Lembranças de Porto Venere
24 Capítulo 24
Notas iniciais
O infinito já havia sido uma possibilidade. Durante anos, Diana assistiu Antonieta aumentar sua coleção de mapas como o capricho da dama que precisa de um novo par de sapatos a cada estação. Ocorreu-lhe, apenas tarde demais, como tal espécime de controle poderia ser de qualquer importância a alguém tão desumanamente selvagem quanto Antonieta Barbieri. Ela não previa as marés, seus lucros, sequer a lealdade e disposição daqueles que amava; mas sempre saberia por onde seus pés passariam e quantas noites a separam da terra. Portanto, dizia enxergar toda a vastidão do mundo. Diana nunca teve um mapa, e sendo assim, ainda acreditava no infinito. O que mais manteria da criança escondida junto à carga, buscando vida nova no desconhecido?
— Sente o cheiro? – sussurrou de soslaio para a Barbieri, ambas prostradas com a proa ouvindo o movimento no barco. A peregrinação do furacão Murphy, antes de se decidir por Porto Venere, a levara para várias paisagens, mas aquela seria sua primeira vez alcançando os limites de todas as cartas. Mia inspirou profundamente, fechando seus olhos à medida que suas narinas eram varridas por um odor cristalino e vazio.
— Gelo. – disse em meio a um suspiro, abrindo os olhos, branda, correndo-os pelos arredores – Diana sabia – em busca do reconhecimento de alguma parcela do conhecimento que já haviam deixado para trás. À sua frente, restaria apenas aquilo que as cartas de Sao Feng revelavam.
Na ausência de seu chapéu, Antonieta removeu também o pente, mantendo-o a salvo em um de seus bolsos internos do colete, liberando a cascata amendoada e desgrenhada pela água, a qual vinha tentando pentear com os dedos desde a manhã seguinte de seu naufrágio, sem sucesso graças ao vento. Soou errado para Elizabeth, desde que o fizera, vê-la tão informal entre os homens do Pérola. Pensou oferecer-se para trançá-lo em algo mais elaborado, conforme recordação de alguns trabalhos de suas criadas, a fim de devolver-lhe a dignidade a qual se familiarizara, contudo, o próprio desconforto de Mia levou-a a perceber que o assunto seria deveras ofensivo e preferiu acostumar-se a nova moldura, menos régia, agora assentada às feições da mulher.
Sentada ao lado de Will, observava Elizabeth do tombadilho, a capitã colocou-se a desvendar as variadas voltas nas quais se desdobravam os círculos ao centro das cartas de navegação. Barbossa atinha-se a conversa entre eles, ajudados por Tai Huang que, por sua vez, aparentava um conhecimento mínimo sobre a herança milenar da família de seu mestre.
— É fascinante... – admitiu Mia, ajustando uma das voltas para que formasse em um dos continentes o desenho de uma das américas. – Não segue o sistema geográfico dos outros cartógrafos, mas todos os meridianos estão aqui e é possível encontrar todos os caminhos presentes em mapas modernos... mas como ter certeza? – indagou para Huang, seus olhos brilhando de antecipação.
— O mestre disse, destino e sorte. – respondeu ele.
— Sorte? – repetiu Antonieta, estalando a língua em desprezo. – Nenhum código. Sorte. – continuou, passando-o totalmente para as mãos de Will, indo até Barbossa. O Lorde do Mar Cáspio acompanhou seu passo militar para o tombadilho, aprumada ao seu lado de costas para o resto da tripulação. – Le nostre vite dipendono da uma mappa che usa la fortuna come criterio per fornire informazioni?[1]— murmurou batendo com a sola do pé sobre a madeira.
— Conoscevi le storie su questa mappa.[2]— retrucou Barbossa silenciosamente assentindo aquela discussão que apenas Diana compreenderia.
— Sì, le uniche mappe per avvolgere la tua preziosità soprannaturale nel regno dei mortali. – assentiu à contragosto, cruzando os braços e virando-se para encará-lo, indignada. – Tuttavia, mi sembrava che saremmo stati avviluppati in enigmi all'interno degli enigmi; non è fortunato[3]. – desabafou suas frustrações, cedendo seus olhos para a visão de Turner e Huang ainda discutindo. – Diga-me que sabe o que está fazendo.
— Aquela confiança que discutimos, Antonieta, viria a calhar agora. – Hector ponderou com escárnio.
— Então, quando chegarmos lá, você saberá localizar Sparrow. – ela prosseguiu ignorando a troça em sua voz ou a ameaça de sua irritação no azul que quase não se via em seus olhos. – Você saberá usar as cartas para nos trazer de volta. Você consegue lê-las. – os homens se mexiam, fingindo ignorá-los, mas Gibbs, Diana e Elizabeth observavam abertamente, conhecedoras o bastante para deduzir o que viria em seguida, caso Barbossa não correspondesse as expectativas daquela mulher de cabelos despenteados que recobrava toda a austeridade pretérita.
O velho pirata guardou silêncio, taciturno. Sabia o suficiente para guiá-los até o outro mundo e definitivamente encontrariam Jack; Davy Jones nunca abrira mão daquilo que conseguiu; porém, o retorno da terra dos mortos, mesmo para ele, ainda era um assunto delicado e Antonieta, àquela altura, tendo afirmado em diferentes ocasiões entender seu fardo, já deveria estar aquém de imputar a terceiros suas próprias limitações existenciais com o sobrenatural. Ela não sabia lê-lo e por orgulho, talvez, não aprendesse até o fim da viagem. Logo, preferia mirá-lo cética e impaciente; até afastar-se junto aos primeiros flocos de neve.
Diana sorriu de lado, observando o céu se fechar em nuvens densas, liberando a chuva diferenciada sobre o barco; observando Antonieta se afastar para a proa, arqueando as costas. A inquebrável Barbieri odiava a neve que estagnava seus navios junto ao porto, fechando-os em suas casas contra noites de tempestade. Conforme adentravam pelas geleiras, contudo, o sol se punha em tons de rosa que teriam encantado Nicola – entusiasta pela vasta coloração das chamas de seus fogos e pelas cores de seu manto superior, assim se referia ao céu – e a água jazia tão plácida sobre o casco; cruzá-la se assemelhou ao corte lento de uma faca, mas em troca do vermelho pungente, obter-se-ia a profundidade de um azul nunca antes contemplado. Apenas... não poderia dizer que valia a pena morrer para assistir a tamanho espetáculo não navegado.
— Ninguém disse nada sobre frio. – comentou Pintel, tremendo, com Ragetti e o pequeno Jack a seu lado, ambos trêmulos. A bela paisagem logo perdeu a virtude em troca do fardo de suas baixas temperaturas.
— Tenho certeza de que há uma boa razão para o nosso sofrimento. – rebateu o homem com o olho de vidro, mal conseguindo mexer seus lábios. Homens de Sao Feng, ao seu lado, jaziam sentados como estacas, numa parca tentativa de prevenir seu corpo de perder calor.
— Por que a bruxa simplesmente não traz o Jack de volta igual ao que ela fez com o Barbossa? – questionou Pintel, ganhando a atenção e interesse tanto da mulher Murphy quanto da própria bruxa.
— Porque o Barbossa tinha apenas morrido. – interpôs, caminhando até eles. Diana notou que ela era a única a não tremer. – Jack Sparrow foi mandado de corpo e alma para um lugar não de morte, mas de punição. O pior destino que alguém pode atrair para si mesmo... durar para sempre. É isso que acontece no baú de Davy Jones. – concluiu, passando por eles, trocando breve olhar com a irlandesa.
— Eu disse que tinha uma boa razão. – murmurou Ragetti, satisfeito consigo mesmo, o que fez Diana rir um pouco, virando-se para encontrar Antonieta ao longe, já muito coberta pela neve, e depois voltando-se para Will que insistia em debruçar-se sobre uma causa aparentemente perdida.
— Ela tem razão, nada aqui é preciso como os mapas modernos... – disse para Tai Huang, virando os círculos das bordas em uníssono aos internos.
— Não. – concordou o imediato de Sao Feng. – Mas ele leva a mais lugares. – assegurou encorajador. Will prosseguiu, captando um detalhe que Antonieta deixara passar. Pequenos versos desprendidos por entre os espaços. O jovem Mestre Turner manipulou-os, então, até que estivessem em suas delimitadas marcações.
— Vira a beirada, de volta, vira outra vez, a aurora se põe, brilho de verde. – leu em voz alta. – Gostaria de interpretar, Capitão Barbossa? – inquiriu Will, entregando-lhe o mapa com o verso marcado, sua expressão marcando a descrença de sua fé às habilidades do velho pirata. Este, encarou-o por meio segundo, desafiador.
— Já pôs os olhos no brilho verde, Mestre Gibbs? – rebateu para o imediato de Sparrow.
— Eu penso ter visto, algumas vezes. – assentiu Gibbs, assumindo seu ar trovador, reunindo a maioria dos rostos ao seu entorno. – Acontece em raras ocasiões, na última réstia de pôr do sol, um brilho verde sobe aos céus. Alguns passam a vida toda sem nunca ver, outros dizem ter visto e mentem. E alguns dizem que...
— é sinal de uma alma que voltou para este mundo, depois de morta! – concluiu Pintel, enérgico, recebendo um olhar mortal de Gibbs em resposta. – Desculpe. – diz se reaproximando de Ragetti, que se precipitou à frente.
— Não percebem? É um enigma. – constatou, chamando a atenção de Antonieta ao fundo, que se virou para encará-los de longe. – Enigmas são divertidos. “Vira a beirada, de volta, vira outra vez...”
— Enigmas não são divertidos! Algum pobre maldito sempre acaba morto minutos antes de se dar conta de que: “ah, eu não deveria ter ouvido as sereias, eu não deveria ter pegado o pote de ouro, mas é tarde demais e eu vou morrer uma morte horrível e, quem sabe, irônica” e, nesse caso, tenho certeza de que nós seremos os pobres malditos! – Pintel rebateu, tagarelando em nervosa excitação. Finda, mais uma vez os olhares recaíram sobre Barbossa, que os analisou com malícia.
— Acredite, jovem Mestre Turner, não é chegar à terra dos mortos que é o problema. – falou, ao passo que manobrava o navio a estibordo. – É sair de lá. – acrescentou, o sorriso malicioso se abrindo mais. Viu-se, então, encontrando os olhos de Mia, antes que ela lhe desse às costas uma segunda vez. – Mestre Gibbs? – chamou indicando o leme com um aceno feroz de cabeça, antes de passar por Will e Diana em direção à proa.
Antonieta tremia, embora com veemência menor se comparada a de seus companheiros, amaldiçoando o tempo em uma prece silenciosa. Hector se aproximou silenciosamente, decidindo por permanecer ao seu lado.
— Está com frio? – perguntou com a voz baixa.
— Estou muito ocupada com a minha raiva, para sentir qualquer outra coisa; mesmo frio. – respondeu, ríspida.
— Antonieta... – tentou com menção de tocá-la, sendo rapidamente repudiado por um olhar gélido. – Não só a falta do chapéu a faz se parecer consigo mesma há vinte anos; também parece ter tornado a pensar como ela, percebe-se. – desdenhou, impaciente.
— Não me parece insensato, já que insiste em mentir para mim como se fossem vinte anos atrás. – disse com escárnio.
— Pessoas estão suscetíveis a erros.— ironizou com veneno e Antonieta virou-se lentamente para ele, o rosto retorcido em denúncia a toda a hipocrisia que enxergava nela.
— Não é um erro quando é deliberado. – retorquiu Mia, sorrindo maldosamente. – Já me inquietava a sua escolha de manipulá-los para seu próprio ganho, mas, ao menos, eu imaginei que soubesse aonde estava indo. No entanto... – ponderou dando de ombros.
— O mapa esteve trancado durante toda a nossa geração; é mais do que insensato pressupor que qualquer um de nós já estivesse consciente de como manipulá-lo. – Hector retomou, tomando um instante para se acalmar. – E se eu não conseguir desvendar o nosso pequeno enigma, não quer dizer que mais ninguém não possa... – acrescentou num tom mais baixo, fazendo com que Antonieta solucionasse outro.
— Como deve doer; odiá-lo, como você diz odiar, e, ainda assim, saber que precisa dele. – observou com a voz em cautela, os olhos fixos no caminho diante deles. – Eu nunca me afeiçoei ao Capitão Sparrow. Talvez não seja tarde demais. – concluiu, rindo perante o nítido amargor que se abateu sobre o semblante do velho pirata.
Diana se recolhera ao chão, por fim, a poucos metros de onde a conversa vinha tomando forma. Surpreendeu-se com a chegada de Antonieta, esta percebeu; o que fez com que o sorriso da Barbieri aumentasse. Não sentia mais raiva alguma, uma vez sanada sua dúvida com o bônus de devolver um pouco do que recebera. Se colocando ao mesmo nível de sua segunda imediata, aconchegou-se junto a ela, ombro a ombro. Posição na qual não teriam visto-as desde os treze anos.
— Pensei que fosse preferir se acomodar com seu amante; tendo lutado tanto para trazê-lo de volta às suas graças. – desdenhou a irlandesa, afastando uma mexa do cabelo de Mia para longe de seus ombros.
— Você é mais bonita. – a outra respondeu em sinal de solene motivo. Diana riu pelo nariz.
— O que ele disse? – indagou, o sotaque cantado de sua terra natal carregando sua voz e elevando alguns graus no espírito condoído pelo frio de sua capitã.
— Ao que parece, dependemos da capacidade imaginativa de seu velho companheiro de cartas. – respondeu simplesmente, repousando a cabeça para trás.
— Jackie? – disse a mulher Murphy, saboreando o som há muito não emitido. Antonieta assentiu de olhos fechados. – Ora, ora, Jackie... ele sempre teve a cabeça boa. – comentou pensando consigo mesma. – E você também! Vira a beirada, de volta, vira outra vez, a aurora se põe, brilho de verde; não consegue pensar em nada?
— Ainda não. – murmurou, abrindo os olhos conforme a escuridão de uma enorme geleira os abraçava por caminhos tortos.
[1] Nossas vidas dependem de um mapa que usa sorte como critério para oferecer informação?
[2] Você conhecia as histórias sobre este mapa.
[3] Sim, os únicos mapas a envolverem seu precioso sobrenatural à corriqueiridade mortal. No entanto, a mim parecia que estaríamos envoltos em enigmas dentro de enigmas; não em sorte.
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