Lembranças
66 Nightmare
Notas iniciais
Dois meses depois...
Música para o capítulo: Florence and the Machine — Cosmic Love
02h30min
Minha respiração é descompassada. Não sei qualificar agora se isso foi um sonho ou um pesadelo. Tudo a envolve, mas dessa vez foi diferente. Meus pulmões e meus olhos estão queimando. Eu tento respirar fundo e esquecer o que minha mente traíra acabara de reproduzir. Eu tento colocar meus pensamentos em ordem e me esforçar para não chorar por algo que não passou de um sonho, de um pesadelo, um misto de tudo que tira meu sono. Na falta que ela me faz, na saudade da minha mãe, ela era a única que aparecia nos meus sonhos durante todos esses meses, mas hoje... Hoje foi o Rick. Eu ainda o vejo sangrando se fecho meus olhos. Eu tentei... Tentei de tudo... Mas nem toda força do mundo conseguiu fazer com que eu segurasse o Rick com as minhas mãos. Ferido, ele sangrava, ele estava ferido e eu não consegui segurar sua mão. Céus! Eu preciso sair daqui. Pego meu casaco e saio do quarto em silêncio. Alguns alunos alcoolizados estão circulando no saguão principal. Decido então ir para o último andar e percebo que a porta de acesso ao telhado está aberta. Entrei sem demora e sentei-me próxima a sacada. As lágrimas que já vinham caindo durante o percurso estavam desabando. Sozinha eu chorava sem pudor. Lembrava que no sonho Rick dizia que suas feridas eram por minha causa... Que eu precisava o puxar para superfície... E eu... Eu não... – Droga! – Gritei. Porque sonhar com ele agora? Porque sonhar com ele nessa situação? Pedi para a Lanie nunca tocar no assunto sobre o Rick. Afastar ele de mim não foi uma das melhores atitudes que já tomei em minha vida, mas era o que precisava ser feito e eu precisava saber lidar com essa situação. Precisava seguir em frente. Porém, tudo que eu quero agora é ligar para a Lanie e perguntar se ela sabe do Rick, se ele está bem... Se ele está realmente bem. Não posso ligar para ele, como eu faria há alguns meses atrás.
O céu está tão estrelado que meus olhos lacrimejantes não conseguem identificar a exata posição das estrelas e da lua. A lua... A estrela do norte... Bússola... A bússola que o Rick me deu... Mesmo passado meses, ele significa muito para mim. E para sempre vai ser assim. E esse é um dos motivos que ainda me faz carregar o pingente da bússola comigo. Por um tempo, tolamente, tentei o apagar de minha mente, do meu coração. Impossível. E veja só, quando penso que tudo pode caminhar de forma suportável sem ele, Rick aparece da pior forma em meus sonhos. Pela primeira vez estou me questionando sobre o que eu fiz. Aos poucos, mesmo sem respostas, meu choro cessa e o dia começa a apontar através dos primeiros raios de sol. Decido voltar pra cama antes que Vick perceba e venha me encher de perguntas ou festas grunges, dizendo que eu preciso me distrair.
07h30min
– Vai logo K-bex!
– Hum! – Falei dando um último retoque na maquiagem. Precisava esconder as olheiras antes de partir pra aula do professor Barlow. Ele era extremamente exigente, mas também suas aulas eram fundamentais se eu realmente quisesse me formar em direito.
– Vai passar quanto tempo dialogando com você mesma K-Bex? – Vick perguntou irritada.
– Estou pronta, vamos...
– Até hoje me arrependo por ter ido na sua onda de eleger essa matéria. Esse cara me dá nos nervos! – Ela falou enquanto pegávamos o corredor rumo à sala de aula.
– Mas ele é importante para chegar à graduação, você por acaso pensa que direito é fácil?
– Não. Sei que não é... – Ela deu-se por vencida.
– Então para de reclamar!
Passamos a manhã entre aulas e palestras. Tenho certeza que 50% eu não sei dizer sobre qual assunto era tratado. Avisei pra Vick que hoje eu queria caminhar, almoçar sozinha, um tempo só pra mim. Ela não fez questão e eu agradeci internamente por isso. Por volta de duas horas da tarde resolvi comer alguma coisa, mesmo que sem vontade. A lanchonete parecia convidativa e o movimento das pessoas não era tão intenso. Fiz o pedido de um suco e um sanduiche e calmamente ocupei uma mesa isolada e perto do balcão para aguardar o lanche. Decido então ligar para a Lanie. Eu não vou conseguir dormir outra vez enquanto não falar com ela.
– Garota! Quanto tempo! – Lanie responde antes que eu dissesse a ela um “Alô”.
– Oi Lanie. Verdade... Faz tempo que não conversamos.
– Tá tudo bem com você, Kate? – Ela perguntou menos eufórica.
– Mais ou menos...
– Ai garota, você sabe que não acho uma boa ideia você continuar por ai não é?
– Não se trata disso Lanie...
– Claro que se trata. Você tá fugindo Kate!
– Lanie... – A chamei em tom de advertência.
– Tá... Esquece! Não vou falar mais nada. – Pude a ouvir suspirar.
– Obrigada.
– Só se você pedir. – Lanie disse em teimosia. Ignorei.
– Lanie, eu preciso desfazer o trato que nós fizemos. – Fui direta.
– Como assim?
– Lanie... Eu quero notícia do Rick. – Ela ficou em silêncio. – Lanie?!
– Você tem certeza disso?
– O que houve com ele, Lanie? – Perguntei assustada pelo motivo de sua dúvida.
– Kate...
– Fala logo! – Implorei com pressa.
– Ele está seguindo em frente e não é da melhor maneira possível.
– O que você quer dizer com isso? – Perguntei me sentindo falhar, com medo de ouvir a resposta.
– Ele conseguiu lançar o primeiro livro, Kate. Essa é a parte boa.
– Verdade? – Sorri um pouco aliviada. – Essa é uma parte incrivelmente boa, mas o que há de ruim nisso tudo?
–Kate, a parte confusa é quem ele se tornou agora.
– O que você está querendo dizer com isso, Lanie? – Eu a ouvi suspirar. Minha garganta começava a ficar seca.
– Você sabe que eu gosto de ir a boates e por esses meios... Kate... Não é difícil esbarrar com o Rick.
– E? – Perguntei com um enorme medo da resposta.
– Kate... – Lanie hesitou.
– Diz... – Falei com minhas últimas forças.
– Cada noite uma garota diferente. Ele não é mais o mesmo. Não se vê muito daquele Rick com sorriso sincero e brilho nos olhos. Rodeado de garotas ele leva uma vida de prazeres momentâneos. – As lágrimas voltavam a escorrer pelo meu rosto. – Kate... Eu sinto muito.
– Tudo bem... – Tentei secar meu rosto e fingir uma postura segura. – Ele pelo menos arrumou uma forma de seguir em frente. Ele... Ele deu o jeito dele.
– Kate, você sabe o que eu penso sobre...
– Lanie, eu sei tá legal?! Eu sei o que você pensa e o que você acha, mas nada vai me fazer voltar atrás ok?! Então dá para parar de falar isso?! Dá apenas para ser meu apoio, por favor? – Uma explosão de sentimentos me fazia perder o ritmo e meu tom de voz.
– O que tá havendo Kate?
– Nada! – Disse ríspida.
– Nada? Kate, tá acontecendo alguma coisa sim! O que está acontecendo? – Lanie insistiu firmemente.
– Eu... Eu tive um pesadelo com ele. – Respondi chorando ao ceder tal informação. A notícia me entristeceu profundamente. Senti total ligação com o pesadelo. – Ele estava ferido e na beira de um lago me pedia ajuda para não afundar. Eu não consegui. Ele afundou... Foi horrível! Ele... Ele dizia que a culpa era minha por ele está ferido... – Suspirei com falhas. – Lanie...
– Oh céus, Kate! Fica calma amiga, foi só um pesadelo... Deus! Eu não devia ter te contado isso...
– Devia sim! Você é minha amiga, eu te pedi. Ai Lanie... – Eu tentava controlar o que eu sentia. – Se passaram apenas 3 meses e ele já está... Porque eu estou reclamando disso? Eu não tenho o direito... Fui eu quem terminou tudo. Fui eu!
– Kate, homens podem reagir diferente... Não se culpe. – Lanie tentava me acalmar.
– O que eu fiz Lanie?
– A culpa não é sua! Levanta essa cabeça, siga em frente.
– Foi assim que ele seguiu em frente não é?
– Eu não chamaria de seguir em frente... – Lanie respondeu.
– Queria não me sentir assim. Não faz sentido! Dói muito saber disso, imaginar isso... – Lágrimas não tinham pudor em descer pelo meu rosto.
– Calma girl, Você vai ficar bem. Apesar de tudo, você vai ficar bem. Respira fundo... – Alguns minutos de silêncio e eu tentava digerir tudo e controlar o choro. Enquanto isso, eu pude ver o lanche que havia pedido chegando até a minha mesa.
– Eu... Eu vou... Eu tenho que ir. Eu estou numa lanchonete... Eu...
– Tudo bem garota, fica bem ok? Respira, foca nos estudos, tudo vai terminar bem. E sempre que precisar pode me ligar.
– Obrigada.
– De nada. – Ela respondeu meiga.
– Desculpas Lanie. Eu descarreguei em você e...
– Tá tudo certo garota. Eu te conheço não é de hoje, esqueceu? – Ela soltou o som do seu sorriso.
– Beijos.
– Beijos. Cuida-se!
Paguei o lanche, sai de lá apenas com o suco. Optei por correr por mais quarteirões que o necessário. Enquanto corria eu pensava em tudo. Qual o direito que eu tinha de sentir tristeza pelas escolhas do Rick em viver essa vida? Que direito que tenho em imaginar que podia ser diferente? Eu acabei com ele, fui eu! A culpa é minha, ele tá se virando como pode por minha culpa. O mínimo que eu posso fazer é tentar também achar a minha forma de seguir. Eu tenho que achar minha forma de seguir. Eu vou conseguir. Meu telefone volta a tocar. Não quero atender, mas o visor mostra que é meu pai na linha. Pauso por um momento, embaixo de uma árvore.
– Katie?
– Oi pai... Tudo bem? – Disse com a respiração entrecortada.
– Tudo... Você está cansada? O que você está fazendo? – Ele perguntou desconfiado.
– Correndo. Esporte.
– Ah! Ok... Prefere que eu ligue outra hora?
– Não, tudo bem... Fala. – Minha respiração aos poucos ia estabilizando.
– As férias de verão são agora não é?
– É... Por quê?
– Eu estava olhando aqui no calendário da universidade... Final de semana que vem você já vai estar de férias, certo?
– Vou sim.
– Posso comprar sua passagem para Nova York para o sábado à noite?
– Comprar? O quê? – O último lugar que eu queria ir.
– Qual a surpresa? Não pretendia voltar pra casa nas férias? – Ele perguntou assustado.
– Não pai, não é isso. Desculpa se soou algo como recusa... – Tentei disfarçar.
– Então posso comprar sua passagem?
– Pode. – Aceitei dando-me por vencida.
– Ótimo! Quando você chegar tem uma novidade.
– Novidade?
– Sim. Mas não vou dizer por telefone. Irá esperar para saber quando você chegar aqui.
– Tá legal. Você parece realmente bem pai. – Disse carinhosa.
– Estou me esforçando. – Ele disse com um tom inseguro. – Bom, vou deixar você continuar sua caminhada. Não se esqueça de se alimentar direito. É importante!
– Certo pai. – Disse sorrindo. Algo me fazia acreditar que ele estava bem. Ao menos isso me fazia um pouco feliz.
– Beijos querida.
Após finalizar a ligação fiz meu caminho de volta à área do meu dormitório. Vai ver esse retorno para Nova York pode ser uma chave para que eu consiga achar minha forma de seguir em frente. Quem sabe que novidade é essa? Só espero que meu pai não esteja bebendo de novo, porque se isso acontecer, eu não vou poder achar uma saída.
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