Legado (parada por tempo indeterminado)
11 Capítulo XI - Caçada nos esgotos
Edimburgo. The Real Mary King's Close_
O também chamado Beco de Mary King's é um dos lugares mais assustadores e perturbadores de Edimburgo na Escócia. Nesse local, há séculos atrás, pessoas morreram assassinadas, ou foram vítimas da peste da praga (peste bubônica) que varreu um terço da população européia. Ficou fechado para a população durante anos devido a relatos de possíveis aparições de fantasmas.
E foi exatamente neste lugar, tarde da noite, que dois jovens resolveram se encontrar. Se não fosse o local do encontro e o fato dos dois serem irmãos, até poderiam dizer que se tratava de um encontro romântico. Porém, os dois estavam ali a trabalho.
— Tem certeza que é aqui, Ethan?
— Pela milésima vez, Elizabeth, sim. O lugar é este.
— Mas por que tinha que ser justo aqui?... A atmosfera deste lugar é muito pesada. — disse ela.
— Que foi, irmanzinha?... Está com medo dos fantasmas?. — zombou Ethan.
— Vai se f****, Ethan.
— Eu concordo que o local é meio sombrio, mas, pelo menos, a essa hora, não chamaremos a atenção. — disse ele.
De repente, um portal entre dimensões se materializou e dele surgiram Hórus, Daniel e Tereza, que estava mais enjoada do que se tivesse andado numa montanha russa.
— Espero que a viagem não tenha sido desconfortável. — disse Hórus.
— Pensei que tivesse perdido a prática, mas foi revigorante. — disse Daniel. — Tess?... Está bem, querida?
— Tô de boa! — disse ela. Porém, segundos depois, ela começa a "aliviar" seu desconforto em uma lixeira próxima.
— Primeira vez dela? — pergunta Hórus.
— Pois é. — disse Daniel.
Ethan e Elizabeth se aproximam.
— Daniel, estes são Ethan e Elizabeth Belmont. — disse Hórus. — São nossos contatos em Edimburgo. Eles descobriram as origens dos ataques.
— É uma grande honra conhecer um caçador tão famoso. — disse Ethan.
— As histórias dos Van Helsing são me moráveis. — completou Elizabeth.
— Agradeço os elogios, mas agora quem toma conta do trabalho pesado é minha neta, Tereza. — disse Daniel.
— E aí, beleza? — disse ela se recuperando do enjoo momentâneo.
Os dois jovens não sentiram muita confiança ao olharem para Tereza. Ela não parecia em nada com o que descreveram para eles sobre a herdeira do legado dos Van Helsing. Um legado de sangue e glória que atravessou o tempo.
— Vamos ao que interessa. — disse Hórus. — Alguma informação atualizada.
— O ancião fez mais uma vítima, ontem à noite. Porém, com esse ataque, descobrimos o padrão que ele usa. — disse Ethan.
— Usaram um humano como isca? — disse Tereza.
— Não sei por que o espanto, Vanessa. — disse Elizabeth. — Pelo que sabemos, vocês também usaram um humano, como é mesmo o nome dele?... Ah, sim... Mike Winston.
— A diferença, garota, é que eu salvei antes de ser mordido.
— Nós também salvamos o humano. Cortamos sua cabeça. Ele teve uma morte bem rápida. — disse Elizabeth com certa frieza.
— E você queria entrar pra esse clubinho, Denny? — disse Tereza.
— Eu nunca disse que queria.
— Notamos que as pessoas que foram atacadas estavam passando pelo parque, que fica aos arredores do cemitério. — disse Ethan.
— Ele está se fortificando. — disse Daniel.
Um ancião precisa de muito sangue para conseguir se regenerar a sua forma original. Para poupar energia eles permanecem o mais próximo possível do seu local de descanso. Ou seja, seu esconderijo era exatamente em sua própria tumba.
Para Ethan e Elizabeth, aquilo era um absurdo, pois a tumba estava sendo vigiada desde que os ataques começaram. No entanto, Tereza e seu avô eram experientes o bastante para saberem que havia mais de uma forma de entrar e sair de uma tumba.
— Denny?... Que tal darmos uma voltinha nos esgotos? — disse Tereza.
***
— Manhattan, Estados Unidos _
Campus da Universidade...
Para justificar a presença de Sam no Campus, ele conseguiu o emprego de monitor de alojamentos. Por isso, foi fácil encontrar Mike. E naquele momento tentavam descobrir uma maneira de solucionar aquele problema sobre o sósia de Alex.
— Acredito que só há uma explicação pra isso. — disse Sam. — Essa criatura pode ser um metamorfo.
— Acho que já ouvi falar dessa criatura em jogos de RPG. E o Denny também já me falou algo sobre isso. — disse Mike.
— Eles podem copiar qualquer pessoa que tenham contato, não é?
— Não somente copiar, eles absorvem tudo. Aparência, pensamentos, lembranças... Em outras palavras, eles se tornam a pessoa, entende. — disse Sam. — E não é só isso, assim que eles absorvem tudo de suas vítimas, eles devoram.
— Devoram?!... Espera. Mas não foi isso que aconteceu com Alex. Ele era um vampiro. Eu o matei, lembra? — disse Mike.
— Talvez, esse metamorfo tenha tido contato com seu amigo antes dele virar vampiro. E como o Alex está morto, você só fez o "trabalho sujo". — disse Sam.
— E o que vamos fazer?... Não podemos deixar esse sujeito andando por aí. Pode ser perigoso pra outras pessoas. Pensei que vocês sentissem o cheiro de criaturas demoníacas, como deixaram isso passar?
— Ele deve ter usado algo para camuflar o seu cheiro.
— E como faremos?
— Vamos precisar de ajuda dessa vez.
Sam retorna para o Clube dos Betas onde reporta aos seus amigos o que estava acontecendo. Sem mencionar, é claro, que foi Mike quem descobriu.
— O desgraçado conseguiu mascarar o cheiro. Filho da p***! — disse Julius.
— Como descobriu isso, Sam? — perguntou Marcos.
— Eu estava andando pelo Campus e vi um dos jovens que eu posso jurar que foram mortos durante o ataque ao ninho de vampiros. Por isso, penso que pode ser um metamorfo.
— Ele pode ter razão, Marcos. — disse Julius. — Sabe muito bem que esses vermes se aproveitam de qualquer confusão pra tirar vantagem. O original está morto, é bem conveniente pra cópia dele.
— Sônia, encontrou alguma coisa nos livros? — perguntou Marcos.
— Eles podem ser mortos com prata ou tendo sua cabeça separada do corpo e tendo os dois queimados imediatamente.
— Mas existe a grande possibilidade dele ter percebido que foi descoberto e ter mudado de forma mais uma vez. Precisamos observar todos. — disse Marcos.
— Como vamos saber quem atacar? — pergunta Sam.
— Deixe que disso eu cuido. — disse Sônia.
Sônia fez um preparo com algumas ervas. Uma espécie de repelente. Quando se tem conhecimento de ervas e magia as possibilidades são infinitas. Nitrato de prata, essências de plantas como "Comigo Ninguém Pode", "Espada De São Jorge", "Lírio da Paz", Manjericão e Alecrim.
— O Alecrim e o Manjericão é para disfarçar o cheiro. — disse Sônia. — Agora o que precisamos fazer é dar um jeito de pulverizar esse repelente no máximo de pessoas que conseguirmos dentro do Campus.
— Acho que eu sei como. Deixem isso comigo. — disse Sam.
***
— Edimburgo, Escócia_
Andar em esgotos fétidos não era uma das atividades que Tereza mais gostava de fazer, mas quando se tratava de vampiros, infelizmente, alguns sacrifícios se faziam necessários. E isso também incluía ter que suportar a presença dos irmãos Belmont, que praticamente exigiram fazer parte da caçada.
— Denny, tá me ouvindo?
— Alto e claro. O que está vendo por aí?
— Ratos, fezes, puxa-sacos. — disse ela se referindo a Ethan e Elizabeth. — Fora isso, nada ainda.
— Não seja hostil. Afinal, não é sempre que temos apoio.
— Apoio?... São dois fedelhos que pensam que são caçadores.
— É uma boa chance deles aprenderem algo. Está com as granadas?
— Positivo. Só queria que tivéssemos tido chance de testá-las.
— Esse vai ser o teste. Vou deixar o canal aberto. Grite se precisar.
— Engraçadinho.
Tereza andava com cuidado e muita concentração. Para Ethan e Elizabeth ela parecia ter desmanchado a má impressão que causou ao se conheceram.
— Posso perguntar? — disse Ethan.
— O que? — disse Tereza.
— As histórias são mesmo verdade?
— Depende de que histórias está falando. Se for a de que eu dormi com o Jimmy, aquele caçador do Texas é mentira. Ele é um cretino que gosta de contar vantagem.
— Não, não é isso. — disse Ethan meio sem jeito. — É sobre o primeiro ancião que matou. Dizem que tinha apenas quatorze anos.
— Ah, sim... Bom, pra ser sincera, não me lembro muito bem como foi. Ele atacou o nosso esconderijo de surpresa, Denny tentou lutar contra ele, mas o desgraçado o nocauteou. Até pensei que ele estivesse morto. Depois não me lembro de mais nada, a não ser de estar coberta de sangue, uma pilha de cinzas na minha frente e com o coração do filho da p*** na mão.
Por mais que já tivesse ouvido a história várias vezes entre os caçadores, Ethan ainda achava aquela façanha incrível, e agora que tinha ouvido da própria Tereza, sua admiração pelos Van Helsing só aumentou.
— Por que não chama o Sr. Daniel de avô? — perguntou Elizabeth.
Tereza não respondeu. Não porque não quisesse, e sim porque não sabia responder. Havia parado de chanar Daniel de avô há tanto tempo que mal tinha percebido. E aquilo a fez pensar por um segundo. Será que estavam naquela vida de caçadores há tanto tempo que se esqueceram que eram uma família?
Ela pára de repente, fazendo com que os irmãos se colocassem numa posição defensiva.
— O que foi? — disse Ethan.
— Rastros.
Haviam restos de ratos mortos e até de outros animais. Era uma cena grotesca, e o fedor era insuportável.
— Meu Deus. — disse Ethan.
— O ancião? — disse Elizabeth.
— Não. Mas seja o que for... É potencialmente mortal. — disse Tereza.
Um ruído estranho corta o silêncio dos túneis. Algo os estava seguindo. E parecia estar faminto.
— Denny, temos um problema. — disse ela pelo rádio.
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