Lembranças
2 Queimando
Queimando
Já era mais de 11h da noite, as ruas estavam vazias... As luzes dos postes queimavam, eu tinha cada vez mais a impressão de que estava sendo seguida...
“ode eu estou?” “estou perdida!”
Eu não conseguia achar o caminho de casa, estava muito escuro para isso...
Olho para as sombras da floresta. O meu coração acelera, minhas mãos soam frio. Parei de repente, os pelos da minha nuca se eriçaram, algo me dizia para sair dali... Mas para onde?
Havia um silencio quase anormal, como se todas as coisas que sempre fazem barulho, resolvessem parar. Todos de uma vez só. O silencio pareceu se adensar ainda mais, como que me envolvendo e sufocando.
E, no entanto, era como se eu estivesse me esforçando para ouvir alguma coisa que sabia que estava presente. “Eu não estou sozinha", percebi. Havia... Alguma coisa... Por perto. Algo... Que me observava.
O silencio tornou-se mortal e ameaçador. Zumbia em meus ouvidos com o pulsar de meu próprio sangue. E eu não conseguia deixar de imaginar o que podia surgir gritando a qualquer minuto. Negro no cinza, preto no preto, era só o que conseguia ver. Cada forma podia ser qualquer coisa e todas as sombras pareciam se mexer.
O estalo de um galho explodiu como um tiro.
Estava apavorada demais para gritar. Então somente sussurrei quase inaudivelmente:
-Tem alguém aí?
Do um paço para trás, de olhos e ouvidos atentos. Esse barulho me fez voltar à realidade. Forcei minhas pernas a se movimentarem para longe dali. Depois de um passo, aconteceu algo que me fez virar novamente, quase caindo, quase desmaiando.
Dedos gelados me pegaram no ar antes de eu ir ao chão.
- Sim, Estou bem aqui... – fiquei surpresa ao sentir um hálito gelado atrás de mim e ouvir um sussurro congelante.
Os meus músculos enrijeceram, se recusavam a me obedecer...
Consegui em fim fazer os meus músculos obedecerem. Virei-me para o som da voz de sinos.
Deparei-me com uma silhueta perfeitamente esculpida de um homem. Ele devia ter 1,80 metros de altura ou algo parecido e com olhos de um vermelho sangue assustador.
“Um vampiro!”
A mão dele foi subindo, travessa, pelas minhas costas, depois os ombros, e então o pescoço. Foi tudo feito como uma massagem, sensual e confortavelmente. Ele me inclinou levemente, para poder alcançar, com a boca, o meu pescoço.
Os lábios dele beijaram meu colo. E eram frios como pedra. Isso me despertou da ilusão. “Ele vai me matar agora. O que eu faço?". Abri os olhos num rompante. Mas era tarde demais...
Ele já havia me mordido.
Eu senti o sangue ser drenado pouco a pouco das minhas veias. Eu estava consciente o suficiente para saber isso. Não havia perdido a razão. Ainda.
Ele parou.
Olhei para o vampiro que estava drenando o meu sangue segundos atrás. Ele estava com uma expressão dura, com um olhar assassino, ele olhava para algo, ou para alguém. Tentei seguir o olhar dele, mas minhas pálpebras se fecharam.
Eu estava pegando fogo... Era como se tivessem injetado gasolina no meu sistema sanguíneo e ateado fogo em minhas veias.
Então não senti mais o chão sobre meus pés. Mas não foram alguns centímetros longe do chão. Foram metros. Eu lutava contra o fogo. Como tentar apagar um incêndio que não existe. E estava me consumindo mais e mais. Eu dei um grito. Alto. Mas não foi qualquer grito alto. Era um grito de agonia e dor, que pedia para seja quem for ajudar.
Eu não sentia mais o chão duro e frio embaixo de mim, o meu corpo estava sendo consumido todo pelo fogo... Era só isso que eu sentia... Eu estava queimando.
- Estou queimando! Há fogo, há fogo, estou queimando! – Era tudo que eu conseguia dizer, ou melhor... Gritar.
Meu corpo estava em chamas. A dor consumia o meu corpo e se direcionava pouco a pouco para o meu coração. Eu sentia isso, mesmo que lentamente as chamas se direcionavam para o meu coração.
De repente eu estava em um lugar. O que parecia o nada, um espaço vazio se transformou em um lago, a areia movediça me consumia, eu tentava escapar... Mas quanto mais eu tentava fugir mais eu afundava. Então compreendi que não havia o que procurar, não havia como fugir... Eu não podia lutar contra eu mesma... Eu estava presa em meu próprio corpo, em meu próprio eu... O nada. Um lago profundo e uma areia movediça, em que eu lentamente me afundava.
Eu desisti, desisti de lutar contra mim mesma, desisti de lutar contra a areia movediça, contra a água que me afogava lentamente e fui tomada, tomada pela água, pela areia movediça, pela escuridão, deixei eles me levarem para o desconhecido; e o que antes era fogo se tornou um nada, em um calmante, uma morfina e eu fiquei lá afundada.
Então fechei os meus olhos.
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