Gandalf encontrava-se deitado em sua cama na sua mais recente casa. Terminada a festa, a maioria dos convidados se despediram e seguiram para as suas respectivas cidades, somente Legolas mencionou ficar mais um tempo, fato que não foi acompanhado pelo seu pai, que logo voltou à sua morada.

O Cinzento parecia lembrar da noite tórrida que teve e soltou um longo suspiro. Dormira novamente nos braços de seu amado elfo, a noite passara bem, e ele bem sabia que os elfos dormiam de pé com os olhos abertos, mas o "seu" elfo, Elrond, nunca recusara estar ao seu lado, abraçado e fingia perfeitamente o modo de descansar humano.

A brisa entoava as florestas que cercavam a casa, mais ao fundo da mesma, havia uma sutil plantação. Nela, tinham as mais diversificadas espécies de vegetação, algumas com valor místico, outras, funcionavam como tempero, e outras, alimento.

Embora a manhã estivesse sendo levemente calorosa, no ar pairava uma espécie de neblina, que anunciava uma frente fria, uma tempestade que ameaçava chegar.

Já fazia cinco dias que a festa se passara, Gandalf chegou a dar uma sutil e rápida passada na vila dos hobbits, mas ao ver que tudo corria bem, ele voltou para sua casa, a antiga casa de seu mestre.

– Hum... — suspirou.

Acabou por levantar-se e só agora se deu conta que a casa estava realmente empoeirada, que precisava de uma faxina. Deduzido isso, sentou-se na cama e tomou um ar maior, um fôlego, e finalmente se colocou a retirar uma cortina rústica de fibras de bambu que cobriam-lhe a empoeirada janela. Porém, ao fazer isso, se surpreendeu de ver que Thranduil olhava-lhe expressando uma notável curiosidade através da janela.

– Mas o quê!?

O idoso praguejou soltando sutis xingamentos devido ao susto que tomara. O elfo loiro, Rei Sindarin, sorria notadamente e acabou por abrir-lhe a janela.

– Bom dia, Gandalf. Não estás infartando, não é?

– Ora seu... com todo respeito, és um Rei, mas um rei bem abusado.

– Não irás me convidar a entrar?

– Oras... esses elfos... francamente...

– Não seja tão rabugento... Cinzento.

– Tá... tá bom... entre, vamos, não faça tão estardalhéu do lado de fora da casa.

O elfo sentiu-se vitorioso e levava-lhe uma muda de planta típica de sua região.

– Estou entrando.

Comentou colocando o vaso sobre uma mesinha, ao ver o mago se precipitou e abraçou-o. Gandalf se surpreendeu um pouco com a aproximação repentina e realmente estava um tanto surpreso pelo falo de Thranduil ser tão amigável, perdendo aquele "ar" prepotente, superior. Feito isso, o elfo sentou-se numa cadeira ali perto, comentou animado.

– Vamos conversar.

– Sobre?

O mago levantou uma das sobrancelhas, olhava para o outro desconfiado, como se fitasse um animal prestes a dar o bote.

– Sobre o que aconteceu.

Thranduil readquiriu o ar de distanciamento novamente, olhava sério e fixadamente para Gandalf, comentou esclarecendo mais:

– Sobre o que me tomou... o que roubou de mim.

Um enorme intervalo de tempo fez-se presente, parando aquela imagem, dos dois se entreolhando.

– Eu não roubei nada.

– Não?

Thranduil cruzou as pernas e entrelaçou os dedos, comentou com uma voz mais alta, rude.

– Tem certeza?

Gandalf estava de costas, examinava a planta trazida, tocava-lhe as folhas, pôde observar que estava perfeita, bem tratada e até parecia feliz.

– Sim.

Thranduil levantou-se aproximando-se do velho que logo virou-se o encarando.

– Entenda, o que aconteceu... aconteceu... acho que deves pedir explicação não para mim, mas para o Senhor Elrond.

– Agora ele é senhor... antes não parecia tão senhor assim...

– Como?

– Pareciam um casal de namorados...

– Me poupe.

Quando gandalf ia se distanciar e ir para a cozinha, Thranduil segurou-lhe um dos braços o puxando de volta, o velho encarou-o sério.

– Me solta.

– Antes, quero que me dê a atenção que mereço.

– Há algo acontecendo aqui?

O senhor de Valfenda estava na porta, olhava para os dois atentamente.

– Thranduil.

Sua voz ecoara por toda a casa, era rouca, mostrava certa potência e virilidade. O elfo loiro se virou encarando-o e, consequentemente, soltando o braço de Gandalf que o recolheu, afagando a parte tocada, realmente doera.

– Deseja me perguntar algo?

– Não.

Gandalf levantou as sobrancelhas, tocando a testa suada com a ponta dos dedos.

– Como não?

Elrond seguiu até Thranduil, parando em sua frente, encarava-o sério.

– Não iremos discutir por um simples...

– Mago?

– Isso.

O elfo loiro readquiriu o ar prepotente e parecia encarar o outro numa animosidade só.

– Ele não é só um mago.

– Não?

– Ele trouxe a paz... ele tornou isso possível e admiro você estar aqui, disposto a criar uma luta...- disse Elrond dando uma sábia pausa, mas logo continou com uma voz mais calma que antes — Os milênios o mudaram, Thranduil?

O elfo loiro sentou-se dando-se por vencido.

– Não me procura há meses.

– Admito meu erro.

– Eu... gosto quando me visita. Nossa raça deve continuar unida e...

Elrond se posicionou diante do loiro que o encarava com uma face de entrega. O elfo moreno comentou baixo:

– Não fale como se eu não soubesse.

Dito isso, voltou-se para Gandalf e sorriu-lhe gentil.

– Meu amigo, Gandalf.

E se dirigiu ao outro, abraçando-o gentil.

– Há dias não o vejo, sabe que isso significa...

O mago balanceou a cabeça para os lados, com uma postura relaxada e brincalhona.

– Pois bem, não consigo pensar direito, quando elfos aparecem em minha casa antes do meu café.

– Haha... o único bem humorado irônico que conheço.

– Bem, se me dêem licença, prepararei algo para vós.

– Precisa de ajuda?

– Por favor, meu senhor, lugar de visita é na sala, aguardando a devida...

O mago olhou para o outro elfo, que ainda estava sentado, mas este não o encarava, olhava para um canto qualquer, pensaroso.

– Atenção.

O mago franziu os celhos e lamentou que aquele elfo, pai de Legolas, estivesse numa situação tão incômoda, o mago tocou um dos ombros de seu primeiro e único amor, comentando baixo.

– Ora, vamos.. conversem um pouco, já já lhes trarei uma boa refeição.

– Está bem.

Elrond sentou-se numa cadeira ali, pegou um livro e parecia folheá-lo curioso. Gandalf deu de ombros e pensou em seu íntimo:

– Tsc, elfos.

O mago se dirigiu para a cozinha, quase se surpreendeu com o tamanho da bagunça ali, o alce que Thranduil usara para chegar à casa comia-lhe algumas frutas da horta.

– Animal maldito.

Resmungou o velho balançando a mão para espantá-lo, o animal apenas o olhou, levantou a cabeça, encarou-o por um tempo e depois voltou a comer.

– O animal sempre puxa ao dono. Incoveniente.

E o mago cortava alguns pedaços de frutas, uvas, maçãs.

– Hum...

Preparava um café, mas este era para si, elfos costumavam tomar água ou o licor que fabricavam.

– Água... hum...

Pegou numa garrafa e colocou copos na bandeja. Feito isso o levou para seu convidados inesperados. Elrond arrumava os livros devidamente na estante, já Thranduil continuava encarando um ponto qualquer da sala, em silêncio.

– Aqui está, podem se servir.

Elrond se aproximou ajudando o mago com a bandeja, ele levou-a até uma mesa, os dois sentaram-se e Gandalf sinalizou para o outro rei.

– Ele vai ficar ali?

– Ele adormeceu.

Comentou Elrond mordendo um pedaço de torrada.

– Heeeein?

Gandalf olhava-o atordoado, como aquele outro elfo dormira num momento como aquele? Pensava. Elrond pareceu ler-lhe os pensamentos comentando baixo.

– Ele não deve ter dormido há dias... provavelmente os cinco dias que voltamos da festa.

– Mesmo? Mas...

– Thranduil é bem paciente, ele aguarda até não poder mais, evita ao máximo confrontos e os acha desnecessários, exceto quando é para proteger a si mesmo, sua floresta ou a algo que considere importante.

Gandalf voltou-se para Elrond, comentando:

– Como você.

– Como?

– Ele disse que o tomei dele.

– Hum.

Elrond olhou o outro e soltou um longo suspiro.

– O conheço há milênios, sempre foi solitário... preferiu sempre a compania dos animais e plantas a qualquer outra...

– Não é por menos, ele é bem difícil de lidar.

– Com o tempo, você se acostuma.

– Há quanto tempo são... amigos?

– 6.000 anos.

Gandalf quase caiu da cadeira, retrucou:

– Realmente, deve estar bastante acostumado.

Elrond esboçou um discreto sorriso, levou uma das mãos à face de Gandalf afagando gentilmente.

– Mas o tempo nem sempre quer dizer qualidade, não troco milênio nenhum pelos anos que temos juntos, Gandalf.

O mago olhou-o com suas orbes azuis da cor do mais profundo oceano, Elrond admirou-as e seguiu inclinando-se e por estarem próximo, um ao lado do outro, um beijo aconteceu.