Lembranças
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Todas aquelas pessoas que estavam ali aproveitando o sol e a música agradável eram alheias à escuridão e ao tumulto dentro do meu peito. Eu queria expulsar todos dali, declarar o término do festival e apenas ir para minha casa e brigar com minha solidão. Mas eu não podia. Então, como sempre fiz, moldei um sorriso quase verdadeiro em meus lábios assim que encontrei meu marido e meus amigos novamente. Henry soltou minha mão e se jogou em Mary Margaret rapidamente e os dois começaram a brincar. Robin me fulminava com os olhos.
– Onde diabos você estava? – Ele levantou-se e quis me enfrentar.
– E-eu fui com Henry até as barracas de comida, ele disse que Grace estava lá. Mas ele se enganou, então voltamos. – Minha voz intimidada impedia que meu filho ouvisse aquela mentira e me desmascarasse. Ainda bem.
Ele pareceu não se importar muito com meus motivos.
– Comprou nosso almoço, pelo menos? – Ele pôs as mãos na cintura e logo revirou os olhos ao ver minha resposta negativa com a cabeça. – Fique aqui. Eu vou lá comprar qualquer coisa. – Eu apenas assenti.
Sentei-me ao lado de Henry e Mary, que agora brincavam de adivinhações, e decidi juntar-me a eles, a fim de tentar me distrair.
– Ok, mamãe, então você começa adivinhando. – Ele cochichou algo no ouvido de minha amiga.
– Ok, pode mandar. – Eu ajeitei minha postura e toda a minha atenção se voltou para meu filho e sua pergunta. – Espera, é uma coisa? Um lugar? Uma pessoa? – Ele riu do meu verdadeiro engajamento na brincadeira.
– Nesse caso é uma pessoa. Primeira dica: É diferente. – Fiz uma careta sugerindo que eu não sabia e ele continuou.
– É alta. – A mesma careta ainda estava em meu rosto.
– É engraçada. – Resolvi arriscar um palpite.
– Seu pai? – Mary e Henry caíram na gargalhada e eu os observava com cara de tacho.
– Claro que não, mãe!
– Ué...
– Vou continuar a dar as dicas, tudo bem? – Mary Margaret se prontificou. Assenti. – Vamos ver... é uma pessoa próxima de nós.
– Ainda não faço ideia. Pode ser qualquer pessoa da igreja!
– É uma mulher.
– Nossa, ajudou demais.
– É bonita.
– Existem muitas mulheres bonitas por aí. – Nesse momento, senti uma ponta de nervosismo tomar conta de mim porque, inconscientemente, ao pensar numa mulher bonita, eu pensava em Emma.
– Ela é muito bonita, Regina. – Na minha cabeça, era Emma Swan. Porém, de jeito nenhum Mary Margaret e meu filho teriam pensado nisso. Fiz uma careta pensativa.
– Eu? – Levantei o olhar e passei a mão pelo meu corpo, fazendo-os rir. – Tem que ser eu.
– Mãe, você é muito bonita, mas não é você. – Henry respondeu ainda rindo.
– Ela tem uma história muito parecida com a sua, e acho que você deveria ouvi-la. – Mary lançou-me um olhar sério e até repreensivo. Era Emma. Mas como ela sabia de tudo? Claro. Que idiota eu fui. Emma e Mary são amigas também, ela deve ter contado. Merda.
– Mary, eu...
– Eu também acho, Mary. – Uma voz me interrompeu. Aquele som voou como uma pena até meus ouvidos e ali repousou, e eu lhe dei abrigo. Virei a cabeça instantaneamente e tive minha confirmação: Emma.
Ela grudou seus olhos em mim e parecia sugar cada parte do meu rosto e do meu corpo.
– Regina, mulher, como foi difícil te encontrar. Céus! – Ela tentou soar divertida, mas eu ainda estava muito confusa. Há quanto tempo ela estava ali?
– E-Emma...
– Eu sei, eu sei. Ouvi as risadas inconfundíveis de Henry e Mary e as segui, simples assim. Regina, nós precisamos conversar. – Ela cruzou os braços no peito e abaixou o olhar. Sua angústia ecoava por todo lugar, e até eu já estava farta da minha pirraça. Havia chegado a hora de enfrentar Emma Swan e tudo o que ela era pra mim. Olhei para Mary de rabo de olho e ela simplesmente assentiu. Uma parte de mim estava aliviada por Mary saber, assim me poupava contar. Entretanto, eu não sabia sobre o quanto ela tinha conhecimento e isso me deixava preocupada.
Tudo bem. Vamos lá. – Eu concordei com um suspiro. Ela me ajudou a levantar, assim como fizera quando fomos ao parque e o toque de sua mão na minha fez todo o meu corpo se eletrizar. Dessa vez, não deixei o impulso me fazer colidir contra ela. Por mais que eu quisesse, eu não poderia cair em seus braços. Imaginem só.
Caminhamos um pouco até nos perdermos mais ainda no meio dos espectadores e aproveitamos que estava no intervalo entre uma atração e outra. Ela mergulhou com seus verdes olhos nos meus e ali fez sua morada.
– Regina, não tire os olhos de mim. Eu preciso que você me escute. Sobre tudo. Entendeu? Mas eu não quero que você deixe de olhar nos meus olhos nem por um segundo.
– Eu não faria isso nem que eu quisesse demais. – Sussurrei.
– Oi?
– Nada. Tudo bem, entendi. Comece quando quiser. – Ofereci-lhe um sorriso duro.
– Olha... eu quero começar te pedindo desculpas. Por tudo. Eu deveria ter lhe contado sobre mim muito antes. Na verdade, desde que aceitei ir almoçar na sua casa. Eu estava prestes a entrar na sua vida, e eu queria muito isso, então eu deveria ter contado. Perdão. – Ela deu uma pausa. Acho que esperava uma resposta. Quando viu que apenas continuei olhando fixamente para seus vitrais sagrados, ela continuou. – Eu sou gay, Regina, e sei que isso é uma abominação segundo a sua crença. Posso ser abominável aos olhos desse tal Deus, mas eu sou uma pessoa boa. Eu trabalho pra caramba, ajudo muita gente e já passei por muitas coisas. As pessoas têm essa visão totalmente distorcida do mundo homossexual. Nunca fui e jamais serei uma mulher promíscua. Gosto de acreditar que Deus não me odeia por eu amar outras mulheres, mas Ele me odiaria se eu pregasse a promiscuidade por aí. E eu não faço isso, Regina. Eu acabei de perder as duas pessoas que eu mais amava em toda minha existência... e aí você entrou na minha vida, e você, Regina, é uma pessoa que eu adoraria amar. Eu havia acabado de pensar nisso e você me despejou. Eu fiz planos. Eu planejava ser a amiga que você nunca teve mas da qual sempre precisou. Eu planejava te abrir os olhos, te encorajar a ser escritora, cantora, chef de cozinha ou o que mais você ame fazer. E eu planejava ter um ombro amigo sempre que eu precisasse. Eu queria virar sua poesia quando eu te contasse sobre minhas dores, mas você me enxotou porque, para variar um pouco, eu beijo garotas. Mas eu te entendo. Naquele dia, eu só queria que você soubesse que eu também tinha um segredo que eu estava pronta para te contar. Pelo visto eu estava errada.
– Emma, eu...
– Não, Regina, não. Deixa eu terminar. Eu queria que você soubesse que você não está sozinha nessa. Que nós duas temos grandes coisas guardadas dentro de nós, mas, se nós permanecêssemos unidas, poderíamos conviver com elas. Eu entendo como deve ter sido difícil para você ouvir aquela palavra tão asquerosa e herege, mas eu precisava te dizer. Regina, mesmo que você não queira olhar para a minha cara nunca mais, eu preciso que você saiba que eu realmente me importo com você e estarei sempre aqui por você, para te salvar da escuridão. Sempre.
– Emma, isso é tão... – Mesmo que ela me desse permissão para tirar os olhos dela, eu não o faria. Eu estava tão hipnotizada por todas aquelas palavras que não percebi que meu rosto estava irrigado. – Nossa, obrigada por me dizer tudo isso. Realmente... foi demais para mim. Ter te contado tudo sobre meu passado tão rapidamente e ouvir você falar uma coisa são importante sobre você e tão impactante para mim realmente não foi a coisa mais divertida e agradável do mundo. – Dei uma risada fraca, secando meu rosto com as costas da mão. – Emma, eu quero que você seja minha poesia. Quero que você me salve da escuridão, quero ser seu ombro amigo. Não quero nem saber se você beija garotas ou se Deus vai me odiar por eu te amar do jeito que você é, mas é essa a verdade. Eu te amo, Emma Swan. – Porra. Merda. Caralho. Puta que pariu. O que foi isso, Regina Mills?! Você acabou de se declarar para Emma Swan?!?! Não. Bem, tecnicamente, eu só estou respondendo à declaração de Emma. É tudo apenas amizade, é claro que ela entende isso. É claro que ela quer somente isso. Pensei repetidamente.
– Regina, eu também te amo. – E então nossos olhares finalmente desenlaçaram as mãos, pois os braços fortes de Emma envolveram minha cintura e me trouxeram para perto. Abracei seu pescoço e embolei minha mão em seus cabelos, guiando sua cabeça até meu pescoço. E ela repousou ali, sua respiração batendo em minha pele e fazendo meus pelos se eriçarem, como o farfalhar das folhas de uma árvore na brisa da madrugada. Fechei meus olhos e me permiti sentir aquele calor peculiar, aquele perfume doce e aquela presença da qual senti tanta falta. Até aquele momento, eu não havia percebido o quanto eu senti falta de Emma Swan. Ouvi-la falar era a coisa melhor do planeta, e senti-la em meus braços era ainda mais maravilhoso.
Nosso momento fora interrompido somente por alguém limpando a garganta atrás de Emma. Abri os olhos e vi meu digníssimo esposo parado, como um dois de paus, assistindo àquela demonstração de afeto. Bem que ele podia pegar algumas dicas com a Emma.
– Robin? Como você me achou? – Logo me afastei de Emma e fui ao encontro dele.
– Eu fiquei te procurando, ué. Henry me disse que você havia saído de perto deles com essa sua amiga.
– Robin! Olha como fala da-
– Emma. Emma Swan. – Ela me interrompeu, também se aproximando de nós e estendendo a mão para meu marido. Ele a encarou por alguns segundos mas logo a apertou e a balançou educadamente.
– Prazer, Emma. Eu sou o Robin. – E ele deu a ela seu típico sorriso sarcástico. Ele estava com raiva.
– O famoso Robin Hood. – Emma também não parecia muito confortável.
– Famoso?
– Sim, ahn, Regina fala muito sobre você.
– Espero que só coisas boas... – Seu sorriso agora carregava algo verdadeiro. Ele realmente queria saber que eu tagarelava sobre meu príncipe encantado com minha amiga. Esse pensamento me fez querer rir, então simplesmente mordi o lábio e olhei para o chão.
– Ah, sim. Claro, Regina fala coisas absolutamente ótimas sobre você! – Até um surdo notaria a ironia em sua resposta.
– Que bom, então. Regina não fala muito sobre você... mas creio que é uma ótima pessoa. – Ainda com seu veneno escorrendo pelo queixo, Robin apenas sorriu. Emma olhou para mim rapidamente e sorriu de volta, um pouco decepcionada.
Uma raiva subiu por todo o meu corpo naquele momento: como aquele homem com quem troquei alianças conseguia ser tão manipulador e sonso? Por um segundo, por um mísero segundo, eu achei que ele realmente estava tentando ser legal. Deus, ele me levava do céu ao inferno em uma fração de segundo. Ou de sorriso, ou de palavra. Com Robin, bastava apenas uma sílaba para me tirar do sério.
Eu falava sobre Emma Swan apenas da hora que eu abria meus olhos pela manhã até quando minhas costas, nuas ou vestidas, descansavam sobre o colchão. Na maioria das vezes, meu marido não estava nem aí para o que eu falava, o que me aliviava um pouco porque ele era tão desligado que nem devia notar minha cara de idiota quando o assunto era aquela engenheira cuja engenharia era tão complexa que eu não conseguia pô-la numa fórmula. Quem dera.
– É... não temos nos falado muito ultimamente. A produção do festival me tomou muito tempo e eu tive alguns, ahn... problemas pessoais. – A troca de farpas estava apenas começando e, antes que a coisa toda piorasse, resolvi intervir. Puxei Emma pelo braço e comecei a andar.
– Robin, encontro vocês daqui a pouco. Emma e eu estávamos no meio de um assunto importante.
– Que assunto? – Parei meu trajeto e olhei para trás.
– Um projeto nosso. Nada demais. Vamos, Emma. – Tentei retomar meus passos, mas a voz de Robin me interrompeu novamente.
– E como você pretende me encontrar nessa multidão? – Era uma oportunidade que ele deu para me fazer desistir de qualquer que fosse meu assunto com Emma. Seria independência demais.
– Eu sempre vou te encontrar. – Sorri tortamente e arrastei Emma de volta para nossas palavras de redenção e perdão, sem mesmo sair do lugar. Foi meu marido que se afastou de nós. Como ele é cavalheiro.
– Então... projeto? – Emma arqueou uma sobrancelha e falou divertidamente.
– Ah, foi a primeira coisa que me veio à cabeça. Onde estávamos? – Sorri, desta vez genuinamente.
Ela estava prestes a ecoar aquela voz da qual eu tanto gostava, mas fomos surpreendidas por um som alto. A próxima atração estava no palco. E nossos olhos se arregalaram simultaneamente e Emma teve seu momento fangirl. Era Mario, o colírio adolescente do R&B, que começava a cantar as palavras de Let me love you. E acho que aquela foi a cena mais adorável, cafona e irresistivelmente apaixonante que eu já havia visto: Emma Swan dublava todos os versos, olhando no fundo de meus olhos, e dançava todos os passos como se ela ficasse na frente da TV imitando o cantor. Um sorriso abestalhado não saía da minha boca nem por um decreto divino, e eu queria que ele nunca saísse.
Baby, eu não entendo
Você gosta de ser magoada?
Sei que você sentiu o perfume, a maquiagem na camisa dele
Você não acredita nas histórias dele
Você sabe que são mentiras
Má como é, você continua por perto e nem sabe por quê
Aquele recado era tão claro que eu não pude deixar de ter outra reação. Puxei-a com uma certa brutalidade e nossos corpos se chocaram. Nossas testas ficaram coladas por alguns segundos e nenhuma de nós sabia o que fazer. E então eu soube.
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