Não consegui dormir aquela noite, nada me fazia tira-la da cabeça. Tentei me distrair com a tv, cigarros, whisky. Eis que dormi por breves minutos, então chegou a hora de ir para a aula.

Levantei de minha cama, que no momento estava repleta de pontas de cigarro e fui me arrumar para ir ao colégio. Tomei um banho e me pus diante do espelho do banheiro. Fitei aquele rosto sentindo no fundo uma raiva de mim mesmo. 41 anos, esse cabelo já não me cabe mais, essas olheiras que eu não sabia identificar se era pela idade ou por não ter dormido bem aquela noite, aquela barba mal feita e levemente grisalha que não me deixava esquecer de quem eu sou: um velho. Nunca tive problemas com a minha idade, sei que tive meus anos de ouro, mas agora isso me incomodava no fundo da alma. E eu sabia o porquê.

Aquela aula de segunda feira não foi muito convencional, deixei os alunos estudarem por conta própria e tirarem suas dúvidas enquanto passei a maior parte do tempo totalmente aéreo e perdido em meus pensamentos, aqueles pensamentos que só tinha espaço para uma pessoa.

Após a aula dei uma desculpa qualquer para não participar da reunião de professores e sai em direção ao parque. Era começo de tarde e apesar do sol pálido que fazia, continuava frio e plausível o uso de um sobretudo como o que eu estava usando. Cheguei no parque em poucos minutos e fui me sentar no banco de sempre, embaixo da grande arvore e esperei. Um furacão de pensamentos tomou conta de mim, sobre todos o medo prevalecia. Medo daquele anjo não vir, medo dela me achar um depravado, medo de me esquecer dos bons modos com que fui criado e agir como um desgraçado. Mas não, pensei firme, não faria nada para assusta-la ou machuca-la, serei um homem gentil e agirei com naturalidade, disse a mim mesmo afim de acalmar meu coração. Envolvi então toda a minha loucura com o meu amor como alguém preso numa camisa de força e comecei a ler.

—Achei que não viria – movi minha cabeça imediatamente quando ouvi aquela voz tão doce.

— Eu... estava... dando aula, mas... – não conseguia formar uma frase sem corta-la, de forma tão estupida que quis me matar.

— Tudo bem, você deve ser um homem muito ocupado – disse tão inocente, com aqueles olhos acinzentados tão brilhantes me fitando. Mal sabia que por ela eu largaria qualquer compromisso, qualquer coisa. Era só ela dizer e eu faria. -

— Um pouco – tentei esboçar um leve sorriso – eu ainda não sei o seu nome

— Emily Howell – ela disse um pouco acanhada – e o seu?

Pensei um pouco antes de responder, não podia dizer meu verdadeiro nome já que ele se encontra na capa do meu livro, me levantei e respondi: — Jones Smith, ao seu dispor – os nomes mais clichês e bobos que consegui imaginar em tão pouco tempo. Fiz uma breve reverencia e ela riu. Aquele riso de criança nunca sairá de minhas memorias.

—E então, que capitulo está? – Não pude deixar de reparar que ela segurava um exemplar do meu livro, com as bordas bem gastas, indicando que fora muito usado.

— Capitulo 4, “O desespero”. – Eu realmente estava nesse capitulo em minha releitura, só não mencionei a ela que eu havia escrito todo o resto.

Emily Howell era seu nome, o nome que estará em minhas orações todas as noites. Confesso não ser um homem muito religioso, mas toda a essência de fé que eu tinha estará focada para seu nome, anjo. A presença dela ali era mais forte que todo o álcool que bebi em todos esses anos, apesar de seu tamanho e sua idade, era forte, inteligente, entendeu cada palavra que eu escrevi naquele livro, e como toda fã ela tinha a última palavra sobre mim que naquela ocasião era apena um principiante na leitura. Eu segui à risca o papel de desinformado sobre a história, esquecendo nomes de personagens, cenas que aconteceram e claro, ainda não sabia o final. Ela explicou todo seu ponto de vista com tamanha empolgação que me surpreendia a cada palavra e eu a escutei como um exímio espectador. Apesar de meu semblante calmo, ouvindo cada palavra com devoção, meu coração batia veloz sabendo que tinha uma admiradora do meu trabalho. A admiradora mais importante para mim.

— Ah, pode me dizer a hora? – Ah, a hora, já não sabia nem em que cidade eu me encontrava

— São 4h20, a hora passou muito rápido – disse olhando para o relógio de bolso, não pude esconder a tristeza pela hora ter voado e por saber que o horário arrancaria sua companhia de mim

— Eu preciso ir embora... – disse em um tom que eu podia jurar que tinha uma gota de desapontamento.

— Tudo bem... você... teria tempo amanhã?

— Eu tenho tão pouco tempo... – seus olhos cinzentos pareciam perder o brilho ao dizer isso

— Eu entendo – na verdade não entendia – me perdoe, eu não quis... incomodar você com isso

— Você não entende nem metade. – Ela disse fria, mas de alguma forma senti que aquilo não era para me afetar. – Mas eu amo conversar sobre esse livro, na verdade você é a única pessoa que conheço que leu... bom, está lendo.

Dei um sorriso quebrado, ela levantou e começou a andar lentamente. De repente se virou rápido para mim e disse:

— Então... até amanhã, Sr. Smith.

— Por favor, apenas Jones – não posso imaginar o quanto meus olhos estavam brilhando aquele momento... e o quanto o “senhor” me machucava.

Observei ela caminhando até que se tornou inalcançável pelos meus olhos. Fiquei imaginando que tipo de compromisso ela deve ter em torno das quatro horas, mas nenhum pensamento se fixava na minha mente. Estava imensamente estupefato por ter marcado um novo encontro com ela e por ter agregado esses momentos maravilhosos em meu banco de memorias. Isso nunca será esquecido até a minha morte. Não, até o fim dos tempos.

Notas finais
moral n sei