Lembranças
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Chovia forte, não conseguia mais enxergar nem um palmo a sua frente, mas continuava a andar. As gotas resvalavam contra seu corpo e levavam suas dores e receios para longe. Quem era? Para onde ia? Quem procurava? Perguntas passeavam por sua cabeça sem encontrar respostas satisfatórias, não sabia quem era, quem procurava, nem de onde tinha vindo.
Seus pés tinham vida própria e cruzavam as ruas como se já as conhecessem antes, mas a tempestade que desabava não ajudava na tarefa de encontrar algum ponto que trouxesse recordações para aquele coração que há muito não batia, que há muito deixara de ter um motivo para bater.
Mais alguns minutos e estancou diante de uma lápide recém colocada no cemitério da cidade, ajoelhou em forma de respeito, mas não conseguindo encontrar o motivo por ter chegado até lá.
- Jackeline Rosa Mascareñas, 1991 – 2007 - leu o nome gravado na pedra fria e sem vida, algo tentava vir à tona, aquele nome significava algo, mas não conseguia se lembrar, fechou os olhos e um flash de memória passou por sua mente.
******************** FLASHBACK *******************
“Um homem e uma mulher dentro de um carro, riam e se beijavam. Estavam felizes. O amor preenchia todos os espaços daquele veículo, estavam de viagem, era o mais provável. Ele olhou para frente prestando atenção na estrada, mas rindo de algo que a mulher falara. De repente vira-se novamente para a mulher com olhar apavorado, uma luz cegante está aproximando-se pela frente, ele balbucia algumas palavras e então um barulho de carros batendo, gritos e a silenciosa escuridão.”
******************** FLASHBACK *******************
O estranho põe a mão na cabeça, sente dor, mas quer saber o que está escondido, o que não consegue se lembrar. Mais uma cena reaparece em sua mente.
******************** FLASHBACK *******************
“- Como assim doutor??? — uma voz estridente grita desesperada com um velho senhor de cabelos branco e face preocupada. — Como assim Jackeline morreu??? Como assim? Ela não poderia ir assim, como Vitor vai continuar vivendo e Rafaela? Como eles ficam agora??? O marido não acorda, está em coma profundo. Como as crianças ficam sem mãe e pai? — gritava sem parar até desabar em uma cadeira e o médico ter a oportunidade de falar.
- Senhora tente se acalmar, o senhor Mascareñas tem várias possibilidades de acordar, as crianças ficaram sob cuidados dos parentes mais próximos deles. — começou o ancião, expondo com cuidado seus pensamentos. — Não pense que me é fácil anunciar a morte de uma pessoa que era quase uma filha para mim, mas temos que ser realistas e tentar prosseguir com a vida, não adianta chorar pelos mortos e esquecer os vivos. O senhor Mascareñas tem grandes possibilidades de acordar quase sem nenhum trauma e...
— Como assim ‘quase nenhum trauma’???? Vocês não têm certeza? – interrompeu, novamente, a desesperada mulher.
- Senhorita, num acidente como esse, os danos não são previsíveis, o fato de estar respirando já é um grande milagre. — respondeu o médico com calma. — Prevemos que o pior que poderá ser uma amnésia parcial.
- Só isso??? — ironizou a mulher enquanto voltava a sentar-se, derrotada escondeu a face entre as mãos. O cansaço e desânimo marcavam-lhe a bela face. ”
******************** FLASHBACK *******************
Sua cabeça doía mais ainda, mas estava conseguindo entender, abriu os olhos e novamente leu o nome da lápide, lágrimas escorreram sem que conseguisse impedi-las. Como um flash lembrou-se do que esquecera, do que se forçou a esquecer.
- Como pode morrer querida? - perguntou para si mesmo. — Como pude ser tão irresponsável para deixar você me escapar assim amor? Como? Desculpe, desculpe, desculpe... - murmurava incessantemente.
- Não foi sua culpa... deveria saber disso. - uma voz fria interrompeu seu mudo sofrimento, em seu momento intimo de recordações, em uma volta para a vida esquecida. - Como pode se lamentar encolhido ai? Lembrou-se de tudo, então volte para seus filhos.
- Que... quem é você? Como sabe que estava aqui? - assustado não sabia como reagir diante da estranha que lhe falava tão rispidamente.
- Quer dizer que suas memórias não retornaram por completo? - abriu um meio sorriso, mas logo o fechou. — Sou alguém que sempre esteve presente em sua vida com Jack, acompanhei cada bom ou mau momento de vocês, chorei e sofri mais do que ninguém com sua morte. - confessou com voz mais calma e ajoelhou-se ao seu lado, tocou o nome na lápide, como antes tinha feito, e voltou a falar. - Isso que vou falar era um segredo meu e dela, você não vai se lembrar dele porque simplesmente não sabia. – suspirou profundamente antes de continuar. - Quando éramos mais jovens Jack se envolveu com uma mulher um pouco mais velha, as duas amaram-se ardentemente, mas tivera que se separar não por não sentirem mais nada, isso nunca. Essa mulher tinha escolhido uma carreira que exigiu que viajasse pelo mundo e ficasse muito tempo sem voltar para o Brasil, não queria separar-se de Jack, mas não queria fazê-la renunciar de seus sonhos por conta dos dela. - suspirou e logo continuou. - Quando essa mulher voltou encontrou-a casada com você e esperando sua primeira filha. Elas conversaram bastante, o amor ainda existia, mas agora as duas estavam separadas não só pelo casamento, mas por várias outras peculiaridades que a vida fez com que tornasse a volta como casal impossível, mas o amor contentou-se em ser apenas uma forte amizade. Jack lhe admirava demais para lhe magoar com uma traição e a mulher sabia disso.
- E o que aconteceu com ela? Jack parecia feliz comigo. - perguntou com curiosidade, uma face nova daquela que tinha sido sua amada era desvendada e as atitudes tomadas faziam o antigo respeito aumentar mais.
- Elas tornaram-se amigas, nunca mais voltaram a tocar no assunto amor ou paixão, aquilo ficara guardado como bons momentos de suas vidas. Sua mulher foi alguém que sempre lhe foi fiel e seu único pedido foi que cuidasse bem dos filhos que tiveram. - terminou e fechou os olhos abaixando a cabeça.
- Mas porque está me contando isso? Qual é seu propósito? - indagou um pouco irritado por aquela desconhecida saber mais de sua mulher do que ele.
- Meu propósito é que volte a ser o homem por quem Jack se apaixonou e cuide de seus filhos, como ela teria cuidado se a situação fosse inversa. Tenha um mínimo de forças como ela teve ao não ceder para seu antigo e verdadeiro amor, ela preferiu respeitar você, faça com que isso não tenha sido em vão. - terminou ríspida novamente, abriu os olhos e encarou-o, a vergonha pela irritação anterior tomou-lhe intensamente - Creio que agora vá voltar para sua casa onde seus filhos estão esperando seu retorno, ansiosos, não os decepcione, por favor. Adeus. - terminou e levantou afastando-se do lugar.
- Um momento. Como sabia tudo isso? Qual o seu nome? - perguntou tentando entender tudo o que lembrava e acabava de descobrir. Vê que para e se volta sorrindo fracamente.
- Você me conhece perfeitamente, sou Raquel a melhor amiga de sua mulher. - aquilo foi um baque para o abatido homem - Fui quem cuidou de seus filhos enquanto você se recuperava, fui, também, quem saiu para lhe procurar quando fugiu ao saber que sua mulher tinha morrido. Sou eu quem amou e respeitou a decisão dela ficar com você. Volto a repetir, não faça com que nossa decisão tenha sido em vão, cuide de seus filhos e terá em mim uma boa amiga, volte a recolher-se nessa dor deixando-os de lado e vai conhecer o inferno em minhas mãos. - o tom fez-lhe acreditar em sua ameaça, mas não se assustaria com isso, a situação não era para brigas e entendeu isso.
- Então vou ficar contente em ter alguém com quem compartilhar os gostos de Jack, alguém que a amava como eu. Não vamos separar o que Jack juntou, que tal? - perguntei levantando-me e dando um dos poucos sorrisos daquela noite. - Amigos?
- Amigos. - respondeu sorrindo e apertando minha mão. — Agora vamos que seus filhos esperam o pai chegar. Eu mesma vou levá-lo como lhes prometi antes de sair.
- Vamos. - sorriu e começou a andar afastando-se da lápide de sua amada esposa.
Uma figura, invisível aos olhos dos dois, sorria ao ver suas duas maiores paixões em vida afastando-se como melhores amigos.
- Vamos? Eles já estão juntos e seus filhos ficaram bem, sua missão terminou aqui. - um senhor de cabelos grisalhos afirmou suavemente para a garota.
- Claro, Raquel e Samuel firmaram a amizade posso voltar e trabalhar para minha evolução, agora é só esperá-los aqui.
- Realmente, meu filho está em boa companhia e meus netos vão ser bem encaminhados. - respondeu o senhor, sorriram e desapareceram.
FIM
Fale com o autor