Lembranças De Uma Noite Conturbada
2 Um Novo Ponto de Vista
Notas iniciais
Tudo é só questão de opinião, pontos de vista... Será? Duas perguntas tão simples, mas que causaram tanto reboliço dentro e fora de mim: Até onde? Até quando?
Ah! Se eu soubesse, se eu soubesse lidar com a minha própria vida, se eu pudesse controlar as minhas próprias palavras, se eu conseguisse interpretar meus próprios sentimentos... Mas não! E tanto foi dito, e tanto foi feito...
Ela se abriu demais, se expôs demais, eu não havia pedido isso! Eu não havia pedido nada... Ela falava, cada palavra parecia o cair de uma chuva fria torrencial, cada vez mais forte. Chuva que eu precisava receber no rosto para acordar... E eu me aproximei, ela me atraiu... Me envolveu, me puxou... Então...
— Eu não consigo respirar... – Ela ofegava à medida que eu me desesperava... Só pude me afastar devagar, tirar tanta força, tanto poder de tão perto de seu coração...
— Amor! Se acalma! O que está acontecendo? – Ela não se acalmava. O que eu havia feito? O que eu havia desencadeado? Estava me desesperando...
— Eu não consigo me mover... – Ela falava tão ofegante, estaria realmente à beira da... Não! Ela não!
— Me dá, passa isso pra mim! – Eu não podia deixar isso acontecer, não com ela... Minha protegida, sou sua shadow-kissed, não poderia viver sem ela...
— Como?... – Ela sussurrou, para meu alívio. Só precisava de sua permissão para me concentrar, sentir nossas energias conectadas e sugar tudo de mau para mim...
— Passa pra mim agora! – Acho que gritei uma ordem para seu corpo, eu não estava conseguindo, ela precisaria me entregar... Me sentia cada vez mais desesperada. “Não, não, não! Ela não! Que seja eu, mas ela não!”
— Me diz como... – Pelos deuses, como eu ia saber? Mas senti, ela queria, ela conseguiu e foi tudo que precisei para sentir um fio entre nós, um condutor que me preenchia de forma quase insensível... Até terminar.
Então, veio. Era forte, era pesado, era sufocante. Espremia meus órgãos, apertava meu peito, tirava meu ar. Eu estava quase lá, estava quase tocando... Tocando... Mas sim, eu havia conseguido!
Sorri ao ouvir o alívio na voz dela. O ar voltou a circular... Sim! Bendito ar que sempre me ajuda, me acalma, me cura. Ele vinha devagar e levava aquele medo embora, ele me acariciava e eu me sentia, vagarosamente, melhor... E aliviada. Eu conseguira!
— Precisamos equilibrar... – Eu forçava as palavras e a consciência. Precisava deixá-la saber que acabávamos de correr um risco tremendo por algo que poderíamos ter resolvido de outras formas.
Por que jogar tão alto? Por que por nossas vidas em risco? Por que me aproximar tanto da... da... Por quê? Poderíamos ter conversado, poderíamos...
Ela estava preocupada. Não consigo me lembrar o que me disse ou Fez. Ela sentira o que eu sentia e sem dúvidas, muito pior.
— Vai se dissipar logo, já está se dissipando... – Era verdade. Ah! O ar, me ajudava tanto! Logo eu estaria me sentindo bem...
Então ela sorriu. Sei que não era um riso de graça, nem ao menos sei de quê o era. Não deveria ter me exaltado, o percebi tardiamente. Mas meu corpo tremia, minha mente respondia de forma que eu não conseguia controlar. Eu estava com medo, com muito medo.
— Eu quase morri. – Aquilo era um fato. Não um fato engraçado. Mas todo ser humano reage de formas inusitadas diante do perigo. Ela sorria. Eu não.
E se tivesse morrido? E se eu perdesse mais um grande amor para “ela”? Se eu permitisse isso acontecer? Como poderia viver sem a minha razão para existir? Como poderia viver em paz sabendo que nada fiz? Mas, malditos os lábios que disseram:
— Agora quem está quase morrendo sou eu! -- Era verdade. Mas já sentia o bem vindo, bem devagar. Exaltada? Não, eu não estava exaltada. Estava com medo. Quem sabe um dia eu explique isso a ela.
— Desculpa amor. – Droga, ela me entendera errado... Mas como poderia culpá-la? Malditos os lábios que não dizem o que o coração sente...
Disse o que gostaria de fazer se ela estivesse ao meu lado. Foi como sentir seu corpo entre meus braços, aproximando-se do meu em um abraço calmo... Sim, queria acalmá-la, mas acima de tudo, queria me acalmar.
— Não tem mais medo? – Ela perguntou, a voz lenta e arrastada. Sorri com o pensamento de que estava conseguindo acalmá-la, até demais.
— Como assim? – Eu quase podia sentir seus cabelos sob minhas mãos.
— De eu entrar em você. – Sabia do que ela estava falando: estava invadindo minha aura. Estava perto demais, revivendo um antigo medo.
— Se eu disser que tenho você vai sair? – Sorri ao perguntar. Afinal, já sabia a resposta.
— Não. – Ela sorriu.
— Então pronto.
— É que você fazia tanto escândalo antes. – Se ela soubesse o medo que tenho de mim mesma, não se incomodaria com meus escândalos...
— Não adianta eu gastar o meu latim. – Era verdade. Mas admito, continuei a sorrir. Afinal, ela se sentia bem ali. E eu me sentia bem ao saber que ela se sentia bem.
— Vai me dizer que você não gosta. – Quase disse que não podia gostar do que não sentia. Afinal, maldita sensibilidade áurica não-existente. Mas sabia que ela estava tão bem, tão aconchegada, tão tranqüila... Tudo que pude dizer foi:
— Talvez eu goste. Mas vai mais devagar amor. – Não sei como ela entendeu as últimas palavras, mas me referia a tudo. Afinal, é um exercício diário: nós precisamos lembrar uma a outra que eu vivo de meios termos e ela de extremos.
— Eu só estou na pontinha, é só pra sentir teu calor... – Não, ela não entendera. Mas não importava. O que importava, importa e importará é que eu a amo. Nada mais importa.
O resto da noite foi um borrão. Conversamos, nos acariciamos por nossos gestos ou por palavras. Dormimos juntas, ao som da respiração uma da outra. Som calmante que nos aproxima, som que me lembra que um país inteiro não pode nos separar.
Acordei cedo no dia seguinte e lhe escrevi o porquê. Desejei que tivesse tido uma boa noite e passei meu dia com o coração tranqüilo. Afinal, eu a amo e ela sabe disso.
Engraçado que palavras antes tão dilacerantes me fizeram tão bem. Afinal, eu preciso aceitar que ela não precisa de minha proteção. Ora, mas por mil raios, não me importa! Eu a protejo porque a amo. Livre do peso da responsabilidade, com certeza agora, a protegerei ainda mais. Será que ela sabe disso? Se não, hei de me lembrar de dizer a ela que ela sempre será a minha princesinha linda e eu a amarei sempre. Mesmo que precise me aproximar novamente “dela” para isso. Mas se isso não acontecer... Juro que ficarei feliz!
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