Notas iniciais
Boa Leitura!

Sentindo o balanço plácido de sua rede, aquiescente ao ritmo do navio, Elizabeth Swann ansiava apenas os dias em que voltaria a fechar os olhos e simplesmente se deixar abraçar pelo sono. Desafiando seu melhor julgamento, no entanto, havia a pressão incessante obstruindo seu corpo e que, por sua vez, transformava-a em uma sobrevivente de sua própria ânsia para retornar a um estado de torpor incólume do qual começava a suspeitar. Teria sido toda a calmaria que conhecera antes de sua vida salva pelo infame Jack Sparrow, somente uma ilusão? Era aquele constante desejo por alcançar alguma coisa – a própria segurança, um futuro – o que um dia seu pai chamou de amadurecimento? Trêmulos, os raios de sol cruzavam as pequenas frestas por entre as tábuas do navio, despertando tais aflições, enquanto, respirando profundamente, colocavam-na sentada dentro da rede; odiando o finado capitão e a si mesma. Mais Jack. Por não conseguir esquecer seu sorriso torto, mais sábio, chamando-a de pirata daquele modo tão íntimo... como se um beijo permitisse que ele a desvendasse por inteiro.

Ainda, os olhos de Will insistentemente cravavam-se em suas costas, julgadores. Acreditando que ela não o percebia; ignorante de sua presença naquele navio ou mesmo apática ao papel que deveria exercer em sua vida. Contudo, tal indiferença de constatação acerca dos desejos da senhorita Swann recaía impreterivelmente a ele, somente. Ela, é claro, dentre todos os seus anseios, não gostaria de nada mais senão daquele velho conforto provindo da simples presença sólida de William, unida a cumplicidade de sua confidência. Sentar-se ao seu lado, explicando seus motivos para ter abandonado Jack... não fosse o reles detalhe da artimanha que usara. Todavia, à luz de tal circunstância, a loira sabia o que esperar. O fardo deveria ser somente seu, pois cada palavra proferida a respeito de como pusera fim à vida de Jack Sparrow, independente do motivo, seria um passo de Will para longe dela.

Velhos cânticos em italiano, contudo, retiraram-na de seus devaneios. De pé, apreendeu o silêncio dos alojamentos, fazendo daquela alegria ouvida algo como vozes de outro mundo.

— Buongiorno, signorina Swann. – cumprimentou Antonieta, assustando-a ao escorregar preguiçosamente de uma das redes mais próximas. Elizabeth resumiu-se a acenar, muito educada, com a cabeça, inquirindo mentalmente sobre a presença dela ali e não em sua cabine. A tripulação italiana provava-se cada vez mais peculiar para a inglesa. – La mia cabina era occupata.[1]— também a habilidade da capitã em lê-la, desde que subiu a bordo. A mulher ajeitava sua saia e o chapéu, impaciente. – Colazione? – prosseguiu com a voz pesada.

— O que? – ecoou a loira, seguindo-a, apoiando seu exemplo e ajeitando as próprias roupas e o cabelo. Antonieta bufou, apercebendo-se de que falava com uma inglesa. Ingleses em seu navio. A mesma escória que tomara sua cidade. Parando, seus olhos verdes recaíram ameaçadoramente sobre a figura franzina da jovem, que a respondeu com um olhar taciturno, cauteloso. Claro, pensou Mia, não foi aquela inglesa quem lhe fizera mal, logo, não faria sentido atribuir-lhe o pecado de outro ser humano. Aliás, quem era aquela inglesa? Todos eles detinham uma razão para vender suas almas ao diabo, inclusive a madame respondona.

— Desjejum, senhorita. – sua expressão abrandou-se aos poucos, junto ao resto de seu corpo; ela nunca fora especialmente solícita pela manhã. – Devia colocar alguma coisa nesses ossos, se pretende sobreviver a seis meses de trabalho. – advertiu, a voz arranhando em determinado ponto com a melodia italiana tentando encontrar um caminho por entre o anglo-saxão.

— Não sinto fome. – Elizabeth rebateu acompanhando-a escadaria acima, totalmente desinteressada.

— Não se trata de um capricho, aqui. – retrucou Antonieta ao cruzar a entrada da cozinha, onde já se encontravam os outros tripulantes, evitando os olhos de seu velho nêmeses a todo custo, ao passo que caminhava para ocupar seu lugar ao lado de Diana à última mesa do canto direito do andar. A senhorita Swann observou-a, sem entender muito bem o significado de suas palavras. De fato, entendia que durante uma viagem longa como aquela, o valor de um pequeno pedaço de queijo havia de se comparar a ouro puro. No entanto, o tom da Capitã Barbieri assemelhava-se muito a um mau agouro e, enquanto sentava-se ao lado de Barbossa, Elizabeth chegou a se perguntar se, de fato, não o era.

Pintel e Ragetti eram os únicos a conversar, troçando do sotaque dos outros marujos; Gibbs repreendendo-os por fazê-lo. O papagaio de Cotton zanzava sob a mesa junto ao macaco do capitão, que encarou-a por um momento antes de voltar sua atenção para o fundo de seu caneco. Will concedeu-lhe nada mais do que um aceno e a loira o agradeceu internamente por isso. Cedo ou tarde, aquele silêncio seria substituído por uma longa conversa desconfortável envolvendo todos os seus problemas, uma vez que o próprio mestre Turner também possuía fardos que gostaria de manter em sigilo. Tia Dalma sorria abertamente para os marujos da tripulação do Stella. Estes agitavam em suas mesas, já muito despertos pela comida. A cantoria vinha do convés, levando-a a inferir que outro grupo já se encontrava cuidando das atividades dentro da embarcação – qualquer um deles mais satisfeito do que o seu pequeno círculo.

À mesa da capitã, Antonieta dividia-se entre cortar pequenos pedaços de queijo com uma faca a arrancar o miolo de uma metade de pão, comendo-o primeiro antes de focar na massa crocante em si. Ao seu lado, com os joelhos apoiados sobre o banco, Diana gritava com um dos marujos do outro lado da sala, gestos obscenos, aparentemente muito confortáveis a ela, escapando por entre suas mãos e braços. Um súbito momento de silêncio entre eles, então, logo deu lugar a risadas muito altas à medida que se sentavam outra vez, com a capitã a fitá-los desacreditada. A atenção da menina Swann voltou-se para a equidade na distribuição de homens e mulheres a bordo. Detalhe que punha em choque todas as situações que passara dentro de uma nau; mesmo quando não passava de uma menina, cruzando de Londres para Port Royal, Gibbs, ela se lembrava, já receava sua condição feminina – eterno supersticioso.

Entre aqueles homens, porém, não parecia haver espaço para superstições. Ou, Elizabeth refletiu com olhos fixos em Antonieta, sua capitã clareou a inveracidade existente naquele mito em particular. Na opinião da jovem, homens ousavam confiar em Jack Sparrow pois ele sempre parecia saber mais do que todos eles e sempre encontrava maneiras inusitadas, o que ajudava a criar sua lenda, para resolver seus problemas. Homens confiaram em Barbossa devido a sua natureza ameaçadora e indiscutível perícia. O quanto a Capitã Barbieri seria dotada de tais atributos e quais mantinha escondidos apenas consigo, para ter conquistado a lealdade de tantos ao longo de sua carreira?

— Qual o problema? – ressoou a voz da capitã. Seus olhos encontraram os de Elizabeth e a loira percebeu que, embora estivesse falando com a criada de bordo, escolhera permanecer fora de sua língua materna de propósito. Talvez, em gesto altruísta para com seus visitantes. Seus homens conheciam bem o inglês, continuou a observar, visto que suas atenções se voltaram imediatamente para Mia. A mocinha falava ao ouvido de outra tripulante e retraiu-se por um milésimo de segundo ao ser abordada daquela maneira, mas logo reassumiu compostura não condizente com seu nascimento, assim pensava a Swann.

— Apenas comentava com Beatrice o fato de que a senhora não passou a noite em sua cabine, como de costume. – começou Federica, com confiança, trocando olhares com a mulher chamada Beatrice. – Então, apenas... apenas levantei a questão de que alguém passara, já que tentei abrir a porta mais cedo, mas estava trancada. – concluiu analisando as mesas metodicamente, procurando por rostos faltosos. Elizabeth reparou uma troca de olhares significativo entre a segunda imediata, Diana e outro dos homens presentes. Lembrou-se de que ele se apresentara como Nicola no dia anterior, o fogueiro empregado a bordo. Tais olhares logo se converteram em risadas maliciosas, ao que a capitã respondeu com um revirar cansado de olhos, batendo com a ponta da faca que viera usando para cortar queijo contra a madeira da mesa.

— O Capitão Barbieri e sua senhora estão na minha cabine. – explicou para a menina, retesando seus ombros. A resposta da tripulação para o fato recém descoberto divertiu e ao mesmo tempo chocou a senhorita Swann. Em extremo uníssono, eles começaram a bater com os canecos sobre as mesas, proferindo urros empolgados. Ao seu lado, o próprio Barbossa não conseguia reprimir um riso baixinho, contudo, a loira apercebeu-se de que este direcionava-se mais a reação de Barbieri do que a possibilidade de dividir as opiniões daqueles homens. Antonieta fechara um de seus punhos ao mesmo tempo em que soltava uma rápida gargalhada nervosa, recobrando o controle para tornar a interrogar a criança. – E qual o problema, Federica? – insistiu. Federica avermelhou-se violentamente, cruzando os braços ao passo que mirava a capitã com obstinação.

— A pobre scimmietta[2]não quer acabar traumatizada, isso que é. – observou Beatrice, bagunçando carinhosamente os cabelos da garota, que descruzou os braços irritada. Os homens riram sem jeito. Antonieta assentiu, saindo para o convés. Fez-se silêncio por um minuto e os tripulantes continuaram a comer, até algumas vozes alteradas serem ouvidas, levando Ilaria, Tristan, Carlo e mais dois rapazes correrem, também, para cima.

Gritos a respeito de uma manta e... um monograma?... além de comentários mordazes que cessaram ao erguer de voz estridente insondável de Sofia. Mais silêncio. Passos apressados trouxeram as cinco cabeças de volta para seus lugares, como se dali nunca houvessem saído e, por fim, Alberto e Sofia, mas nenhum sinal de Antonieta.

— Pode subir agora, Federica. – anunciou Alberto, ao lado da esposa. Recebidos com tapinhas nas costas de seus companheiros. A menina passou pelas mesas com grande dignidade, mirando Elizabeth pelo canto dos olhos ao cruzar caminho com ela. A jovem percebeu que a menina, aliás, assumia uma postura bastante satisfeita consigo mesma. O grande escândalo do dia sendo um triunfo seu. Tamanha liberalidade, pensou, denotava a libertinagem inerente àquele bando ou ao carinho de sua intimidade? A Swann não se decidia, mas em nenhum momento o sorriso trazido por tal desenlace morreu em seus lábios.

— Eles facilitam para que você goste deles. – ela ouviu Barbossa murmurar ao seu lado. – Mas nunca se esqueça de que toda a amizade, com o mesmo fervor e rapidez, facilmente se converte em animosidade. – os olhos de Elizabeth mantinham-se atados à tripulação. Sofia conversava com o filho e o marido, ao mesmo tempo em que se defendia das investidas de Diana. Os homens já se levantavam, entregando sua louça para a filha do cozinheiro com sorrisos corteses de agradecimento. Subiam as escadas no mesmo passo alegre com o qual haviam regido seu desjejum e, logo, a cantoria recomeçou. Barbossa bufou em desdém, deixando-a perguntando-se se ele não generalizava uma situação a partir de um erro que fora somente seu.

— Não entre eles, eu acho que não. – discordou brandamente. Ele a analisou como sempre fazia, as sobrancelhas arqueadas em descrédito ao mesmo tempo que seus olhos brilhavam, esperando que ela aprendesse algo novo sobre aquele mundo a cada instante. – Talvez você não tenha tido sorte. – acrescentou ela, arrependendo-se logo que as palavras lhe escaparam. O brilho nos olhos dele se transfigurou imediatamente em penumbra e ele emitiu outro ruído desdenhoso, mas ainda se dando ao trabalho de responder:

— Talvez. – e saiu sem olhá-la uma segunda vez.

℘℘℘

— Mas o que é isso, fratella? – Alberto exclamou ao passo que amarrava o fecho de sua calça. O rosto, embora amassado e carregado pelo sono, brilhava com o mais puro dos bons humores.. – A ideia, aliás, foi sua. – ponderou vestindo a camisa. Antonieta sorriu, sabendo que lhe faltariam argumentos para repreendê-lo. De fato, não era zanga o que sentia, ainda que gritasse, mas apenas um desejo absurdo de ficar só dentro de sua cabine e, para tal, precisava expulsá-los o quanto antes.

— Mal acostumou-se assim, afinal. – eram as primeiras palavras que Sofia lhe dirigia desde a noite em que decidiram sair de Tortuga. – Sempre oferecendo mais do que está realmente disposta a entregar. – o humor negro da senhora Barbieri angariou renome anos adentro, graças a facilidade com a qual apontava pequenas verdades entre os pequenos versos.

Ela prometeu que os protegeria. A mesma palavra de Allegra. Não sentia sua honra macular-se, contudo, ao escolher fugir para lutar outro dia. Independentemente do que Sofia dissesse para machucá-la, sabendo que Mia auferia a ela a posição de consciência, sua convicção de que deixar Porto Venere fora o certo não se abalaria tão facilmente. Com que moral, se houvesse escolhido ficar, encararia os sobreviventes àquele cerco? E ainda quando voltasse... com que coragem aceitaria a justiça pelos rostos dos parentes de pessoas que sabia ter matado?

— Federica. – chamou de sua mesa. A menina, alta para suas reles dez primaveras, mantinha em seus cabelos o tom louro acastanhado que Mia conheceu um dia, antes da exposição ao sol começar a acobreá-los. Imaginava quando tal mudança chegaria para a pequena scimmietta. O bronzeado, por outro lado, já era muito aparente e deixava sua pele num tom amendoado com o qual a capitã poderia apenas sonhar. – Você se despediu dos seus pais? – grandes olhos encararam-na da estante, de onde ela retirava o pó dos livros. Olhos que guardavam para si todas as perguntas e toda a curiosidade infantil imaginável.

— Eles estavam conosco no Cane di Bronzo. – respondeu a pequena, sem se desviar de sua tarefa. – Papà não queria me deixar partir, mas mamma insistiu que eu estaria melhor fora da cidade, quando zarpássemos. – Antonieta sorriu de lado.

— Eu nunca soube o que fiz para merecer a confiança da sua mãe. – murmurou, correndo a mão pela nuca.

— Eu sempre voltei para casa. – Federica tampouco encarou-a, mas era possível ouvir o sorriso em sua voz ao respondê-la. A capitã assentiu, as pontas dos dedos batendo contra a mesa, displicentes. Embora acreditasse ser aquele um mérito da própria menina junto ao treinamento de Olívia, tal comentário reiterava a responsabilidade sobre seus ombros e a importância de suas promessas. – Para o convés agora. – disse se preparando para sair.

— Terminou o livro? – inquiriu novamente a capitã, fixando os olhos às costas da menina.

— Ainda não. – respondeu a jovem fingindo impaciência, virando-se um pouco para sorrir na direção dela antes de fechar a porta atrás de si.

Antonieta riu baixinho, suas mãos indo de encontro à nuca mais uma vez. Mal-acostumada de fato, pensou, sentindo a tensão em seus ombros. O luxo de adaptar-se se tornou algo de que somente poderia se gabar em nome de sua eu passada, quando aproximava-se mais dos trinta do que dos cinquenta. Não passava de uma gata gorda e mimada agora, seguia pensativa, caso uma única noite em uma rede ao invés de sua cama fosse capaz de desestabilizar seu corpo. Pior, as melhores mãos para livrá-la de sua miséria atrelavam-se ao corpo de uma das pessoas que, segundo Ilaria, certamente a odiavam naquele momento.

Dentre os nomes que compunham a lista de aliados à família Barbieri, alguns arrastavam suas âncoras em apoio a deles desde que o primeiro navio começara a ser construído. Estes pertenciam ao pequeno círculo principal dentro de cada uma das tripulações, formando o que cada capitão do clã da Ligúria passaria a chamar de família. Os Alighieri, embora suas posições em cada embarcação variassem, destacavam-se pela personalidade irascível que seus membros dividiam. Certamente, anos no mar facilitavam muito mais a um indivíduo que explorasse suas peculiaridades, por vezes criando-as ao longo do tempo ou enaltecendo-as ao ver-se forçado a cercear espaço com um grupo maior de pessoas. Não obstante, sempre algo delimitaria que aquele não se tratava de simples marujo com excessivo senso de expressão, mas sim de um Alighieri.

No caso de Beatrice, a atitude taciturna, mas acertada e, às vezes, imbuída de uma melancolia poética tornava a arte de lhe pedir perdão muito mais dolorosa. A assistente da mestra de armas resguardava-se muito bem do direito de não esquecer uma afronta e, apesar de Antonieta jamais tê-la visto reutilizar antigas rusgas como argumentos para uma briga, já a vira mudar completamente a respeito das mesmas...

— Liv. – chamou ao avistá-la no deck. Olívia entregou a corda que tinha em mãos para Ragetti e seguiu para a cabine da capitã, o semblante carregado de interesse. – Sabe onde Beatrice está? – perguntou prontamente. A mestra de armas sorriu de lado.

— No alto da gávea, substituindo Al e contra a minha vontade. – disse cruzando os braços, chutando o ar rente ao chão. – Deus sabe o que ela poderia fazer... sozinha lá em cima... por que pergunta? – inquiriu de repente.

— Preciso que ela dê um jeito nos meus ombros. – respondeu a capitã, após ter limpado a garganta, sem-graça. Os olhos da Tiziana se abriram mais, lívidos e ela sorriu para o desconforto da outra.

— Ela anda armada, você sabe. – rebateu risonha e Antonieta não resistiu à tentação de acompanhá-la, embora muito mais amarga, o que não escapou à percepção da morena. Olívia chutou o ar mais uma vez, afundando suas mãos dentro dos bolsos da calça puída e a própria Mia não sabia para onde olhar. – Sei o que realmente quer com ela. Não é algo ao que seja contra. Entendo, aliás...

— Ilaria falou com você? – murmurou Mia, de braços cruzados.

— Ei, você não é a única que se mantém informada por aqui. – desdenhou Olívia, mas não estava, em absoluto, irritada. – Eu treino esse pessoal; preciso saber quem está contra quem para evitar que simulações se transformem em combates de verdade. E, bem, eu seria muito burra se não soubesse que, embora você seja a capitã, querida, são os cozinheiros quem têm a tripulação nas mãos. Poderiam nos envenenar e ninguém ficaria sabendo, se quisessem. – explicou dando de ombros.

— Isso soa muito reconfortante. – desdenhou Antonieta arqueando as sobrancelhas, Olívia riu, tornando a dar de ombros.

— Mas, apesar do que os olhos do navio possam pensar, posso lhe dar a minha opinião? – perguntou gentilmente. A capitã assentiu, assumindo uma posição mais séria. – Nada está resolvido. – disse simplesmente. – Não sabemos ao que essa empreitada com a corte da irmandade vai nos levar, mas confiamos no seu julgamento, Mia, apesar de tudo, porque já nos salvou de enrascadas piores... aquela noite inclusa na opinião de alguns, a minha pelo menos...

— Eu nem a agradeci por ter chamado Vincenzo... – interpôs Antonieta, fazendo menção de apertar seu braço carinhosamente.

— É... Beatrice também não me ama muito por isso... mas, de qualquer forma, o que eu quero dizer é para não tomar nossos votos como uma vitória. Tampouco o Marco aceitar o seu suborno ou o fato de que ninguém está falando a respeito...

— Eu sei, Liv. – falou com um suspiro melancólico. – O silêncio não é perdão. O silêncio não é consentimento. O silêncio não tem valor algum. – recitou solenemente. Aquelas eram palavras de seu pai e também do pai de Olívia, que assentiu em meio a um sorriso nostálgico ao ouvi-las. – Sua sugestão?

— Faça as pazes com Beatrice, – começou a morena, sabendo que ela não deixaria de falar com a loira ainda naquele dia, – então, você vai precisar fazer as pazes com a tripulação. Mas antes, faça as pazes consigo mesma. Boa sorte. – concluiu, sua vez de apertar o braço da outra carinhosamente antes de sair.

O sol ainda não se achava a pino, mas o brilho forte tornou a figura de Beatrice ao cesto da gávea nada mais do que um borrão para a capitã. À medida que fazia seu caminho pelas barras de apoio atreladas ao mastro principal, contudo, o embaçar convertia-se na forma cabisbaixa de sua amiga. Tocando o fundo da caixa com os pés, o olhar de Antonieta acompanhou o seu. Ali, o vento era mais forte, bem como a sensação rítmica da nau e o mar cercava-as de todos os lados, iluminado pela luz amarela latente provida pelo sol.

— Sempre que digo a Al que invejo a vista que ela tem, ela me lembra de quanto enjoo sente ao fim do dia. – comentou Mia, aproximando-se de Beatrice, que não a respondeu. – Eu sinto muito, Bea... – em momentos como aquele convinha muito mais afastar-se dos subterfúgios e seguir direto à questão, especialmente com um Alighieri. As mãos da loira se fecharam em punhos, ao passo que seu rosto se virava para longe do alcance da capitã, como se tentasse fugir de suas palavras. Poderia culpá-la? Mia, mais do que ninguém, sabia o quão pouco elas significavam. – O navio explodiu, mas nós não ficamos para saber... se eles realmente... ainda há uma chance, Beatrice. – insistiu esperançosa.

— Imagino que estas sejam as palavras que você vem repetindo para si mesma, a fim de amenizar sua culpa? Não quer dizer que farão sentido pra mim, Antonieta. – retrucou Bea com a voz fria, apertando mais os punhos contra a madeira. Ao menos estava falando, pensou Mia. Vê-la alquebrada daquele modo a arremessava de volta para uma manhã amaldiçoada, quando as folhas começaram a cair nas ruínas da catedral... e ventava muito... o Sogno D’Oro estava com o dobro da velocidade, ansioso para aportar em sua casa. Daquela vez, seu capitão não desceria com ele. Antonieta lembrava-se do que sentira... avistou o navio de uma ruela alta no centro da cidade, fazia compras e não via motivos para pressa. Papai a estaria esperando. Todavia, ao adentrar o Cane di Bronzo, percebeu a movimentação estranha, olhos acompanhando-a com tristeza até que um deles teve a coragem de lhe desejar seus pêsames...

— Uma tormenta. – murmurou Mia. – Eles disseram que foi a tempestade... ela ia conseguir virar o navio, mas ele a cortou... o impacto, no entanto, fez com que perdesse o equilíbrio e batesse contra a própria espada... minha mãe o chamou de bastardo imbecil por horas... por que usar a bainha em meio a uma maldita tempestade? Ela dizia... – àquela altura, Beatrice olhava para frente, como se imaginasse a cena de onde estavam. Antonieta certamente o fizera quando subiu a bordo do navio de seu pai dias depois, encontrando resquícios de sangue no tombadilho. – O mar não concedeu nenhuma chance a ele... e cada lágrima que escorria pelo rosto da minha mãe me fazia querer matar cada um daqueles homens... eu nunca vira minha mãe chorar... seu pai era um deles. – Vincenzo Alighieri. Beatrice se virou com os olhos ardendo pelas lágrimas que continham e pela raiva surpresa...

— Ousa...

— Só estou dizendo que seu pai sempre teve uma sorte filha da puta. Existe sim uma chance, Bea e eu não digo isso para amenizar merda nenhuma, mas porque eu conheço a mente dele e as que estavam com ele! Porque você prefere acreditar no pior não é problema... – ela esperava o tapa. Se qualquer pessoa ousasse falar com a jovem Antonieta daquela maneira durante seu período de luto, ela teria feito mais do que isso. Ela teria atirado. Deveras, avistou a pistola presa ao cinto da loira, mas Beatrice preferira apenas marcar o rosto de sua capitã com seus dedos... muito mais elegante.

— Ao menos o mar lhe devolveu o corpo. – disse a Alighieri entre dentes. Abruptamente, Antonieta segurou os ombros dela com força.

— Ele não está morto. – falou frisando cada palavra, mirando fundo nos olhos dela. Beatrice fraquejou por um milésimo de segundo, querendo acreditar, mas logo a Barbieri sentiu seus músculos se enrijecendo mais uma vez sob suas mãos. Contra seus melhores instintos no que concernia a mulher à sua frente, Mia jogou-se contra ela, abraçando-a com força, recebendo investidas para que se afastasse. No entanto, ao longo de sua vida, Antonieta já havia conseguido acalmar cavalos muito mais selvagens do que aquele. – Ele não está morto. – murmurou entre os nós em seus cabelos.

Anos antes, ela gostaria que alguém houvesse lhe sussurrado aquelas mesmas palavras. Contra tal possibilidade, contudo, o mar havia, de fato, lhe devolvido o corpo. Em ambos os casos, o mar sempre a tratara com indulgência, permitindo que vislumbrasse o semblante de seus progenitores uma última vez. Cícero Barbieri, o homem com o riso trovejante de um deus dos mares, morrera com os olhos estancados de choque... mas Antonieta poderia jurar que havia uma leve curva em seus lábios, como se tivesse percebido a ironia de sua morte. Allegra Barbieri, a mulher com a cor do mar e o brilho das estrelas nos olhos, despediu-se dos filhos com um sorriso insubordinado. Pronta para desafiar a morte do outro lado. Não... ela não repetia aquelas palavras a si mesma para livrar-se da culpa, mas sim porque o luto nunca lhe ensinou a ser realista.

Se existia uma chance, então, não era ainda um adeus; e ela odiava despedidas. Quando se desvencilhou de Beatrice, percebeu que ela havia chorado. Delicadamente, Antonieta passou a ponta dos dedos por baixo dos olhos amendoados, limpando-os. A loira assentiu, erguendo um sorriso nos lábios da capitã.

— Preciso que você dê um jeito nos meus ombros. – disse dando as costas para ela, que deixou uma risada baixa escapar, batendo na nuca dela antes de começar a massageá-la.

— Puta maldita. – disse, ao que Antonieta gemeu alto de alívio em resposta. Afinal, o silêncio não tinha valor algum.

[1] Minha cabine foi ocupada.

[2] Macaquinha

Notas finais
Olá novamente, meus amores! Sinceramente, eu não acreditei que este capítulo algum dia chegaria até vocês porque... cara... para eu conseguir escrevê-lo foi um martírio TÃO GIGANTE! Este episódio ficou conhecido como: o capítulo amaldiçoado pelo Temer; sério! Foi um processo muito doloroso para mim encontrar o tom dele, mas finalmente obtivemos um resultado e... sinceramente? O capeta acabou se tornando um dos meus momentos favoritos. Ainda assim, possuo uma enorme preocupação com o que vocês irão entender deste capítulo, então, tentarei explicar-me... NÃO deve ser inferido que Antonieta não se importa ou faz pouco caso dos sentimentos de Beatrice com a possível morte de seu pai. Em meio aos seus 40 anos no tempo da fic, e Cícero tendo falecido em meio aos seus vinte quatro/vinte cinco anos, embora eu não tenha escrito, vocês devem saber que Mia não fala muito a respeito destas mortes - Cícero e Allegra - com os membros da tripulação, além de Berto, Sofia e Diana... Afinal, apesar de todos se considerarem família ali, existem certos assuntos que nós preferimos guardar para um pequeno grupinho mais seleto, não é mesmo? Logo, isto aufere, na minha opinião, peso maior ao momento... Enquanto capitã, ela precisa conseguir que Beatrice abandone um pouco da sua dúvida a fim de garantir sua presença em batalha futura. Enquanto amiga, ela entende, pois já esteve no lugar dela e na sua visão, se permitindo um pouco do que não foi o caso no passado, ela prefere crer no melhor do que adiantar a dor. Uma indulgência... espero que não tenha soado errado. Em todo caso, espero que gostem!!! Um beijoo no coração de todos! Nos vemos nos comentários!!