Lembranças

14 Capítulo 14


Notas iniciais
Volteiêeeee!!!! Desculpem mesmo pela demora :( É que estou participando de uma competição de discursos em inglês e tive que me dedicar muito na escrita do discurso e na memorização dele flkjsfksldjf mas voltei e trago um capítulo, na minha opinião, meio forte. Espero que amem.

Sair do abraço de Emma Swan, confesso, era uma das coisas mais difíceis de serem feitas. Seu cheiro era doce assim como sua pele. Seus cabelos aqueciam a ponta de meu nariz. E seu ombro servia de repouso para meu rosto marcado e exausto. Entretanto, sair daquele aconchego não era tão cruel quando, assim que meu corpo começava a protestar sua falta, ele encontrava seus olhos no meio do caminho. Esse ritual de abraçar e se olhar era um do qual eu queria fazer rotina. Eu queria desbravar as florestas de Emma Swan até meu último momento de vida.

— Você trouxe alguma roupa? Queria que a mudança fosse imediata. — Ela confessou, brincando.

— Na verdade… eu trouxe. — Um pouco envergonhada, olhei para o chão.

— Oi? Sério? — Um sorriso aberto foi se abrindo como uma flor se abre na primavera.

— Sim. Já estava nos meus planos pedir abrigo aqui, mas não quis falar nada logo de cara porque fiquei com medo. — Minha voz era baixa.

— Medo? Medo de quê, Gina? — Ela me interrompeu, rindo. — Eu sou sua amiga, estou aqui para tudo o que você e Henry precisarem. — Ela segurou meu queixo com sua mão.

— Tive medo de incomodar, de ser um fardo. Até então, eu achava que Lily estaria aqui, se recuperando de uma cirurgia bem complicada. Até então, você tinha coisas demais com as quais se preocupar. — Tentei argumentar. Apesar de minha preocupação ser verdadeira, até para mim aquilo soava triste demais.

— Regina, mesmo que a Lily ainda estivesse aqui, mesmo que trezentas empresas quisessem meus serviços ao mesmo tempo, mesmo que eu fosse algum tipo de salvadora de uma cidade enfeitiçada, eu não teria coisas demais com as quais me preocupar se você estivesse entre essas coisas. Eu me preocupo demais com você, sua cabeça dura. Eu paro o mundo a nossa volta se você precisa de ajuda. Eu faço o tempo voltar se você se esquecer de algo. Jamais pense que você é um fardo. Nunca mesmo. Estamos entendidas?

Eu estava tão imersa naqueles oceanos e naquelas palavras que soavam como cantos de aleluia que não percebi que suas mãos abraçavam meu rosto e as pontas de seus dedos acariciavam meus cabelos. Eu estava protegida ali. E o mundo a nossa volta não precisaria parar, porque o meu já estava estático. O tempo não precisaria voltar porque meu passado não era nem um pouco melhor do que aquele momento.

Meus lábios estavam partidos, em admiração. Meus olhos planavam sobre suas bochechas, seus olhos e sua boca.

— Regina? — Ela chamou, tentando me tirar do transe.

— Sim. Sim, estamos. — Como poderia aquela mulher me fascinar e me surpreender mais a cada minuto que passava?

— Ótimo. — Emma respondeu.

Muitas vezes, antes dessa realidade, eu protagonizei conversas com as mesmas falas. Porém, eu contracenava com o antagonista a todo tempo. Robin cuspia algum disparate em minha direção, e eu ficava ali, embasbacada, olhando para ele. Tentando, mais uma vez, encontrar algo sensato e lógico em seu discurso. E então ele me chamava a atenção, exigindo uma resposta. Voltando ao perverso mundo real, onde ele realmente falava aquelas asneiras, eu apenas concordava. Eu era um robô entalado na palavra ‘sim’.

Mas agora tudo mudava. O segundo ato de minha vida estava apenas começando, e tudo era novo: o cenário, as personagens, as emoções e as reações. Agora era apenas um holofote iluminando a mim, Henry e Emma.

Saí do espetáculo que montei em minha cabeça quando Emma sugeriu que chamássemos Henry para que ela pudesse nos mostrar o único quarto de hóspedes da casa, que eu e ele teríamos que dividir. As camas, contudo, eram duas: uma cama com rodinhas saía de dentro de uma outra. Eu dormiria em cima e meu filho embaixo. Havia também uma cômoda grande, de madeira maciça, onde acomodaríamos nossas roupas. Quando notei que, ao lado da porta, tinha uma escrivaninha, meu coração ficou em paz. Eu poderia continuar escrevendo e desenhando naquele pequeno cômodo. Mesmo na casa de Emma Swan eu teria meu refúgio.

— Mas por que eu tenho que dormir embaixo? Não é justo. — Henry interrompeu meus pensamentos, cruzando os braços, fingindo estar chateado.

— Porque você cai da cama, Henry. Só por isso. Não aguento mais colocar curativo nos galos que você faz na testa. Parece um bebê. — Entrei na brincadeira.

— Mãe! — Suas orelhas ficaram vermelhas como o capuz da Chapeuzinho. Uma graça.

Emma gargalhou daquela situação e, pelo jeito como olhou para nós após se recuperar, eu pude sentir algo diferente. Ela olhou para nós como se fôssemos sua família.

— Henry, por que você e Emma não vão lá para baixo jogar videogame? Ou Monopoly. O que você quiser. A mamãe precisa descansar. — Com nossos olhos vidrados, perguntei à Emma se havia algum problema.

— Você ainda pergunta? É claro que eu quero jogar Nintendo com esse moleque. Vou ensiná-lo o que é bom na vida. Nunca mais vai encostar naquele Monopoly. — Ela respondeu confiantemente. Os dois bateram as mãos no ar e saíram correndo do quarto após Emma decretar que “quem chegasse por último comeria ração de peixe.” Duas crianças.

Sem mais delongas, respirei todo o ar consegui e soltei-o devagar, tentando relaxar. Meu rosto latejava como um tambor, mas só naquele momento a sós comigo mesma foi possível perceber.

Deitei minha cabeça no travesseiro e percebi que aquele cheiro não era de Emma, nem de sabão em pó. Era o cheiro do perfume de alguém. Como aquilo não era nem um pouco relevante no momento, decidi apenas desligar meu cérebro de Alice no país das maravilhas e simplesmente adormecer.

Adormeci.

Quando tudo já era escuridão e minha respiração era pesada tal qual a mão de Robin em meu rosto, eu me senti sozinha pela última vez. Eu olhava para todos os lados e nada eu encontrava. Não havia um feixe de luz no qual confiar. Não havia rastro de vida, não havia rastro de mim. Mas, ainda assim, eu estava ali. Fechei meus olhos, amedrontada, esperando encontrar a mesma escuridão. Mas, ao invés disso, eu vi a Lua cercada de estrelas que protegiam sua magnificência e sua luz. De repente, o branco lunar e o preto do firmamento se transformavam em formas das mais diversas, mudando a cada segundo, do rosa para o azul, do azul para vários tons de verde e depois laranja. Era um caleidoscópio e nada mais, devolvendo à minha vida as cores que outrora cobri com uma camada de solidão. De fundo, era audível uma espécie de valsa, que fazia toda aquela palheta dançar com maestria.

Ao fim da música, eu não estava em lugar nenhum. Os acordes da orquestra foram substituídos pela calmaria da brisa que rondava o mar. As ondas batiam, e tudo era paz. A linha do horizonte quase se perdia entre duas imensidões azuis: o oceano e o céu. Eu era céu e Emma, o oceano. E o horizonte entre nós, a linha imaginária e infinita que nos separava estava prestes a se romper. Não era mais possível escutar o vai e vem das ondas, ou a valsa do caleidoscópio. Eu nunca saberia se o horizonte se foi, pois tudo o que existia era a face de Emma Swan emergindo da escuridão. Claro! Era o dia da igreja, quando a conheci. Ali estava seu primeiro sorriso, seu primeiro olhar direcionado a mim. Em minha mão, formigava o beijo que me dera. Eu podia sentir seu cheiro, eu podia ouvir sua voz. O sonho terminou com a imagem de Emma fazendo o que ela fazia de melhor: sorrir. Seus traços foram esmaecendo e tudo a sua volta foi escurecendo novamente. Um alto som que logo identifiquei como o toque do meu celular dava aquela viagem como encerrada, assim como meu sono.

Antes de ver quem era, procurei as horas em meu relógio. Como assim já passava das oito? Eu dormi por mais de quatro horas! Não parecia, pois meu rosto ainda latejava bastante.

Enfim alcancei o telefone na mesa de cabeceira e, mesmo sem olhar no visor antes, atendi.

— Alô? — Falei, com a voz rouca e sonolenta.

— Regina? Mas que porra, mulher! Onde você se enfiou, caralho? – A ríspida voz de meu marido apunhalou meus tímpanos.

— Robin, não fale assim comigo, em primeiro lugar. – Antes que desse tempo de ele revidar, continuei. – Segundo, você esperava mesmo que eu ficasse nessa casa com o meu filho depois de você quase ter me esfaqueado na frente dele? Você é um animal, um verme, um bandido. Eu não piso mais aí e nunca mais chego perto de você. Robin, eu estou falando sério, se você-

— Escuta aqui, Regina. Mas escuta direitinho porque eu só vou falar uma vez. – Ele me interrompeu do outro lado da linha. – Você vai voltar sim. Você vai voltar, sabe por quê? Porque você não vive sem mim. E não digo isso por ser romântico. Literalmente, você não sabe viver sem mim. O que você sabe fazer? Cozinhar. Vai cozinhar com o quê? Com comida. Quem vai ao supermercado comprar a comida? Sim, é você. Mas quem é que compra a comida? Sou eu, amor. É o meu trabalho. Você não passa de um parasita. Se alimenta de tudo o que eu tenho. Se eu não provenho, você não existe. Quem mantém aquela velha caduca da sua mãe de pé? São os remédios que eu compro. Mas a escolha é sua, benzinho.

A vida não me dava paz por mais de um dia. Sempre haveria algo para me machucar, para fazer todo meu corpo ruir de dor. E essa hora havia chegado.

— Robin, escute bem. Mas escuta mesmo porque eu não vou repetir. Eu. Não. Volto. Para. Você. Nunca. Mais. Eu não sou a mulher que cozinha e vai ao supermercado. Eu sou a mulher que ama, que sente, que chora, que escreve, que canta, que desenha, que pinta. Eu tenho muitas facetas e, apesar de uma delas estar muito desfigurada, ainda me restam as outras. Eu vou seguir a minha vida ao lado de meu filho e você nunca mais vai ouvir falar de mim. Eu tenho plenas condições de cuidar de minha mãe e da minha família. Eu vou ser feliz, Robin. Espero que você também seja, com suas amantes e seus amigos naquele bar. – Deixei tudo escapulir, sem nunca perder a voz tirânica e, pela primeira vez, sem me arrepender.

— Olha, se você não voltar para casa em vinte e quatro horas, eu termino o serviço.

— Serviço?

— Eu termino de te matar. Você escolhe. Vinte e quatro horas. Dê um beijo de boa noite em Henry por mim. – E então ficou mudo. Tudo.

O quarto ficara mudo. As risadas de Henry e Emma no andar de baixo ficaram mudas. Eu fiquei muda. Meu coração ficou mudo.

Robin acabara de me ameaçar de morte e eu não conseguia mais respirar. As lágrimas brotavam e caíam sem pestanejar, sem se segurarem. Eu não estaria naquele estado se eu não conhecesse Robin. Se ele foi capaz de pensar em me esfaquear, ou pior, se ele realmente ia fazer isso, eu não ousaria duvidar que ele pudesse mesmo me matar. O que ele tinha a perder? Henry? Não era filho dele. Ainda que Robin sempre tivesse preenchido bem o buraco de pai, ele não tinha seu sangue. Então não, eu não duvidava. E isso fez de meu corpo um terremoto. Todos os meus nervos, músculos, juntas, membros entraram em colapso ao mesmo tempo e comecei a me descabelar, bater em minha própria cabeça. Eu estava tendo minha primeira síncope. Atirei minha bolsa contra a parede, causando um estrondo. Atirei-me, pois, no chão e meus punhos, cerrados, involuntariamente socavam o chão, na esperança de se abrir um buraco e eu cair na imensidão para sempre. Mas isso nunca aconteceu já que, felizmente, meus ouvidos, no meio de sons agudos e dolorosos, me deixaram ouvir a voz de Emma me chamando. Senti meu corpo ser levantado e posto de volta na cama. Meus braços e pernas se debatiam, se remexiam, se espancavam. Eu ansiava sair daquele corpo o mais rápido possível. Eu queria correr dali e viajar para algum paralelo onde eu não corresse o risco de, em vinte e quatro horas, ser uma mulher morta. Minhas palavras eram balbucios, como os de um neném. Eu não conseguia controlar nem um centímetro do meu corpo. Todo o meu sistema entrou em pane. Eu escutava Emma pedindo para que eu me controlasse e meus olhos, fixos na porta, viram Henry assustado. Fui deixada sozinha na cama e vi Emma dizer algo a ele. Ela fechou a porta e voltou a me segurar, como um pescador tenta segurar e controlar um peixe de trinta quilos que foi tirado do mar. Eu era um peixe fora do oceano. Então, como um peixe, lentamente parava de me movimentar. Espasmos percorriam meu corpo de tempo em tempo, e eu pulava. Minha cabeça estava recostada no peito de Emma, que deitara em minha cama. Um de seus braços era meu cinto de segurança e o outro, minha escova de cabelo.

— Sssshhhh... Está tudo bem, Gina. Shhhh... estou aqui agora. – Ela sussurrava com sua voz angelical, e aquilo foi me ajudando a recuperar os sentidos muito lentamente. – Henry está no meu quarto, eu disse a ele que você só havia tido um sonho ruim. Espero que tenha sido isso. Mas não importa, porque estou aqui. Nada vai te acontecer, está bem? – Ela deu uma pausa. Talvez esperasse uma resposta, mas ela nunca veio porque eu ainda tremia muito e minha garganta ainda estava quase inteiramente fechada. – Estou aqui... shhhh, está tudo bem... – Ela acariciava meus cabelos. – Fique calma, Gina... – Ela parou de acariciar meus cabelos para se ajeitar ao meu lado.

Agora ela podia ver meu rosto e encarar de frente meus olhos arregalados. Seu braço passou pelo meu pescoço e seus dedos reencontraram meus cabelos. – Shhhhh... estou aqui... sempre estarei aqui. Shhhh... feche os olhos e durma, Gina.

Obedecendo, mesmo que com um esforço surreal, meus olhos foram se cerrando. Mas eu não vi a escuridão. Ao invés dela, me ocorreu aquela última imagem de meu sonho. Emma Swan sorrindo para mim. Com aquela figura eu voltei a adormecer, aos poucos. Mas, algo que nunca contei a Emma nesses anos todos, é que eu consegui ouvi-la dizer, antes de também cair no sono enlaçada em mim, “Durma e sonhe comigo, meu amor.”

Notas finais
C O M E N T E M !!!!!!!!!!!!!!!! deixo aqui uma promessa de algo muito bom no próximo capítulo. Swan Mills family moments. beijos, até o próximo