sua desgraça era cômica e desprezível demais para sequer despertar piedade de expectadores cruéis, uma besta no coliseu sufocada pelas testemunhas dos assassinatos hediondos — embriagadas pelo sangue, abatedoras das canções, flautistas do caos, atrizes e pantomimeiros num palco de estrangulamento da verdade e decapitação dos aflitos enquanto praguejavam por misericórdia serena antes dos últimos suspiros. Os olhos apontados para os céus como se almejassem entregar as almas aos anjos, mas o sofrimento infiltrava em seus corpos e percorria como hera as veias e arrancava a seiva da vida. O cemitério era vivo e eterno, ironicamente, em sua cabeça de milhares de anos.
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