Lembranças da Mulher de Cabelos Pretos e Ondulados

10 A volta para casa, uma carta e uma menina


Notas iniciais
Espero que goste :)

Voltamos para a mesa e pouco tempo se passou e as pizzas chegaram. Comemos em silêncio assim como fazemos no orfanato nas refeições conjuntas. Assim que todos nós terminamos fomos para o ponto de ônibus.
–Você come tão bonitinho! — falo para Beth enquanto esperávamos o ônibus e ela começa a rir. -Sério, nunca tinha percebido... Você come muito fofinho.
–Então, tá. Só não fique me olhando demais enquanto como. — ela fala dando ombros.
Ficamos rindo até que temos de parar para subir no ônibus.
–Já viu mais alguma coisa para festa do nosso noivado? — pergunto a ela com os olhos semicerrados.
–Ainda bem que perguntou... Estava pensando em servirmos alguma coisa tipo um bem-casado, customizado e dar o nome de bem-noivado. — ela fala com os olhos bem abertos e com uma sobrancelha semi-arqueada .
–Legal! Boa idéia. Já comentou com alguém sobre essa festa?
–Não, só com Andrea, por quê? — ela dala desconfiada.
–Nada muito sério. Só não podemos convidar muita gente, temos de selecionar bem. — falo levantando as mãos.
–Ah, é mesmo. No máximo... dez convidados de fora orfanato para cada?
–Para mim está ótimo... Talvez sobre convites... — falo pensando na minha curta lista de amigos.
–Acho que também vai acabar sobrando dos meus. — ela fala meio aliviada.
Ficamos em silêncio por uns dois minutos até que chegamos no orfanato.
–Até amanhã. — ela fala suavemente no meu ouvido e logo em seguida me beija.
–Até... — falo enquanto soltava sua mão.
Antes de ir para o quarto, vou a cozinha beber água. E vejo por uma pequena brecha da porta da sala da administração, Adelaide entregando uma carta para a menina que tinha chegado aos dezoito hoje. Continuei observando, e pude ver que a menina abriu a carta e começou a chorar, a cada palavra que lia, uma nova lágrima e antes que chegasse ao fim desmaiou. Sai de lá rapidamente e fui tomar banho.
Durante o banho eu fiquei tentando adivinhar o que estava escrito naquela carta. Descido que não era nada e que não há porquê de me preocupar.

***
São 6:30 e acabo de entrar no ônibus.

"Assim como temia... Ainda estou pensando sobre a carta que foi entregue a Madge ontem na minúscula sala administrativa e essa noite sonhei como se eu no lugar dela, recebendo uma carta escrita por minha mãe."

Hoje a menina de cabelos escuros sentou no banco ao lado de onde sento normalmente.
–Posso me sentar aqui? — pergunto a ela gentilmente.
–Claro! — ela responde me revelando sua voz doce e seu sorriso aberto.
Me sento encostado na janela, e ela fica inquieta a me observar. E decido mudar um pouco o programa e deixar os fones de lado.
–Como você se chama? — pergunto com um pequeno sorriso.
–Alana... Acho que minha mãe era brasileira, meu pai nunca quis conversar muito sobre ela, apenas diz que me pareço com ela... Diz que tenho os seus cabelos e a seus olhos. — ela fala com um sorriso sincero — E o seu nome?
–Eduardo... Também não sei muito sobre minha mãe, ela se parecia um pouco com você... Ela me doou para um orfanato, eu tinha uns três anos, mas ainda me lembro de alguns momentos com ela... E não me lembro do meu pai, acho nem cheguei a conhece-lo — falo meio pensativo.
–Para onde você vai todos os dias? — ela me pergunta casualmente, mas depois parece se arrepender. — Desculpa... Acho que fui... Apressada demais.
–Não... Está tudo bem... Sempre vou a escola, e você para onde vai?
–Na verdade sempre estou voltando... — ela fala girando um anel, eu me espanto e me encolho, ela percebe e se explica — Sempre estou voltando do trabalho... trabalho em um laboratório de pesquisa.
–Legal. Trabalho em uma empresa de telefonia... Não é nem um pouco interessante, pessoas que nem te conhecem te xingando pelo telefone. — falo sorrindo um pouco.
–Também não é muito legal passar a noite inteira, em uma sala branca tentando matar micro-organismos com micro gotículas de substâncias químicas. Acredite... Nem sempre não dormir de noite é um sinal de diversão. — ela fala rindo e acabo me envolvendo na sua risada.
Ela conecta os fones, fecha os olhos e se balança levemente. Fico a observando ouvindo minha playlist.
–Tenho que ir... Até um outro dia. — falo a tirando do seu "transe musical".
–Tchau... — ela diz acenando.