Lei de Ação e Reação
2 Lei de Ação e Reação
Notas iniciais
“Mas Deus vê o progresso de todas as criaturas.
Eis por que não deixa impune nenhum desvio do caminho reto.
Não há uma só falta, por mais leve que seja, uma única infração à sua lei, que não
tenha consequências forçosas e inevitáveis, mais ou menos desagradáveis.”
(O Evangelho Segundo o Espiritismo)
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Jasper levou Edward para uma colônia espiritual¹ que havia ali perto. Edward ficou maravilhado com o local; era bem iluminado, os jardins eram floridos, havia um aroma suave de lavanda no ar e as pessoas ali eram todas educadas e estavam sempre sorrindo.
— Que lugar lindo! Onde estamos? É um pedaço do paraíso com certeza. — Edward falou enquanto sentava em um dos bancos do glorioso jardim.
O soldado mirou o jovem médico com seus olhos azuis brilhantes e soltou uma leve risada. Edward notou que dele emanava uma suave luz e se sentiu inferior diante da beleza e leveza daquele ser.
— Ora essa, Edward, não se sinta assim. Não sou alguém importante para que se sinta inferiorizado; ainda estou em processo de evolução e aprendizagem, como você.
— Como sabe o que eu sinto?
— Através de sua energia. Os nossos pensamento e sentimentos emitem energias que podem ser capturados pelos encarnados² mais sensíveis e por qualquer outro desencarnado². É desse modo que nós, desencarnados, sabemos o que cada um está pensando ou sentindo.
— Isso é tão confuso, não compreendo. Encarnados, desencarnados, energia... Você não está sendo claro.
— Você ainda não se recorda de tudo que aprendeu quando esteve desse lado pela última vez, mas vai se lembrar. Seu períspirito³ ainda está muito ligado à sua vida atual.
— É claro! E a que outra vida eu poderia estar ligado? — Edward falou sendo cínico.
— Às suas vidas passadas. A todas elas.
— Seja mais claro. Não entendo o que quer dizer. — Jasper assentiu e deu um profundo suspiro antes de continuar.
— Deus, em sua infinita misericórdia, permite que nosso espírito renasça em um corpo material quantas vezes forem necessárias para que possamos mudar e evoluir espiritualmente. A este feito damos o nome de reencarnação. O seu corpo material é aquele que está no hospital, em coma, e o seu corpo espiritual é este estado em que você se encontra agora. Quando estamos deste lado entramos em contato com a verdadeira realidade, a realidade do espírito que é eterno. A realidade do mundo material é uma fantasia que muitos de nós erroneamente achamos ser a verdadeira, mas que é passageira e de curto prazo. Quando renascemos no mundo material estamos ali para aprender os ensinamentos do Cristo, seja pela dor ou pelo amor.
— Se isso é verdade então porque não me lembro de nada?
— Porque se lembrasse, não demonstraria que realmente mudou, aprendeu e evoluiu espiritualmente. Cometemos erros no passado Edward, fizemos coisas horríveis e que para você são impensáveis nessa vida. Quando passamos para o plano espiritual tomamos conhecimento disso e quando preparados, nós estudamos e aprendemos aquilo que é necessário para que da próxima vez não cometamos os mesmos erros. Ao renascermos esquecemos todas essas experiências, mas em seu subconsciente fica guardado o essencial de todo o aprendizado.
— Não vejo nenhuma lógica nisso. — Edward murmurou revirando os olhos.
— Se você renascesse lembrando-se de tudo não tomaria as decisões certas, porque é o que você realmente quer, e sim porque é o certo a se fazer e a garantia de que não haja consequências futuras por seus erros. — Jasper continuou sua explicação, ignorando o comentário desdenhoso de Edward. — Por tanto, tudo é esquecido e você tem o livre arbítrio de escolher o caminho que desejar e assim demonstrar se lá no íntimo você realmente aprendeu os ensinamentos do Cristo ou ainda se engana ao ceder a caprichos como o egoísmo, o orgulho e a luxúria.
— Espera aí, o que você quis dizer com “consequências futuras”?
— Edward, tudo o que fazemos tem consequência, seja boa ou ruim, seja nessa vida ou na outra. É a Lei de Ação e Reação.
— Então o que você está tentando dizer é que se eu cometer um erro em uma vida, na outra serei penalizado? É isso? Isso não é justo! Se eu sou um homem honesto e bom, porque devo ser penalizado por, em outra vida, ter sido desonesto e cruel? Não posso acreditar no que diz, é absurdo!
— E aí está o seu orgulho falando mais alto, como sempre. — Jasper falou rindo tristemente e Edward fechou a cara. — Edward, a justiça divina não é falha e nem injusta! Imaginemos uma situação hipotética. Vamos supor que você é um grande médico conhecido por sua humanidade e por ajudar aos necessitados, todos o idolatram, mas ninguém sabe que possui um segredo mórbido. Por trás de sua imagem de bom médico você é um pedófilo que abusa dos menores nos abrigos que ajuda, e assim foi por sua vida inteira até o fim de seus dias, sem ninguém saber. Pela lei dos homens você estaria impune, mas pela lei divina, não. Seria justo ficar por isso mesmo? Ficar impune o que fez só porque foi em outra vida? Não, não seria justo, Edward. Você teria que aprender no mundo material por meio da dor, tendo o mesmo que fez aos outros sendo infligido a si.
— Isso é pura bobagem. — Edward murmurou contrariado.
— Vai ser mais difícil do que pensei. — Jasper disse frustrado. — Muito bem, você ainda não está se lembrando de tudo, por isso vou ajudar. Te ajudarei a lembrar de duas de nossas encarnações juntos, uma que se passou na Roma antiga, quando éramos soldados de um grande imperador romano, e outra na Idade Média, quando fazíamos parte da Inquisição Espanhola. Você entenderá o que eu quero dizer, mas não começaremos hoje. Preciso ajudar outra protegida4 que está desolada por tudo o que aconteceu com você.
— De quem está falando?
— De seu amor de alma. Isabella.
Jasper e Edward retornaram ao quarto do hospital. Encontraram Isabella chorando ao lado do corpo material do jovem médico e fazendo uma prece sentida. Os olhos de Edward se encheram d’água, sua esposa não parecia nada bem.
— Espere aqui. Vou ajudá-la em seu desdobramento5para se encontrar conosco.
Edward assentiu e, apesar de não entender bem o que Jasper iria fazer, ficou perto da porta do quarto, observando-o se aproximar de Isabella.
— Minha irmã, relaxe sua mente e durma. Venha se encontrar conosco. — Jasper sussurrou no ouvido de Isabella e no mesmo instante ela adormeceu.
Isabella despertou do outro lado ainda chorando de forma sentida. Jasper a abraçou e fez uma silenciosa prece pedindo pela melhora da amiga. Uma suave luz emanou dele e a envolveu, acalmando-a no mesmo instante.
— Está melhor? — Jasper perguntou e Isabella assentiu.
— Eu conheço você. Você me visita em meus sonhos! Estou sonhando agora? — o soldado alisou os cabelos de sua cunhada, nora, irmã e amiga de outras encarnações6 e sorriu.
— Não, minha irmã. Você está no plano espiritual agora, mas quando despertar provavelmente achará que tudo não passou de um sonho.
— Eu sei o seu nome... Jasper! Meu querido irmão Jasper! — Isabella abraçou emocionada ao soldado. — Que saudade! — exclamou fazendo—o rir.
— Uma saudade infundada, minha irmã. Estou sempre aqui, ao seu lado, te auxiliando e te encontrando em seu sono.
— Estou tão feliz que está aqui! Eu não sei o que fazer, Edward está em coma, ele não acorda! — disse sentida e começando a chorar novamente.
— Ora essa, acalme-se. Está tudo bem, veja, Edward está aqui. — o soldado disse lhe apontando alguém que estava parado na porta do quarto.
Edward se aproximou lentamente, sua energia vibratória era de puro ciúme. Jasper soltou um suspiro frustrado e pediu que ele esperasse com um gesto antes de falar novamente com Isabella.
— Fique aqui um instante, sim? — Isabella assentiu sem questionar e observou o soldado romano se aproximar de Edward e lhe sussurrar algo no ouvido, que de onde estava não pôde compreender. — Edward, controle-se. Se não melhorar a energia que está emitindo irá afetar Isabella de forma negativa e desestabilizá-la mais ainda.
— O que quer dizer? — perguntou Edward confuso.
— Controle esse ciúme! — falou de forma autoritária e Edward abaixou a cabeça, envergonhado. Não se lembrava do por que e nem como, mas sabia que aquele ciúme era infundado. — Ótimo. Agora venha.
Ambos se aproximaram de Isabella, que sorriu e abraçou Edward o envolvendo com seu amor.
— Estou com tanto medo Edward.
— Não fique, amor. Eu estou bem.
— Você vai acordar? — ela perguntou com lágrimas nos olhos.
— Eu não sei. Eu vou? — o jovem médico perguntou olhando para Jasper, que sorriu assentindo.
— Sim, você vai. Mas não agora, preciso de você aqui por um tempo e essa será a chance de Isabella se entender com uma velha inimiga.
— Velha inimiga? — perguntou confusa.
— Isabella, escute com atenção o que vou lhe dizer. — Jasper falou olhando-a sério. — Esse momento de provação não é só para Edward, mas também para você e toda a família dele. Uma inimiga de várias encarnações irá se aproveitar desse momento de fragilidade e dor para tentar lhe atingir. Ela guarda muito ódio por Edward sempre preferir a você em todas as encarnações em que os três estiveram juntos. Esse será o seu teste. Você deve suportar o que ela fizer sem revidar, você evoluiu muito nos últimos séculos e se sucumbir ao anseio da vingança irá regredir.
— Aguentar sem revidar? Mas isso é uma humilhação! É ser submissa!
— Não! É ser humilde. O que Jesus nos ensinou? Não foi ele que disse “ao que te bate numa face...”
— “Oferece-lhe também a outra; e ao que te tira a capa, não lhe negues a túnica.” — Isabella completou a frase entendendo o que deveria fazer e Jasper sorriu.
— Isso mesmo. Não pense que as consequências dos atos dela não a atingirão. Sua inimiga ainda não sabe, mas está desenvolvendo um câncer no útero, fruto dos inúmeros abortos que realizou ao longo de várias encarnações. Seu destino já é certo, passará por longos e sofridos anos em quimioterapia, irá se curar do câncer, mas mais tarde descobrirá que possui uma falha no coração que acabará por trazer sua morte. A falha é fruto do ódio que ela guarda. O mal chegará a ela em consequência do mal que ela fez, mas Isabella, ai daquele que ousar trazer esse mal. — Jasper finalizou olhando-a de forma séria, fazendo-a engolir seco.
— Você estará comigo nestes momentos? — ela perguntou fragilizada.
— Sempre. — ele disse sorrindo.
— Você disse que esse momento será de provação não só para nós — falou o jovem médico abraçando Isabella e olhando para o soldado —, mas também para a minha família. O que acontecerá a eles? — perguntou Edward preocupado.
— Para a sua mãe será um teste de fé. A fé dela muitas vezes é muito frágil e esse será um momento para ela provar se realmente possui fé em Deus ou se deixará de acreditar. Esse momento poderá fortalecê-la ou enfraquecê-la de vez. Para seu pai será um momento de corrigir sua arrogância. Por sempre se achar melhor e superior aos outros, menosprezou os colegas profissionais, muitas vezes humilhando-os. Esse será um momento em que terá que se submeter a eles com humildade se quiser ver a sua melhora. Já a sua irmã, sempre mimada e egoísta, precisará mudar de atitude uma vez que ela não terá mais toda a atenção da família. Os papéis irão se inverter, uma vez que ela agora deverá deixar suas prioridades de lado para dar apoio à família. Já seu irmão, sempre mulherengo e cafajeste com as mulheres, irá se deparar com seu amor de alma. Ela é sua médica, você a viu na sala de cirurgia. No entanto, nas encarnações passadas, ele traiu sua confiança e agora precisará mudar se quiser que ela confie nele novamente.
Edward estava atônito. Começava a perceber como era incrível a providência divina. Começava a entender também que o seu acidente não fora um acidente afinal. Através de toda dor, ele, sua esposa e sua família iriam resgatar débitos passados e reparar os erros do presente.
— Infelizmente, se não se aprende pelo amor, se aprende pela dor. Mas confie irmão, as transformações serão incríveis, você verá. — Jasper falou captando os pensamentos do amigo. — Agora precisamos ir. Vamos deixá-la descansando, Isabella. Vamos Edward, tenho muito que lhe mostrar ainda.
Os dois jovens se despediram de Isabella, que voltou ao seu corpo e acordou assustada. Tinha uma vaga lembrança de um sonho maluco com um soldado romano e Edward. Sentiu uma dor aguda no pescoço, dormira de mau jeito. Olhou para a cama e constatou triste que Edward continuava inconsciente, no entanto não se desesperou dessa vez. No fundo sentia esperança, sentia que Edward não ficaria naquele estado para sempre.
E com esse pensamento ela se levantou e decidiu ir para casa tomar um banho e tentar dormir melhor por algumas horas. Não iria trabalhar hoje e nem ir ao abrigo, tiraria o dia para passar com a família de Edward, pois sentia que iriam precisar muito de seu apoio.
Levantou-se devagar e quando fechou a porta do quarto, se deparou com uma loira alta e de olhos azuis se aproximando com um olhar intenso que transmitiu mal estar à Isabella.
— Ora, ora. Já vai? — a loira disse a avaliando de cima à baixo. Isabella se sentiu mal por não estar apresentável e em seus melhores dias.
— Quem é você? — a loira a olhou com fúria antes de responder.
— Sou Tânia, prima de Edward. Ele já deve ter falado sobre mim.
— Desculpe, mas não. — o semblante de Tânia se tornou sombrio com a resposta. — Como conseguiu passar? É permitido apenas um visitante por vez.
— Nada que um bom decote não resolva. — ela disse sorrindo maliciosamente. — Não que você entenda disso, visto que não possui muitos atrativos — Tânia a olhou com desdém antes de continuar —, mas garanto que seu maridinho entende bem.
— O que quer dizer?
— Ora, é mesmo uma tonta. Não achou que um homem como Edward não fosse ter uma amante, não é mesmo? — Tânia falou passando por Isabella e entrando no quarto.
Isabella sentiu todo o sangue de seu rosto se esvair e o corpo ficar gelado. Viu de longe um enfermeiro se aproximar às pressas antes de sua visão ser consumida pela escuridão.
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