Lembranças
1 Oneshot
Notas iniciais
O homem alto e louro encolhe-se todo em um canto. Sua barba por fazer arranha a superfície acolchoada das paredes brancas. Ele gostaria de falar algo. Lembra-se que em um passado recente jamais deixaria que o tratassem assim. Afinal ele não era um animal para ficar largado em um canto, com as pernas e braços amarrados... Sua mente lhe pregou uma peça. Por um momento ele não estava mais ali, mas em outro lugar.
Neste outro lugar ele andava confiante, vestindo um sobretudo, com a gravada desfeita, um cigarrinho de filtro no canto da boca. A televisão ligada, pendurada na parede, anunciando "Fumar mata". Ele achava isso muito engraçado. Poderia recitar de cor outras nove maneiras de morrer mais fácil e mais rápido, do que fumar.
O homem confiante que ele era adentrou uma sala branca... não... não era mais branca... era escura e suja. Igualmente tinha uma TV. Só que esta era em preto e branco, com antenas saindo de sua traseira, como orelhas de coelho. A televisão chiava. Havia alguém ali. Por que ele não conseguia olhar o cara? Havia um cara ali. Ele estava deitado no sofá, assistindo à TV. Esse homem... esse cara... havia algo esquisito com ele... mas o que?
Alguém o puxou com força. Alguém o pôs de pé. Soltaram seus braços e pernas. Ele pôde apoiar o peso do seu corpo nas pernas. Quanto a seus braços, ele não os sentia. Se pudesse senti-los, o que faria?
– Um cigarro, por favor?
O homem a sua frente o olhou atônito. Engraçado é que o cara estava vestido de branco também. Um ser branco em um ambiente branco. Pena que John nunca andava com roupas brancas, senão poderia combinar com o ambiente. Combinar, dissimular, mimetizar, camuflar, esconder. Ele precisava se esconder. Precisava?
John foi levado para um outro ambiente. Enorme. Vasto. Um local com uma enormidade de camas que lhe dava vertigens e enjôo. Ele não conseguiu se controlar e vomitou.
– Oh, seu filho da mãe! — Falou o primeiro homem de branco.
– Não pragueje, Moore! Estas coisas acontecem. — Falou o segundo homem de branco.
Eles o colocaram em uma cama. Prenderam seus pés e pernas novamente. Torceram sua cabeça até ficar lateralizada, eternamente vendo a infinidade de padrões repetitivos, o que aumentava a sua vertigem. John fechou os olhos.
Novamente não estava mais ali. Estava agora em um novo ambiente. Totalmente colorido. Uma explosão de vermelho, negro e verde. Algo acetinado, rosado, macio, doce. Eram os lábios de uma mulher bonita. Ela tinha olhos verdes calmos e amorosos. Os cabelos dela eram tão negros que chegavam a ter um brilho azulado. As coxas dela roçavam em seus flancos. Ela tremia e gemia. "John". Que voz... Era a voz mais doce e sedutora que já ouvira. Como era mesmo o nome dela? Ele não se lembrava. Queria tanto lembrar, mas a merda da memória não ajudava. Começou a chorar. O choro o fez voltar ao ambiente branco. Ele se acalmou um pouco, mas não o suficiente para evitar mais remédios. Um dos homens de branco trouxe uma seringa e a injetou em seu braço. O mundo se apagou.
Com o passar dos dias, sua mente não mais divagava. Eles o deixaram dormir sem as faixas de contenção, e a vontade de interagir com o ambiente minguou. Ele funcionava num modo vegetativo, como um robô. Levantava cedo, tomava banho, vestia-se, comia o desjejum, aceitava suas pílulas e passava o resto do dia no salão. Ouvia música. Assistia televisão. Resolvia quebra-cabeças. Não falava nada, nem dava trabalho à equipe de branco.
Um daqueles homens, o chefe deles, passou a conversar com John em sua sala. Perguntava coisas sobre o passado, emprego, família. John respondia com monossílabos. Às vezes simplesmente dizia "não lembro mais", e isso era verdade. Parara de brigar com sua mente, pela posse de suas memórias. Desconfiava que as memórias foram o motivo da sua inclusão nesse ambiente hospitalar, e se sua mente se recusava a revelar o que acontecera... bem, ela podia fazer o que bem quisesse com as memórias dele. Inclusive enfeitar o local onde o sol não bate. Ele não precisava de suas memórias. Podia viver muito bem sem elas.
– Vou diminuir a dose de seu remédio. Isso vai ajudar com a ausência de lembranças. — o Chefe dos homens de branco lhe falou um dia.
Uma tarde, John estava sentado no salão assistindo televisão. Estava passando um telejornal. A polícia havia prendido suspeitos. Um dos suspeitos olhou diretamente para a câmara e falou "Você é o culpado". John percebeu que ele estava falando consigo, nos recônditos de sua mente. "Você é o culpado por tudo de ruim que está acontecendo". Não era o meliante drogado e frio quem estava dizendo essas coisas, mas uma outra pessoa. Um velho. Um homem que um dia conheceu como seu amigo, que agora estava... morto.
A lembrança o abateu como uma estocada. Ele quase conseguiu ouvir-se gritar. Ele estava se lembrando do passado. Seu amigo, o velho "Steven Bissette, vidente e cozinheiro", fora devorado por cães raivosos saídos da escuridão, e dos quais não se teve mais notícia. Ele ficara no caminho. Ele ficara no caminho entre John e um demônio dos infernos. Seu amigo morrera por sua causa. Fora John que o encontrara estirado no sofá da sua sala...
John voltou a sentir náuseas. Correu para o banheiro e vomitou o café da manhã. O seu reflexo na louça do banheiro o fez visualizar outra pessoa. Uma mulher. A mesma mulher de suas lembranças matinais. A morenaça dos olhos verdes. Jane Totleben. O nome dela parecia mel em sua língua. Ficou repetindo o nome dela como um mantra. Tinha medo do que mais iria lembrar sobre ela. Estaria morta? Não, estava ... casada com um empresário em Dublin. Ela escolhera estabilidade e segurança. Não... John a empurrara para esse casamento. Ele a rejeitara e dissera que estava cansado dela. Ele temia por sua vida. Tivera medo que ela fosse pega no meio do fogo cruzado. Ninguém estava a salvo ao lado dele. Ele era uma ameaça ambulante.
Depois deste primeiro choque de lembranças, elas vieram uma a uma lhe fazer companhia. Seu pai, sua irmã e seu tio vinham assombrá-lo na hora de dormir. Chas, seu melhor amigo, o acompanhava no desjejum matinal. Astra e Lester, algumas das vítimas que não conseguira salvar, o amaldiçoavam na hora do almoço; enquanto Nergal e Norfulthing, demônios cruéis e abomináveis, o desafiavam no jogo de quebra-cabeças.
John conseguiu sobreviver às suas lembranças. Foi por isso que ele pediu liberação ao chefe dos homens de branco, o Dr. Jamie Delano. O médico recomendou que continuasse com os remédios e com as entrevistas semanais. Garantiu que o seguro social cobria os custos do tratamento, e que seria bom que John voltasse a falar com sua família. O bom doutor não conhecia os Constantines. Seus pais há muito estavam mortos, e quanto a sua irmã, depois que descobriu que o gosto por ocultismo era hereditário, praticamente baniu John de sua casa. Ele quase dava razão a ela, mas isso não impediria que Gemma, sua sobrinha paranormal e ocultista, se aventurasse sozinha em caminhos perigosos e reinos proibidos. Enfim, sua família não era melhor nem pior do que a média. Ele poderia passar muito bem sem a ajuda deles.
Durante uma tarde fria e cinzenta, John voltou para casa. Seu velho apartamento na periferia de Londres. Ele deveria tomar cuidado, usar saquinhos de patuá no bolso do paletó e meditar, o suficiente para criar a ilusão de ser uma outra pessoa, o que ele fez, mas não estava certo de que tinha dado resultado. Imaginava se tudo isso não seria inútil, pois um oponente terrível poderia facilmente encontrá-lo, enquanto um "inimigo de meia tigela" não valia a pena seu esforço de camuflagem.
Durante o trajeto de metrô, ele folheou um jornal, conferiu as notícias e concluiu que nada havia mudado em três meses que passara internado num manicômio. A terra não parara de girar ao redor do sol, e a Inglaterra ainda conservava a cor cinzenta do inverno. Os políticos ainda se pavoneavam na televisão, e as colunas de fofoca ainda falavam de futilidades, como se alguém se importasse com a vida alheia.
Ao entrar em casa, sentiu a vibração de outra pessoa em seu apartamento. Alguém conhecido.
– Olá, Chas!
– O que... John! Você voltou. — Seu amigo atirou-se sobre ele em um abraço digno de um urso. Se ele não fosse baixo e franzino, John estaria em apuros. — Por onde andou? Pensávamos que estivesse morto.
– Nós? Quem mais sentiu a minha falta?
– Eu, seu desgraçado, arrogante de uma figa.
Chas afastou-se mal dando tempo para John se preparar para o novo abraço. Dessa vez John estava perdido, pois nada menos do que 1,85 m de pura sedução e langor o estava abraçando e tomando posse de sua boca. Jane.
– Acho que devo deixar vocês dois resolverem as diferenças sozinhos. Não briguem, crianças. — Disse Chas ao sair de seu apartamento.
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