Lembrança De Morrer

1 Capítulo único.


Na hora, eu não consegui entender por que exatamente havia feito aquilo. Quando eu fui perceber, já tinha feito. Normalmente, eu não jogaria minha vida fora como eu joguei tão facilmente. Não por alguém. Hinata-sama, você foi minha exceção. Foi por você que agora estou aqui, sentindo minha alma se despedir de meu corpo.

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,

Que o espírito enlaça à dor vivente,

Não derramem por mim nem uma lágrima

Em pálpebra demente.



Agora, quero que você vá e lute por mim. Faça o que não pude fazer. Seja forte. Fique forte. Torne-se forte. Sacrifícios são necessários. E eu faço por todos. Pela paz. Por você. Não chore, por favor. Única coisa a qual me sufoca nesse mundo é vê-la triste. Ainda mais por minha causa.



E nem desfolhem na matéria impura

A flor do vale que adormece ao vento:

Não quero que uma nota de alegria

Se cale por meu triste passamento.



Depois que tudo isso passar, quero que seja feliz. Seu sorriso é exuberantemente magnífico, belo, singelo e delicado. Nunca deixe de sorrir. Queria viver para que compartilhasse comigo; queria fazer parte da sua felicidade, mas já sou uma inexistência para o mundo — assim como para você, que, nesse mesmo instante, já acaricia o rosto daquele que você chama de amado e lhe dá sua mão.



Eu deixo a vida como deixa o tédio

Do deserto, o poento caminheiro

— Como as horas de um longo pesadelo

Que se desfaz ao dobre de um sineiro;



Não me sinto mais em si. Estou num escuro corredor, onde me deparo com minhas mais antigas lembranças. Tão minhas, mas já me parecem tão obstantes... Como um sonho. Eu revivia todo o meu passado em instantes; cada momento, cada detalhe. Coisas que até mesmo a mim não me era recordado.



Como o desterro de minh'alma errante,

Onde fogo insensato a consumia:

Só levo uma saudade — é desses tempos

Que amorosa ilusão embelecia.



Caminho por aquele universo desconhecido, vendo minhas imagens em decorrer do tempo. Esse ilustrado tinha 18 anos de duração. Apenas 18 anos. Nunca imaginei que viveria somente até aqui. Que nunca constituiria minha própria família. Era doloroso pensar no agora. Não havia mais um amanhã. Apenas lembranças. Lembranças as quais tenho saudade de vivê-las.



Só levo uma saudade — é dessas sombras

Que eu sentia velar nas noites minhas...

De ti, ó minha mãe, pobre coitada

Que por minha tristeza te definhas!



À minha frente estava minha falecida mãe, a qual há tempos não a via. Não me lembrava exatamente dela em vida, já que ela havia falecido quando eu era apenas ainda um bebê. Ela olhava para mim, sorridente, e caminhou até mim. Olhou-me nos olhos e me beijou a testa.

– Como você cresceu, Neji. – Uma voz ecoava em minha mente vindo dela. Foi então que ela me abraçou, deixando algumas lágrimas caírem de seus olhos perolados idênticos aos meus. – Okaerinasai, meu filho...

Assim, ela voltava a me fitar e sorria gentilmente. Aos poucos, sua imagem se desfazia e estava eu novamente sozinho naquele corredor.

De meu pai... de meus únicos amigos,

Poucos — bem poucos — e que não zombavam

Quando, em noite de febre endoudecido,

Minhas pálidas crenças duvidavam.



Pai... Meu eterno herói e exemplo. Quantas saudades suas eu senti... Agora eu o via adiante. Agora quem inundava em lágrimas os olhos era eu. Corri para o mesmo, abracei-o fortemente. Ele apenas sorriu para mim e me abraçou de volta.

– Estou orgulhoso de você, filho. – Ele me disse.

Eu então o olhava para analisar cada um de seus detalhes; aqueles que o tempo havia me feito esquecer. Ele bateu nas minhas costas levemente, como se me encorajasse. Assim como minha mãe, ele desaparecia gradativamente. Prossegui pelo caminho à frente.

Agora, ninguém mais aparecia à vanguarda. Ao invés disso, eu encontrava cenas. Cenas que um dia já vivenciei. Eu me via, revivia. E lá estavam meus poucos e verdadeiros amigos. Aqueles que, em momentos de dificuldade, animaram-me com seus jeitos exagerados e únicos. Aqueles que, por mais difícil tenha tido uma situação, jamais me abandonaram. Gai-sensei... Você foi o mais exagerado e estranho professor que alguém poderia ter. Fazia coisas que eu certamente detestava, mas fez de meus treinamentos os mais divertidos de toda minha vida.; Lee, você foi o amigo fiel e o oponente mais persistente que eu já tive. Esforçado, estranho e exacerbadamente parecido com o Gai, você foi único e inigualável; e Tenten, minha melhor amiga. A você agradeço por sempre estar ao meu lado. Quantas vezes não nos desabafamos um para o outro? Lembro-me perfeitamente de quando você chorava em meus ombros pelos desentendimentos com o Lee. Ou do dia em que você me confortou, quando quase perdi a Hinata-sama para sempre. Naquele momento, pensei que eu fosse perder a cabeça. E foi você quem me deu força. Obrigado, meus amigos, por terem sido tão presentes em minha vida.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,

Se um suspiro nos seios treme ainda

É pela virgem que sonhei... que nunca

Aos lábios me encostou a face linda!



Ao seguir mais adiante, vou ao encontro das minhas lembranças mais belas, as quais jamais me permiti esquecê-las. Os minutos... Os segundos que passei junto a você, Hinata-sama, foram os mais brilhantes e importantes para mim. Você foi tudo para mim. O tempo todo. Até hoje e sempre. Mesmo que para você eu não passasse meramente de uma parte do seu passado. Para mim, você foi minha única motivação para viver. Queria sempre estar ao seu lado para te proteger, te fazer feliz, te ver feliz... Ver-te sorrir. A verdade é que eu sempre te amei e é inegável tal fato. Infelizmente, você não sentia o mesmo por mim. Você apenas me via como seu primo, um alguém da família. Você sempre amou o Naruto incondicionalmente, bem como eu te amei, e, por mais que eu tenha me esforçado, você jamais olhou para mim com outros olhos. Se você soubesse como me doeu vê-la quase morta na luta contra o Pain... Não era isso que eu queria pra você. Meu mundo havia caído naquele momento. Eu havia perdido o chão, até mesmo quase a sanidade. Confesso que na hora praguejei em mente contra o Naruto; que jamais o perdoaria se você morresse daquela forma. Mas, graças aos céus, eu a vi voltando à vida... E meu coração, embora magoado, estava feliz por não tê-la perdido para sempre.



Só tu à mocidade sonhadora

Do pálido poeta deste flores...

Se viveu, foi por ti! e de esperança

De na vida gozar de teus amores.



E, novamente, você pulou para protegê-lo. Eu, agora no mesmo local que você, não poderia permitir que algo lhe acontecesse. Não. Não por causa dele novamente. Então eu morri por você. Isso talvez fosse tudo o que eu pudesse fazer por você, para te mostrar que eu sempre estive ao seu lado. Mesmo assim, você parecia não ter compreendido meus sentimentos de forma devida.



Beijarei a verdade santa e nua,

Verei cristalizar-se o sonho amigo....

Ó minha virgem dos errantes sonhos,

Filha do céu, eu vou amar contigo!



A verdade é que, por mais que eu soubesse que você nunca me amara como eu queria que você tivesse me amado, sua frieza após minha deixa foi dolorosa... Queria ter sido mais importante pra você. Isso me entristece profundamente, mas o que posso fazer? Mas está tudo bem. Não é sua culpa. Ao menos, posso descansar em paz sabendo que pude salvar sua vida...



Descansem o meu leito solitário

Na floresta dos homens esquecida,

À sombra de uma cruz, e escrevam nelas

— Foi poeta — sonhou — e amou na vida.—



Agora, eu vejo o corredor da vida chegando ao desfecho juntamente com minhas memórias. Olhava para trás, fitando o caminho até então percorrido se desintegrar como cinzas de uma fogueira. Suspirei novamente, tão convicto de que, agora sim, finalmente, tudo havia chegado ao fim. Voltei a caminhar, porém agora em direção à luz. Posso dizer a mim mesmo que vivi, sonhei e amei. Fiz minha existência valer a pena. Tudo o que me resta, nesse momento, é meu descanso eterno.



Mas quando preludia ave d'aurora

E quando à meia-noite o céu repousa,

Arvoredos do bosque, abri os ramos...

Deixai a lua prantear-me a lousa!



Eu te amo, Hinata-sama.

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