Lembranças
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu me lembro de quando tudo aconteceu, foi quando eu tinha dezesseis anos e estava no segundo ano do ensino médio. Eu, Cadú e Mabi estávamos voltando dos jogos estudantis da escola, era uma noite escura e fria e conversávamos para nos esquecermos do frio.
– Cara, você viu a cara da Aninha quando saiu o resultado? – eu perguntei
– Ela achava que ia ganhar e ficou só na ilusão! – Mabi comentou enquanto segurava o riso.
– E ninguém acreditava na gente e nós ganhamos do terceiro ano! – Cadú se pronunciou
– Foi incrível! – comentei – Como hoje está frio!
– Eu estou congelando – reclamou Mabi.
– Não sei que frio é esse! – disse o Cadú.
– Não sei que fogo é esse! – eu e Mabi falamos simultaneamente.
Pulamos por cima de uma poça da água e tropecei no meu próprio, o que fez com que todos nós caíssemos juntos. Depois de muitas gargalhadas, nos levantamos e eu arrumei o meu cabelo preto e liso. Naquela época eu era alto para idade e tinha os cabelos lisos e pretos, corpo magro e os olhos pretos, já a Mabi era bonita com seus cabelos ruivos e caracolados e seu corpo esbelto. Ela estava usa saia curta do uniforme da equipe e uma blusa sem mangas com um belo decote. Cadú era um rapaz de dezessete anos, forte, da minha altura, cabelos castanhos e olhos da mesma cor de seus cabelos, vestia uma bermuda jeans, tênis preto e uma blusa azul de mangas longas. Eu usava uma calça jeans, all stars vermelhos e uma regata branca.
– Cadú! Estou com frio, me dá sua blusa? – Mabi implorou com cara fofinha.
– Ah! Tá bom! Toma! – Cadú resmungou.
Ele era generoso e tirou sua blusa e ficou sem camisa mesmo; eu nunca tinha reparado como o trabalho na academia estava fazendo bem a ele, seus braços estavam fortes e o peitoral estava ficando definido e um “tanquinho” começava a se formar. Eu olhei não muito para não ficarem me zoando e voltei a olhar para frente.
– Eu não sei como é que você consegue ficar sem camisa num frio desse.
– Geralmente, eu sou friorento, mas hoje estou com calor. – ele falou de forma simples de calma.
– Gente, eu vejo vocês na segunda. – Maria Beatriz já tinha chegado ao ponto em que a gente separava, ela ia para esquerda e eu e o Cadú descíamos a ladeira para chegar ao nosso bairro.
Fomos descendo a ladeira calmamente até que reparei Cadú ainda estava sem camisa.
– Você deixou a sua blusa com a Mabi! – acidentalmente falei bem alarmado.
– Relaxe. Está tudo bem
Ficamos em silêncio por um tempo e resolvi puxar assunto.
– Então, e você e a Carol, vocês ficaram?
– Não, ela não quis. Disse que não quer se envolver com ninguém por agora
– Que chato, cara... — comentei sem muita animação.
– Mas, eu não ligo. Acostumei-me a ser solteiro. E você?
– Eu o quê? — indaguei assustado.
– Está ficando com alguém? — perguntou por curiosidade.
– Não, acho que só os amigos bastam de companhia.
– Ahn? Quem é você e o que fez com o Nico?
– É que eu não tenho jeito para xavecar garotas.
– Que isso? Eu te ensino!
– Para Cadú, está me deixando envergonhado.
Lembro que neste momento nos tivemos que passar por uma calçada estreita e nossas mãos se esbarravam constantemente, era estranho e Cadú não tinha mentido, ele estava muito quente. Aproximamos da esquina e eu ouvi um som estranho lá atrás e virei a cabeça para olhar.
– NÍCOLAS! OLHA O CARRO!
Quando me virei e vi aquele carro vindo à minha direção, eu paralisei. Cadú correndo pegou na gola da minha camisa e me puxou para trás. Lembro que caímos um em cima do outro. Ele caiu por cima de mim, seu corpo estava quente e podia sentir seus braços fortes ao meu redor, abraçando-me, podia sentir também seu calor passando para o meu corpo. Eu não sabia o que estava acontecendo, nunca tinha reparado tanto assim nas coisas antes.
– Você está bem? – ele perguntou preocupado.
– Acho que sim, só ralei um pouco o braço.
– Consegue se levantar?
– Não com você em cima de mim.
Ele corou, afrouxou o abraço, se levantou e ele me estendeu a mão para que eu pudesse levantar.
– Muito obrigado, herói.
– Que isso? Não foi nada — ele se esquivou do título.
Foi aí que eu reparei que ainda não tinha soltado a mão dele, como ele não estava incomodado, eu deixei lá. O silêncio por um tempo enquanto voltávamos a andar em direção às nossas casas. Quando paramos em frente a minha casa, ele soltou a minha mão, envergonhado por não ter soltado-a antes.
– Muito obrigado por ter me salvado. Eu poderia ter morrido.
– Você não precisa agradecer, eu faria isso por qualquer um.
Eu não sei o que aconteceu comigo, só sei que eu abracei Cadú com muita força e ele retribuiu da mesma maneira. Fiquei assim, sentindo o seu perfume por um longo tempo e passando a mão pelas suas costas. Lembrei-me de todos os momentos que tinha passado com meu amigo de infância. Do nosso primeiro dia de aula, do videogame que compramos com nossas economias, quando vencemos dos melhores jogadores de futebol do bairro, quando ele pegou catapora e eu também. Lembrei também que depois da educação física na escola, tomávamos banho sem esconder nada um do outro e o via se trocando constantemente. Esta última lembrança fez-me arrepiar todo e um calor diferente subir pelo meu corpo. Um calor gostoso e calmo, mas fiquei com medo e delicadamente fui parando de abraçá-lo e ele fez a mesma coisa.
– Então tchau!
– É, tchau! – falamos envergonhados
– Até amanhã...
– Espera! — eu gritei rapidamente
– O que foi?
– Queria te agradecer.
– Mas você já fez isso
– Não do jeito que eu quero
Nossos rostos se aproximaram, mais e mais, podia sentir sua quente respiração e por fim eu beijei ao lado de sua boca, não chegou a ser um beijo foi mais uma demonstração de afeto. Mesmo assim, eu fiquei bem envergonhado e entrei em casa bem vermelho e corri para o meu quarto.
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