Notas iniciais
E aí, semideuses? Como que cês tão? Espero que bem! Então, apenas alguns avisos: eu tentarei fazer com que os personagens permaneçam fiéis ao original, é claro, mas, para a proposta da fanfic, algumas mudanças são necessárias. Quis escrever Legado dos Deuses porque o final de Sangue do Olimpo não me satisfez por inteiro; achei que ficaram muitas pontas soltas, coisas mal resolvidas ou exploradas, por isso quero trabalhar isso aqui. Espero, do fundo do coração, que gostem *-* Tenham uma ótima leitura!

Prólogo

O deus aprisionado

Ω

Fria, silenciosa e afastada do mundo.

Assim era a cela em que estava. Um perfeito – perfeito demais – quadrado não grande o suficiente para ser confortável. As grades, assim como o piso, o teto e as paredes, eram brancas e brilhantes, moldadas a partir de algum minério perolado dos deuses, e iam do chão ao teto. Através delas, pelos pequenos espaços que havia entre uma e outra, era possível ver o dia lá fora, tão magnificamente belo e ensolarado do alto da colina.

Tudo graças a mim, o deus pensou, admirando o sol. Eu trago o dia ao mundo e, ainda assim, deixam-me trancado em uma cela que limita meus poderes.

Sua prisão particular possuía nada mais do que uma cama e uma lira, um de seus símbolos, que tocava para passar o tempo. Mas era tempo demais confinado, tempo demais mesmo para um deus grego. Estava acostumado com o passar dos anos como se tivesse a velocidade de um piscar de olhos, e agora... Sozinho, ali, sem ter com quem falar além de si mesmo, sentia-se abandonado.

Ninguém vinha vê-lo a não ser as ninfas que traziam suas refeições: uma bandeja com néctar e ambrosia. E nenhuma delas ousava falar com ele, não importava o que fazia, fossem perguntas, cantorias, queixas, flertes. Era deliberadamente ignorado, uma total ofensa.

Como poderiam fingir que ele não existia? Ora, ele não era nada menos do que atraente, mesmo que estivesse maltratado. Não era de se admirar que fosse o deus do sol, das artes e mais uma porção de coisas. Tinha a aparência de um adolescente, cerca de dezessete anos; cabelos loiros despenteados, olhos azuis faiscantes e pele bronzeada. Suas roupas casuais haviam sido substituídas por uma verdadeira túnica grega branca.

Nada daquilo havia servido para aplacar a fúria de Zeus, o Senhor dos Céus, no entanto. Seu pai o castigara por algo que não podia controlar. Suas tão amadas profecias haviam sido proibidas após a Profecia dos Sete, que desencadeara tantos acidentes e a morte de um de seus filhos romanos, Octavian. Desde então, ele estava aprisionado para que mais nenhuma fosse feita, como uma punição injusta por seus atos.

Bufando, afastou-se das grades. Era um dos deuses mais importantes da cultura grega, e ninguém tinha o direito de prendê-lo e afastá-lo de seus próprios domínios. Sua mente fervilhava. Profecias, haicais e músicas vinham a si naturalmente, não podia impedi-los. Queria gritar para o mundo os novos versos que haviam chegado a ele na noite anterior. Seus oráculos precisavam saber. Os deuses precisavam saber. Principalmente, os meio-sangues, tanto gregos quanto romanos, precisavam saber.

— Apolo — chamou uma voz atrás dele, diferente daquelas às quais se acostumara.

Ele virou-se em um rompante, quase sem acreditar no que via.

— Ártemis?! — Aproximou-se mais uma vez das grades, querendo tocar as mãos da irmã para saber se era real. Quando teve a comprovação, começou a abrir um sorriso, mas conteve-se. — O que faz aqui? Pensei que visitas me fossem proibidas.

— E são. — Ártemis estava na forma que costumava assumir para ir ao mundo mortal, uma garota de treze anos, de cabelos vermelhos e sardas. Pareceria inofensiva a quem não a conhecesse. Apolo gostava de como eles eram gêmeos e mesmo assim podiam ter idades e aparências diferentes. Dessa forma, ele sempre podia ser único, aonde quer que fosse. — Mas Zeus me concedeu alguns minutos para que pudesse vir vê-lo.

Apolo fez uma careta de desgosto. Estava feliz por ver a irmã, mas só a menção ao nome de Zeus o fazia ficar ressentido.

— É claro que precisou da permissão dele — resmungou. — Afinal, quem foi que o nomeou Rei dos Deuses?

— Ele mesmo — Ártemis respondeu de maneira simples.

Apolo fez outra careta.

— Quanto tempo se passou? — perguntou, agora sério.

— Um ano. — Ártemis desviou o olhar por um momento. — Como você está?

— Estou ótimo, obrigado por perguntar — Apolo disse com ironia. — Fiz novos amigos aqui, não está vendo? Aquela é Sophia, a lira, e este é André, a cama. Eles estão contentes por conhecer você. Às vezes, Néctar e Ambrosia vêm me visitar também, mas duram menos que dois minutos. A fome toma conta de qualquer um que está na solitária.

Ártemis lhe lançou um olhar de repreensão.

— Talvez Zeus reduza sua pena se decidir que você está se comportando. Nenhuma profecia ou escritura foram feitas durante esse período.

Apolo ficou desconfiado. Não sabia qual era a situação de seus profetas lá embaixo.

— O mais novo Oráculo de Delfos, aquela garota, Rachel Elizabeth Dare... Ela está bem?

— Sim, Apolo. Todos os seus protegidos estão seguros e bem, apenas perderam os poderes... temporariamente.

Temporariamente, a palavra se repetiu na mente do deus. De repente, Apolo se agitou e deu as costas a Ártemis. Começou a andar de um lado a outro na cela, um hábito que havia adquirido desde que fora preso ali. Não à toa muitos semideuses tinham hiperatividade, visto a energia acumulada dos pais divinos.

— Esse silêncio logo terá fim — avisou, sem encará-la diretamente. — Novos versos chegaram até mim ontem à noite. Alguém precisa ouvi-los. Você sabe que o futuro não fica muito tempo escondido. Os humanos sempre querem saber o que os aguarda, mesmo que isso possa destruí-los.

Ártemis ficou nervosa. Olhou por cima dos ombros para checar se não havia mais ninguém por perto.

— Você precisa manter isso em segredo, Apolo — advertiu ela. — Ninguém pode saber sobre isso. Se Zeus sequer imaginar que você andou profetizando...

— Você sabe que não é algo que consigo controlar. — Apolo deu um sorriso sombrio. — Eu confio em você. Sei que não vai espalhar a notícia.

— Apolo...!

Os olhos do deus brilharam, verde-claros, emitindo uma luz tenebrosa. Fumaça da mesma cor o cercou em espirais, rodopiando ao seu redor como se fizessem parte de si. Quando Apolo voltou a falar, sua voz não era a mesma – estava mais rouca e profunda, antiga e seca como pergaminhos velhos –, e Ártemis não teve como impedir que as palavras fossem proferidas.

O reino que perdurou por milênios conhecerá a derrota

Pelas mãos dos heróis que uma vez foram sua escolta

Incentivados pela discórdia e pela vingança,

Eles começarão a matança

Com a morada dos imortais em ruínas,

Sobre eles cairá a punição divina

E malditos serão os semideuses

Que se tornaram o legado dos deuses

A fumaça se dissipou, e todo o brilho que cercava o deus apagou. Apolo tossiu como se acordasse de um sonho muito estranho, e balançou a cabeça para clarear os pensamentos. Seus olhos estavam novamente azuis límpidos.

— Eu não devia ter vindo até aqui! — exclamou Ártemis, irritada e ansiosa. — Não devia ter ouvido isso... Mal se passou um ano desde o despertar de Gaia e você vem com histórias sobre a queda do Olimpo! Pelo amor dos deuses, Apolo!

— Acho que não contará ao “grande Zeus” sobre o que ouviu, não é? — Apolo disse em sua voz natural, ainda um pouco confuso por ter se deixado levar. — Ele seria capaz de matar todos os semideuses do mundo para garantir que a profecia não se cumpra.

— Semideuses não podem se revoltar contra nós — Ártemis argumentou, embora nem ela mesma estivesse convencida de suas palavras. — São apenas semideuses. Nós somos mais fortes.

— Você esquece que três deles já foram ao Tártaro e voltaram vivos. Impediram que Gaia destruísse o mundo. Pararam Cronos antes que ele renascesse por completo. Eles já fizeram o impossível. Eu não subestimaria ninguém a essa altura. — Apolo deu de ombros. — Principalmente, não subestimaria o filho de Poseidon a quem já foi oferecida a imortalidade pelo próprio Zeus.

Ártemis crispou os lábios.

— Não ouse contar isso a mais alguém.

— E a quem eu contaria? — Ele sorriu largamente, com um ar inocente. — Às ninfas que me trazem as refeições? Ou elas morreriam de medo, ou pensariam que estou mentindo, ou correriam direto a nosso pai com as novas fofocas em uma transmissão melhor do que a da tevê Hefesto. Eu não quero nada disso.

Ártemis conhecia muito bem aquele espírito travesso do gêmeo para reconhecer o tom em suas palavras. Sua desconfiança cresceu a um ponto alarmante.

— Em que está pensando, Apolo? — inquiriu, sem admitir brincadeiras e enigmas.

— Nada — ele respondeu com descaso, mas seus olhos reluziram em mistério. — Vamos apenas dizer que você apareceu em uma hora bem conveniente. Quando a oportunidade bate à sua grade, você tem que aproveitá-la. Ou seja lá qual for o ditado.

A deusa da caça balançou a cabeça em negação. Sem dizer mais uma palavra, virou-se e começou a ir embora em passos duros e tensos. Apolo ainda bradou atrás dela, em tom jocoso:

— Mande lembranças a suas caçadoras por mim! Estou com saudades delas!

Ártemis prosseguiu seu caminho sem olhar para trás, apesar da enorme vontade de atirar uma flecha no irmão. Tinha coisas mais importantes a fazer, e a primeira seria não deixar que ninguém ouvisse a nova profecia que, talvez, trouxesse a desgraça do Olimpo.

Mal sabia que outras duas divindades já haviam escutado e não mediriam esforços para que ela se cumprisse.

Notas finais
E então, o que acharam?? Contem-me suas primeiras impressões pelos comentários, eu vou adorar saber e nós podemos conversar! Críticas construtivas, elogios e sugestões são mais que bem-vindos aqui! Sanaram a curiosidade (que também era a minha) sobre o destino do Apolo? O que esperam do desenrolar da história? Eu já tinha começado a postar essa fanfic aqui antes, mas excluí por falta de tempo para postá-la e de inspiração. Também porque o Rick Riordan vai lançar uma nova série com os eventos posteriores ao Sangue do Olimpo (e começando com o Apolo ainda) e fiquei meio desanimada haha. Mas a premissa é totalmente diferente, portanto resolvi continuar. Espero que gostem dessa viagem! Muito obrigada por ler, beijos a todos o/