Lembranças

12 Capítulo 12


Notas iniciais
Voltei! Estou conseguindo atualizar rapidinho por conta desse app maravilhoso de Jesus (google docs), mas talvez eu demore um pouquinho mais a partir desse capítulo porque minhas aulas voltaram hoje. [desabafo] Queria dizer, e me desculpem MESMO por isso, que estou meio triste. O último capítulo recebeu só três comentários e o antes desse também não foi muito bem. Preciso que vocês me digam se estão gostando, se querem que eu mude alguma coisa, se tá ridícula, se eu tô escrevendo mal... afinal, essa fic é pra vocês! Ela só existe porque os seus comentários existem :( [/desabafo] *****TRIGGER WARNING => VIOLÊNCIA***** CAPÍTULO BEM CURTINHO PRA NÃO PESAR AINDA MAIS. Espero que, pelo menos, gostem :}

Por toda minha vida, lidei com ferimentos. Quando eu era criança, meu pai me ensinou a andar de bicicleta e, como toda criança, ralei as pernas e as mãos diversas vezes até dominar o veículo. Minha mãe, que às vezes preferia a companhia do rádio à minha, testemunhou apelos por atenção que resultaram em quedas de árvore, da escada…E então chegou a adolescência e as lesões físicas se tornaram menos frequentes, dando lugar aos machucados emocionais. Primeira desilusão amorosa no ensino fundamental, primeiro relacionamento conturbado no ensino médio, o segundo lugar na coroação do baile de formatura.

Quando olhei para mim mesma no espelho e percebi que havia amadurecido e chegado à adultez, todas as dores anteriores foram sentidas ao mesmo tempo, numa espécie de replay torturante. Daniel havia morrido e me deixado na Terra com um filho para criar. Eu andava sobre um buraco negro de dor, muita dor. Robin entrou em minha vida a fim de curar essa dor. Mas, como dizem, eles dão com uma mão e tiram com a outra. Bem, no meu caso, essa outra mão é a que machuca. A que agride. A que me destrói. A mão que leva a aliança que pus em seu dedo há quase nove anos, jurando amor, lealdade e respeito. A mão que nunca seria tenra como a palma de Emma — que me machuca dolosamente quando diz que me ama como amiga. Depois desse dia em que Robin me estendeu a mão como um leão faminto, eu aprendi que uma pessoa nunca pode ter se ferido o suficiente. Há sempre mais.

Tenho quase certeza de que meu consciente foi se apagando, já sem força alguma, enquanto tudo acontecia, pois tudo do que me lembro são borrões, vozes e a veemência brutal do contato entre minha carne e a de Robin. Caí na cama ferozmente, e meu corpo imediatamente respondeu àquela superfície tão almejada. Meu corpo, em alguns segundos, simplesmente desligaria. Se não fosse por uma sacudida em meus ombros que fez tudo a minha volta rodar. Mas eu só via meu marido à minha frente, cuspindo fogo e palavras grotescas.

— Você vai aprender a me respeitar, e vai ser hoje. — Sua voz atroz saía entredentes.

— Robin, eu-

— Cala a boca, Regina!— Empurrou-me para a cama novamente, e lá fiquei, largada, ecoando um choro alto. — Eu nunca fui tão humilhado! Como você tem coragem de ser tão imunda? — Ele se sentou ao meu lado e pôs a cabeça entre as mãos. — Não consigo nem começar a imaginar você me traindo, se deitando com aquela sapatão. — O nojo em seu tom era evidente.

— Robin, não estou te traindo! — Gritei, expelindo dor de todos os poros que houvessem em meu corpo.

— Chega de mentiras, sua vagabunda! — Ele, pois, levantou-se ligeiramente e me agarrou pelos cabelos. Puxava-os com tanta força que eu não conseguia fechar os olhos, olhos esses que eram procurados pelos de meu marido, cheios de ódio. — Olhe bem para a minha cara. — Eu tentava desviar o olhar, mas, assim que eu tentava virar a cabeça, seus dedos puxavam meus cabelos de volta para o seu olhar. — Olha para mim, porra! Regina, eu quero que você fale para mim agora que está tendo um caso com a sapatão. Agora, Regina! — Balançava minha cabeça a cada sílaba. Eu esperava que a dor já estivesse anestesiada, mas pela quantidade de lágrimas que caíam involuntariamente, concluí que tudo doía. Principalmente as palavras.

— Eu não estou tendo caso nenhum com a Emma! Uma pessoa q-querida estava muito doente no hospital e ela precisava de apoio. F-fui lá como amiga ajudá-la naquele momento d-difícil. — Minha voz era embargada, inundada, afogada.

— Acha que essa historinha cola para mim, Regina? Não cola, não! Eu fui até sua preciosa salinha de recreação e vi tudo! Os poemas, os desenhos, as pinturas fajutas… a casa caiu para você, meu amor. E agora você vai aprender quem manda nessa casa, nessa família. Você se esquece que não foi aquela mulher que aceitou criar o filho que você fez com aquele delinquente, FUI EU! — Fui sacudida pelos braços e, por causa daquela pegada animalesca, arranhões e hematomas foram deixados ali. — Não foi ela que aturou suas crises, suas vontades e seus achismos ridículos, FUI EU! Não é ela que está pagando o tratamento daquela velha caquética que não lembra nem como se limpa a bunda, SOU EU! Mas você não deu valor a isso por bem. Infelizmente, vai ter que ser por mal.

EU QUERIA ESTAR TENDO UM CASO COM EMMA SWAN, PELO MENOS ASSIM ALGUÉM ME AMARIA! — Uma brecha em minha garganta cheia de palavras sufocadas foi aberta e aquela frase saiu, ecoou ameaçadoramente pelo quarto, atingindo em cheio o flagelo da honra de meu marido.

A partir desse momento, por mais que eu tente, não tenho a mais vaga lembrança do que aconteceu. Como eu disse, meu corpo desligou. Se por cansaço ou dor eu não saberia dizer. Lembro-me apenas de tentar abrir os olhos mas ser impedida por uma dor descomunal. Encostei os dedos levemente em volta e senti que um deles estava inchado. Meus braços estavam doloridos e latejavam, pedindo socorro. Após um esforço colossal, consegui me sentar e, com o olho que ainda enxergava, me vi em meu quarto e, ao meu lado, meu filho segurava minha mão.

— Mamãe, você acordou! – Ao olhar para ele, percebo seu rosto irrigado.

— Meu amor, não chore! Mamãe está aqui. Por que você está aqui? – Aconcheguei-o em meu colo, acariciando seus cabelos lisinhos e finos, puros como toda criança deve ser.

— Eu estava dormindo e ouvi os gritos, o seu choro... vim correndo para cá para ver o que estava acontecendo. E-eu estou com muito medo, mãe. — Seu dizer engasgava. — O papai, ele… quando eu cheguei aqui, ele-

Henry permaneceu olhando para o nada, com a testa franzida em plena confusão, enquanto lágrimas singelas começavam a se formar em seus olhos. Sua expressão mudava, aos poucos, para uma horrorizada.

— O quê, Henry? O que tem o seu pai? — Eu tentei fazer essa pergunta calmamente, pois deixá-lo mais assustado era a última coisa que eu queria. Meu filho vira tudo o que aconteceu. Eu precisava dele naquele momento mais do que em qualquer outro.

— Ele estava com uma faca na mão, mamãe. Você estava dormindo, sem poder se defender. Seu olho estava assim mesmo. — Ele respondeu enfim, pausadamente, e tocou meu olho esquerdo, roxo como o crepúsculo da noite que habitava meu ser.

Meu sangue parou de correr quando Henry disse aquilo. Robin andava com uma faca. E se ele já planejava aquilo? Minha ficha caiu naquela hora: eu estava presa num casamento abusivo, agressivo, mortal. Eu teria que sair dali antes que fosse tarde demais. Ou talvez já fosse.

— Henry, ele te machucou? — Comecei a percorrer toda a extensão do corpo dele a procura de qualquer marca que aquele monstro houvesse deixado.

— Não… mas ele ia te machucar. Eu não deixei. — Uma ponta de orgulho de si exalava na voz daquela criança.

— Henry, o quê?! O que você fez? Meu Deus… — Abracei-o apertado, numa súbita agonia de pensar que Henry pudesse ter corrido perigo.

— Calma, mamãe. Eu estava parado na porta, tentando entender o que estava acontecendo. Ouvia o papai dizer coisas como “Você vai pagar por gritar comigo e por ter dito uma coisa dessas!” — Ele imitou uma voz grossa e perversa. Após uma pausa, ele continuou. — Quando vi que ele tinha puxado uma faca e você continuava naquela mesma posição, eu senti tanto medo! Nada pode acontecer com você, mãe. Nada. Eu amo você.

Aí eu empurrei ele com força e ele se cortou. — O silêncio invadiu o quarto. Repentinamente, ele parou de falar. Parecia que estava escolhendo as palavras, ou tentando acreditar em algo que sua cabeça lhe contava.

— O-o que mais aconteceu, querido? Estou aqui, você pode me contar. — Afaguei-o ainda mais. Ele se esquivou hesitantemente.

— Assim que ele viu que estava machucado, ele se virou para mim e disse “Henry, está vendo isso aqui? Esse é o sangue de um homem cuja honra foi manchada. Nunca deixe que manchem sua honra.” Ou algo do tipo. — Esperei que ele continuasse. Certamente Robin não falaria apenas aquilo. — Tem mais, mãe. — Bingo. — Ele disse que você destruirá nossa família. O que ele quis dizer com isso? — Ele parecia realmente confuso. Como Robin conseguia ser tão mau caráter assim? Manipular uma criança, uma criança, em nome de Jesus! Aquilo precisava de um fim, e eu sabia exatamente o que fazer.

— Filho, eu prometo que te conto. Eu não vou destruir nada nem ninguém, está bem. Não precisa de assustar. — Era o cúmulo do ridículo eu ter que falar com meu próprio filho como se ele fosse algum estranho desconfiado. — Onde está o seu pai, aliás? — Ele decidiu ignorar meu tranquilizante.

— Ele foi trabalhar. Fez um curativo no corte e saiu. Faz mais de meia hora, eu acho. — Sua voz era menos hostil, aos poucos Henry voltava a ser aquele menino que me ama vinte e seis horas por dia.

— Vamos sair daqui. Pegue algumas roupas e vamos. — Segurei sua mão num sinal de cumplicidade.

— O quê? Como? Para onde vamos? — Seus dedos suados apertavam minha mão trêmula e eu soube que Henry estaria comigo até o fim da vida.

— Vamos viver, meu filho. Vamos viver.

Notas finais
Queria dizer que a Regina falou sério quando disse que ia viver. Agora as coisas vão ficar mais felizes por aqui!!!! Até a próxima :}