Lembranças de Nós Dois
13 Everything Has Changed
Notas iniciais
🌙 Capítulo 13 — Everything Has Changed
O sábado em Forks amanheceu sob uma abóbada de um cinza perolado, uma luz difusa que parecia suavizar as arestas do mundo. Não havia a agressividade do vento cortante de inverno, apenas uma brisa úmida que trazia consigo o aroma de pinheiros e terra revolvida. Bella Swan despertou sem o auxílio do despertador, sentindo uma leveza atípica ancorada em seu peito. Por alguns instantes, ela permaneceu sob o calor dos lençóis, ouvindo o murmúrio abafado da televisão na sala e o som rítmico de botas pesadas contra o assoalho de madeira. Era o som de Charlie se preparando para o ritual que, por anos, fora sua única forma de meditação: a pesca. E, pela primeira vez desde que chegara a essa cidade, Bella não sentia que estava apenas cumprindo uma obrigação filial; ela sentia que aquele dia era um presente.
Ela desceu as escadas vestindo um moletom cinza-azulado, um dos poucos remanescentes de sua "época de esconderijo", que agora servia apenas como um abraço de algodão contra o frio matinal. Charlie estava na cozinha, cercado por caixas de isopor, varas de fibra de carbono e anzóis que brilhavam sob a luz fluorescente. Ele não disse nada imediatamente, apenas assentiu quando ela entrou, mas o brilho em seus olhos denunciava que ele apreciava a companhia. O som de um motor potente quebrando o silêncio da rua anunciou a chegada dos Brandon. Harry entrou com a calma de um patriarca da floresta, mas foi Alice quem, como de costume, rompeu qualquer resquício de monotonia.
— BOM DIA, PESSOAS TRISTES! — Alice invadiu a cozinha como um fenômeno meteorológico imprevisível, vestindo camadas de roupas térmicas que, nela, pareciam alta costura. — Charlie, esse café cheira a sobrevivência na selva. Eu adoro.
— São oito da manhã, Alice. Um pouco de sobriedade faria bem ao ambiente — resmungou Charlie, embora o canto de seus lábios estivesse traindo sua vontade de rir.
— Sobriedade é para os fracos, Xerife. Eu trouxe reforços para garantir que ninguém morra de tédio enquanto espera os peixes decidirem se querem ou não colaborar com o jantar — Alice declarou, apontando para a porta com um gesto teatral.
Bella sentiu o ar escapar de seus pulmões quando Edward Cullen cruzou o portal, seguido por Jasper. Edward usava uma jaqueta de lona escura e botas de trilha, um visual que o tornava perigosamente atraente de uma forma terrena e acessível. Seus olhos verdes, geralmente carregados de uma intensidade melancólica, encontraram os de Bella e suavizaram-se instantaneamente, como se ela fosse o único ponto de cor em um desenho a carvão. O sorriso que ele lhe deu foi privado, uma conversa inteira contida em um movimento de lábios.
O lago da reserva era um espelho de prata líquida, cercado por uma floresta tão densa que parecia guardar segredos de séculos atrás. A névoa subia da superfície da água em redemoinhos preguiçosos, misturando-se ao cheiro de musgo e resina. O grupo se espalhou pela margem com uma naturalidade que quatro meses de convivência haviam solidificado. Charlie e Harry assumiram o comando das linhas, enquanto Alice narrava cada movimento como se estivesse comentando um evento esportivo de elite.
Edward, no entanto, parecia um peixe fora d’água , literalmente. Ele segurava a vara de pesca com uma desconfiança aristocrática, como se o objeto pudesse mordê-lo a qualquer momento.
— Você realmente me trouxe aqui para ficar olhando para uma linha flutuando no nada — murmurou ele, aproximando-se de Bella enquanto Charlie preparava o anzol para ele.
— Eu te trouxe para viver a experiência completa de Forks, Cullen — Bella respondeu, sentando-se em um tronco caído, a câmera fotográfica já posicionada para capturar o momento. — Além disso, meu pai disse que um homem que não sabe pescar não é confiável.
Edward soltou uma risada baixa, um som que pareceu vibrar em harmonia com o som da floresta. — Então meu destino está selado. Eu sou um perigo para a sociedade.
Charlie aproximou-se, ignorando a provocação. Com uma paciência que Bella raramente via ele demonstrar com estranhos, o xerife começou a corrigir a postura de Edward. — Não é sobre força, garoto. Se você lutar contra a água, ela vence. É sobre jeito. É sobre sentir a vibração na linha antes mesmo do peixe morder. É paciência.
Edward ouviu. De verdade. Bella observou, fascinada, como o rapaz rebelde que desafiava professores e autoridades se submetia ao ensinamento de seu pai. Havia um respeito ali, uma ponte sendo construída sobre anos de preconceito mútuo. Por horas, o único som era o das águas e o estalar ocasional de um galho, até que a vara de Edward vergonhosamente curvou-se.
— EU PEGEUI! Xerife, olha isso !— O grito de Edward rompeu a solenidade do lago. Ele lutou com o carreto com um entusiasmo quase infantil, os olhos brilhando de uma forma que Bella nunca vira. Quando o peixe finalmente emergiu, um espécime modesto mas reluzente, Edward virou-se para ela com um orgulho tão genuíno que o coração de Bella pareceu expandir-se. Naquele momento, ele não era o "problema da cidade"; ele era apenas um jovem descobrindo que podia ser feliz em coisas simples.
— Muito bem, garoto! — disse Charlie com um pequeno e verdadeiro sorriso brotando em seu rosto.
Mais tarde, quando as sombras das árvores começaram a se alongar sobre a grama úmida, Charlie e Edward ficaram para trás, guardando o equipamento, enquanto os outros caminhavam em direção aos carros. Bella parou a alguns metros, fingindo ajustar sua lente, mas na verdade capturando a silhueta dos dois homens mais importantes de sua vida contra a luz do crepúsculo.
— Você mudou, Cullen — disse Charlie, a voz rouca, sem desviar o olhar do lago. — A delegacia está silenciosa demais sem as suas infrações semanais.
Edward respirou o ar frio, sentindo o peso daquela afirmação.
— Eu estou tentando, Xerife. Pela primeira vez, eu tenho um motivo para querer ser alguém que não precise de uma cela.
Charlie assentiu devagar, uma aceitação tácita. — Ela faz isso com a gente, não faz? — Ele apontou para Bella, que sorria para Alice à distância. — Ela é o norte de bússola que eu nunca soube que precisava. E eu não vou deixar ninguém quebrar essa bússola, Edward.
Edward sustentou o olhar de Charlie, a sinceridade gravada em cada linha de seu rosto.
— Eu amo a sua filha, Xerife. Mais do que eu achava ser capaz de amar qualquer coisa neste mundo. Eu não vou estragar isso.
O silêncio que se seguiu foi o selo de um pacto. Charlie acreditou. E Edward, por um instante, esqueceu o fantasma da mentira que o perseguia.
O domingo na casa dos Swan foi preenchido pelo cheiro de café e pelo som de lápis riscando papel. Edward estava debruçado sobre a mesa da cozinha, as sobrancelhas franzidas em uma concentração ferrenha enquanto Bella corrigia seus exercícios de química. O "garoto nota zero" estava se transformando, por pura força de vontade e pelas mãos pacientes da namorada, em um aluno que finalmente entendia que sua inteligência era uma ferramenta, não um fardo.
— Eu vou reprovar, Bella. Minha mente simplesmente se recusa a aceitar que esses elementos queiram se misturar — reclamou ele, jogando o lápis sobre a mesa.
— Pare de drama, Cullen. Você gabaritou tudo — disse ela, deslizando o papel de volta para ele. — 8.8, 9.2, e um 10 redondo no simulado. Você é um gênio preguiçoso, mas agora é só um gênio.
Edward olhou para as notas como se fossem escritas em outra língua. O sorriso que surgiu em seu rosto foi radiante. Quando Charlie entrou na cozinha e viu a cena, o rapaz que ele costumava escoltar para a delegacia agora comemorando uma nota de química, ele apenas sorriu de lado e disse:
— Fica para o jantar, Edward. Não é um pedido.
A segunda-feira na Forks High começou sob uma falsa sensação de triunfo. Edward entregara sua prova de química com uma tranquilidade inabalável, encontrando Jasper no corredor logo depois. A mudança era visível: a postura mais ereta, o olhar menos defensivo. No intervalo, o grupo se reuniu perto dos armários, uma pequena ilha de estabilidade no caos estudantil.
Emmett Mcartney aproximou-se, batendo no ombro de Edward com uma força que teria derrubado um homem menor.
— Olha só o nosso garoto de ouro ! Você está mesmo levando isso a sério, não está? A Swan realmente te colocou nos trilhos.
Edward olhou para Bella, que conversava com Alice a poucos metros.
— Ela salvou a minha vida, Emmett. De formas que eu nem consigo explicar.
Emmett sorriu, mas havia uma hesitação em seus olhos.
— E aquela aposta, cara? Os dois mil dólares na mesa... como fica?
Edward enrijeceu, a sombra voltando a nublar seus olhos verdes.
— Acabou, Emmett. Aquilo morreu no momento em que eu percebi que ela era o meu universo. Eu não quero esse dinheiro. Eu não quero nada que venha daquela idiotice.
— Já devia ter acabado mesmo — concordou Emmett, suspirando. — Considere o assunto encerrado, maninho.
O que eles não perceberam foi que, escondida atrás da fileira de armários logo atrás deles, Tanya Denali estava estática, com o celular na mão. O sorriso em seu rosto era predatório, uma expressão de pura malícia destilada. Ela ouvira cada palavra. Aposta. Dois mil dólares. Salvar a vida.
Tanya olhou para Bella, que ria de algo que Alice dissera, e sentiu uma satisfação doentia. Ela tinha a arma perfeita. O conto de fadas dos Swan e Cullen estava prestes a sofrer um acidente fatal, e ela seria a responsável por puxar o gatilho da verdade. Enquanto Edward caminhava em direção a Bella, sentindo-se mais leve do que nunca, a teia de aranha da traição começava a se fechar ao redor de seu pescoço, e o presságio de que o tempo estava se esgotando pairava sobre o corredor como o cheiro de ozônio antes de um raio.
Fale com o autor