Lembranças

2 Capítulo 2


Notas iniciais
MIGAS, muito MUITO obrigada pelos comentários! Fico felicíssima em saber que vocês estão gostando, de verdade. Aqui está mais um pedacinho da história pra vocês. Espero que amem :}

– Senhora Swan? – Comecei, com a voz um pouco falhada.

– Regina, eu já disse, é Emma. Senhora está no c-

– No céu. Eu sei. Nós não acreditamos em Nossa Senhora.

– Não? – Notei surpresa em seu tom. – Então, no que vocês acreditam?

A pergunta de Emma ficou martelando em minha cabeça por eternos dois segundos e, nesse espaço de tempo, perguntei-me qual era o Deus que servia. E qual era o deles. Franzi a testa e olhei para o chão, sem notar que a engenheira já havia voltado ao trabalho.

– Eu acredito no amor. Na compaixão. Na solidariedade. – Minha voz saiu baixa.

– E Maria não foi uma mulher compassiva? Solidária? Não estou tentando confrontar a sua fé, mas, qual o sentido? Dêem algum crédito para a moça! – Ela disse, num tom divertido, ainda fuxicando o transformador. Não pude deixar de rir.

– Eu sei, eu sei. Na verdade, eu me faço essa mesma pergunta. Eu sei que não foi Maria que morreu por nós na cruz, que perdoou a todos para a remissão de nossos pecados. Mas, Emma, você está certa! Maria doou-se completamente, foi um salto no abismo, um tiro no escuro. Aceitou a missão do Anjo para conceber o Salvador, e ninguém fala dela. Não aqui, pelo menos. – Aquilo havia se tornado um monólogo. Emma continuava mexendo no transformador, e eu tagarelando sobre minhas crenças. Porém, quando um silêncio se estabeleceu, uma luz forte machucou meus olhos: a luz havia voltado! Com a testa franzida e os olhos apertados, procurei por Emma. E lá estava ela. Finalmente eu conseguia vê-la!

Se algum pedaço de mim ainda estava relutante para acreditar em Deus e Sua obra, esse pedaço acabou de desaparecer. Emma era a criatura mais linda que já vi, e acho que a biologia não daria conta sozinha de produzir tanta beleza em um único espermatozoide. Seus cabelos eram loiros, ondulados, e caíam pelos ombros. Sua pele era branca como a neve e, só de olhar, já sabia que era macia como a seda. E os olhos... não eram olhos. Eram águas cristalinas de uma praia caribenha.

Ela suspirou. Nossos olhos se encontraram, e nossos olhares se fixaram por alguns instantes.

– Ninguém pode te forçar a acreditar. Você acredita ou não acredita, e está tudo bem. Trata-se de quem você é, Regina. Não de quem os outros querem que você seja. – Seu discurso terminou com uma piscadela. Antes eu pudesse detê-la, ela me deu um sorriso e foi embora.

Eu não conseguia me mover. A luz havia acabado. Eu guiei uma estranha até o transformador. Essa estranha me perguntou sobre minha fé e puxou o gatilho das minhas próprias indagações. A luz voltou. Eu vi seu rosto. Era o rosto mais maravilhoso que Deus já criou. Ela piscou para mim. E foi embora. Talvez para sempre.

Meu transe foi interrompido por um par de braços curtos envolvendo minha cintura.

– Mamãããe, onde você estava? Ficamos te procurando feito loucos! – Henry anunciou enquanto me soltava e erguia o rosto para me olhar.

– É, Regina, por onde você andou esse tempo todo? Por que não ficou lá fora, como todo mundo, na luz? – Foi a vez de Robin se aproximar de mim.

– Eu vim acompanhar a engenheira até o transformador e não quis deixá-la sozinha. Batemos um papo agradável enquanto ela consertava tudo e voilà! A luz voltou. – Tentei usar meu tom mais natural, mas estava um pouco nervosa com tudo.

– Entendi. Bom, pelo menos temos luz agora. – Robin respondeu, sorriu e me beijou na bochecha.

Por causa do incidente, o culto fora cancelado e todos foram para casa. Os caminhos estavam sendo silenciosos há muito tempo, mas, dessa vez, o silêncio era apaziguante, já que, em minha cabeça, eu tentava imaginar Emma na luz. Talvez ela fosse minha luz. Sorri com esse pensamento, mas nenhum dos dois no carro percebeu.

Ao chegarmos em casa, comemos algumas sobras da geladeira e fomos nos deitar. Robin se aninhou a mim e pressionou sua pelve contra minha bunda. Era um pedido. Ou melhor, uma ordem. E eu, obviamente, teria que obedecer. Fizemos amor da forma mais protocolar e robótica possível. Entra. Sai. Entra. Sai. Ele goza. Se cansa. Cai sobre mim. Vira para o lado. Dorme. E eu... eu fico ali, deitada, usada, olhando para o teto. Pensando se minha vida poderia ser um pouco diferente daquilo.

A manhã chegou e, com ela, veio uma nova semana. Como nós três odiávamos segundas-feiras, o café da manhã foi silencioso e tinha uma cara emburrada, sonolenta. Talvez essa também fosse a faceta de minha vida como um todo. Levei Henry para a escola e deixei Robin no trabalho. O dia estava apenas começando.

Resolvi dar uma passada no supermercado, já que queria preparar um almoço especial para mim e minha solidão crônica. Estacionei o carro e listei, mentalmente, os ingredientes: molho de tomate, tomilho, linguiça e torradas. Saí, peguei um carrinho e entrei no estabelecimento, já mapeando todos os corredores onde eu precisaria ir.

Quando cheguei à primeira parada, empurrei o carrinho devagar, procurando pela melhor marca do molho, uma genuinamente italiana. Eu estava tão concentrada em minha busca que levei um susto quando meu carrinho se chocou com outro à minha frente. Levantei a cabeça rapidamente, já com uma reclamação nos lábios:

– OLHA POR ONDE ANDA!

– Desc- Os olhos à minha frente se arregalaram. – Regina?

– Senhorita Swan? – Meus olhos se arregalaram.

– Olá! Desculpe, eu estava olhando pras prateleiras, não te vi vindo... – Sua voz era doce como o cantar de um anjo.

– Ah, tudo bem. Eu também estava distraída, escolhendo molho de tomate. – Ri do quão idiota eu estava sendo, dando a explicação mais idiota que existia.

– Sério? Eu também! Conseguiu encontrar o seu?

– Não... – fiz uma cara falsamente triste. – O que é uma pena, pois estava pensando em algo especial para o almoço.

– Hmmm, então a senhora Mills cozinha? – Ela apoiou um braço no carrinho e apertou os olhos em curiosidade.

– Emma, como você mesma diz, senhora está no céu. – Ela ergueu as sobrancelhas e assentiu. – E, sim, eu cozinho. Muito bem, por sinal.

– Uau, nada modesta. – Soltou uma gargalhada. – O que mais a mestre cuca aí faz?

– Bem, sua debochada, eu sou uma ótima cantora. Gosto de desenhar. E sou uma poetisa. – Fiz questão de enfatizar todos os meus talentos bem lentamente.

– Uau, mais uma vez. Uma artista completa! – Emma me ofereceu seu típico sorriso abrasador. Tentei devolvê-lo à altura, mas parecia ser impossível ter um sorriso mais lindo que o dela.

– Emma... gostaria de se juntar a mim para o almoço? – Mas que merda? Primeiro eu me repreendi por ter dito um palavrão. Segundo, por ter acabado de convidar Emma Swan para almoçar. Comigo. Na minha casa. Céus, eu nem conhecia essa mulher!

– Tem certeza?

– Ahn, sim, claro! Eu almoço sozinha às segundas-feiras, já que Henry fica na escola para a aula de piano e Robin só volta do trabalho à noite. Seria legal ter alguém para conversar. – Merda, outra vez. Regina, você não tem controle nem sobre suas palavras? Pare com isso? E por que essa mulher me deixa nervosa? Pensei.

– Poxa, tudo bem, então. Será uma honra! – E lá estava aquele sorriso novamente.

– Ligue-me à uma da tarde e te passo meu endereço. Creio que não tem lugar para anotar aqui, não é?

– É mesmo... uma hora, então. Combinado. Agora vou deixar você terminar sua caça ao molho de tomate. Até daqui a pouco. – Quando passou por mim, apoiou uma das mãos em meu ombro e o acariciou rapidamente com o polegar. E o que foi aquilo que eu senti? Um arrepio interno tão intenso que minhas pernas chegaram a ficar bambas.

Após alguns instantes tentando entender o que eu havia feito, peguei qualquer molho e segui para os outros corredores. Graças ao meu bom Deus, não topei com Emma de novo.

Ao chegar em casa, desempacotei os ingredientes recém comprados ligeiramente e comecei a preparar a refeição. Hoje, especialmente, me dediquei cem por cento ao preparo dela. Cozinhar era um passatempo que eu adorava pois me permitia cantar também. Entre um liquidificador e um forno quente, sempre cabia uma canção de amor ou solidão, ou simplesmente uma que remontasse minha infância.

Pontualmente à uma da tarde, meu telefone tocou. Era ela. Dei-lhe o endereço e descobri que morávamos apenas a alguns quarteirões de diferença. Ela viria de carro, então eu teria que ser rápida arrumando a mesa e tomando um banho rápido. Nunquinha que eu almoçaria com Emma Swan fedendo a cebola.

Timing perfeito. Pensei enquanto caminhava até a porta. A campainha tocara e eu estava terminando de abotoar minha camisa.

– Boa tarde, senhorita Swan.

– Boa tarde, Regina. – Ficamos sorrindo uma para a outra, abestalhadas, por um tempo. – Então... não vai me convidar para entrar? Ou comeremos no jardim? Dei uma gargalhada e revirei os olhos.

– Que tolice a minha! Entra! – Dei um passo para o lado e estiquei o braço, fazendo menção para que adentrasse meu lar.

– Acho que ‘uau’ será a palavra do dia. Que casa linda, Regina! – Seu tom realmente expressava admiração.

– Muito obrigada. Eu como artista sou uma ótima dona de casa. – Tentei parecer divertida, mas minha voz saiu mais triste do que eu gostaria.

– Como assim? – Emma virou-se para mim e franziu a testa.

– Quem está com fome? – Ergui as sobrancelhas e apontei para a sala de jantar, que tinha a mesa de vidro posta e pronta para um almoço a dois. Ou duas.

Sem me questionar mais, sentamo-nos, cada uma em uma ponta, e nos servimos. Esperei Emma dar a primeira garfada e fiquei esperando por uma reação.

– É, definitivamente, ‘uau’ é a palavra do dia. Sério, Regina, tem certeza de que Deus não é você? Tipo, olha só esse macarrão! O que tem aqui? Água benta? Vinho que era água? Peixe multiplicado? Por favor, só me diga que não tem um morto ressuscitado*. – Eu não pude deixar de rir enquanto ela encarava o prato, apavorada, revirando o macarrão, realmente procurando um ingrediente secreto. A engenheira, além de ótima profissional e linda de morrer, tinha um senso de humor infalível.

– Vou tomar isso como um elogio, sim? – Consegui dizer depois de quase chorar de rir. – É uma receita de família. Meu pai costumava fazer sempre. Apesar de minhas raízes espanholas, minha família é uma entusiasta da culinária italiana. E, para a sua informação, tem tomilho, linguiça, molho de tomate, manjericão e ovo. O espaguete é a melhor massa para se fazer isso. Ah e, claro, torradas para quando acabar o macarrão e sobrar molho.

– Posso te chamar de Regina Uau Mills? Porque, porra, que delícia! – Ela socou de leve a mesa, com o garfo levantado. Mas logo se deu conta do que tinha falado. Seus olhos se arregalaram e ela olhou para mim. – Regina, me desculpe, não queria-

– Tudo bem, senhorita Swan. Enquanto estamos apenas nós duas, você pode falar o que quiser. – Ofereci a ela o meu mais sincero sorriso, e ela assentiu.

– Espera aí. Como assim “enquanto estamos só nós duas”? Está dizendo que nos encontraremos mais vezes, em outras ocasiões? – Uma de suas sobrancelhas estava tão erguida que quase se misturava com seus fios de cabelo.

Merda. Merda. Merda seria a minha palavra do dia. E eu deveria me chamar Regina Só Fala Merda Mills.

– Não... bem... sim. Ah, não sei. Quero dizer, nós quase não nos falamos aquele dia na igreja, e aí de repente eu te encontro no supermercado e aí eu percebo o quão sozinha eu me sinto e o quanto eu preciso de uma amiga. Então, sei lá, se você quiser ser amiga de alguém como eu... sinta-se a vontade para estar em minha vida em muitas ocasiões. – É claro que eu falei mais do que deveria, e muito mais do que gostaria. Mas, a essa altura, não importava, porque, pelo visto, Emma não se importava de ouvir a mais sincera verdade.

Ela poderia ter feito muita coisa. Poderia ter se levantado, inventado qualquer desculpa e ido embora. Ela poderia simplesmente ir embora. Poderia me lançar um olhar confuso e dizer que não nos conhecemos direito para sermos amigas. Mas não.

– Regina, isso é... sei lá, é... muito legal. – Suspirou lentamente antes de continuar. – Eu me mudei para cá há duas semanas. Meus pais morreram há um mês, num acidente de carro. Sou do Alabama e trabalhava para uma puta empresa de engenharia. Mas eu não poderia mais ficar lá depois do que aconteceu. Não conseguiria respirar o mesmo ar que eles respiraram por tantos anos, e agora era só oxigênio. Então eu resolvi vir para cá por recomendação de uma amiga minha da sua igreja, a Mary. Estudamos juntas e éramos bem próximas. Quando ela soube dos meus pais, disse que iria rezar muito e comentou que a igreja estava passando por uma grande reforma e estavam precisando de ajuda na parte elétrica. Foi aí que eu entrei em cena. Mas não adiantou eu ter me mudado e ter conseguido um “emprego”. Sei que tem apenas duas semanas, mas, para alguém que não tem mais ninguém, cada segundo é uma tortura. – Emma tirou seus olhos de mim nessa última frase, passando a encarar seu prato, já vazio. Apoiou a testa na palma da mão e esperou alguns segundos, talvez para que eu digerisse o que acabara de dizer. – Então, senhorita Mills, eu preciso de uma amiga tanto quanto você. Eu aceito ser amiga de alguém como você, uma mulher incrível, super talentosa, bem humorada e... como você disse, dona de casa? Você pode me explicar por que a senhorita não está usando esse seu dom em algo construtivo? – Seu tom voltara a ser divertido, e eu gostava disso. Dessa capacidade de sair de uma situação melancólica e entrar numa muito mais leve e descontraída.

– Pois é... eu sou dona de casa. Robin pensa que quem tem que trabalhar aqui é ele. E eu devo ficar em casa, criar nosso filho, cuidar da casa, ir ao supermercado...

– Trombar com engenheiras inconformadas com esse estilo de vida... Regina! Por quê?? – Ela estava realmente inconformada.

– Não sei. Sinceramente, eu não sei. Sempre me contentei em ser a mulher do lar e do Robin e ser a mãe do Henry. Só que de uns tempos para cá eu tenho me sentido inútil, como se eu fosse apenas um objeto, entende? Uma máquina de lavar, passar, secar, cozinhar, dar, agradar, obedecer...

– ‘Uns tempos’ quando, Regina?

– Alguns anos. Uns oito.

– E há quanto tempo você é casada com Robin?

– Oito anos e meio.

– Regina! Olha, é claro que eu não reclamaria desse estilo de vida se você estivesse feliz com ele. Mas, porra, olha só pra você! Você tem tanto a dar pro mundo! Por que dar só para Robin? – Percebendo o duplo sentido do que falou, deixou escapar uma risada. Eu a acompanhei. – O que quero dizer é que você tem habilidades. Dons divinos, se você preferir. Não aceito você ter que esconder isso.

– Como você pode ter certeza de que sou talentosa? Você só provou um macarrão...

– Então me prove o quão talentosa você é. Canta pra mim. Desenha pra mim. Faz poesia pra mim. Eu quero estar na sua vida, lembra? – Sem perceber que o tempo havia passado, dei por mim e vi que já estávamos na cozinha enxugando as louças. Ao terminar sua fala, Emma colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha e sorriu.

– Acho que eu não poderia esquecer... fui eu que pedi, lembra? – Usei meu tom mais doce e um sorriso sincero.

– Lembro, foi agora há pouco. – Após um silêncio, ela continuou. – Você não acha isso nem um pouquinho estranho? Tipo, nos conhecemos ontem, literalmente, e você fez um pedido formal para ser minha amiga e eu o aceitei. Você já sabe praticamente tudo da minha vida em apenas um dia, e eu sei da sua. E isso tudo está sendo tão natural, tão certo, que parece que nos conhecemos de outras vidas... você não acha?

– Eu estava pensando nisso. – Na verdade, eu não pensava em outra coisa. Mas pelo menos isso eu pude controlar e guardar para mim. – Parece que somos amigas de infância!

– Peraí... eu conhecia uma Regina! Ela estudou comigo no ensino fundamental, éramos um pouco próximas... mas tive que me afastar dela porque ela me passou piolho, juro, umas cinco vezes. Em dois meses. – Pela milésima vez, Emma me fez jogar a cabeça para trás de tanto rir. Seguindo minha mania, enquanto eu ria, dei um passo para frente e apoiei minha mão no ombro dela.

– Acho que não era eu, Emma. – Dei uma última risada, mas minha mão continuava em seu ombro. Nossos olhos percorriam cada canto de nossos rostos, começando a conhecê-los melhor de perto. E, simultaneamente, nossos olhares cravaram em nossas bocas. A de Emma era fina, um pouco curvada para baixo quando estava séria, como agora. Seus lábios eram rosados e macios. Muito, muito convidativos. Logo apaguei esse pensamento e me repreendi severamente por sequer pensar por um segundo numa coisa dessas. Meus olhos logo levantaram e repousaram nos olhos dela, que ainda encaravam minha boca. Talvez Emma tivesse tido o mesmo pensamento que eu, mas sem a parte da repreensão. Pergunto-me se eu seria mais feliz se me repreendesse menos.

Notas finais
Amaram? Odiaram? Continuem comentando e compartilhando a fic :} até o próximo, bjssss *Menção ao milagre de Jesus em que Lázaro, um jovem que havia morrido, ressuscita.