Legado (parada por tempo indeterminado)

1 Capítulo I – Negócio de Família


Mike Winston era um jovem comum como qualquer outro. Não fazia muito sucesso com as garotas, mas não perdia as esperanças. Ele trabalhava como estagiário em uma empresa de contabilidade. Era um bom emprego extra. Pelo menos ele estava juntando algum dinheiro para as certas despesas da faculdade.

A verdade era que Mike nunca sonhou em ser um contador. Arrumou aquele emprego e entrou para faculdade simplesmente para que seus pais parassem de pegar no seu pé. O que Mike mais gostava era de interagir em sites de RPG com seus amigos – a maioria virtuais. Conversavam sobre os jogos, as jornadas, os personagens, elaboravam teorias, combinavam de ir em convenções, e tudo o mais que tinham direito.

Naquela noite, em particular, Mike resolveu cortar caminho para chegar ao Campus da universidade, por um beco que ficava aos arredores, era bastante comum os alunos irem por ali, durante o dia.

Mike estava tão entretido conversando com seus amigos em um dos chats que costumava frequentar, que não percebeu que algo o observava na escuridão. Algo sai das sombras e Mike se assusta.

— Quem é você?! — exclama ele.

— Nunca lhe disseram para não andar em lugares pouco iluminados, principalmente à noite? — disse o homem.

— Só estou cortando caminho. — disse Mike um pouco assustado.

— Cortar. Parece uma boa ideia.

De repente, os olhos do homem começam a mudar de cor para um branco leitoso, e suas unhas começam a se transformar em garras e presas enormes parecem surgir em sua boca.

— Mas que p**** é essa?! — exclama Mike dando um salto para trás.

Mike dá um grito de pavor. A criatura o pega pelo pescoço e o suspende, demonstrando ter uma enorme força.

— Pare de se debater. — diz a criatura. — Não gosto quando as presas se debatem. Se bem que isso ajuda bastante na circulação de sangue. E quanto mais sangue, melhor. — ele se preparava para cravar os dentes em Mike.

— O bufê está fechado! — disse a moça.

— Você!... Eu sabia que esse fedor que eu estava sentindo era do seu sangue maldito!

A criatura joga Mike para longe e passa a concentrar seu ataque naquela moça misteriosa. O que acaba sendo um grande erro. Ela é forte, rápida e mortal.

A criatura vira cinzas quando atingida no coração por uma das armas que a moça trazia consigo. Um sabre de prata.

Ela se aproxima de Mike — que ainda estava em choque com tudo que acabara de presenciar — e o levanta do chão bruscamente.

— Você está bem? — ela pergunta.

— Acho que sim.

— Foi mordido? — disse ela o puxando de uma vez e verificando em seu pescoço.

— Não... Espera, aquilo era um vampiro?! ... Vampiros existem de verdade?! — pergunta Mike, que era uma mistura de medo e euforia.

— Vá pra casa. — disse ela se virando e indo embora.

— Ei, espera aí! Quem é você?! — disse Mike, mas a moça misteriosa já ia longe.

Prólogo

Meu nome é Tereza. Podem me chamar de Tess, se preferirem. O que eu estava fazendo no alto daquele prédio à noite?... Estava trabalhando. O que eu faço?... Bem... Digamos que eu trabalho no controle e eliminação de pragas, como vocês puderam ver.

Não menosprezem o meu trabalho. É algo muito importante. Apesar de ser chato pra cacete, às vezes. É uma espécie de negócio de família, sabe.

Começou com o meu tataratataravô Abraham (me disseram que ele era o melhor no ramo); em seguida o meu tataravô Gabriel; depois o trabalho passou para o meu bisavô Nathan; depois para o meu avô Daniel (vovô Denny); era para o meu pai Jonathan ter assumido os negócios, porém ele resolveu quebrar o ciclo e não seguir esse caminho, afinal, quando se é pai solteiro, existem responsabilidades maiores, tipo, uma pirralha de boca suja que vivia arrumando confusão na escola.

— Quantas vezes eu preciso dizer que nem tudo se resolve com os punhos, Tess?

— Mas foi ele quem começou, pai!

— Não interessa!... Não posso ficar saindo do meu trabalho todas as vezes que você se mete em alguma encrenca. É a terceira vez só este mês.

— O que minha pequena guerreira andou aprontando?

— Pai?!

— Vovô Denny!

No começo, eu adorava quando o Vovô Denny vinha nos visitar. Eram visitas esporádicas, mas eu aproveitava cada segundo. Ele sempre vinha carregado de histórias fantásticas das viagens que ele fazia ao redor do mundo. Meu pai é que parecia nunca ficar feliz quando meu avô.

— Nossa! Como está pesada!... É sinal de que está crescendo forte. — disse Daniel.

— Hummmm! O cheiro tá uma delícia, Vovô! O que está preparando?

— É o meu guisado especial, querida. Já está quase pronto.

— A Tereza vai fazer a refeição dela no quarto dela, hoje, pois está de castigo. Certo, Tess?

— Ah, pai, qual é!... Isso não é justo!

— Tivesse pensado nisso antes de quebrar o nariz do seu colega de escola, agora suba.

— Sim, senhor. — eu ficava muito p*** da vida quando meu pai me proibia de fazer as coisas.

— Depois eu levo um pouco de guisado para você, amor. — disse o Vovô.

— Como entrou aqui, pai?

— Você sempre deixa a chave reserva no mesmo lugar.

— Vou me lembrar de trocar da próxima vez. O que faz aqui?

— Que mundo é esse em que vivemos, onde um homem velho não pode vir visitar seu filho e sua neta de vez em quando?

— Pai, qual é!... Pra começar, corta essa de “homem velho”, sabemos que você tem tanta saúde quanto eu; e depois, sabemos muito bem porque está aqui, e a resposta continua sendo NÃO. Já disse, pai, eu estou fora.

— Olha, tem razão. Eu estou na cidade a trabalho. Mas eu também estava com saudades de vocês. Sabe o quanto eu adoro a Tess.

— E ela também te adora. Você e as histórias que conta.

Por algum motivo, que na época eu não sabia direito o que era, meu pai não gostava das histórias que meu avô contava para mim.

— Não são somente histórias, e você sabe. Fazem parte da nossa vida, do nosso legado. É o nosso destino, Jonathan.

— Não, pai. Não é mais o meu destino. Não faço mais parte desse legado, e nem quero que Tereza faça.

— Você ainda se culpa pelo que aconteceu naquela noite?... O dia em que Tereza nasceu.

Meu pai e meu avô tinham um segredo. Algo que tinha a ver com o meu nascimento e o fato de minha mãe ter ido embora. Mas eles nunca me disseram. E depois de algum tempo, eu mesma nem quis saber mais. Se ela foi embora, é porque não queria saber de mim.

— Não tem nada a ver com aquela noite, pai! ... Eu simplesmente decidi que não quero mais fazer parte disso. Meus dias como caçador acabaram no dia em que Tereza nasceu. Tenho outras responsabilidades agora.

— Criar uma filha sozinho é difícil, E acredite, não vai ficar mais fácil. Tess está crescendo e até você já percebeu as mudanças.

— Do quê está falando?

— Sabe muito bem do quê eu estou falando.

Naquela mesma noite, meu avô não pôde me contar histórias, e não pude comer um pouco do seu guisado especial, já que ele precisou ir embora. Eu fiquei triste e bastante zangada com meu pai, pois achava que a culpa era dele, como sempre.

— Você sempre faz isso!

— Tess...

— Nós quase não vemos o Vovô, e quando ele finalmente vêm nos visitar, você o manda embora!

— Você ainda é criança demais para entender, e eu não vou entrar nesse assunto com você.

— É sempre assim! Você nunca quer entrar nesse assunto, nunca quer conversar. Nunca quer falar sobre nada, nem sobre a mamãe. Por isso ela foi embora! Por isso deixou a gente! Ela podia ter me levado com ela, assim eu não precisaria ficar com um miserável egoísta feito você!

Meu rosto ardeu com o tabefe. Foi a primeira vez que senti uma raiva tão profunda de alguém. E logo pelo meu próprio pai. É claro que ele se arrependeu em seguida, deu para ver na expressão do rosto dele. Mas eu fiquei p***.

— Tess, eu sinto muito, querida. Eu não...

— Não chega perto de mim! Eu te odeio, quero que você vá pro inferno!

Se eu soubesse que aquelas seriam minhas últimas palavras para com meu pai, eu jamais as teria dito.

Nunca imaginei que as histórias do meu avô fossem reais. Gostava de ouvir, mas sempre pensei que eram fruto da imaginação de um homem que gostava de viajar e aprender novas culturas. Até que naquela mesma noite, algo veio nos fazer uma “visita”.

A última coisa de que me lembro é de estar na sala de estar, tudo destruído ao meu redor enquanto eu chorava sobre o corpo inerte do meu pai com um punhal de prata cravado em seu peito. Meu avô apareceu, me colocou em seu colo e me levou para longe de tudo aquilo.

— Venha, querida. Você vai ficar bem.

Algum tempo depois meu treinamento começou. E eu entrei de cabeça nos negócios da família.

Caçar. Somos caçadores, e somos bons. Somos os Van Helsing.