"Ficou magnífico, uma obra prima."

A vida passava por ele apenas pelo poder tempo, sentia que o vento desgastaria sua presença até se tornar uma mancha turva no mundo. Epaminondas podia perceber isso, pois sua maior paixão e talento era a pintura, e acreditava que as jornadas são pinceladas intermináveis terminando o seu caminho e o mundo.

Nos últimos tempos só sentia toda a tinta escoar para um abismo.

"Você tem que pintar alguma coisa. Você é um gênio! Já te disso isso, preciso ver você tornando real suas ideias."

Não ignorava as tentativas de Jousette de incentiva-lo a criar, porém preferia se ocupar em não ser tão reparado. Já tinha executado suas ideias o suficiente para ser reconhecido, acontece que tinha medo da responsabilidade de ser um pintor jovem entre tantos mais seguros, mais esbeltos, e mais populares. O que o convencia a esconder o máximo possível, também, o seu corpo magro, e o fato de ser gay, para a maioria das pessoas a sua volta.

"Eu estou fazendo uma pausa por um tempo. Por enquanto, eu fico contente em admirar pinturas magníficas, como essa."

Numa escola de elite, uma pintura estava exposta na parede feita por um dos seus alunos, uma pintura da própria escola. A faixada do edifício colonial estava desconstruída, onde faltava paredes e janelas podia-se ver nuvens em ascensão em uns cantos, em outros se via silhuetas encharcadas por chuva torrencial, depois os arco-iris humanos e flores colossais se debruçavam sobre o prédio.

Em algum canto, a assinatura de Augusto, quem pintou a tela. Por quem Epaminondas era imensamente apaixonado e se declarou, sem ser correspondido, convencido de estar confundindo as coisas.

"Tudo bem, Epaminondas. Eu sei o que está acontecendo aqui. Você entregou tudo o que podia pra uma pessoa que não te retribui em nada, e nem se esforça pra isso. Olha... o que você já fez por mim me ajudou muito, e acredite, eu quero retribuir."

Jousette se aproximou do quadro junto com Epaminondas que pensava no que dizer, ela tinha um plano simples e estava decidida a se riscar por seu amigo.

Augusto se aproximou, ainda estava recolhendo os elogios de todos e não dispensaria um elogia dela, professora de matemática.

"E então, gostou professora?"

Epaminondas nem percebeu não ter sido notado, Jousette o vingaria mesmo assim.

"Eu não entendo muito de técnicas de pintura, mas não sou completamente leiga em arte. É uma tela bonita, sem dúvidas. A única coisa que posso julgar com um pouco de segurança é a sua criatividade, como sua professora. Não me lembro de nada que tenha feito antes numa visão tão romântica assim, a não ser que a ideia não seja sua. Se for esse o caso, eu ainda não lhe retiro o mérito pelas pinceladas, só espero que esteja satisfeito por sua assinatura nesse quadro, e liberte a pessoa que te fez se tornar um poeta dos pincéis para os burgueses dessa escola do seu cativeiro emocional."

Estava feito e entendido por todos os três. Para impedir que alguém mais sentisse a atmosfera tensa ali presente, Jousette se retirou sem demonstrar qualquer expressão que fosse suspeita. Mesmo abalado, Augusto ainda queira que aquilo fosse um segredo e sair dali sem que nada do que aconteceu fosse notado, então, seguiu sua direção.

Epaminondas encarava a tela como se fosse um espelho, em sua casa, sozinho. A pintura de um litoral, para alguém que enxergava o mundo como uma grande pintura poderia ser só uma janela. Uma tentativa de fugir da tristeza que o dominava e o afogava, sem conseguir conter tudo aquilo por muito mais tempo.

Uma cascata de tinta enebriou sua visão, que se misturavam as suas lágrimas. Tudo se desfazia por causa de seus sentimentos abstratos, as cores mudavam sem parar por todos os lados.

E quando tomou fôlego, não se preocupou tanto em saber se as cores tinham voltado para seu lugar, até se deparar, enquanto procurava na pintura do litoral alguma canto que não estivesse em movimento, com um homem debruçado na tela, com pincel e paleta de cores, que não estava ali antes.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.