Lembranças da Mulher de Cabelos Pretos e Ondulados
4 Lembranças do dia no trem
Acordo com o barulho do despertador, são cinco e meia, e tenho de ir para a escola. Visto o uniforme e pego minha mochila, já organizada. Como de costume vou de ônibus para a escola.
"Seria bem mais rápido ir de trem, cerca de quinze minutos a menos. Mas a única coisa que não preciso são momentos que me lembrem ela."
• Flashback on•
Estamos eu e ela na estação de trem, que estava quase vazia. Estávamos sentados em um banco vermelho, de frente para os trilhos, de costas para um mural amarelo. Ela me beijava e me abraçava, havia um pouco de tristeza um seu olhar, mas não pensei que fosse sério, afinal, ela brincava e gargalhava comigo.
Pegamos um trem consideravelmente vazio. Continuamos a brincar, até que eu fiquei com sono e ela interrompeu a brincadeira, me amamentando com seu seio farto. Adormeci em seus braços e ela ficou acariciando minha cabeça.
•Flashback on•
"Provavelmente já estava arrependida por estar me trazendo para esse orfanato."
***
Volto para a "minha casa", para o almoço em "família". Nos dias de semana consigo escapar do café da manhã, na enorme mesa de madeira. Mas, não se pode faltar mais que duas refeições no dia, senão, trinta palmadas no traseiro na frente de todos.
–Está atrasado, senhor Collins. Entre rápido e em silêncio. — o zelador me disse no portão.
Entro na sala, e vejo que agora temos uma bela mancha de vomito na parede. Todos estavam de olhos fechados rezando o Pai Nosso. Me sentei silenciosamente e acompanhei a reza de onde estava.
–Por que está atrasado, senhor Collins? — Adelaide me perguntou assim que todos dissemos "Amém".
–Perdi o primeiro ônibus. — eu disse de cabeça baixa, fingindo estar culpado.
–Já disse para o senhor vir de trem. Assim nunca chegaria atrasado.
–Desculpe... Mas pegar trem, é inviável a mim. Me lembra muito ela... É muito doloroso. — digo com lágrimas nos olhos.
–Não devia se sentir tão mal por quem não te ama. Quem te abandona não merece suas lágrimas. — ela diz arqueando uma das sobrancelhas.
–Não fale do que não sabe. Você não tem esse direito. — digo elevando minha voz e de punhos fechados.
–Se controle! É só uma opinião. Apenas quero seu bem. — ela diz gritando e se levantando.
"Bem? O que está mulher sabe sobre bem? Minha vontade é enforca-la, enforca-la até que seu coração não pulse mais. Mas tenho de me controlar, um dia revidarei à altura."
Comemos em silêncio e depois cada um foi para os seus aposentos, uns para cochilar, outros para se arrumar para ir a escola e para ir ao trabalho. Nunca se saía daquela casa para fazer coisas informais antes dos dezoito, quando você já pode dar tchau para aquela gente ou escolher ficar lá até os vinte, coisa que a maioria de nos faz, para ter arrumado dinheiro suficiente para seguir a vida sendo independente.
Meu destino durante a tarde é o trabalho, que por sorte é no mesmo edifício que Beth, graças a ele, podemos passar mais tempo juntos.
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