Leis De Um Sacrifício
23 — Cap. 22
Notas iniciais
Os nós estavam apertados e Klaus se perguntou se toda aquela verbena não machucaria a verdadeira Caroline, mas fez seu melhor para demonstrar o contrário. Não era como se pudesse se importar com isso naquele instante.
Bonnie estava sentada ali no chão, nas proximidades do porão, enquanto o forte cheiro de alguma erva que Margareth havia trazido consigo de viagem queimava forte, deixando qualquer pessoa ali desnorteada.
Um leve rangido soou, o que entregou que Caroline havia acordado. Bonnie se levantou, olhando através da porta de ferro ali, em plena penumbra os olhos diabólicos de Caroline brilharam em um negro profundo, quase como os olhos de um cão no escuro. E aquilo a aterrorizou. Os dentes da loira rangiam alto, enquanto esta tentava se soltar.
– Não adianta – a voz de Margareth soou, ela se desencostou da parede, caminhando para mais perto do circulo de velas e ervas queimando que prendia a loira em seu lugar. – Ela está muito fraca e você também... E mesmo que não estivessem... Bem, esse feitiço te manterá cá.
Então Caroline gargalhou diabolicamente. Um som estranho para Bonnie, que pressionou os olhos com força, enquanto tentava não pensar nos terríveis pesadelos que teve com aquela coisa que a perseguiu e tentou aterrorizá-la, com total sucesso, nos últimos dias em seus sonhos. Lembrava-se então de Caroline tentando se comunicar com ela. A verdadeira Caroline que havia se manifestado na casa dos Salvatore dias atrás. Em como aquela Caroline vinha seguindo Bonnie por todos os cantos, em como havia sido perseguida no banheiro do Grill dias atrás.
– Se você, seja lá quem você é, está aqui... Onde está Caroline? A verdadeira Caroline? – a morena se permitiu perguntar, aparentando completa segurança sobre como se comportava ou falava.
Aquela Caroline olhou-a então, seu sorriso torto e diabólico dando claros sinais de como achava tudo aquilo estúpido.
– Você realmente quer saber, Bonnie? – perguntou, inclinando a cabeça para o lado, com seu sorriso torto. Bonnie assentiu uma vez, abraçando seu próprio corpo. De repente, parecia que a temperatura havia caído aos montes. – Ela está no inferno. Nesse momento, deve estar rebolando no colo de Satã. Ou talvez, apenas esteja sofrendo e se lamentando sobre o maldito dia em que aceitou partir com o maldito Klaus para poupar o traseiro de vocês... Você sabe, não sabe? Ela se arrepende todos os dias disso... Ela pensa em como vocês nem ao menos se deram ao trabalho de se preocuparem em salvá-la das garras dele. Ou como todas as vezes em que ela se deitava com ele se sentia imunda.
– Mentira! – a voz de Klaus soou, um estrondo na porta. Ele se aproximou, seu rosto convertido em fúria. – Mentiras! Caroline me amou! Me ama... Sempre o fará!
Caroline riu alto, seus dentes agora pareciam mais afiados naquela distância onde Bonnie se encontrava. Ela sentiu ainda mais medo. O tipo de medo que podia ser farejado, e Caroline o havia feito bem.
– Mentira? Nada do que digo aqui é mentira... Você deveria saber melhor... Eu estou nela! Eu conheço seus pensamentos. Ela e eu somos um! – cantarolou ela. – Ela sente nojo de você, Klaus. Toda vez em que a toca é como se fosse machuca-la. Ela passou a ter nojo de você... Nojo de todas as vezes em que ela bebeu de seu sangue, em todas as vezes que você se deitou com outra mulher além dela... De nunca tê-la reconhecido! E... Principalmente: de tê-la matado!
As palavras deferidas soaram como uma bofetada sobre o híbrido, fazendo-o então atravessar o circulo criado por Margareth, e esbofeteando a face de loira. O ar daquela sala então se tornou pesado, quase impossível de respirar e todos ali presentes não o fizeram, enquanto aguardavam os próximos passos do Original.
– Sabe como foi o inferno para ela, Klaus? – a loira perguntou, permanecendo com a incessante caça por mais e mais ódio. Afinal, ela se alimentava das emoções do loiro. Embora que estas estivessem adormecidas naquele canal entre os dois. Porque alguém havia quebrado a ligação entre eles e ela se sentiu estúpida ao pensar que, na verdade, ela havia sido enganada por um bando de crianças. – Ela nos assistiu hoje pela manhã... Ela assistiu a forma suja como transamos sobre a mesa do seu escritório. Em como você gemeu para mim... Em como você disse que me amava e não a ela. E sabe qual a melhor parte de tudo isso? Em toda a eternidade, ela jamais se esquecerá daquelas cenas. Da cena de como você chorou por ela, de como foi ver você desistindo e tentando se matar por causa dela. Ela jamais esquecerá que, na verdade, você é fraco.
E então riu, sua gargalhada gelada, inclinando a cabeça para trás, para olhá-lo melhor nos olhos. Os olhos dela eram negros, pupilas dilatadas ao extremo, deixando fora de vista o azul esverdeado dos olhos dela.
– Eu vou matar você... Destroçar você! – ele gritou, seu rosto frio, embora que ainda enfurecido. – Não restará nada de você neste mundo!
– Você sabe o que é engraçado? Neste corpo, você poderia me aniquilar, mas a ideia de matar Caroline outra vez o machuca demais para realmente fazê-lo. Agora, ela não voltaria. Não o perdoaria, também... Mas se o fizesse... Bem, não importa! Você nunca saberia de qualquer forma – gargalhou novamente.
– Vamos terminar com isso, então – ele disse, virando-se para onde Margareth e um grupo de outras bruxas estavam reunidos, assistindo alheios à cena ali. E estes então acataram, aproximando-se do circulo, sussurrando palavras em um idioma há muito esquecido para os humanos. E o sorriso de Caroline então começou a desmontar, à medida que percebia o quão velha aquela magia era.
Klaus então atravessou a porta, desaparecendo pelo corredor de pedras da casa, enquanto Bonnie observava, sentindo-se inútil então.
[...]
As teclas do piano pareciam não mais aguentar serem tocadas, no entanto, a necessidade de permitir que música desse lugar a aquela angustia fosse mais forte do que o Original podia administrar. Seu coração pulsava de uma forma tão dura em seu peito que, por um instante, ele quis que este parasse. Principalmente, quando os gritos de Caroline e palavras duras, de como ele não merecia aquela vida, eram proferidas.
Elijah estava não muito longe dali, ele podia escutar, mas seu irmão mais velho tinha plena noção de não ir até o híbrido. Parecia então saber que se fosse, seria difícil administrar tudo aquilo com o sofrimento individual do irmão mais novo e Klaus agradecia por tal ato.
– Klaus... – a voz então soou. Não houve um segundo sequer que ele tivesse desejado ouvi-la novamente. Talvez em um século ou mais. Mas estava ouvindo-a agora. Então o som das teclas do piano pararam, e os olhos do híbrido se levantaram para enxergar a garota ali.
Rebekah aproximou-se cautelosa. Seu rosto um pesar completo. Seus olhos amedrontados como os de um filhote. Mas tudo o que Klaus pode sentir fora asco.
– O que você quer aqui? – ele exigiu, segurando-se com força ao piano.
– Você sabia que eu estava vindo... – ela disse, como se duvidasse que ele realmente sabia de tal coisa ou havia sido apenas um dos planos de Elijah para reaproxima-los.
– Não é uma boa hora para reaproximações e perdões, irmã. Por que não está por aí com seus brinquedos e me deixa em paz?
– Porque eu quem causei tudo isso – ela disse, tornando a se aproximar. – Eu pensei que já tínhamos passado uma borracha sobre tudo isso, mas... Não passamos, Klaus. Eu não quero ter de fugir de você. Não é justo!
– Você juntou-se com aquele maldito... Para matarem-na.
– Por sua causa! Você quem causou os danos causados contra você, Niklaus! Você só não percebe que é causador de seus próprios danos.
– Você... – ele começou, mas então outro grito enfurecido de Caroline soou. Fazendo ambos se calarem. Klaus pressionou seus olhos com força, abaixando sua cabeça.
– Eu sinto muito sobre o que está acontecendo com ela – Rebekah disse.
– Não sinta. Talvez você estivesse certa todo o tempo: eu não mereço amor e faço questão de que os que estão ao meu redor não amem, não sejam felizes... Você e Elijah merecem mais do que isso. Kol, também... Ele ao menos foi embora, decidiu que não viveria sob minha custódia de ódio. Mas vocês... Vocês não me abandonaram... E eu os condenei a isso. Lembra-se de Celeste? A bruxa francesa de Elijah? Eu a matei como forma de mantê-lo por perto... Ou lembra-se do filho do governador de New Orleans? Eu o matei também... Porque eu acreditava que você seria infeliz. Você é agora... E ainda há Marcel... Todas as pessoas que machuquei, que morreram por minha causa.
– Você está tentando se redimir ou algo assim? Não vai funcionar... – ela bateu seus pés, cruzando seus braços.
– Eu não quero redenção, Rebekah... Eu percebi, no instante em que descobri a verdade, e como eu havia sido enganado todo esse tempo, que não existe redenção para pessoas como eu. Monstros como eu. Eu não a quero... Não se tiver de passar por mais dor, mais sofrimento até me tornar tolo como havia sido antes.
– Você não era tolo! – Rebekah agora chorava, seus lábios tremiam enquanto esta se aproximava do irmão mais velho. – Você não era tolo, Niklaus. Inocente, sim. Mas você tinha uma alma tão linda que se rompia com o tempo, a cada vez em que Mikael batia em você, agredia-o. Não há como manter uma alma tão boa sob tudo isso por todos esses longos séculos. Mas você, de sua forma suja e corrompida, sempre tentou manter sua família por perto, mesmo que quiséssemos seguir em frente. Eu não te culpo por amar demais as únicas coisas que lhe restaram, Niklaus. Eu te culpo pelos seus erros terríveis, sim, mas jamais por isso. Jamais te culparia por amar demais.
– Caroline foi sua redenção, irmão – a voz de Elijah soou. – Ela fez parte dessa família no instante em que você levou-a consigo para longe, redescobrindo todo o amor que alguém poderia descobrir. Rebekah e eu amamos, Finn amou... Até mesmo Kol amou... Mas você nunca se deu ao trabalho de tal coisa além de Tatia. E então, você amou pela primeira vez, o tipo de amor que dói quando nos é arrancado...
– Eu arranquei o amor de vocês! De todos vocês! Que tipo de baboseira estamos falando? Eu sou o grande malvado e maldito monstro aqui. – ele exclamou, exasperado.
– Eu te perdoo por isso – Elijah disse. – Sempre me lembrarei disso... Sempre procurarei a redenção para você por isso.
Outro grito soou, agora, pareceu mais de dor do que qualquer insulto que ela havia proferido em todo instante que esteve naquele lugar. Klaus tornou a pressionar os olhos com força e então, alguém irrompeu pela porta da sala. Bonnie e ela não parecia portar coisas boas.
Klaus se levantou como um raio, se aproximando da bruxa Bennett, segurando-a pelos ombros, esperando que esta então dissesse o que a estava aterrorizando.
– Ela não irá sobreviver... Eles... Eles irão mata-la! – ela disse, como se estivesse engasgada pelas palavras. Seus curtos cabelos desgrenhados pelo rosto, seus olhos esbugalhados. – Margareth irá mata-la!
– Magh não faria algo assim! – Rebekah retrucou, ofendida.
– Então veja por si só! – tornou a retrucar Bonnie, horrorizada. – Aquilo é tudo o que sustenta ela agora... Quando conseguirem arrancar aquela maldita coisa de Caroline, seu corpo não aguentará! Há muita verbena, muito sangue de vampiro...
– Caroline iria querer que expulsássemos isso a qualquer preço – disse Elijah, de forma impassível. Klaus fitou-nos nos olhos, comunicando-se com o irmão mais velho. Havia então compreensão no rosto de Klaus após aquela ligeira comunicação.
– Oh, meu Deus... – Bonnie então soou horrorizada, no mesmo instante em que notou o que realmente estava acontecendo. Klaus permitiria que eles matassem-na. Que eles se livrassem daquilo que habitava o corpo de Caroline a qualquer custo, desde que aquilo não atravessasse o mundo, não chegasse ao híbrido. – Onde você está com a cabeça? Você enlouqueceu?
– Não, Bonnie... Na verdade, eu nunca estive tão certo sobre algo na vida – Klaus disse, virando-se para ela com uma expressão fria. Seus dedos se apertaram suavemente nos ombros de Bonnie, enquanto ela percebia o que ele estava perto de fazer. Não funcionaria, certo? Tarde demais... – Caroline aceitaria este termo. É para salvar todos! Eis um sacrifício que ela teria feito sem pestanejar. E ela estará fazendo... Caroline era forte, valente, mas existem batalhas que não podem ser ganhas, Bonnie... E você entende isso perfeitamente. Você compreende que se aquela coisa passar para meu corpo, estarão todas as pessoas perdidas. Será invencível. Será o fim.
– Você... Você não pode fazer isso... – Bonnie chorou, lutando para escapar de ser compelida.
– Nós vamos, minha bruxinha. E eu aconselho que você volte para os braços do pequeno Gilbert. É véspera de lua cheia e as coisas vão se tornar perigosas por aqui...
– Então, agora, você voltará para casa e encontrará Jeremy – Elijah interveio ao mesmo tempo em que Klaus – Vocês farão essas coisas que casais fazem. Você apenas teve um dia complicado, você ficou há horas na biblioteca, lendo. Tudo o que você precisa é descansar.
– Ela nunca se encontrou com a mãe desde que partiu – Bonnie murmurou, ignorando toda a hipnose. Ela era realmente forte. – Ela nunca se despediu realmente de Matt ou da mãe.
– E nem irá – disse Klaus. – Caroline está morta agora. E é assim que continuará. Agora, vá.
Ainda tremendo, sem compreender muito, Bonnie Bennett saiu da sala, caminhando para qualquer lugar que fosse longe dali. Longe dos Originais que tentavam convencê-la que matar Caroline era a única alternativa válida.
[...]
A aceitação do fato de que devia fazer a única coisa que não queria fazer era difícil para Klaus. Principalmente quando isso se aplicava sobre Caroline. Na verdade, a coisa certa devia ter sido feita há muito tempo atrás, mas sua necessidade de jogos, de estar ao extremo o quanto podia, o prejudicava. E era em momentos de decisões extremas como aquela que ele chegava a notar o quão tolo era.
– Você não precisa fazer isso se não quiser – Elijah, sua voz tão compassiva, sua expressão sempre benevolente. Tão nobre.
Klaus se aproximou do irmão mais velho, apertando-lhe o ombro suavemente, seguindo de uma batidinha sobre esse.
– Elijah, irmão... Existem coisas que eu preciso fazer sozinho... Esta, irmão, é uma delas.
– Mas você... – Elijah começou a protestar, mas ao fitar a expressão sombria do irmão mais novo, calou-se. Sim, Klaus estava certo; existem coisas que apenas você pode fazer. Coisas como matar o amor de sua vida, a mulher que amava.
Sem muito mais, ele se afastou do irmão, dando-lhe então passagem. Klaus terminou seu uísque e pôs o copo sobre peça de cerejeira ali. Havia um ar fúnebre neste, embora este mesmo ar tivesse companhia de aceitação. Porque sofrer pela mesma mulher durante os últimos meses, viver em uma corda bamba sem cama elástica embaixo para sua proteção era exatamente o que vivera. E talvez a pior parte tivesse descobrir que os últimos meses contentes de pura satisfação haviam sido mentirosos. Era então melhor viver sem ela, sem ver seu rosto todos os dias e tocar seus pelos loiros, acariciar seus lábios com os seus próprios ou a pele suave que esta tinha do que saber que tudo vivido fora mentira, do que odiá-la como ele o fazia agora.
Às vezes, a morte é o único caminho para um amor ser verdadeiro. Quando não muito do que se desgastar, do que destruir qualquer sentimento bom nutrido ao passar do tempo. Talvez essa fosse a fórmula para um amor verdadeiro, puro, duradouro que todos sonhavam ter, que lia-se nos livros... Um amor morto. Onde apenas um lado permanecia com a lembrança que se desfazia um pouco à cada dia que passava. Onde, com o tempo, primeiro a voz se tornaria cada vez mais diferente, até que esquecesse esta. Que a voz se transformasse em uma vaga lembrança, como quem lê um pedaço de papel, uma frase da pessoa amada. Você ligaria aquela frase à pessoa, mas não se lembraria da voz, da sonoridade ou da forma como ela lhe atingia todas as vezes que a escutava.
E então, o cheiro desta iria se apagando de sua mente. Você não se lembraria mais daquele cheiro caso estivesse só. Caso dependesse apenas de sua memória para tal coisa. O cheiro iria embora, dando lugar ao borrão de seu rosto. E, caso fosse apegado aos detalhes de tal pessoa... Bem, você se lembraria mais daquele detalhe do que do rosto em si. Talvez, fosse os olhos os causadores de lembranças. Talvez a forma como a pessoa amada sorria, a forma como as maçãs de seu rosto suspendiam, marcadas pelo sorriso. Talvez, as pequenas rugas nos cantos dos olhos, ou apenas os olhos brilhantes. Olhos brilhantes que ficariam por algum tempo em sua mente, até que então até estes iriam embora... Lembrança maravilhosa que iria embora.
Restariam momentos então para serem lembrados. Caminhadas, risadas, assuntos internos. Canções, livros... Não importa muito, afinal. Porque esquecer-se de tudo isso seria o fim. Mas havia uma parte em Klaus que lhe dizia perfeitamente que jamais se esqueceria de tais detalhes. Mas pelo menos, no fundo de seu ser, ele esperava que esquecesse.
Esquecesse do beijo na ponte do RioAlto; Esquecesse da forma como ela o olhou na primeira vez em que ele disse que a amava; A forma como eles se tocaram na primeira vez em que fizeram amor. Ele jamais se permitiria esquecê-la, embora quisesse.
– Saiam – ele disse, assim que entrou naquela pequena sala, onde aquela Caroline se encontrava desacordada.
– O que pensa que vai fazer? – Margareth perguntou.
– Dar um fim nisso... – ele disse, de forma óbvia.
– Mas... Mas estamos aqui para tentar salvá-la, Klaus... – indagou a bruxa, quase exasperada.
– Não há mais necessidade de tentar salvá-la, Magh. Nós dois sabemos que você a matará e usará a desculpa de que não conseguiu salvá-la de verdade para eu não mata-la. E eu não irei... Eu prometo. Mas se é para ela morrer, prefiro que seja por mim. Caroline iria querer isso.
– Não haverá forma de reverter isso se mata-la. Eu espero que saiba disso – ela então disse, afastando-se do circulo, caminhando para longe.
– Deus sabe que não – retrucou o híbrido. – Agora vão. Deixem-nos sozinhos.
E ele foi acatado.
O clã então se retirou de forma silenciosa. Klaus odiava precisar de favores de bruxas, mas aquele era um dos momentos em que ou usava ou perdia tudo. E bem, ele já havia perdido.
– Tomou sua decisão? – Caroline perguntou, levantando sua cabeça para fita-lo. Seu rosto desfigurado, quase não lembrando mais a antiga Caroline. Olhos esbugalhados e negros; dentes afiados e famintos; lábios cortados e repletos de sangue.
– Sim. A pior possível, mas o melhor jeito de me livrar de você – ele retrucou. – Mas antes... Me conte... Não veio atrás de mim exatamente por precisar de um corpo forte e saudável, indestrutível... Veio por outra razão. Mas... Qual?
Caroline, ou o que quer que fosse, sorriu. Seus dentes agora vermelhos pelo sangue tirado da loira. E então, ela contou-lhe:
– Na noite em que nasceu, Esther pressentiu algo ruim vindo de você. Ela era tola... Uma bruxa, anciã de sua aldeia, contou a ela sonhos que havia tendo com você... A forma como você reinaria sobre o mundo, reinaria sobre mortos e corpos. Você era o mal... A encarnação perfeita para tal. A destruição... E então, Esther ficou assustada. Tola, não sabia de nada que estava por vir... Ela livrou-se de você. Me ofereceu você, para que então o marido jamais soubesse da traição. Mikael não soube então – uma risada fria então soou da loira. – Quando ela tentou se livrar de você, afogando-o, os espíritos das bruxas anciãs daquela terra interviram, impedindo-a. As malditas bruxas interviram em mais do que salvar seu traseiro... Elas se intrometeram no pacto entre Esther e eu. E bem... Eu fiz questão de atormentá-las pelos séculos que vieram... Até que sua Caroline morreu... Ayanna juntou-se a mim, assim como as outras bruxas, em troca de enfim paz... Mas Esther tentou intervir... Acreditando que trazer a garota de volta era uma forma de você vencer... Mais uma vez, tola.
– E então, no dia certo, Caroline voltou... Bem... Não completamente – continuou. – Ela estava mudada, e ainda havia eu passeando por seu corpo... Lutando por total controle. Mas a velha francesa descobriu sobre e tentou me tirar... Eu fui mais rápido, matando-a. E assim, tomando controle da garota, esperando o momento certo para pular para você. Tomando seu sangue, te sugando... Sugando sua vida.
– Você não vai conseguir – Klaus disse.
– Por que não? – riu Caroline. – Você não a quer morta. Eu posso devolvê-la intacta... Mas há sempre um preço.
– E o seu seria...
– Seu corpo, claro.
– Não vai rolar... E você sabe o por quê? – indagou o híbrido, aproximando-se da loira, seus olhos perigosos, cheios de fúria. Sua decisão tomada então. Existem batalhas que devem ser perdidas para um bem maior... E eis aquele o bem maior: sua vida, a vida daqueles ao seu redor. Klaus não sabia que tipo de monstro estava lidando, mas tinha certeza que não era algo que iria querer deixar à solta. Então, o Original enfiou uma mão no peito da loira, tocando diretamente seu coração, segurando-o em sua mão. Ele podia sentir o órgão pulsar. Talvez aquela devesse ter sido a decisão tomada há muito tempo. – Porque não haverá como você passar para esse mundo com um corpo morto. Caroline, acima de todas as outras pessoas me perdoará por meu ato.
– Então faça – riu ela, sentindo o incomodo por uma mão em seu coração. – Eu aposto que poderei assistir uma eternidade de sofrimento seu. Valerá a pena. Uma eternidade sem ela... Um abismo em você. Um coração partido demais.
– Nenhum coração é partido demais para que não possa ser emendado. Lembre-se disso no inferno... – e ele puxou sua mão de dentro do peito da garota. Assistindo-a cair para trás.
[...]
A dor dilacerante em Bonnie era quase insuportável, mas não o suficiente para deter sua corrida de volta à mansão dos Originais.
Havia um gosto estranho, quase como a de uma bile próxima. Mas ela não podia desistir, não podia ceder às suas pernas doloridas ou seu coração que queria então falhar completamente. Ela não queria ter de desistir logo agora que havia encontrado uma saída.
– Eu encontrei! – ela gritou do corredor da mansão. O silêncio naquelas paredes era quase insuportável, ensurdecedor. Então o corpo se materializou à sua frente. Elijah.
– O que você encontrou? – ele perguntou, sua voz baixa, perigosa.
– Uma forma de trazê-la de volta! Uma real forma...
– Qual? – ele indagou.
– Lembra-se de quando Jenna morreu assim como amiga de Mason e John? Bom... É algo parecido com aquilo... Infelizmente, como sobrenatural, Caroline não pode trocar com um humano... Precisa trocar com algo não natural, mas que se adapte ao mundo sobrenatural quando não for sobrenatural...
– Não estou entendendo aonde quer chegar, senhorita Bennett... – Elijah indagou, confuso.
– Tal como as bruxas! Uma bruxa transformada em vampiro... Ela é sobrenatural antes de morrer... Alguém que morreu e voltou, alguém que morreu como sobrenatural e voltou também como tal.
– Alguém como um híbrido – a voz de Rebekah soou não muito atrás. Ela encarou Elijah, seus olhos cheios de um tormento profundo. – Não há ninguém para isso... Klaus matou todos os seus híbridos... E ele é o único que faria tal coisa...
– Há um detalhe... – Bonnie então murmurou. Os olhos se voltaram para ela, o silêncio fúnebre voltou ao ar. – É um sacrifício poderoso... Precisa ser feito por livre e espontânea vontade. Deve ser oferecido... Ninguém se ofereceria para tal coisa... E Klaus... Bem... Todos morreriam se ele morresse... Não há como isso acontecer...
– Há – Margareth disse então, cruzando seus braços não muito longe. Parecia então que todos na mansão estavam de ouvidos apurados para tais conversas. – Eu posso quebrar a ligação dele com seus vampiros... Eles não serão afetados se Klaus se sacrificar.
Rebekah então ficou escandalizada, seus olhos claros arregalados e seus lábios definidos entreabertos pela surpresa. Havia um jeito de então matar um original sem afetar toda a sua linhagem. Era algo realmente grande, algo realmente perigoso...
– O que diabos...
– Minha mãe me ensinou isso... Ela surgiu em meus sonhos noites atrás... Ela sabia que seria preciso tal coisa... – Magh disse.
– Louise vem contando segredos como estes para você e você... Você simplesmente decidiu que mataria Caroline? – Elijah indagou, exasperado.
– Aquela coisa foi culpada pela morte da minha mãe... Você mesmo a ouviu dizer.
– Que tipo de pessoa você vem sendo, Margareth... Nós... Nós confiamos em você, em seu clã. – Elijah explodiu, a raiva borbulhando sobre ele, querendo ser despejada sobre alguém. Elijah não era do tipo que explodia, mas aquele momento às vezes chegava, como uma bola de neve.
– Você jamais me permitiria matar seu irmão! – Magh exclamou. – Ou caso eu precisasse me livrar dele... Você se lembra do que ele fez... Como ele destruiu minha família e... Meu Deus... Louise o amava como um filho...
– Acha que eu não a amava também? – indagou ele. – Louise era maravilhosa para todos nós. Nós a amávamos. Era o tipo de pessoa que confiávamos cegamente. Nós desistimos de muitas coisas à pedido dela. Você não entende isso! Não há como!
– Não há? – Magh riu. – Klaus matou minha mãe biológica e todo o restante de seu clã. Nós ressurgimos das cinzas, aos poucos... Louise me criou como uma filha, ela olhou por vocês desde sempre... E ela está morta agora!
– Acha que Klaus não sofreu por sua perda? Acha que ele não tentou salvá-la?
– Se ele quisesse, teria... Louise, depois de duzentos anos, decidiu morrer? Quem eterno decidiria morrer assim?
Oh, Deus..., Bonnie pensou. Louise tinha mais de duzentos anos... Era mais velha que muitos vampiros que conhecera... Havia visto coisas terríveis acontecerem e ainda esteve de pé, ajudando e ao lado de Klaus e os outros originais. Por que? Havia sido algum tipo de paixonite por um deles? Era a única boa explicação sobre tudo aquilo... A discussão entre o Original e a bruxa continuou, fazendo com que a bile continuasse a querer seguir seu curso para fora.
Bonnie olhou então significativa para Rebekah, que aguardava Elijah perder toda sua paciência ou Margareth ataca-lo. Bonnie apenas se deu ao trabalho de acenar com a cabeça, para então correr até as escadas que davam para o subterrâneo da casa, onde Caroline e Klaus se encontravam naquele momento.
A cena que a morena encontrou foi profundamente perturbadora. Um Klaus sentado contra a parede e uma Caroline desacordada, sua cabeça pendendo para trás, e seu peito repleto de sangue e um buraco no mesmo.
Bonnie sentiu então a bile subir novamente, despejando no chão os fluídos. Um grito queria escapar de sua garganta, mas ela o segurou bem, afinal, não era fácil vomitar e gritar ao mesmo tempo.
– O que você fez?! – ela exclamou para o híbrido, sua voz baixa, quase inaudível. – Você a matou mesmo?
Klaus então olhou para cima, parecendo nota-la pela primeira vez. Seus olhos cheios de lágrimas. Bonnie nunca havia visto Klaus chorar e a cena pareceu partir-lhe o coração. Ele nunca havia se deixado mostrar fraco. Até aquele momento.
– Eu não tive coragem – ele disse, fugando e limpando seu rosto com a manga da camisa. Seus olhos voltaram para longe. – Porque eu não posso simplesmente perde-la novamente. Eu não posso viver num mundo onde ela não existe. Eu não posso viver sem ela... Embora eu pudesse fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para ela ter uma vida feliz. Ser feliz.
Bonnie sentiu seu peito ser esmagado pelas palavras de Klaus. Ela se perguntou se então devia realmente fazer aquilo. Se Caroline sobrevivesse, ela seria capaz de viver sem ele também? Ela o amava tanto quanto ele mostrou amá-la naquele instante?
– Sobre o que você disse lá em cima... – ele voltou seus olhos para a morena, as lágrimas ainda brilhavam ali. – Faça.
– Mas... Isso mataria os outros caso Margareth não nos ajudasse... – Bonnie indagou.
– Ela o fará. A liberdade de seu clã dependerá disso... Eu já não precisarei mais de seus serviços... Eu quero que faça. Caroline merece uma vida... Eu vivi o suficiente, eu vi o suficiente. Ela merece uma chance. Uma de verdade. Ela se sacrificaria por mim se eu estivesse em seu lugar.
Bonnie estudou seu rosto, seu queixo tremia. Klaus parecia tão cansado, tão exausto daquilo tudo. Poderiam os Originais se cansarem de todo o sofrimento e tudo o que viveram? Todo aquele mundo?
Sim, Bonnie concluiu. Eles se cansavam. E Klaus Mikaelson havia se cansado. A criatura mais perigosa que andava sobre a terra havia se cansado das noites sozinhas, da eternidade solitária. Porque no fundo, até os mais fortes poderiam se cansar de viver na escuridão, podiam se sacrificar por algo que achasse tão valioso a ponto de não querer a eternidade sem. No caso de Klaus, aquilo era Caroline.
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