Legado (parada por tempo indeterminado)
9 Capítulo IX - Tudo tem um preço.
Melôsa era uma feiticeira poderosa. Entre os seus maiores dons, estava a capacidade de alterar a realidade ao seu redor. Fazer com que os outros vissem apenas o que ela quisesse. Naquele momento, por exemplo, ela e Daniel conversavam embaixo de uma ponte de pedra. Mas, para os outros humanos que transitavam, era como se eles não estivessem ali.
— Você envelheceu. — disse ela.
— E você continua a mesma. — disse Daniel.
— Uma compensação que se ganha ao adquirir a imortalidade.
— Pena que o preço seja tão alto. — disse ele se referindo a alma de Melôsa, a qual a mesma empenhou há séculos em troca de sua imortalidade.
— Vocês caçadores... Sempre atados à detalhes. — disse ela. — E por falar em preço... Aqui está a conta do prejuízo que sua neta causou no meu salão.
Daniel olha para o valor da conta e passa os dedos de leve nas suas velhas rugas. Às vezes, as abordagens de Tereza saíam bem caras.
— Não se preocupe. — disse Daniel. — Você será devidamente ressarcida. Era só isso?
— Calma, caçador. Por que está tão na defensiva?... Não sou uma ameaça pra você.
— Feiticeiros sempre são uma ameaça.
— É engraçado como o discurso muda quando vocês, caçadores, precisam usar as runas para combater seus inimigos. Algumas dessas runas criadas por nós, feiticeiros. Os humanos não passam de um bando de hipócritas.
— Foi somente para discutirmos conceitos de "ética no trabalho" que você me chamou aqui?... Isso é sério?
— Tem razão. O motivo não foi bem esse.
— Então vá direto ao assunto.
— Eu estava com uma inquietação. Então resolvi fazer um feitiço de previsão para saber o motivo. E é por causa disso que eu o chamei, Daniel. Preciso lhe avisar.
— Me avisar?... De quê?
— O muro está rachando, Daniel.
O semblante de Daniel esboça apreensão.
Manhattan. Anos antes. Residência de Daniel Van Helsing.
Daniel esperava por uma visita. Por ser um homem pontual em seus compromissos, detestava quando os outros se atrasavam. Mas sua impaciência era somente um reflexo de sua preocupação. Sua neta, Tereza, não estava nada bem.
Desde a morte de Jonathan, Tereza havia se "fechado em copas". Não falava, não comia, e possuía rompantes de raiva e agressividade que a deixavam com uma força descomunal que quase não podia ser controlada e sua mente ficava em frangalhos. Um fardo pesado demais para uma criança de onze anos carregar. A situação estava ficando insustentável.
Daniel já havia esgotado todas as possibilidades que conhecia, foi então que lembrou-se de um último recurso. Algo tão arriscado que se a ordem dos caçadores soubesse, seria o fim para ele e sua neta. Porém, se aquilo desse certo, poderia ajudar Tereza. Contudo, a tarefa só poderia ser realizada por um feiticeiro (a).
Ouviram-se batidas na porta. Finalmente, a espera de Daniel havia chegado ao fim.
— Melôsa.
— Daniel Van Helsing. Como vai?
— Marquei com você faz uma hora. — disse ele.
— Precisava de algumas coisas para o ritual. O que você quer não é nada fácil, sabia?... Alguns aparatos se fizeram necessários. ... Mas então, onde está a menina.
— Logo irá vê-la. Primeiro quero saber se você tem certeza do que está fazendo. É da minha neta que estamos falando e eu não confio em você.
— Ah, Daniel... Você se engana. Eu sou a mais confiável aqui. É você que tem que ter certeza do que está fazendo. É isso mesmo que quer?
— O que eu quero é ajudar a minha neta. E se esse for o único jeito, eu farei o que for preciso. — disse Daniel bastante decidido.
— Muito bem, então. Preciso saber com riqueza de detalhes o que aconteceu naquela noite em que Jonathan morreu. É muito importante que você não me esconda nada, Daniel. Caso contrário, o ritual não vai funcionar direito.
Não havia mais retorno, Seja lá o tipo de feitiço que Daniel queria que Melôsa fizesse, ele não podia mais voltar atrás.
Ele conta com detalhes tudo o que houve naquela noite fatídica. Não foi uma tarefa fácil, afinal, era seu filho. E por mais que os dois tivessem grandes diferenças, Daniel o amava com toda a sua alma. E naquele momento, ele entendeu o porquê de Jonathan querer manter Tereza longe daquele mundo. Aquilo não era vida para ninguém. E por um momento, Daniel desejou voltar no tempo e fazer tudo diferente. Mas era tarde demais.
— E foi isso. — disse ele.
— Sei que isso pode não valer de nada pra você, já que eu sou uma feiticeira. E feiticeiros e caçadores... Enfim... Eu sinto muito. — disse Melôsa. — Não podia imaginar que tivesse sido tão horrível. Coitada dessa garotinha.
— Entendeu o que eu quero que faça? — disse Daniel limpando os olhos das poucas lágrimas que caíram.
— Eu posso fazer o que me pede. Mas é arriscado. E têm um preço.
— E quando é que não têm?... O que você quer?
O preço foi dito e pago por Daniel.
— Ótimo. Temos um acordo. ... Porém, devo lhe advertir, Daniel. Esse feitiço que você quer que eu realize, pode trazer graves consequências no futuro. — disse ela.
— Desde que Tereza esteja bem, nada mais importa.
Momento Atual...
Todos nós fazemos escolhas em nossas vidas, de um jeito ou de outro. E na maioria das vezes, fazemos porque pensamos que estamos fazendo o certo.
Mas, um dia, as consequências de nossas escolhas começam a surgir. Como fantasmas do passado.
— Os sinais já estão aparecendo, não é? — disse Melôsa.
— Sim. Mas ela ainda acha que são pesadelos. Pesadelos que fica mais aterradores com o passar do tempo.
— Daniel Van Helsing, é muito perigoso esse seu jogo. Suprimir memórias é um feitiço muito prejudicial para quem é vítima dessa magia.
— Você me disse que podia fazer isso. Disse que era seguro.
— Não. Eu lhe disse que tudo ia depender da mente dela. Ao que tudo indica, o subconsciente dela é mais forte do que imaginávamos. E ele quer a todo custo que ela saiba de toda a verdade.
— Você não entende, Melôsa. Se a barreira cair, o selo também vai se romper e tudo estará perdido.
— Como assim?... Do que você está falando?
***
Enquanto isso, Mike estava em frente a sala do Coordenador do Campus. Depois de uma semana faltando às aulas, ele devia certas explicações.
Ele aguardava a chegada de seu Coordenador, o Sr. Ruperts, porém, quem surgiu e foi logo adentrando a sala foi outra pessoa.
— Muito bem, Sr. Winston, sou uma mulher muito ocupada e por isso gostaria que o senhor fosse breve em suas explicações sobre o motivo de suas faltas pra lá de excessivas. — disse ela.
— Espere. ... Quer dizer... Eu não quero ser grosseiro, mas... Quem é a senhora e cadê o Sr. Ruperts?
— Sou a Srta. Harper. Anabele Harper. O Sr. Ruperts precisou resolver problemas urgentes de família na Califórnia. Fui designada para substituí-lo. Agora, Sr. Mike Winston, sou eu que faço as perguntas.
E agora?... O que Mike iria responder?
***
Algumas horas depois...
Mike, estava exausto mentalmente. Nunca pensou que mentir fosse tão difícil, principalmente quando você estava diante de alguém que parecia saber que você estava mentindo. No entanto, por algum motivo desconhecido, a Srta. Harper acreditou na história de que ele, Mike, havia pego uma virose e que não queria correr o risco de contaminar outas pessoas.
A situação ficou uma pouco mais difícil de explicar quando ela perguntou a ele se sabia algo sobre o sumiço de alguns estudantes do Campus, inclusive seu amigo Alex. O que rendeu a Mike a melhor cara de surpresa que poderia ter inventado na hora e um "não sei" o mais convincente que ele pôde pronunciar. No entanto, ele não conseguiu evitar um "estou de olho em você", antes de sair da sala.
Assim que ele sai, Anabele atende um misterioso telefonema.
— Pode falar. ... Sim, ele já foi. ... Ainda não. Prefiro usar uma abordagem menos incisiva, se não se importa. ... Não se preocupe, eu fui discreta. ... O Sr. Mike Winston vai desempenhar bem o seu papel. Ele vai nos levar a ela. Pode ter certeza.
Mike nunca imaginou que depois de saber de todo um mundo escondido nas sombras, todo o resto pareceria irrelevante. Agora que ele sabia sobre vampiros, lobisomens, e outras espécies de criaturas místicas e sobrenaturais, os números pareciam sem sentido.
Para ele, a aula estava chata e massante, mal podia esperar a hora daquele "martírio" terminar, e finalmente, uma hora depois, que mais pareceu uma semana, a aula acabou.
Durante o almoço, Mike estava degustando seu sanduíche e observando o ambiente ao redor. De repente, ele engasga com o pão ao perceber a pessoa que estava chegando no Campus. Alguém que ele esperava não encontrar. Alguém que ele pensava estar morto.
— Alex?!
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