Lembranças.
16 Término.
Notas iniciais
- Lílith sua voz me é reconhecível. Parece a de uma amiga antiga do Dylan, só que eu não lembro o seu nome...
Foi nesse momento que um nó ficou preso em minha garganta. Na boa, a mãe do Dylan sempre teve uma boa memória (diferente do filho), se eu continuasse falando uma hora ou outra ela se lembraria de mim. E até porque, minha voz não saía de modo algum, mesmo que eu quisesse muito.
Desliguei o celular rapidamente e uma gota de suor desceu sobre minha testa.
Droga, mais uma má impressão.
Que se foda, já estou ferrada com quase todos daqui.
Percebi que uma leve brisa gelada soou para dentro do apartamento atacando minhas pernas descobertas e causando-me certo arrepio, havia esquecido as janelas abertas e até algumas gotas de chuva já invadiam o local. Fui fechá-las imediatamente enquanto percebia as nuvens já carregadas e escuras.
Observei Dylan atentamente. Ele estava de barriga para baixo em um sono delicioso e profundo. Talvez precisasse disso há muito tempo. Sabe, o pai dele nunca foi alguém fácil de se lidar, sempre foi alcoólatra e de vez em quando batia na mulher e filho. Na verdade, ele foi o motivo da partida da família. Queria recomeçar a vida e fazer tratamento para se livrar do vício... Talvez as tentativas foram todas em vão.
Guardo certo rancor dele, já que o mesmo tirou Dylan de mim. E por causa dele, meu amigo está entrando no mesmo caminho do vício.
O garoto virou-se para cima sem perder o sono e colocou o braço sobre a testa, dando leves roncadas logo em seguida. Ri um pouco e surpreendi-me por como ele já se sentia em casa. Dei passos leves em sua direção já sentindo meu coração acelerado.
Agachei-me até ficar bem próxima de sua face. Tirei alguns fios dos cabelos castanhos claros que atrapalhavam minha visão de seus olhos fechados e acariciei sua bochecha levemente por medo de acordá-lo, depositando um beijo leve ali. Ele se mexeu um pouco, mas logo entrou em um sono pesado novamente.
- Eu vou cuidar de você...- sussurrei em um tom falho e exageradamente baixo.- Sempre.
Apoiei minha cabeça entre seu peito e barriga, ficando por ali mesmo cantarolando uma canção lenta e qualquer. Sua barriga levantava e abaixava-se de acordo com o ritmo de sua respiração. Meu sono também já estava quase chegando e os olhos quase se fechando... Quando ouço passos atrás de mim seguidos por uma voz reconhecível e masculina.
- Lili desculpe não ter vindo mais cedo, eu...- levantei-me rapidamente, porém, o tempo que fiquei ali fora o suficiente para Jason perceber minha cabeça recostada sobre o peitoral definido do garoto.
Droga.
- Ja-Jason, eu...- gaguejei.- Escuta...
- Por que ainda me surpreendo?- deu uma risada irônica fitando-me com seriedade logo em seguida.
- É que... Ele estava bêbado e eu...
- Não importa não é?- indagou.
- Hã?- confundi-me.
- Não importa quantas vezes ele te magoe, não importa quantas vezes ele te deixe de lado, não importa não é? Você sempre voltará feito um cachorrinho com o rabo entre as pernas.- murmurou chateado deixando uma caixinha preta cair no chão.
- Jason, não...- as lágrimas já rolavam sobre minha face.
- Já entendi.- sorriu com ironia.- Até mais Lou... Lílith.- e saiu pela porta da frente.
- Jason!- gritei e corri até ele, mas o perdi de meu ponto de visão.
Desci as escadas desesperada e quase tropecei duas vezes nos degraus um tanto molhados. Senti a rigorosidade do frio naquele dia, mas não me intimidei e continuei correndo. Não! Não era justo isso! Jason se importava comigo, já disse que me amava, sempre me tratou com carinho e nunca virou as costas para mim... Sempre esteve ali para mim. Então por que meu coração não saltava quando ele chegava? Por que minha mente não era voltada para ele 24 horas por dia? Por que tudo era tão injusto?
Porra, eu estava enlouquecendo.
Vi-o entrando em um táxi qualquer e partindo pelas ruas gigantes de Camberra.
Tentei alcançá-lo, mas meus joelhos deixaram-me na mão, derrubando-me logo em seguida diretamente no asfalto frio e repleto de pedras dali. Minhas pernas ficaram completamente arranhadas e o frio já me deixava com aquela tremedeira rotineira.
Meu choro era evidente e meus soluços eram abafados pela chuva. No momento eu só me preocupava com uma coisa...
Morrer.
Afastei talvez a única pessoa que realmente se preocupava comigo e que me amava verdadeiramente.
- Burra, burra, burra...- sussurrei desesperadamente para mim mesma enquanto batia violentamente contra minha cabeça.- BURRA!
Fiquei ali entre longos minutos... Ou talvez horas, sei lá. Minha cabeça latejava e meus músculos estavam doloridos. Não descia mais lágrimas de meus olhos, e levantei-me de uma maneira completamente indiferente.
- Lílith... Onde esteve? Por que está tão molhada?- Dylan perguntou desesperado no momento em que abri a porta.
Não respondi e caminhei em direção da caixinha preta. Nela havia um bilhete.
“Lili, desculpe o atraso, mas quando a vi na loja, tive que comprá-la, acho que vai gostar.
Jason.”
Havia ali, uma correntinha dourada com um pingente de uma estrela, e no meio a letra L, que deveria ser por conta dos meus dois nomes. Mais uma vez, um nó se formou em minha garganta e a tristeza tomou conta de mim.
- Desculpe por isso, sei que gostava dele...- murmurou o garoto olhando para o bilhetinho e já associando-o ao meu ar triste.
Uma lágrima insistente rolou sobre minha face e um soluço meu foi ecoado no local. Apertei a corrente de encontro ao peito e sentei-me no sofá, totalmente encolhida.
Dylan foi até mim, tomando-me em seus braços com carinho e uma futura compreensão. Recostei minha cabeça sobre o mesmo peitoral de mais cedo, o causador de toda desgraça.
Ri minimamente dos meus pensamentos.
- Está tudo bem.- sussurrou passando os dedos levemente sobre meus cabelos ruivos.
- Ele nunca me abandonou.- mais uma soluçada.- Nunca... Eu fui tão idiota.- indaguei com raiva.
- Lílith... Eu também jamais irei te abandonar.
O olhei fixamente e dei um leve sorriso irônico, o mesmo não entendeu, mas continuou me fitando.
- Você já fez isso.- e logo me arrependi de tais palavras.
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