Lembranças

3 Capítulo 3


Notas iniciais
Genteeee, sério, muito obrigada pelos comentários

Acompanhei Emma e tudo o que compunha aquele ser incógnito até a porta. Apesar de sempre ter sido sociável na igreja, aquele momento me deixava nervosa. Da primeira vez que tive que me despedir de Emma Swan, eu não via um palmo à minha frente. Da segunda, estávamos no meio de um supermercado, procurando molho de tomate. Era uma situação descontraída e estávamos a uma distância segura. Só que agora... agora eu havia percebido em alta definição todos os traços dela, e como eles eram celestialmente desenhados. Graças a Deus que foi ela quem começou:

– Então... Regina, muito obrigada. – Paramos uma de frente para a outra. – A comida estava uma delícia! De verdade, você tem jeito para a coisa! – Rimos juntas.

– Eu é que agradeço, senhorita Swan. Obrigada por me encorajar, mesmo sem ter me visto praticar os outros hobbies.

– Mal posso esperar para ver. – Senti um arrepio dominar minha espinha ao ouvir aquilo.

Eu queria dizer para ela não esperar, queria puxá-la para dentro de casa novamente e cantar, desenhar, recitar poemas, assistir à filmes, preparar besteiras para comer, enfim, queria dizer para que fosse minha amiga vinte e quatro horas por dia, começando naquele minuto. Mas ela foi mais rápida ao continuar.

– Bom, eu já vou indo. – Depois de sorrir para mim e eu me derreter por dentro, ela puxou da carteira um cartão. – Meu telefone. Quando estiver se sentindo sozinha, me ligue. A qualquer hora. Mesmo que eu não possa falar, eu gostaria de te ouvir. – E lá estava mais um sorriso que, acompanhado de suas palavras, me fizeram flutuar. Peguei o cartão e o li em voz alta.

– Emma Swan, engenharia elétrica. Que fofo esse cisne com uma coroa. E nada modesta, né? Achando que é a rainha do pedaço. – Agora foi minha vez de fazê-la gargalhar.

– E eu sou, ok? – Cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha. – Mas, na verdade, é uma longa história a desse desenho. Um dia eu te conto. Quando estiver preparada.

– Tá, agora você me deixou com medo.

– Não é nada demais. Bem, não é para ser, mas acaba sendo, enfim. Um dia. Prometo. – Repousou uma das mãos e meu ombro. – Adeus, Regina.

– Até mais. – Sorrimos tristemente antes de ela virar de costas e ir em direção a seu carro. Nenhuma de nós queria se despedir. Notei que seu carro era um velho fusca amarelo, caindo aos pedaços. Também notei que a porta do passageiro era de um tom mais claro, como se tivesse sido substituída.

Fiquei do lado de fora até seu carro virar a esquina, num ato protetor. Se eu pudesse, acompanharia o veículo até sua casa, para me certificar de que chegaria bem. Afinal, é isso que fazem os amigos, não é?

Passei a tarde fazendo desenhos. Eu amava desenhar cavalos, suas crinas esvoaçantes e suas patas firmes. Na verdade, eu gostava de retratar a liberdade como um todo. Desenhava também pássaros, e seus rumos indefinidos, e seus ninhos firmes. E agora eu desenharia a personificação da liberdade: Emma Swan. Ela era um cavalo, um pássaro, um avião, uma viajante. Tinha suas próprias ideias e não tinha medo de expô-las. Não abria mão da sua fé nas pessoas, ao invés de prender-se a algo imaginário e possivelmente inexistente. Eu gostava de acreditar em Deus. Sentia que precisava. Porém, eu vejo o quanto Emma é feliz sem ter esse compromisso com alguma força de cuja existência não temos plena certeza. Eu não sabia se Deus era homem ou mulher. Se era gordo ou magro. Se tinha barba e cabelos brancos como os filmes e desenhos sempre me mostraram. Mas de uma coisa um tinha certeza: Emma Swan era real; era uma mulher, alta, magra, loira e com os olhos mais incrivelmente verdes que já vi. E parecia ser muito mais fácil e confortante acreditar nela.

Enquanto essas divagações povoavam cada pedacinho da minha mente, na folha de papel à minha frente havia as curvas douradas de seu cabelo e de seu corpo. No desenho, foquei em seu rosto e em todas as curvas de seus olhos, cílios, nariz e boca. Apesar de minha ideia inicial ter sido a liberdade, mesmo nesse formato eu conseguia enxergar a vida de Emma através da folha. Ela segurava um olhar firme, imponente. Ela era a capitã de sua alma e não havia ninguém que pudesse tirar isso dela.

Desenho da Regina

Fui tirada de meu ócio criativo e meu transe quando escutei a porta batendo.

– Oi, mãããe! Tô com fome! Tô com sede! Vamos jogar Monopoly? – Henry gritava no andar de baixo.

– Olá, querido! Já estou descendo. – Respondi, olhando, espantada, para o resultado da obra. Eu não me considerava um monstro da arte, então, para esse desenho ter ficado tão belo, certamente era porque Emma já era naturalmente estonteante. Sorri ao pensar nela dessa maneira. Pela primeira vez, não veio à tona uma repreensão.

– Mãe, que macarrão delicioso! Por que você nunca cozinhou isso para mim? – Meu filho comentou, com um punhado da massa nas mãos.

– Henry! Estamos no século XXI, já inventaram o micro-ondas e os talheres! Para de comer essa comida fria! – Repreendi-o, tomando a panela gelada de suas mãos e pegando um prato. – Hoje eu acordei inspirada para reproduzir essa receita. É uma tradicional da família Mills.

– Quando eu crescer, vou aprender também? – Ele disse, muito interessado nessa história de herança gastronômica, sentando-se ao balcão da cozinha.

– Claro! Com uma condição. – Olhei fixamente em seus olhos; queria que ele entendesse como levávamos tradições a sério. – Você não pode, em hipótese alguma, contar o ingrediente secreto a qualquer outra pessoa que não pertença à família Mills. Combinado? – O micro-ondas apitou e eu tirei seu prato de lá, entregando-o a um Henry faminto.

– Combinadíssimo! – Ele achou um espaço em sua boca cheia de macarrão para falar, e levantou o polegar em afirmação.

Aproveitei que já estava ali e fui lavar a panela que antes era habitada por minha mais nova obra-prima comestível. E só ali percebi que o macarrão havia acabado.

Todos os dias, faço de almoço a conta certa para que eu almoce e Henry e Robin jantem. À noite, prefiro comer apenas frutas ou uma sopa de caneca. Só que, dessa vez, Henry jantou e não havia sobrado pra Robin. E agora? Emma comeu a comida de Robin!

Meu marido chegava da universidade onde dava aula pontualmente às sete e meia da noite. Eram sete e vinte! Eu tinha dez minutos para me acalmar, preparar algo para o jantar dele e deixar esfriar. Se ele já comesse quente, desconfiaria. Pensei por mais um minuto, enquanto Henry deixava o prato em cima da pia e anunciava que iria subir para fazer algumas tarefas. Decidi preparar um macarrão ao alho e óleo qualquer, sem muita pompa. Em menos de dez minutos estava tudo pronto, mas, certamente, não daria tempo de nada esfriar. E então ouço a porta bater. Sete e trinta e um.

– Olá, meu amor. – Robin vem direto para a cozinha e beija minha testa. – Estou exausto! Como foi seu dia? – Sentou-se no lugar antes ocupado por Henry e apoiou o queixo nas mãos, disposto a ouvir o de sempre. Mas não hoje.

– Foi bom. Diferente. – Respondi, lacônica. Queria instigar curiosidade nele.

– Diferente, é? Me explica isso aí... – Ele disse num tom divertido.

– Ah, eu estava no supermercado e quase atropelei o carrinho da senhorita Swan, a engenheira que consertou o transformador da igreja. Conversamos um pouco lá mesmo e acabei convidando-a para almoçar. – Falei casualmente, como se não fosse grande coisa, e apoiei-me no balcão da pia.

– Aqui? Regina, você colocou uma estranha na minha casa? – Seu tom foi de um extremo ao outro.

– Peraí, peraí; sua casa? Robin, se eu me recordo bem, há oito anos, assinamos um documento nos declarando marido e esposa, e compramos essa casa juntos. Quem a mantem do jeito que é todos os dias sou eu. E sim, eu convidei Emma para almoçar comigo. Foi ótimo, obrigada por perguntar. Sinto que podemos ser grandes amigas. – A última frase saiu com um pingo de ironia e um tom exageradamente animado.

– Tudo bem, Regina. Você sempre sabe de tudo, se acha a dona da verdade! Cadê minha comida?

– Eu posso não ser a dona da verdade, mas você também não é. Aliás, muito menos você. E, enquanto eu morar sob este teto, eu trago para cá quem eu bem entender!

– Você está sendo-

– Leviana? Egoísta? Desobediente? Não, Robin. Eu estou sendo quem eu sempre fui. Só que eu acho que, por eu fazer tudo o que faço por você e por meu filho, eu mereço ter uma amiga. Alguém com quem eu possa conversar. Você não acha que seria justo?

– Converse comigo, meu amor! Comigo! Eu sou seu marido, o homem que você escolheu para te acompanhar pelo resto da sua vida. Por que você quer outra pessoa?

– Porque você nunca está aqui, droga! Mesmo quando está, você é apenas corpo, sem a alma. Parece que nunca quer me escutar, mas o faz por obrigação. Não conversamos sobre arte ou música. Apenas falamos mal de nossos vizinhos e das pessoas feias da igreja. Falamos de política conservadora e atacamos a liberal. Discutimos passagens bíblicas e só!

– E você quer falar sobre mais o quê? Você não tem um emprego, portanto, não conhece o mundo o suficiente para conversar sobre ele. E está bom assim. Sobre assuntos do mundo, converso com meus colegas de trabalho, quando vamos ao bar. E está bom assim.

– Você acha que está bom assim? Bom para quem, Robin? Porque para mim está péssimo! Argh, que droga, Robin, por que você não admite logo que está errado e me pede desculpas? Afinal, não é de humildade que sempre falamos na igreja? – Espero que ele não tenha notado o sarcasmo presente na última parte.

Após um silêncio, parece que consegui atingir seu ponto fraco. Seu orgulho. Ou melhor, sua ignorância. Ele suspirou profunda e cansadamente antes de continuar.

– Tudo bem, querida. Você tem razão. Perdoe-me, por favor. – Seus olhos penetravam os meus. – Eu só... eu tenho medo de te expor ao que esse mundo tem de pior. Eu te amo muito e não quero que nada de ruim aconteça com você. Você não entende? – Seu tom havia mudado de novo, agora era um rendido e arrependido.

– Quer a verdade? – Ele assentiu enquanto eu ainda perguntava. – Eu não entendo. Sei o seu motivo, mas não consigo entende-lo. Eu sou uma mulher adulta, querido. – Sentei-me na cadeira ao lado da dele e peguei sua mão. – Por incrível que pareça, eu também sei discernir o que é bom para mim e o que não é. E eu tenho certeza que ter uma amiga fará bem para mim. Ter alguém com quem discutir o que não discuto com você. Uma válvula de escape, entende? Ninguém vai te substituir, meu amor. Ter amigos faz parte da vida em sociedade.

– Mas e a Mary? Ela é sua melhor amiga, não é? E ela é da igreja...

– Ela é, Robin. Conheço Mary Margaret há anos e ela é muito importante para mim. Aliás, descobri hoje que Emma também é amiga dela. – Ele apenas deu de ombros. – Entende onde eu quero chegar? Emma pode ter vindo de uma outra esfera social, mas ela não é uma qualquer. Ela é amiga da minha melhor amiga, o que, consequentemente, a torna uma boa pessoa.

– Ela é evangélica? – Como ele conseguia preocupar-se apenas com a religião que ela seguia?

– Não.

– Regina...

– Robin. Não. Nem comece. – Levantei-me em um instante e espalmei a mão na frente de seu rosto, pedindo que parasse. – Emma é uma pessoa legal, e sinto que ela será uma ótima amiga. Ela também passou por momentos ruins e precisa de uma companhia para fazer coisas que mulheres fazem: ir às compras, julgar os figurinos das outras mulheres no parque, fazer as unhas... Não acho que você esteja disposto a me acompanhar nessas atividades, não é?

– Você está certa. Perdão. Eu deixo você ser amiga dessa tal de... como é mesmo o nome dela?

– Emma. Emma Swan. – Seu nome foi pronunciado com orgulho, apesar da raiva que sentia de Robin no momento e de mim mesma por ter que pedir permissão para desenvolver amizades.

A noite levou embora a dor de cabeça que eu comecei a sentir por causa daquela briga. Tive um sono tranquila e acordei mais bem disposta no dia seguinte. A rotina matinal se repetiu. Só que, dessa vez, o silêncio durante o café da manhã deu-se por conta da briga do dia anterior. Não estava mais com raiva de meu marido, e nem dele de mim, mas ainda não estávamos prontos para agir como se nada tivesse acontecido.

Deixei Henry na escola e Robin no laboratório onde trabalhava às terças-feiras. Antes de ele sair do carro e se inclinar para me dar um beijo, meu telefone tocou. Ele recuou, óbvio, pois queria saber quem era.

– Alô?

– Alô, Regina?

– Sim, quem fala?

– Como assim, ‘quem fala’? Já esqueceu minha voz?

– Senhorita Swan? Nossa, sua voz é irreconhecível no telefone!

– Hahaha, eu sei. Escute. Meu dia mal começou e já me estressei. Pensei em dar um passeio no parque na hora do almoço e queria saber se você gostaria de se juntar a mim.

Após um instante silencioso, decidi aceitar.

– Ahn, claro! Estarei lá.

– Ótimo! À uma da tarde. Leve seus desenhos.

Ela realmente queria ver meus trabalhos.

– Pode deixar. Até.

– Até.

Desliguei o telefone e dei a Robin um sorriso precipitado. Antes que ele perguntasse, eu já fui respondendo, para não lhe dar esse gostinho de dominador.

– Era Emma. Vamos ao parque hoje. Bom trabalho! – Apesar do olhar desconfiado que ele me lançou, assentiu e agradeceu. E esqueceu do meu beijo. Saiu do carro e começou a andar, mas logo voltou correndo.

– Ah, querida, não se esqueça que hoje é terça. Dia de happy hour!

– Sim, querido. Não te esperarei acordada. Bom trabalho! – Repeti.

Fui para casa e, no caminho, conseguia apenas pensar na tarde que me aguardava. Mesmo sem estar lá, já conseguia sentir a grama pinicando minhas pernas, sentia o cheiro das folhas farfalhando umas nas outras e, principalmente, sentia o cheiro de Emma Swan. Esse dia tinha tudo para ser perfeito.

Notas finais
Ansiosos para essa tarde no parque????? C O M E N T E M :) até o próximo