Lembranças
1 Capítulo Único
Mello já não está mais neste mundo, mas, por mais que o tempo passe eu não deixo de ter esperança de que Mello irá voltar. Que ele entrará por aquela porta e destruirá minhas complexas formas de diversão. Mas Mello morreu, então por que ainda tenho esta esperança tão tola dentro de mim? Afinal, os mortos não retornam a vida.
Ontem mais um caso foi resolvido, era demasiado fácil, se é que posso falar. Mas faltou Mello pra me dizer que isso não foi nada, que qualquer pessoa com o QI um pouco mais alto teria resolvido esse caso sem maiores problemas e que eu não deveria ter sucedido “L”, o que chega a ser contraditório, já que foi Mello quem me mandou ficar com o cargo. Realmente nunca o entendi e, pelo visto, não vou mais entender.
Vou Wammy’s House e volto ao meu antigo quarto, deito-me em minha antiga cama, e começo a fitar toda a extensão do cômodo, comparo-me a ele, ambos somos brancos e inexpressivos, mas o que nos diferencia é que ele tem companhia, eu não.
Mello realmente faz falta, principalmente nesse quarto, lembro-me que lá fora nós mantínhamos a fachada de ódio um do outro, mas aqui dentro todos os insultos já ditos eram trocados por declarações, e o ódio pelo amor. Mello se desculpava, falava que havia explodido em um momento de raiva e para que eu não deixasse de amá-lo por esse motivo, como se eu realmente conseguisse fazer isso. Eu sempre o perdoava, por que eu sabia que ele era levado pelo calor do momento, ele era guiado pelas emoções, e era esse simples defeito que fazia com que ele me completasse, já que eu não ajo por impulsos e acabo sempre sendo racional demais, e talvez seja esse meu defeito que fazia com que eu o completasse. Juntos éramos completos, perfeitos. Éramos...
Ainda olhando o perímetro do quarto, reparo em um objeto inusitado dentro de meu antigo guarda-roupa, que, por acaso, estava com as portas abertas, levanto-me e vou em direção ao móvel, fico parado em frente á ele, olhando seu interior. Lá, uma caixa preta envolta com uma fita de laço vermelha. Olho-a mais de perto, curioso, vejo em destaque um cartão. O cartão é de um papel grosso de preto cintilante, não me interessa saber seu tipo. Nele letras vermelhas luminosas, talvez uma caneta de gel, lia-se com clareza: “No final das contas, a frase eu te amo prevalece sobre tudo. Mello."
A letra de Mello, a frase que ele sempre repetia em meu ouvido. Mello... Um presente? Uma despedida? Como isso veio parar aqui? Mello já está morto. Talvez... Roger? Talvez...
Pego a caixa, meio abismado, abro-a e vejo seu conteúdo. Dentro um CD, em sua capa escrita: "Nossas músicas". Nossas. Ao lado um coelhinho de pelúcia, todo branco. Branco igual a mim. O pego. Junto a ele mais um cartão, dessa vez todo branco, escrito com letras pretas: Querido Mello. Minha letra. Viro o cartão. Na verdade não o cartão mas sim a foto. Então isso é uma despedida? Mello, você está me mostrando que não vai mais voltar? Abraço o coelho. Isso é sadismo, realmente a sua cara. Viro a foto, logo abaixo de minha letra infantil noto uma letra mais caprichosa, a mesma letra do primeiro cartão, a letra de Mello. “Doce Near, meu único e mais perfeito amor.”. Único e mais perfeito amor. Isso nos meus olhos são lágrimas? Eu realmente estou chorando? Mello, o que você fez comigo?
Olho para o CD no fundo da caixa, só olho, não observo, as lágrimas não me deixam enxergar direito. Sinto-me curioso. O pego e vou até a gaveta de meu criado-mudo, encontro meu antigo discman, que ganhara de Matt, só não sei por qual motivo aquele ruivo o dera para mim... Talvez ele já soubesse o que iria acontecer. Ele sempre sabia. Ele soube quando a obsessão do Mello para me alcançar era amor, e quando eu descobri que amava o Mello. Talvez ele soubesse que Kira o tiraria de mim e que Mello me mandaria algo assim. Sabe... Muito obrigado Matt. Coloco o CD no discman. Volto a deitar em minha cama e aperto o play. A primeira música começa e logo a reconheço. Sim, agora eu sei o motivo pelo qual o CD se chama Nossas Músicas.
“Inspiração dos meus sonhos, não quero acordar
Quero ficar só contigo, não vou poder voar
Por que parar pra refletir se meu reflexo é você?
Aprendendo uma só vida, compartilhando prazer.”
Mello sempre dizia que essa música é como se fosse feita dele para mim. Eu era a inspiração dos sonhos dele, ele queria ficar comigo pelo tempo que pudesse, que eu era a parte dele que faltava, que essa era a nossa música. O que eu achava interessante, já que nunca fizemos questão de uma.
“Por que parece que na hora eu não vou aguentar?
Se eu sempre tive força e nunca parei de lutar?
Como num filme, no final tudo vai dar certo
Quem foi que disse que pra tá junto precisa tá perto.”
Realmente acabou como um filme. Matt morreu como em um filme de gângsteres, e você como em um filme de ação. E eu acabei como o último personagem de filme de terror: sozinho.
Quem disse que para estar junto é preciso estar perto? Não é preciso mesmo, um exemplo somos nós, ou melhor, fomos.
“Pensa em mim
Que eu tô pensando em você
E me diz...
O que eu quero te dizer
Vem pra cá,
Pra ver que juntos estamos
E te falar
Mais uma vez que te amo.”
Mello, você sabia que meu pensamento sempre estava focado em você, assim como eu sabia que o seu estava em mim, eu sabia que você me amava, e Mello também sabia que eu o amava. Mello, mesmo que você agora esteja morto. Eu ainda te amo.
“O tempo que passamos juntos vai ficar pra sempre
Intimidades, brincadeiras, só a gente entende
Pra quem fala que namorar é perder tempo eu digo:
Há muito tempo eu não crescia o que eu cresci contigo.”
Realmente, nunca esquecerei meus momentos com você. Dizem que quem vive de passado é museu. Sabe, eu não ligo, eu só não quero encarar a realidade, eu só não quero encarar uma vida solitária, sem ninguém, sem L, sem Mello.
“Juntos no balanço da rede, sob o céu estrelado
Sempre acontece, o tempo para quando eu tô do seu lado
A noite chega eu fecho os olhos e é você que eu vejo
Como eu queria estar contigo eu paro e faço um desejo.”
A noite chega eu fecho os olhos, respiro fundo, na esperança de sentir o odor agradável de chocolate, ou a doçura dos lábios de cacau de um loiro, mas é tudo em vão, acabo sempre abrindo os olhos e fitando o vazio do quarto do QG. Mello, eu quero você comigo. Volta pra mim, por favor.
“Pensa em mim
Que eu tô pensando em você
E me diz
O que eu quero te dizer
Vem pra cá,
Pra ver que juntos estamos
E te falar
Mais uma vez que te amo.”
Volto a chorar. Não quero mais me sentir assim. – Mello... – Viro-me na cama e fico na posição fetal. – Mello... – Desligo o discman e continuo na mesma posição. Abraço o coelho com mais força. Fecho os olhos na vã expectativa de que quando abri-los Mello estará aqui, mas não é assim. Abro os olhos e a única coisa que vejo é a parede branca do quarto. Mello, seu maldito! Por que você fez isso? Se você tivesse trabalhado comigo você ainda estaria vivo! Você e Matt! Se seu orgulho não falasse tão alto você ainda estaria vivo! Se você não se arriscasse ainda estaria aqui comigo! Mas “se” é só uma possibilidade. E a possibilidade de eu ser feliz ao lado de Mello já não mais existe. Mello agora é só uma lembrança.
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