Lembranças de Nós Dois
6 Don’t Blame Me
A manhã começou diferente antes mesmo de Bella perceber.
Não por causa do clima, Forks continuava exatamente como sempre, coberta por um céu cinzento e pesado, com a chuva fina caindo de maneira constante como se o tempo nunca realmente mudasse , mas por causa da sensação incômoda que se instalava lentamente dentro dela desde o momento em que abriu os olhos. Era aquela inquietação silenciosa, difícil de nomear, que fazia tudo parecer um pouco mais intenso do que deveria.
Bella estava na casa de Alice.
O quarto era o oposto completo do dela: cores suaves, organização cuidadosa e pequenos detalhes espalhados por todos os lados, como se cada objeto tivesse sido escolhido com intenção. Alice já estava acordada há algum tempo, andando de um lado para o outro com energia demais para aquela hora, enquanto Bella ainda estava sentada na cama, tentando entender por que tinha aceitado dormir ali.
— Você não vai com esse moletom — disse Alice, puxando a porta do armário com determinação.
Bella soltou um suspiro.
— Eu sempre vou com esse moletom.
— Exatamente o problema.
Alice virou-se com duas opções nas mãos, analisando a amiga como se estivesse diante de um projeto importante demais para ser tratado com descuido.
— Você precisa existir mais.
Bella franziu levemente a testa.
— Eu já existo.
— Não do jeito certo — Alice respondeu, caminhando até ela e praticamente empurrando as roupas em sua direção.
— Alice…
— Sem discussão.
Houve um momento de resistência,pequeno, mas Alice sempre vencia esse tipo de batalha e minutos depois, Bella estava parada diante do espelho, completamente imóvel.
A blusa era simples, mas não escondia, o jeans era o mesmo,mas parecia diferente e o cabelo, solto, caía de forma mais natural.
Ela não se reconheceu imediatamente.
— Pronto — disse Alice, satisfeita — agora você parece alguém que merece ser olhada.
Bella engoliu em seco e , por algum motivo isso a deixou nervosa.
Forks High estava mais barulhenta do que o normal naquela manhã.
Os corredores pareciam mais cheios, as conversas mais altas, os olhares mais atentos, como se alguma coisa estivesse prestes a acontecer e todo mundo, de alguma forma, soubesse.
Edward e Jasper estavam encostados perto dos armários quando Bella entrou.
E Edward…Parou completamente.
O olhar dele encontrou o dela de imediato e não saiu mais.
Havia algo diferente, não era só a roupa, era o jeito como ela caminhava, como ela aparecia.
— Nossa, é a Swan? — murmurou Jasper, olhando de lado.
Edward não respondeu, porque ainda estava olhando.
E, dessa vez não havia nada de calculado, nada de jogo, era puro impacto.
A escada principal estava cheia.
Movimento constante.
Gente subindo, descendo, conversando.
Bella subia com Alice ao lado quando a voz surgiu.
— Então é verdade.
Ela parou, não precisava virar para saber.
— O quê? — perguntou, calma.
Tanya estava alguns degraus acima, cercada pelas amigas, o sorriso carregado de veneno.
— Você e o Cullen.
O nome caiu no ar ficando completamente pesado e Alice tensionou ao lado dela.
— Isso não é da sua conta — Bella respondeu, tentando continuar.
Mas Tanya não saiu, pelo contrário.
Ela deu um passo à frente e a empurrou, forte e direto, fazendo Bella perder o equilíbrio.
O corpo inclinando para trás, o coração disparando em um segundo que pareceu longo demais.
Ela segurou o corrimão, e por pouco o pior não acontece.
Algumas pessoas gritaram, fazendo o barulho explodiu ao redor.
Alice avançou imediatamente.
— Você enlouqueceu?!
Tanya apenas sorriu, como se aquilo tivesse sido divertido.
No fundo da escada, Edward já estava se movendo rápido, sem pensar, sem medir e Jasper foi atrás para evitar que ele fizesse alguma besteira.
A sala de literatura estava mais silenciosa do que o normal quando Bella entrou, mas a tensão veio junto com ela, como se ainda estivesse grudada na pele.
Ela sentou na primeira fileira, tentando ignorar tudo e voltar ao normal.
Mas o corpo ainda estava tenso e em alerta quando a porta se abriu e Edward entrou indo direto até ela.
— Você está bem? — perguntou, a voz baixa, mas carregada de algo diferente.
Bella levantou os olhos.
— Estou.
— Ela te empurrou.
—Ta tudo bem— Ela mentiu como fazia a anos.
— Você podia ter se machucado.
— Mas não me machuquei.
Ele não gostou da resposta.
Nem um pouco.
— Isso não muda...
— Cullen — ela interrompeu, mais firme — Eu disse que estou bem.
E então veio a voz, irritante.
Tanya Denali, estava no fundo da sala, com um sorriso enorme e malicioso que zombava de tudo e todos ao redor.
— Que cena bonita.— ela provocou fazendo as amiguinhas rirem com ela.— A nerd ganhou um guarda-costas.
A sala foi tomada por risadas cruéis, o que fez Edward ficar imóvel, por alguns segundos e então ele despertou do pequeno transe com fúria no olhar.
Levantou devagar, mas a cadeira arrastando no chão com um som seco que cortou o ar da sala.
Transformando os risos em silêncio assustador.
Ele caminhou, cada passo mais firme que o anterior, direto, sem desviar ou hesitar. Seus olhos verdes, quase azuis, agora estavam negros de ódio, que o consumia com seu coração batendo rápido demais mais.
Edward parou diante da mesa de Tanya, a olhando com uma expressão diferente e então com um movimento brusco, violento, empurrou todos os livros dela para o chão.
O som foi alto, que ecoou pela sala e algumas pessoas recuaram.
— Você ficou maluco, Cullen? — Tanya disse, levantando-se.
Edward não respondeu, apenas segurou a lateral da mesa, com os dedos tensionados e virou.
A mesa caiu com um estrondo brutal no chão, espalhando tudo ao redor.
O barulho reverberou pela sala inteira.
Alguém gritou, a professora ficou imóvel, mas Edward ainda não tinha terminado.
Ele virou o rosto lentamente, os olhos encontraram o extintor preso na parede e então ele foi, rápido e arrancou o objeto com força, fazendo o metal ranger ao sair suporte e lançou com tudo contra a porta, fazendo o vidro estilhaçar em dezenas de pedaços que se espalharam pelo chão com um som seco e cortante.
Silêncio absoluto tomou conta do ambiente. Todos com os olhos arregalados, assustado, sem se mexer, muito menos respir direito.
Edward voltou a olhar para Tanya.
E, dessa vez não havia nada contido ali.
— Se você encostar nela de novo… — disse, a voz baixa, mas carregada de uma ameaça tão real que parecia ocupar o espaço inteiro da sala — Eu acabo com você.
Ele deu um passo à frente e Tanya recuou na cadeira assustada, pela primeira vez sem resposta afiada, sem sorriso maldoso e sem controle.
— Senhor Cullen! — a professora gritou, finalmente reagindo — FORA DA SALA. AGORA!
Mas ninguém se moveu imediatamente, porque todos ainda estavam olhando para ele.
Para a forma como ele parecia perigoso.
Bella estava em pé, parada com coração disparado, mas não de medo. Era outra coisa, mais confusa e intensa.
Ela olhava para ele e Edward Cullen não parecia só problema.
Ele parecia algo que ela não sabia lidar.
E aquilo era muito mais perigoso.
O caminho até a diretoria foi feito em silêncio, mas não em um silêncio comum, era aquele tipo de ausência de som que pesa, que ocupa espaço, que parece empurrar o ar contra os pulmões e dificultar até mesmo a respiração. Bella caminhava à frente, os passos firmes demais para alguém que, poucos minutos antes, havia sentido o próprio corpo perder o equilíbrio no alto de uma escada. Os braços estavam cruzados contra o peito, não por frio, mas como uma tentativa instintiva de se manter centrada, de impedir que tudo aquilo ,o empurrão, as risadas, o barulho da mesa virando, o vidro estilhaçando, se transformasse em algo maior dentro dela.
Atrás, Edward não dizia uma palavra.
Mas a presença dele era impossível de ignorar.
Havia algo diferente no jeito como ele caminhava agora, menos descuidado, menos provocativo, e mais… contido. Como se toda a explosão de minutos atrás ainda estivesse ali, viva, mas presa sob uma camada fina de controle que poderia se romper a qualquer instante. O maxilar ainda estava tensionado, os dedos abrindo e fechando de leve ao lado do corpo, como se o impulso de quebrar algo ainda não tivesse passado completamente.
Tanya vinha alguns passos atrás, acompanhada pela professora.
E, pela primeira vez desde que Bella a conhecia…Ela estava em silêncio, sem sorriso, comentários maldoso ou controle absoluto de abelha rainha e aquilo, por si só, já era estranho o suficiente para deixar o ambiente ainda mais pesado.
Quando entraram na sala da diretoria, a mudança foi imediata.
O ambiente era claro demais, organizado demais, calmo demais, quase artificial diante do caos que ainda pulsava sob a pele de todos ali. A diretora levantou os olhos lentamente, analisando cada um deles com um olhar calculado, como se estivesse tentando entender a situação antes mesmo de ouvir qualquer explicação.
— Sentem-se — disse ela, com firmeza.
Bella foi a primeira a obedecer.
Edward demorou um segundo a mais, depois dois.
Só então puxou a cadeira, o som seco do metal contra o chão ecoando mais alto do que deveria naquele espaço silencioso, antes de se sentar sem olhar diretamente para ninguém.
Tanya se acomodou do outro lado.
A professora fechou a porta e o silêncio voltou, mais pesado e definitivo.
— Eu recebi um relato extremamente grave — começou a diretora, apoiando as mãos sobre a mesa com uma calma que parecia treinada — Destruição de propriedade escolar, comportamento agressivo e ameaça direta entre alunos.
O olhar dela foi direto para Edward.
— Senhor Cullen… o que você tem a dizer sobre isso?
Edward não respondeu imediatamente.
Na verdade, ele não parecia ter qualquer pressa em responder.
Os olhos dele estavam baixos por um segundo, depois se levantaram lentamente, encontrando o olhar da diretora sem qualquer sinal de arrependimento evidente.
— Nada Senhora Salvatore— disse, por fim.
Simples.
Direto.
E perigosamente vazio.
A diretora franziu levemente a testa.
— Nada?
Tanya se inclinou para frente, como se estivesse esperando exatamente aquele momento.
— Ele surtou, senhora Salvatore— disse rapidamente, apontando para Edward — Eu não fiz nada, ele simplesmente...
Edward virou o rosto na direção dela.
Devagar.
Sem pressa.
Mas o olhar…O olhar foi suficiente e Tanya parou.
A frase morreu antes de terminar.
Porque havia algo ali que ela não esperava, algo que, pela primeira vez não parecia brincadeira.
— Senhor Cullen — a diretora interveio, mais firme — Isso não vai ajudar em nada.
Mas Edward não respondeu, apenas desviou o olhar novamente, como se aquilo não importasse, como se nada daquilo importasse.
A porta se abriu e o ar mudou.
O xerife Charlie Swan entrou com passos rápidos, o olhar imediatamente encontrando Bella como se todo o resto simplesmente deixasse de existir no momento em que ele a viu.
— Bells, você está bem? — perguntou, aproximando-se.
Bella assentiu.
— Estou.
Mas Charlie já estava analisando.
Já estava avaliando.
Já tinha visto Edward o rosto dele endureceu na mesma hora.
— Cullen.
Uma palavra só, mas carregada de tudo que já existia antes mesmo daquela situação.
Logo atrás, Carlisle entrou, mais contido, silencioso e igualmente atento.
— Diretora Salvatore— disse ele, em um tom controlado.
O ambiente ficou menor, mais tenso e carregado.
A diretora respirou fundo antes de continuar.
— Senhor Cullen — disse, olhando diretamente para Carlisle — Devido à gravidade da situação, esta escola considera a expulsão como medida disciplinar adequada.
O silêncio foi imediato, denso e irreversível.
Edward não reagiu, nenhum movimento, defesa ou tentativa.
Como se aquilo fosse esperado.
Como se fosse apenas mais um resultado inevitável.
Charlie cruzou os braços.
— Parece justo.
Carlisle permaneceu em silêncio.
Mas o olhar dele se desviou para o filho e havia ali algo que não precisava de palavras.
Cansaço, decepção e preocupação.
Foi então que Bella se levantou, sem pressa, mas sem hesitação.
— Não— A palavra cortou o ambiente, limpa, firme, inesperada e todos olharam para ela.
— Bella—Charlie franziu a testa.
Mas ela não parou.
— Isso não está certo — continuou, agora olhando diretamente para a diretora, mesmo com o coração batendo forte demais contra o peito.
A diretora estreitou os olhos.
— Senhorita Swan, sente-se...
— Não, Senhora Salvatore — repetiu Bella, a voz mais firme agora — O Edward não fez isso sem motivo.
— Isso é mentira—Tanya se mexeu na cadeira.
— Cala a boca, Tanya— disse Bella, sem sequer olhar para ela.— Eu já tô de saco cheio de você!
E aquilo foi novo, até para ela mesma.
O silêncio ficou ainda mais pesado.
— Ela faz isso há anos — Bella continuou, respirando fundo antes de seguir — Implicância, humilhação, agressão, comentários… todo santo dia.
Charlie a olhou, surpreso.
— Bells…
Mas ela continuou.
— E hoje de manhã — a voz falhou por um segundo, mas ela se manteve firme — Ela tentou me empurrar da escada.
O impacto foi imediato.
— O quê? — Charlie virou-se completamente para ela.
Bella assentiu.
— Eu quase caí.
A diretora ficou imóvel por um instante.
— Isso é uma acusação séria—
— É a verdade, a senhora pode confirmar com a Alice Brandon — Bella respondeu, sem desviar o olhar.
Tanya se levantou.
— Isso é absurdo...
— Sente-se, senhorita Denali— a diretora ordenou.
E, dessa vez…Tanya obedeceu.
Bella respirou fundo, as mãos tremiam levemente, mas a voz não.
— O Edward não tem nada a ver com isso — disse — Ele só me defendeu.
Ela olhou para ele por um segundo e havia algo ali, algo que não existia antes.
— E se ele for expulso por isso… — continuou, voltando-se para a diretora — Isso vai ser injusto e eu não vou ficar calada.
O ar pareceu travar.
— Eu abro uma reclamação formal contra a escola — completou — Por punir um aluno que só reagiu depois que ninguém fez nada por anos.
Silêncio.
Pesado.
Irrefutável.
Charlie passou a mão pelo rosto.
— Bella…
Ela virou para ele, os olhos firmes.
— Pai… eu sei que você não gosta dele.— disse firme e Charlie travou.— Mas ele foi a única pessoa… além da Alice… que me defendeu nessa escola.
A frase ficou, pesada, honesta e difícil de ignorar.
Edward estava imóvel, mas não distante e pela primeira vez ele estava ali de verdade, e não sabia o que fazer com isso.
Porque ninguém,nunca, tinha ficado do lado dele daquela forma.
A diretora respirou fundo, mais lenta dessa vez.
— Isso muda a situação — disse, por fim.
Ela olhou para Tanya, depois para Edward.
— Senhor Cullen, você não será expulso.
Pausa.
— Mas será suspenso por conduta agressiva.
Equilíbrio, consequência e decisão final.
Quando Bella saiu da sala, o corredor parecia mais silencioso do que antes ou talvez fosse ela que estivesse diferente.
Ela caminhou alguns passos...
— Swan.
Ela parou, fechou os olhos por um segundo e virou.
Edward estava encostado na parede, mas não era o mesmo de antes.
Havia algo quebrado...algo novo.
— Você não precisava fazer isso… — disse ele, a voz mais baixa, menos defensiva.
Bella soltou um pequeno suspiro.
— Eu sei, mas eu quis...
Ele a observou com atenção real.
— Por quê?
Bella hesitou, mas respondeu.
— Porque você não merecia aquilo.
Simples,sem enfeite ou defesa.
Edward deu um pequeno passo à frente.
— Você confia em mim?
Erro, ela travou os olhos nos dele.
— Não.— respondeu honesta.
— Justo.—Ele sorriu de leve.
Mas o silêncio que veio depois, não era mais o mesmo.
Porque, pela primeira vez, não era só um jogo para nenhum dos dois.
E isso era o verdadeiro problema.
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