Notas iniciais
Boa leitura :3

“Lembro-me como se ainda estivesse em minha frente. Os fios ruivos que caiam pelos ombros como uma cascata sedosa, os olhos negros que pareciam sorrir para mim e o sorriso verdadeiro que parecia brilhar. Em minhas memórias, você parecia perfeito. E era. Era a pessoa mais espontânea que conheci, chamando a atenção de todos em qualquer lugar que entrasse com sua risada alta e seu sorriso fácil. Abraçava-me em meio à multidão, muito maior que eu, sem medo da repreensão de seus pais ou de qualquer outro. Parecia me amar mais do que tudo, e eu com certeza o amava.

Lembro-me do dia em que nos conhecemos, tinha apenas 16 anos. Você era mais velho, terminando o ensino médio com 18. Claro, eu devia ter desconfiado. Ninguém ficaria com alguém como eu. Um garotinho inexperiente e idiota. Mas na época parecia perfeito. Um sonho. Claro, eu já o olhava com outros olhos há muito tempo. Era o sonho de toda garota, e meu também. Você acabou esbarrando em mim nos corredores do colégio, e hoje me pergunto se não foi de propósito. Provavelmente foi. Mas não importa agora. Tudo o que eu pensei foi sobre como você ficava incrivelmente bonito sorrindo envergonhado e coçando a nuca enquanto pedia desculpas.

Você me cumprimentou no dia seguinte, começando a conversar como se fossemos amigos de longa data. E no outro foi a mesma coisa. E no outro e no outro. Você não descansou enquanto não conseguiu uma conversa descente. Eu podia não desconfiar de nada, mas ainda era estranho. Afinal, eu tinha noção do quão insignificante era.

Quantas vezes pensei que era apenas um sonho? Um longo sonho que não queria que acabasse nunca. Mas se tornou um pesadelo, meu pesadelo particular. Um pesadelo do qual não acordaria até que minha vida termine. Quantas vezes pensei que iriamos viver até ficarmos velhos, com cabelos brancos e muitos gatos? A vida era tão simples, tão feliz... Mas nada é como parece, afinal.

Lembro-me do dia em que você me pediu em namoro, no terraço do meu apartamento. Conversávamos como sempre, seu sorriso me tirando o ar mesmo depois de alguns meses vendo-o diariamente. Você pediu para que eu pegasse algo em sua mochila, e vi um anel. Pensei que fosse para uma namorada, ficando instantaneamente triste. Na hora inventei uma desculpa e sai, indo direto para o meu quarto. Não me passou pela cabeça que você fosse atrás ou que aquele anel fosse para mim, apenas me joguei na cama, já chorando. E lá estava você, beijando-me como nunca alguém tinha me beijado. Me pareceu algo impossível, aquele beijo mesclando seu gosto e lágrimas.

Lembro-me também do gosto de sua boca, o gosto no qual fiquei viciado. Não um gosto específico, mas que sempre parecia alegre. Pelo menos o máximo que um gosto possa parecer. Seu gosto era o que eu mais gostava, e ainda consigo sentir seus lábios nos meus, sua língua em minha boca. Você era sempre tão gentil em nossos beijos. Não só nos beijos, em tudo.

Isso durou quatro anos. Você entrou para a faculdade, eu terminei o ensino médio e, milagrosamente, também entrei para a faculdade. Quando meus pais descobriram, acabei indo morar com você, que ofereceu seu apartamento assim que soube que eu não tinha para onde ir. Sempre tão cuidadoso, tão preocupado com meu bem-estar...

Mas tudo não passou de um joguinho, não é? Um joguinho que foi longe demais... Mas ainda assim. Você nunca me amou. Você não tem como amar alguém com esse buraco no lugar do coração. Ainda acredito que isso não passa de um sonho. Um sonho horrível que logo acabará. Você não vai precisar manter essa farsa mais. Vai poder ser livre, livre desse estorvo que eu sempre fui.

Mesmo que você tenha me destruído, não consigo te odiar. Não consigo desejar o pior, não consigo desejar sua morte. Não consigo deixar de te amar. Por isso, apenas em consideração aos meus próprios sentimentos, que você deve estar vendo isso. Apenas por isso que você deve ter visto todo o desespero e a tristeza que nunca mais vou sentir.

Espero te conhecer novamente em outra vida. Conhecer uma versão verdadeira sua, não essa pessoa alegre e falsa que acreditei ser você por todos esses anos. Espero que em outra vida eu possa te mudar, fazer com que um coração habite esse vazio dentro de você. Mas, até lá, isso é um adeus, meu amor.”

As páginas terminavam de ser preenchidas enquanto um coro de vozes alegres era ouvido pela janela. A contagem regressiva soava irônica em seus ouvidos, todas aquelas pessoas pareciam contar para a sua morte, e não para o ano novo. Mas aquilo não importava, não quando lágrimas caiam de seus olhos e borravam as palavras que se formavam no papel. Não sabia porque chorava, não quando se livraria de um pesadelo.

O último ponto toma forma na página branca quando os fogos de artifício começam a explodir. Vivera para o novo ano, afinal. Um sorriso aparece em seus lábios, irônico e sofrido. Sente o objeto frio nas mãos, observando as gotas quentes caírem na arma brilhante por alguns segundos. Mas sabia que não tinha muito tempo antes de todo o barulho acabar.

Queria que ele o achasse, não uma pessoa qualquer. Queria que ele visse no que havia se transformado, em uma casca preenchida apenas por tristeza. Era o último desejo que se permitia ter. O último desejo que se permitia acreditar. O último desejo que acreditaria até sua morte que se tornaria verdade.

E então levanta a arma, pensando em como o metal gelado se assemelhava com seu coração. Permite que um último sorriso apaixonado tome forma em seus lábios quando vê a porta se abrindo. Seu último desejo se tornaria realidade.

O barulho se confunde com os fogos, o grito de desespero se confunde com os de felicidade, e tudo o que se vê é vermelho. A carta tivera outra cor acrescentada além do preto e do azul, afinal.

Notas finais
Lembrem-se, caso leiam isso hoje, dia 31, não soltem fogos, pelo bem dos cachorros perto de vocês. E não saiam buzinando, também. A cada vez que vocês fazem isso, um cachorro pode morrer. Espero que tenham gostado, porque eu escrevi com muito amor e carinho :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!