Lei de Murphy
1 Capítulo 1
Notas iniciais
— Um cappuccino sem açúcar e com leite desnatado, por favor.
Leu bem essa frase? Pois é. Eu gostaria de ter dito ela. Mas infelizmente, essas palavras não saíram da minha boca. Quando uma frase assim é dita, é porque há duas pessoas na cena, cada uma de um lado diferente do balcão da cafeteria. Contra o meu desejo, eu estava do lado que serve, e não do lado que pede.
É o que você ganha por ser uma jovem de classe média baixa criada no interior do Texas que vai tentar a vida no eixo central do mundo: A ilha de Manhattan, bem no coração de Nova York.
— Moça? — A elegante cliente chamou minha atenção, felizmente me livrando de recapitular todas as minhas desilusões.
Sacudi a cabeça e a olhei praticamente pedindo desculpas.
— Perdão, senhora. É pra já. – Respondi — Um cappuccino sem açúcar com desnatado saindo! — Gritei, encaminhando seu pedido às outras meninas da cafeteria.
E vieram mais dois, três, quatro clientes e nada dele aparecer... Ele, que talvez seja a única razão pela qual eu ainda trabalho neste café. Digamos que o meu dia só fica realmente completo se ele aparece aqui para faze seu pedido habitual.
— Lily, quer parar de bater o pé? – Amy revirava os olhos.
Eu estava tão entretida pensando nele que nem prestei atenção no irritante “toc, toc” que meus pés faziam na cerâmica. Bater o pé era o sinal mais alarmante de que eu estava nervosa ou ansiosa. Amelia, minha melhor amiga, que também era atendente naquela coffe shop sabia muito bem a razão da minha inquietude.
— Desculpa... — Suspirei, já preocupada com o atraso dele —, mas diz aí, Amy: que horas são?
— Hora de trabalhar. – Ela respondeu com a cara mais limpa do mundo; revidei com uma careta.
— Deixa pra lá, quando algum cliente chegar eu pergunto as horas! — Resmunguei com a cabeça baixa.
— Hm, são exatamente... 17:52, senhorita – Uma voz masculina veio do outro lado do balcão e eu sorri ao saber exatamente de quem era.
Sim, é ele! O cara que vem aqui na cafeteria todo santo dia nesse mesmo horário, que sempre pede um frapuccinno com chantily duplo e calda de morango, por quem eu tenho uma paixonite crônica desde a primeira vez que vi. Infelizmente, gente como ele nunca nota gente como eu. Tudo o que eu sei sobre ele é que sempre anda de camisa social e gravata, sem paletó, e tem o rosto mais lindo que eu já vi em toda a minha vida.
É como voltar ao ensino médio, onde você tem uma queda — no meu caso, um precipício — por um rapaz que nem sabe o nome, e toda vez que ele se aproxima, suas pernas começam a bambear.
Amy e as outras já me disseram que sempre que estou anotando o pedido, ele fica me olhando e sorrindo de um jeito adorável, mas eu nunca prestei muita atenção em seu sorriso, até porque, quando vou analisar seu rosto, geralmente paro quando nossos olhos se encontram. É como se sentir hipnotizada por aquela imensidão escura e enigmática. Seus grandes olhos castanhos eram definitivamente cativantes.
— M-M-Muito obrigada, senhor — Respondi desajeitada, tentando endireitar o cabelo com as mãos.
Uma tentativa falha de sorriso brotou no meu rosto. À essa altura, eu já mordia o lábio de constrangimento simplesmente por ele ter falado comigo.
— Chris, só... Chris. Me chame de Chris — O belo moreno consertou, com um sorriso que era, de fato, arrebatador.
Suspirei. Tentei me recompor. Contei até 5 mentalmente.
— Tudo bem, Chris, só Chris – Comecei e nós dois rimos – Deixa eu adivinhar... um frappuccino com chantilly duplo e calda de morango?!
Ele sorriu. E, de novo, que sorriso.
— Sou tão previsível assim? – Brincou e eu ri.
Anotei o pedido e esperava que ele estivesse sorrindo, como me falaram que sempre faz, e o repassei para Amy, observando ele se distanciar e sentar-se numa mesa afastada, sozinho.
— Será que ele tem namorada? Sabe, ele me parece tão só...
— Vai lá e pergunta, ué – Amy deu de ombros e eu a encarei me perguntando se ela queria mesmo que eu fizesse isso – O pior que pode acontecer é ele dizer que sim. Ou então inventa outro assunto, foi a conversa mais longa de vocês, não perde essa chance!
Infelizmente, ela está certa. Eu não ia chegar do nada até ele e perguntar se tinha namorada, mas eu preciso falar mais com ele, quem sabe me chama pra sentar ou algo do tipo... mas eu tenho que tentar.
— Sinceramente, você seca tanto ele que ainda não sei como não tá desidratado... — Amelia se fez ouvir com um sorriso debochado.
Acertei a calculadora na cabeça dela logo em seguida, um arremesso perfeito.
— Ai! Toma logo isso e vai levar pro seu bofe-maravilha, anda! – Ordenou ainda rindo, com o copo térmico já em mãos.
Rolei os olhos e tomei o frappuccino dela, indo chamar o meu... como é mesmo? Ah, bofe-maravilha.
— Chris! – Chamei-o para que viesse pegar seu pedido.
Eu já quase explodia de felicidade por não ter mais que chama-lo pelo número da mesa, e sim pelo nome. Finalmente, né.
— Obrigado – Agradeceu sorrindo.
Anda, Lily! Fala alguma coisa!
Tomei ar e encarei a situação como uma adulta. Pelo menos a minha vida amorosa precisa deslanchar, já que a financeira e profissional estão estagnadas há um bom tempo.
Assim que abri a boca para puxar conversa sobre qualquer coisa, qualquer coisa MESMO, o belo Chris se pronunciou.
— Sabe, eu não acho justo. Venho aqui há mais de seis meses e você já sabe meu nome e minha bebida predileta, enquanto eu só conheço você como a loira bonita que me atende toda vez que eu venho.
Corei absurdamente quando ele me chamou de loira bonita. Pra dizer a verdade, não só minhas bochechas esquentaram, como eu também senti todas as minhas cordas vocais serem rompidas. Demoraram alguns segundos até que eu conseguisse dizer outra palavra. Nesse meio-tempo, analisei com mais atenção os traços dele.
Seus olhos castanhos, que combinavam com o cabelo, eram sutis e muito misteriosos. Como se ele fosse um ser humano profundo, no qual era possível se afogar apenas de ficar olhando por muito tempo. Eu gostava muito dessa sensação. Já os lábios de Chris eram finos e levemente tortos, o que o tornava ainda mais sexy. Sua barba por fazer davam uma ajuda extra nesse quesito, e o fato de ele ter cabelos longos, passando um pouco do ombro, dava um toque de charme à obra final. Ele era absurdamente bonito.
(Pra quem quiser uma ajudinha na imaginação, o Chris é esse: http://www.interviewmagazine.com/files/2012/01/03/img-thomas-mcdonell-2_180801559334.jpg)
— Eu... — hesitei — me chamo Cecilia. Cecilia Steinfeld. Mas você pode me chamar de Lily.
Chris sorriu com o canto da boca, pôs seu frappuccino em cima do balcão e se debruçou sobre o mesmo, de uma forma extremamente charmosa.
— Sabe, Lily, eu estive pensando... — Ele se aproximou, sendo interrompido por algum som estranho.
Trim, trim, trim. Um barulho idiota de celular cortou a sua frase. E, pelo que estava parecendo, era o celular dele.
Imediatamente, Chris saltou para longe do balcão e retirou um smartphone do bolso da calça. Droga! O celular era realmente o dele.
Bufei de frustração. Quando finalmente a conversa parecia tomar um rumo concreto, algo acontece e caga a situação inteira. Exatamente como todas as outras coisas da minha vida.
Chris olhou para mim, certamente constrangido pelo ocorrido. Em seu olhar, dava para ver que ele praticamente pedia desculpas ou esperava a minha permissão para atender, já que estávamos no meio de um diálogo. Quando nossos olhos se encontraram, eu simplesmente acenei com a cabeça para que ele atendesse.
— Alô?! — Falou, colocando uma mão na cintura.
Aparentemente, ele estava tão feliz quanto eu por ter atendido a ligação.
— Sim, eu chequei todo o sistema. Já está tudo estabilizado, e a equipe de atendimento já enviou as mensagens de retratação — Ele prosseguiu, seguido por alguns segundos em silêncio, e depois voltou a falar — Tudo bem, estou no caminho.
E desligou. Assim que o fez, virou as costas para ir embora, claramente com pressa, o que me fez deduzir que a ligação se tratava de algo urgente, mas no instante em que chegou na porta, ele virou-se para mim com um modesto sorriso nos lábios e um charme fora do comum no olhar.
— Lily... – Molhou os lábios — foi bom falar com você.
Chris acenou logo e saiu, sendo retribuído por mim, mesmo que atônita e totalmente incrédula. Por mais frustrante que tenha sido o fim da nossa conversa, ao menos ela aconteceu. E agora eu sabia no mínimo o seu nome. Virei-me para o lado da cozinha, onde Amy deveria estar para me parabenizar pelo “level up” do dia, mas ela não estava mais lá.
— O namorado dela ligou, deixei que saísse mais cedo – Julia, nossa superior, me informou quando notou quem eu estava procurando.
Balbuciei um “Ah” e fui obrigada a guardar minha euforia para quando chegasse em casa, onde poderia extravasar. Depois de alguns minutos, o expediente findou. Ajudei Julia a trancar as portas e janelas e a desligar todas as máquinas, mas ela estava com pressa, então sugeri que fosse logo pra casa e me deixasse ali trancando tudo, com a condição de que eu chegaria bem cedo para abrir o Café no dia seguinte.
Ela concordou e saiu. Em menos de vinte minutos, terminei tudo o que tinha a ser feito e me preparava para tomar o rumo de casa. Estava caminhando tranquila quando ouço uma buzina atrás de mim. Virei-me para averiguar o que era.
— Lily? – O homem de dentro do carro (não apenas um carro, uma Lamborghini Gallardo vermelha) se dirigiu a mim.
— Chris?! – Esbocei surpresa. Hoje é definitivamente o meu dia de sorte!
— Está indo pra casa? Você aceita uma carona? – Perguntou gentilmente, mas houve recusa de imediato.
— Não, não quero incomodar você, são só cinco quarteirões até lá, eu...
— Incomodar? – Interrompeu-me com o cenho franzido – Imagina, entra aí. É perigoso sair às ruas essa hora...
Além de lindo e educado, ainda é um cavalheiro. É, eu tenho um ótimo gosto para homens.
Sorri agradecida e entrei no banco do carona, me deparando com aquela figura de longos cabelos castanhos sorrindo para mim.
— Chris, você realmente não precisa me dar carona. Mas muito obrigada pelo favor — Disse enquanto colocava o cinto.
Ele apenas sorriu.
— Você trabalha por aqui ou algo do tipo? – Perguntei como quem não quer nada.
— Na verdade, sou diretor financeiro de um banco em Nova York, mas muitas agências ficam nessa região, por isso passo sempre por aqui – Explicou – Sua casa é por onde?
— É só ir direto por três quadras, virar à esquerda, andar mais duas quadras e virar à esquerda de novo. Não é longe.
— É o suficiente para ouvir uma música? — Ele indagou.
Curiosa, eu respondi:
— Acho que sim.
— Então pode abrir o porta-luvas e colocar algo que te agrade. Tenho certeza que vou gostar também.
Ok, Lilly, ok... eu sei que ele é perfeito. Mas pelo amor de Deus, não surta agora! Você vai poder fazer isso numa boa quando chegar em casa, no seu quarto, agarrando o seu travesseiro e batizando ele de Chris Segundo.
Abri o compartimento e tive uma agradável surpresa: entre os oito ou dez CDs que ali estavam, eu podia dizer que conhecia todos. Tinha U2, Bon Jovi, Michael Jackson, Red Hot Chili Peppers e Madonna, entre outros artistas igualmente maravilhosos. Sem hesitar, peguei o CD do Red Hot e coloquei em Dani California. Aos primeiros acordes da música, notei Chris sorrir e olhar para mim.
— Essa é uma das minhas preferidas.
Então, sem que eu me desse conta, estávamos estacionados na porta da minha casa há minutos, mas eu não havia descido ainda, afinal ficar no carro com Chris cantando uma música clássica do RHCP o mais alto que podíamos era muito melhor do que ir embora. E, francamente, cantávamos Dani California muito bem juntos.
Ao terminarmos, nos entreolhamos e rimos, rimos muito, à medida que a canção acabava. Por fim, retomei minha postura e me preparei para descer do carro.
— Muito obrigada pela carona, Chris. Foi muito divertido! – Exclamei procurando pela chave do portão.
— Não foi nada, mas... não desce ainda, eu quero te chamar para... – Empacou nesse exato ponto da frase com a mão coçando a nuca – Vai soar meio estranho, mas eu gostei muito de você, e queria que jantasse comigo um dia desses...
Meus olhinhos brilharam e imediatamente eu esqueci que tinha que achar a chave. Só conseguia olhar para ele e sorrir. Não conseguia acreditar que o cara do café estava mesmo me chamando pra sair.
— Ah, é... é claro que eu aceito, eu... – Tentei formular uma frase sem deixar meu queixo tocar o chão de tanta surpresa e felicidade – adoraria sair com você.
Chris liberou um suspiro aliviado.
— Ainda bem, então... me dá seu telefone? Eu ligo pra marcar tudo direitinho, o lugar...
— Claro, só um segundo – Respondi vasculhando a bolsa por um papel, o qual por sorte eu encontrei.
Anotei meu número e entreguei a ele, ambos sorridentes.
— Eu não vou esquecer de ligar, pode ter certeza – Falou, galanteador – Até qualquer dia desses, Lily.
— Até, Chris! – Despedi-me e saí do carro completamente abobada.
Fiquei olhando para o nada até ver que a Lamborghini dele havia sumido no horizonte.
Respirei fundo, digeri com calma as informações e finalmente encarei o portão do meu prédio.
— Esse é o melhor dia da...
Não. Não tão rápido, Lily. Esqyueceu? As coisas não são assim. Sua vida não é assim. E quando você vai comemorar por ter tido o melhor dia de todos, acaba sendo interrompida por um idiota numa moto que praticamente te atropelou na calçada. Sim, Lily, essa é a sua vida. Morrer esmagada depois de ser convidada pra sair com o cara mais gato de Manhattan.
— AI! SEU DOIDO! — Berrei quando fui arremessada no chão pelo enorme motoqueiro -O QUE VOCÊ TEM NA CABEÇA? EU TÔ NA CALÇADA! — Continuei gritando sentindo uma dor enorme no braço, que estava preso entre o pneu da moto e a calçada.
— Presta atenção você, garota, e vê se não fica parada no meio do nada! – Ele retrucou.
Que petulante!
Me esforcei bastante para tentar afastar o pneu da moto do meu braço, até que finalmente consegui. Enquanto isso, o rapaz na moto tirava o capacete e corria na minha direção para me socorrer. Levantei com dificuldade por causa do braço, mas ainda determinada a dar uma lição naquele babaca.
— Será que com um farol enorme desses na sua moto você não consegue enxergar um ser humano que está aceitavelmente em pé NA CALÇADA?! — Frisei bem as duas últimas palavras, para que ficasse bem claro que eu tinha razão.
— Vai mesmo encher meu saco ao invés de se preocupar com seu braço? Parece bem feio... – Ele comentou, segurando o capacete com uma mão e com a outra tentando puxar o meu braço para observar.
— Não me toca! — Grunhi, pulando para longe dele.
Em seguida, dei uma olhada, e, de fato, a situação não parecia boa. Meu antebraço estava sujo e todo ralado, praticamente com a pele toda arrancada. Doía muito, para dizer a verdade.
— Anda, deixa eu segurar sua bolsa, eu vou com você ao hospital e...
— Ah, me poupe! — O interrompi — Eu quero mais é que você vá pro inferno! – Devolvi com raiva, e puxando a bolsa dos braços dele, a fazendo cair no chão.
— Caramba, você é um porre! – O motoqueiro atestou enquanto catava minhas coisas do chão.
— Você ainda não viu nada! – Retruquei, tomando as coisas da mão dele brutalmente e subindo para o meu apartamento, totalmente indignada.
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Finalmente; estava deitada, limpinha e com um curativo caseiro no braço. Depois de um banho e uma esterilização, que diga-se de passagem, doeu muito, eu já estava bem melhor, mas ainda pensava no idiota que tinha me tropelado. Aquele cara tinha me tirado do sério com tanta imprudência e arrogância.
Balancei a cabeça para espantá-lo dali, e lembrei que ainda não tinha contado a Amy o que aconteceu com Chris, que agora tínhamos um encontro marcado.
Corri até a sala e comecei a chacoalhar minha bolsa com um braço só, à procura do meu celular, mas quando o aparelho caiu foi que veio a surpresa.
Aquele celular não era o meu. Agora eu sabia que, além de ter péssima coordenação motora, o cara do acidente era burro o suficiente para ter trocado os nossos celulares com a queda da minha bolsa. Agora, só Deus sabia onde o quanto eu queria esfregar a cara daquele imbecil no asfalto de tanta raiva que eu sentia!
Eu. Quero. Meu. Celular. De. Volta. Do contrário, cabeças vão rolar, de de preferência, a dele.
Notas finais
Não deixem de comentar! Beijocas!
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