Jack a enxergava por si mesmo agora. Despida de qualquer fantasia de Barbossa, ou mesmo com alguma luz advinda de seus olhos, que a tornaram tão atraente para ele. Antonieta Barbieri tornar-se-ia, quiçá, uma dentre as outras mulheres que conheceu em sua juventude capazes de estimular sua desconfiança e respeito. Menos que Dona Ching, mas tão próxima de Elizabeth Swann que imaginou, caso ousasse revelar-lhe tal sentimento, não seria uma ofensa para a italianinha. Definitivamente superior a Hector, porém; e ainda era um mistério à andorinha o que os aproximara. Embora houvesse ambição em ambos, bem como o ego aliciado pelo luxo. Ela o lia de maneira diferente, contudo; mais assertiva, como Diana. Apesar de suas palavras serem julgamentos, ao passo que o furacão Murphy apenas compreendia.

— Obrigada, Jack. – disse naquela manhã, enquanto o sol cruzava acima do horizonte. – Pela cabine. – acrescentou frente a sua confusão, sorrindo tenramente.

Ele apenas assentiu, observando-a se afastar para a escadaria do tombadilho, onde sentou-se sobre o degrau mais alto. O reconhecimento que jamais deveria esperar de sua capitã. Antonieta permaneceu escondida pelo correr da manhã. Não com Barbossa, pois o velho traiçoeiro estendia-se por todo o deck. Ditou o curso para a Baía Naufrágio, encarando a andorinha por um momento. Jack desviou-se dele. De fato, ainda cria que se a corte era sua única salvação, então eles não detinham chance nenhuma contra Beckett. Com sorte, no entanto, logo teriam uma alternativa muito melhor; Jones morto e a armada britânica despida de seu maior trunfo. “Mais de uma maneira de liberdade.”, a italianinha dissera, “Talvez para ela; não pra mim.” E a razão era clara com Diana sentada ao último degrau da escada do tombadilho, acenando para que sua capitã a encontrasse, quando o sol já batia à pino sobre suas cabeças e resolveu juntar-se a eles. Exatamente como a deixara na noite anterior.

— Bom dia. – cumprimentou a segunda imediata, vendo-a sentar-se duramente consigo. Seus olhos correram a tez maltratada pelo sol, à falta de seu estimado chapéu, e prenderam-se sobre os olhos fundos e a boca ressecada. Antonieta se deixava corroer como uma antiguidade.

— Como você está? – ela lhe devolveu. Diana suspirou.

— Suponho que como você. – disse mansamente. – Embora eu sei que discorda. – acrescentou em seguida. Antonieta não respondeu ou virou-se em sua direção. – Só não consigo entender...

Foi como conseguiu que a encarasse. Não obstante, o que quer que sua irmã não fosse capaz de compreender, Mia não obteve resposta. Diana limitou-se a fitar o mar, como se estivesse ali. A Barbieri seguiu seu exemplo. Contudo, o fascínio brando de outrora dava lugar para o ressentimento há muito adormecido nela. Àquela altura no mar caribenho, a água assumira a tonalidade mais cristalina de azul e refletia os raios de sol como se ouro emanasse às ondas; e o preço foram as cabeças de seus pais e seu irmão.

— Quero ir para casa. – murmurou, alto o bastante para que Diana a ouvisse, concordando silenciosamente, sem que a outra se desse conta.

— Ainda temos uma casa? – perguntou sem malícia. Ambas se entreolharam, uma encontrando sua dor aos olhos da outra, e se estivera anestesiada por ela até então, a visão sombria de algo a enegrecer o azul dos olhos de sua irmã acenderam parte de sua cálida chama.

— Finché c'è aria nei miei polmoni, mi assicurerò di farlo[1]. – prometeu, uma fagulha iluminando seus olhos. Diana sorriu e permaneceram em silêncio. – Eu odiava bruschettas e Matteo sempre as fazia quando alguém estava de luto na cidade, alguma coisa relacionada ao manjericão... Eu as odiava até comer uma travessa inteira após a morte de papà. – tornou a falar, rindo pelo nariz. – E de novo com mamma... acho que terei de pedir a ele que faça quando voltarmos.

Diana não respondeu, desviando o olhar mais uma vez para as águas.

— Eu sempre preferi as pizzas. – observou Jack, escorado próximo às escadas. Se as espionara, não saberiam dizer, embora Antonieta considerá-lo-ia em crédito com ela, pela conversa que entreouvira na noite anterior. – Ainda está magoada comigo? – inquiriu sorrindo maliciosamente.

— O senhor é o menor dos meus problemas. – respondeu dando de ombros. O sorriso de Jack se abriu mais um pouco.

— Fiquem atentos e de olhos bem abertos! – alertou-os Gibbs, passando pelo deck. Diana e Mia se ergueram prontamente. O destino, a Ilha Naufrágio, era visto ao longe. Grandiosa, maior do que recordavam, refletindo esverdeada sobre a água. A tripulação logo se juntou a elas, dividindo um pouco do fascínio de seus olhos. – Não é à toa que se chama Ilha Naufrágio, onde ficam a Baía Naufrágio e a cidade naufrágio. – acrescentou com significado.

Jack aproximou-se do parapeito, como se pudesse enxergar as várias embarcações afundadas sob o Pérola.

— Piratas são considerados inteligentes, mas nós temos tão pouca imaginação para dar nomes. – comentou ao lado de Gibbs.

— É... – concordou o imediato.

— Uma vez viajamos com um velho que perdeu os dois braços e parte do olho. – a andorinha lembrou-se, Antonieta e Diana os ouviam.

— Como o chamavam? – indagou Gibbs.

— Larry. – Jack elucidou simplesmente, para frustração do outro. Diana riu pelo nariz, ao passo que a atenção de Mia voltou-se para a súbita aparição de Tia Dalma. Correndo para o tombadilho, onde Barbossa admirava a mesma vista que sua tripulação. A Barbieri tocou o ombro de Diana e dirigiu-se mais uma vez para a escadaria, a fim de escutá-los.

— Barbossa! – a bruxa chamou. – Por que não ordena os homens às armas? Toda a corte está reunida e eles farão como quiser! – sua voz estava descompassada, ansiosa.

— O que eu quero é não parecer um tolo, e o que você sugere é exatamente isso. – rebateu com escárnio. Mia fechou os olhos com um suspiro exasperado.

— Se não deseja mais o meu favor, Barbossa, então talvez eu deva chamar outro capitão à minha causa. – Tia Dalma ponderou, sedutora aos ouvidos de um homem, mas ameaçadora aos ouvidos da italiana. – O sagaz Jack não recusaria a promessa de sobreviver à tempestade, creio eu.

Antonieta subiu mais um degrau, erguendo-se um pouco para vê-los.

— Eu não quebro uma promessa depois que eu faço, — afirmou, revirando os olhos de Mia. – acertamos os fins apenas; os meios são decisão minha. – ele disse aproximando sua mão do rosto dela.

A feiticeira, porém, foi mais rápida, agarrando-o pelo pulso.

— Cuidado, Barbossa! Não se esqueça que foi pelo meu poder que você retornou dos mortos. – ameaçou-o. Ao longe, as feições de Mia convergiram num esgar de horror, conforme a mão do capitão era corroída aos ossos, morrendo. – E o que significa... falhar comigo. – concluiu soltando-o. Instantaneamente, sua mão tornou o aspecto normal; e Barbossa agarrou a feiticeira com a mesma violência que ela despendera contra si.

— Não se esqueça porquê teve que me trazer. – alertou a ela; era o mesmo homem que lhe concedeu a cicatriz que carregava em seu antebraço. – Porque eu não pude ter deixado Jack ter o merecido destino ou a razão de não ter oferecido a Sao Feng um segundo sorriso em sua garganta para combinar com o que carregava em seus lábios. Foram precisos nove lordes piratas para subjugá-la, Calipso. E serão precisos não menos que nove para libertá-la.

Pirata e deusa do mar se entreolharam em desafiante ódio.

— Senhores Pintel e Ragetti. – chamou o primeiro, ao que ambos se materializaram ao seu lado. – Levem a esposa do peixe para a cela. – ordenou. Antonieta viu apenas o relance da fúria de Calipso, recusando o tratamento para uma prisioneira qualquer; e acompanhou seus passos conforme descia a escotilha até o andar inferior com imponência.

— Vai pagar por isso. – a Barbieri advertiu-o, indo ao seu encontro. Barbossa remexeu a mão, parecendo inabalado por ela. Porém, Antonieta o conhecia melhor. – Ainda confia nela? – pegou-se repetindo. Muito se falara em confiança naqueles últimos meses. Confiança entre eles; entre a tripulação; e nunca chegaram a nenhuma decisão, além dela admitindo que confiava – o suficiente para caírem juntos nos braços do fim do mundo. Talvez o fim dos tempos. Para os piratas. Para ela, caso não sobrevivesse àquela batalha. Para ele, caso Calipso não cumprisse com sua palavra. De fato, muito se falava em confiança e, afinal, nenhum deles confiava.

Hector não lhe respondeu ou dignou um olhar em sua direção.

— O que a impede de aproveitar a oportunidade para se libertar e nada mais? – insistiu, também inabalada por ele. – Você me disse; me assegurou; de que talvez eles nem precisassem lutar quando eu duvidei das suas aspirações...

— O que, de fato, a preocupa, Antonieta? – interrompeu-a, abruptamente. Ela o encarou, atônita, com a respiração pesada e os lábios entreabertos. Assim permaneceu por tempo o suficiente a fim de resguardar quaisquer emoções que pudesse ter. Suspirando, por fim, com um sorriso entristecido.

— Anos aprisionada, uma prisão que nossos antepassados impuseram a ela. O que a impede de se voltar contra nós, quando estiver terminado...? – uma última frase ficou presa em sua garganta, mas ela se forçou a continuar. – E se ela decidir que a sua vida já serviu ao seu propósito e acabar com ela?

Barbossa piscou, um lampejo de realidade atingindo-o a tempo de vislumbrar Diana observando-os a poucos passos. Ele não esperava aquela preocupação advinda dela. E, no entanto, era um conforto que não mais desejasse sua morte?

— Você reivindicou o direito sobre a minha segunda morte, lembra-se?

Antonieta riu, soltando o ar pelo nariz.

— Abra espaço, senhor Cotton. – Jack interrompeu-os. O pequeno grupo ao tombadilho então compreendeu que estavam aproximando-se da costa finalmente. Atingiriam a entrada, segundo os cálculos de ambos os capitães, ao pôr do sol. – Águas perigosas à frente, e podem se provar ardilosas para um navegador desavisado.

Cotton não discutiu. Gibbs subiu logo em seguida, assumindo posto ao lado de seu capitão. Antonieta olhou de soslaio para Barbossa e Diana, chamando-a para que os deixassem. Hector observou-as sem nenhuma outra palavra.

O sol se pôs ao encontro do navio com a garganta que deveria atravessar. O túnel era relativamente íngreme, mas especialmente escuro.

— Fundo o bastante para que ela atravesse. Olhando por fora, eu jamais acreditaria. – Gibbs confidenciou a Jack enquanto ele se concentrava em passá-los pelas paredes de pedra.

— Se soubesse quantos morreram para torna-lo fundo o bastante, acreditaria. – respondeu o capitão.

Pintel e Ragetti mantinham duas tochas acesas junto ao mastro da proa, com outros dois homens ajudando-os à bombordo e estibordo. Tensos em seus corações, mas confiantes de que Sparrow talvez houvesse voltado dos mortos para mais do que servir aos planos de Barbossa e a corte da irmandade. O navio seguiu sempre ao norte, uma luz também a guiá-los ao fim do túnel. Enfim tendo-o desbravado, viram-na, a cidade naufrágio. Centrada em meio ao oceano que se curvava a ela; construída a partir dos destroços de velhas embarcações. Nunca, Antonieta pensou, tantos navios estiveram reunidos juntos aos seus portões.

E dentre eles, seus olhos logo a encontraram, estava a Stella De La Sera.

[1] Enquanto houver ar em meus pulmões, me certificarei de que sim.

Notas finais
Eu deveria tomar vergonha na cara e postar com uma frequência melhor? Deveria. A verdade é que estamos oficialmente nos aproximando do final da fanfic e o sentimento: nossa, quero acabar logo, começar novos projetos/EU NÃO QUERO ME DESPEDIR DESSA TURMINHA SOCORRO MENINO JESUS! - estão à flor da pele. Perdoem-me. Espero que gostem deste "retorno". Nos vemos nos reviews! Beijos, Ana