Lembranças

1 Lembrança - One-shot


Notas iniciais
(Ressuscitei, okay...) Cris, desculpe por só ter postado a fic no final do dia e por ela ser tão pequena... (na verdade, eu fiquei surpresa por ter saído alguma coisa depois de tanto tempo sem escrever...) Aliás, peço desculpas adiantadas se alguma catástrofe gramatical passou despercebida. Não garanto nada em relação à qualidade, até porque sou uma mera iniciante quando o assunto é BL, mas garanto que escrevi de coração! Feliz aniversário!!!

Às vezes, durante aquele curto espaço de tempo que passamos juntos procurando por Kira, eu constantemente sentia algo estranho pairando sobre nós. Às vezes era uma frase que você proferia e que continuava na minha mente por mais tempo que o normal; às vezes um gesto inusitado que me deixava sem reação ou simplesmente um olhar – o suficiente para me deixar paralisado pelo tempo que ele permanecesse sobre mim.

Eu lembro perfeitamente das nossas conversas. Talvez seja muita pretensão minha afirmar que lembro de todas, mas boa parte delas fazem parte daquele conjunto de memórias que instantaneamente vêm a mente quando tentamos lembrar.

Após a morte, num local em que espaço e tempo não conseguem alcançar, deveria ser proibido a passagem de lembranças da vida. No entanto, recentemente, uma das tantas conversas nossas tem tomado conta dos meus pensamentos e parece ecoar a todo instante dentro de mim. Ela costumava ser apenas mais uma, mas agora me traz uma espécie de angústia e soa quase como uma...

Premonição.

***

“Ei...”

“Hm?”

“Se seu melhor amigo e a pessoa que você ama estivessem prestes a cair em um precipício, e você só pudesse salvar um, quem você escolheria?”

Mello soltou um longo suspiro, enquanto eu, ao contrário, prendia a respiração. Permaneci fitando aquele cigarro que ia se consumindo aos poucos, enquanto fumaça e cinzas se misturavam ao serem levadas por uma brisa de final de tarde. Aquele cheiro viciante costumava me deixar tranquilo e confortável, mas não parecia ser o caso naquele dia.

“Por que você tá me perguntando isso?”

Como de costume, frente a uma situação desconfortável, Mello fizera uma pergunta, e não uma afirmação. Em outras palavras, eu teria que esperar ainda mais por uma resposta – que, aliás, tinha poucas chances de ser obtida.

“Por que você não pode dar continuidade à conversa como uma pessoa normal, respondendo uma pergunta com uma frase que não termine com uma interrogação, por exemplo?”

Ele bufou um “ok” e voltou a ficar em silêncio. Depois, desviou os olhos para o outro lado. Dei uma longa tragada de ansiedade – a primeira desde que aquela conversa começara.

Mas a resposta não veio.

“No caso, você é o melhor amigo, certo?”

Talvez eu deveria ter respondido afirmativamente com um ar provocante de obviedade. Ou talvez dar uma resposta malcriada, quem sabe até sarcástica, e xingá-lo naquele tom monótono de sempre. Mas nada disso aconteceu. Continuei quieto, numa guerra contra meus próprio pensamentos, que insistiam em querer trazer à tona aquele sentimento estranho à minha consciência.

Ouvir Mello dizer aquelas palavras – “melhor amigo” –, demonstrando sua consideração por todos aqueles anos compartilhados, ainda que fosse ridiculamente óbvio, ainda era uma das raras frases sinceras vindas daquele loiro arrogante e, por isso, deveria ser motivo mais que suficiente para me fazer deixar escapar dos lábios um sorriso. Mas, ao contrário, a realidade me levava quase ao desespero. Não conseguia compreender a minha própria reação; o porquê daquele desapontamento, angústia, tristeza, que surgiam dentro de mim sem minha permissão ao ouvir as palavras de Mello.

No entanto, numa guerra, ainda que esta seja contra si mesmo, há sempre uma reviravolta ou outra. Afinal, eu também não precisava responder com um ponto final... não é?

“Você me vê dessa forma?”

Seis segundos agonizantes de silêncio, que mais uma vez me fizeram ficar sem ar, precederam a resposta lacônica num tom despreocupado.

“É...”

“Então nem precisava perguntar, idiota”

A tão esperada resposta, que demorara tanto para ser proferida, veio de repente; tão rápido que por alguns instantes fiquei sem reação.

“Eu salvaria a pessoa que eu amo...”

Mello disse aquilo sem carregar dúvidas ou hesitações no tom que moldava aquelas palavras. Lembro de ter sido tomado por um leve arrependimento. Sentia que preferia não ter ouvido a resposta que até poucos instantes atrás tirava-me o ar.

Era a minha vez de soltar um suspiro; e engolir sentimentos distorcidos, abrir os olhos sem que nada escorresse deles, voltar a falar sem deixar que a minha voz tremesse ou transparecesse aquilo que eu escondia, tudo de uma só vez.

“É, você tem razão... Se eu estivesse no seu lugar, provavelmente faria o mesm-...”

Mais uma mentira seria sufocada por um sorriso. Mas, depois de todos aqueles anos, Mello também aprendera a fazer reviravoltas com pontos finais.

“Eu salvaria a pessoa que eu amo... E depois, morreria com você.”

Notas finais
Depois de tanto tempo, sinto como se esta fosse a primeira fic que eu posto. Estou nervosa, confesso...
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!