Legado (parada por tempo indeterminado)

2 Capítulo II - Procurando o ninho Part. I


Vampiros têm hábitos noturnos. Gostam da escuridão, pois podem se esgueirar melhor para abaterem suas presas. A única coisa que não podem esconder é o seu cheiro. É algo que lembra a podridão, talvez por serem cadáveres ambulantes. Um cheiro que passa despercebido por qualquer humano. Mas para um nariz treinado como o de Tereza... Eles podem correr, mas não se esconder.

Não haviam lobos em Manhattan. Aliás, como haveriam animais selvagens numa cidade grande como aquela?... Haviam parques, alguns bosques, pássaros, esquilos, mas não, nada de lobos. Ainda assim, o vampiro que corria, — fugindo de alguma coisa, ou de alguém — foi pego, exatamente, e acredite se quiserem, numa armadilha para lobos.

— E o Denny disse que não ia funcionar. — disse Tereza com um sorriso de satisfação.

Em outras circunstâncias, uma armadilha como aquela jamais pegaria um vampiro, mas quando ela era feita de prata, aí a coisa mudava figura.

O vampiro se contorcia com a prata que lhe queimava a perna e começava a se espalhar por seu corpo. Ele grunhia de dor enquanto Tereza se aproximava lentamente, apreciando aquele momento de tortura.

— Por que vocês insistem em correr. — disse ela. — Eu detesto correr. ... Não era um ancestral de vocês que se transformava em morcego pra escapar de armadilhas como esta?... Eh, já não se fazem mais vampiros como antigamente.

— Por favor!... Tire isso! — a criatura sofria em agonia.

— Ah, mas eu vou tirar. Assim que me disser o que eu quero saber.

— Não vai arrancar nada de mim!

— Eu não estava pensando em arrancar nada, hoje. Mas até que você me deu uma ideia. — disse ela levantando o vampiro pelo pescoço e o pressionando contra uma árvore. — Agora seja bonzinho e me diga, onde está o ninho?

— Vá pro inferno, escória Van Helsing!... Mesmo sendo quem são, não podem deter todos nós!

— Bom... Precisamos começar em algum lugar, não é? — ela aperta ainda mais a armadilha na perna do vampiro. — Vamos lá. Eu poso te dar uma morte bem rápida e com menos dor, se colaborar comigo.

— Não vou trair meus irmãos!

— Amor familiar. Que lindo. — disse Tereza enfiando sua faca prateada no coração da criatura e assistindo enquanto a mesma virava cinzas.

***

Dia seguinte...

Em uma lanchonete perto do Campus da universidade, Mike conversava com seu amigo Alex (praticamente seu único amigo real) sobre o que lhe tinha acontecido há duas noites atrás.

— Você anda tomando café demais, Mike. — disse Alex. — Precisa relaxar.

— Eu não estou brincando, Alex!... Vampiros existem! Eu quase fui morto por um!

— E aí, uma mulher misteriosa te salvou de virar comida de vampiro. Sei.

— Você acha que estou ficando maluco, não é?... Alex, eu juro que é verdade!

— Mike, você é meu amigo. Eu gosto de você. Adoro nossos jogos de RPG. Mas têm momentos em que precisamos parar. Essa coisa vicia, cara!

— Alex... — Mike suspira.

— Olha, eu sei que essa cidade é um pouco estranha, principalmente à noite, mas... Vampiros, Mike?! — disse Alex totalmente descrente.

— Eu não vou mais argumentar com você já que tudo isso está se mostrando uma tremenda perda de tempo. — disse Mike se levantando. — Mas, se eu fosse você, tomaria cuidado. Não é mais seguro andar por aí. Principalmente à noite.

***

Havia um lugar. Uma capela. Capela de São Miguel. Ficava na parte mais afastada da cidade. Para um lugar de fé, seus frequentadores não eram muito assíduos. Melhor dizendo, eles praticamente não apareciam. Com exceção, é claro, de um morador de rua chamado Sam. Por algum motivo, ele sempre estava lá. Fazendo suas orações e dormindo na porta da capela, e quando as noites ficavam mais frias era permitido que ele dormisse no interior da mesma — quem dava permissão ninguém sabia, já que, diferentes das outras capelas ou igrejas, a Capela de São Miguel não possuía nenhum padre.

Ninguém sabia nada sobre Sam. De onde tinha vindo, se tinha família... Simplesmente, num belo dia, ele apareceu por lá e não saiu mais.

Tereza chegava sempre com o raiar do dia. O barulho de sua Harley despertava Sam de seu sono todas as manhãs.

— Quem precisa de despertador? — disse Sam.

— Olá, Sam. Trouxe o seu café da manhã. — disse Tereza chegando com um leve sorriso, um café e uma rosquinha.

— Obrigado, Tess.

— Da próxima vez, você paga. — disse ela entrando na capela.

— Fechado. — disse Sam.

Tereza não estava naquela capela para rezar, mesmo porque, ela não era do tipo que rezava. Ela puxa um velho candelabro de parede, e um alçapão se revela abaixo do altar. Descendo algumas escadas ela se depara com uma porta de metal. Ela digita o código de segurança e entra. Aquele era o seu esconderijo, ou melhor, seu quartel general, onde moravam ela e seu avô Daniel Van Helsing, que no momento estava entretido com algo parecendo uma granada de mão.

— Querida, cheguei!

— Você demorou desta vez. — disse ele. — O Sam estava lá em cima?

— Sim, no mesmo lugar de sempre. — disse ela. — E não pode me culpar por demorar. Aquele sanguessuga de m**** me deu mais trabalho do que pensei.

— Olha a boca, menina. Estamos numa igreja.

— Correção: estamos numa capela. E estamos embaixo dela. — disse Tereza. — E francamente, Denny, parece que Deus abandonou esse lugar. Ninguém vem há anos.

— Ainda assim, não deixa de ser solo sagrado. Deus não abandona seus filhos, então pare de blasfemar.

— Tem razão. Ela não abandona. Apenas esquece de alguns, não é? — disse Tereza.

Daniel sabia o que aquelas palavras queriam dizer. A verdade é que Tereza nunca superou a morte de seu pai. E principalmente por não conseguir se lembrar o que havia acontecido naquela noite fatídica. E por alguma razão desconhecida, Daniel também não tocava no assunto.

— Tess, não foi só você que perdeu alguém naquela noite, não se esqueça disso.

— Eu sei. Passado é passado. E não vale a pena falarmos disso, eu sei. — disse ela. — O que raios está fazendo com essa granada?!... Sabe que isso explode, não é?

— Se explodisse, o máximo que conseguiríamos seria um belo bronzeado, e talvez umas queimaduras de segundo grau. É uma granada ultravioleta. — disse ele jogando a granada para ela.

— Conseguiu armazenar raios ultravioleta dentro de uma granada de mão?!... Vovô, o senhor é um gênio!

Daniel ficou um pouco surpreso, já que fazia muito tempo que Tereza não o chamava de avô, mais precisamente desde a morte de Jonathan.

— O que descobriu vendo as plantas da cidade?... Dá pra saber onde fica o ninho? — perguntou Tereza jogando a granada de mão em mão.

— Antes, me diga como foi com o vampiro?

— Nada demais. Apenas um vampiro com senso de moral dizendo que "não ia trair seus irmãos", dá pra acreditar?! — disse Tereza.

— Vampiros com código de ética.... Essa é nova. — disse Daniel. — Mas acredito que os parâmetros dos últimos ataques nos levam a esse ponte aqui. — ele mostra no mapa.

— Tem certeza?

— Faço isso desde antes de você nascer. Eh, eu tenho certeza.

— Bom... Não custa nada checar. — disse Tereza. — Mas vou precisar de umas coisas.

— Tipo?

— Uma identidade falsa.

— Moleza. — disse Daniel.

***

Os ninhos de vampiros possuem algumas características peculiares. É escuro, úmido, e geralmente ficam em lugares de difícil acesso, onde as pessoas nunca vão — se você é um vampiro, não vai querer gente bisbilhotando seu ninho o tempo todo, concorda? — E descobrir a localização desses ninhos é uma tarefa bem mais complicada do que parece.

— O Rick está morto, mestre. Ele foi pego. — disse a vampira com uma voz de lamento.

— Rick foi descuidado, assim como o Jacke.

— Eu sinto o cheiro deles, mestre. Eles estão por perto.

— Sim, minha criança. Eu também sinto o fedor daquele sangue maldito a quilômetros. Mas é estranho, também sinto um cheiro diferente entre eles. É algo familiar, mas não consigo identificar.

— Eles podem nos encontrar, mestre?

— Se vierem, estaremos prontos.

— Tenho fome, mestre. Quando sairemos pra comer?

— Paciência, criança. Primeiro, precisamos cuidar da iniciação do nosso novo irmão. Certo, Alex?

Aquele que, antes foi Alex, o melhor amigo de Mike, agora era uma criatura das trevas, sedenta por sangue.