Lembranças não contadas

2 A Casa Abandonada [Part 2]


Notas iniciais
Capitulo piloto

Lá estava eu, descendo a montanha para fugir da nevasca que chegou tão rápido quanto o céu permanecia claro. Eu notei uma sombra na neve, movendo-se entre as árvores até sumir de vista.
Comecei a descer a montanha correndo. A neve caia com intensidade, o silêncio era total, não havia vento. Virei-me para trás, mas mal conseguia enxergar a trilha que eu estava deixando ao passar. Descendo, mas sempre olhando para trás a fim de garantir que nada rolava em minha direção. De repente o chão desapareceu sob meus pés e por alguns segundos fiquei suspenso no vazio. Não parecia estar caindo, era como se a neve me segurasse no ar. Então eu aterrissei, felizmente a neve amorteceu o impacto mas não impediu que minha cabeça batesse contra uma pedra.
Ao levantar os olhos notei uma silhueta preta se curvando e olhando para mim, parecia feito de fumaça... Rapidamente comecei a sentir muito frio, como se meu sangue já estivesse congelando.
“Você morrerá assim, gelado... Sozinho.”
“Não”, tentei dizer, mas meus lábios grudaram um novo outro. A silhueta apenas riu, quando eu ouvi um estrondo. E uma avalanche me cobriu...

—NÃO!.

Acordei em pânico ouvindo um grito que eu pensei que fosse meu, estava suando frio, meu coração parecia querer explodir. O som da minha respiração trôpega tomava conta da minha mente... O ar estava estranho, parecia que minha garganta estava se fechando lentamente. Olhei envolta do meu quarto, vi que uma luz passava por baixo da porta e percebi que minha irmã não estava em sua cama... Por um segundo me perguntei se eu não estaria perdendo as explosões no céu... Respirei fundo e levantei, uma pequena tosse apareceu repentinamente, isso não era normal.

Rapidamente coloquei meus sapatos, eu queria sair logo para ver os fogos do lado de fora. Corri até a porta de meu quarto, ela apenas estava encostada e só precisei usar o peso de meus braços para abri-la. Quando ela terminou seu movimento o brilho alaranjado atingiu meus olhos, lá estava ela.

—Le-Lena?

Minha voz falhou. Helena caída ao chão, naquele momento eu estava em choque, não controlava mais meu corpo, ele se movia sozinho em sua direção. Conforme eu me aproximava meu rosto conseguia sentir o calor aumentar. Coloquei-me a ajoelhar ao lado dela e minhas mãos sobre sua cabeça.*

—Hey... Lena... Acorda, vamos perder os fogos, acorda, por favor.

Enquanto o som trêmulo de minha voz percorria a sala que a cada minuto segundo parecia ficar mais quente, bagunçava com carinho os cabelos dela há espera de uma reação. Porém a única coisa que percebi, foram pesados passos em minha direção. Os passos de alguém que foge do escuro após as luzes se apagarem. Com relutância eu me forcei a virar o rosto, quando vi um olhar que não conhecia.

—GABRIEL!!

Eu nunca a imaginei naquele estado, seu rosto era uma mistura de desespero, raiva e tristeza. Sua respiração ofegante, o cabelo bagunçado e as roupas sujas como se tivesse acabado de correr pela floresta.

—Mãe, oque esta acontecendo, onde você estava? Lena não quer acordar, ela vai acabar perdendo os...

Não consegui completar a frase, fui surpreendido por um abraço forte. Envolto nos braços de minha mãe finalmente pude enxergar oque estava havendo. Algo aconteceu enquanto eu dormia, o fogo estava começando a consumir a casa, as chamas se alastravam pela madeira negra e a fumaça causava ardência em meus olhos.

—Filho me escute, você tem que sair de casa agora!

Seu pedido foi seguido por uma tosse, a fumaça estava aumentando, nos sufocaria se continuássemos ali.

—Mas e você e Lena? Não posso ir sem vocês...

Nossa atenção foi tomada por um estrondo vindo da cozinha, como se uma das paredes tivesse desabado. O cheiro do carvalho negro se transformando em cinzas, o som das vigas rangendo, que cada vez mais se esforçavam para aguentar o próprio peso.

—Pode ir, eu e... -Ela olhou para Helena, sua mão deslizou pelo ar até encontrar a de minha irmã. Segurava firme, como se nunca mais fosse soltar. -Eu e sua irmã iremos logo atrás de você okay? Pegue Dreei e vá em direção aos fogos.

Suas palavras eram reconfortantes, ela conseguiu fazer eu me acalmar em um instante... Seu corpo parecia ter relaxado e seu sorriso, o sorriso que eu vi a minha vida inteira.

—Más...

Eu não queria deixa-las... Não podia...

—Vai ficar tudo bem. Agora vá e não olhe para trás.


Ela colocou algo na minha mão, eu não me importei com aquilo naquele momento. Eu apenas tomei a escolha de acreditar em suas palavras... Mesmo quando seus olhos diziam a verdade.

Então eu fugi, como um garoto covarde e sem força pulei pela janela da sala. Meus olhos ainda ardiam pela fumaça, o brilho da luz da lua não parecia existir, nenhuma além das chamas que queimavam atrás de mim. Corri em direção a ponte, pisando pelas flores que cresciam ao redor da casa, a hesitação em andar pela aquela passagem nunca foi tão grande, desta vez não hera só medo... Meu corpo completamente tenso se moveu, os meus dentes se pressionavam, meus punhos se serravam e meus olhos se seguravam.

Eu avistei Dreei, ele parecia estar tão agitado quanto eu, se movendo de um lado para o outro.

—Garoto, eu preciso de você...


Disse colocando passando minha mão sobe sua cabeça. Ele pareceu me entender, talvez ele soubesse oque estava acontecendo mais do que eu. Segurei em sua escura para subir, pegando impulso passei minha perna por ele. E foi quando eu tive a visão que eu nunca esqueceria, quando eu desobedeci a ultima palavra de minha mãe. Quando virei para trás, uma penumbra preta atravessou os céus ao lado da fumaça. E minha casa agora brilhava intensamente. O calor de meu peito agora estava junto ás chamas daquela casa.

—Aaaahh!!!


O grito de raiva ecoou pela montanha. No horizonte as explosões já haviam começado, eu e Dreei agora andávamos em sua direção. Mas naquele momento eu finalmente percebi. Aquele foi o ultimo dia que veria minha mãe e minha irmã, e assim como no dia que meu pai foi embora... Me arrependeria amargamente de não ter dito aquelas palavras. “Eu te amo” uma ultima vez.

Aos poucos a chuva começa a cair.
Apesar da água preencher os buracos na rua, ela nunca vai preencher o buraco do coração de alguém.
A gota escorrendo em seu rosto flui para o coração do menino.
E enquanto isso cria uma ondulação, nunca será suas lágrimas.

Eu queria que a chuva caísse mais forte.
Engolindo tudo, como um rio de lama.
Mas mesmo assim, a chuva não pode apagar o fogo.

Notas finais
Seria de grande ajuda criticas e comentários, esse capitulo é o piloto de uma história que eu queria fazer.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.