Legado de Semideuses!

19 Entrando em aflição.


As palavras quando são usadas da maneira errada podem fazer um estrago irreparável. E aquelas foram tão fortes como o olhar penetrante do garoto que se intitulava um “doutor”. No máximo o achava um maníaco, nada mais que isso. Aquela garota ao lado dele se chamava Bianca Ortiz, e graças aos assuntos melancólicos dos dois descobrimos que ela era filha de Atena. Mas, se realmente fosse inteligente não estaria fazendo parte de uma causa perdida, ou estaria?

Por incrível que pareça a pouca fumaça e o ângulo onde a vela não iluminava foi perfeitamente um bom esconderijo para duas pessoas que passaram minutos se esgueirando pelas sombras da parede. E por sorte eles não nos perceberam. Mesquita seguiu Ortiz pelo mesmo lugar de onde eles vieram, mas, sua voz odiosamente reclamona corria por todos os corredores, fazendo ecos.

– O que acha que é? – Vitória ainda possuía o traje camuflador e por isso conseguiu me assustar quando cochichou.

– Não sei, mas algo bom não é. – Olhei para a filha de Nikê de volta. – Precisamos encontrar Letkaske o mais rápido possível. Consegue se comunicar com os outros?

– Eu já tentei, mas os comunicadores estão com interferência.

– Isso é um problema.

– Só nos resta abusar da sorte.

– Thay que o diga.

Agora que os dois mal feitores já tinham ido embora e Julia tinha fugido por conta de uma pequena aranha, o caminho já estava deveras “limpo” para nos aventurarmos dentro das masmorras labirínticas nas catacumbas daquele esconderijo dos renegados. O progresso deveria vir imediatamente, e talvez, com a nossa exploração iriamos conseguir a localização de nossa amiga raptada. Passamos os vans sobre a parede lateral e deslizamos até o chão. Flexionando os joelhos consegui manter um bom equilíbrio e não bater as nádegas, e depois ajudei Vitória a fazer o mesmo. Colocamo-nos a andar sobre os entulhos de pedras e restos da porta que residia graças ao raio da filha de Zeus, e no grande buraco que a própria abriu com seu instrumento, a visão de seu quarto nos chamou atenção. A decoração não era de tão ruim, pois tinha um papel de parede com alguns espécimes de flores feitas com tinta preta em um plano de fundo totalmente branco. Desenhos feitos a mão, e alguns símbolos de copas por todo o quarto. Sem contar com a grande variedade de trechos de música – principalmente da Taylor Swift. Sua cama exibia uma enorme imagem de dois personagens de Game of Thrones – Khaleesi e Khal Drogo – eu soube graças ao logo enorme com os nomes deles. Além da cama não havia qualquer outra mobília, um quarto simples para tal instalação.

No pêndulo estreito que restou da porta, agora pedras embocadas e totalmente pontiagudas ocupavam-na de forma simplória, tinha uma leve teia que deslizava conforme um pequenino inseto percorria.

– Olha o tamanho dessa aranha. – Deixei-a parar no meu dedo. – Ela acha que essa nanica vai estupra-la?

– Quando você tem fobia de alguma coisa é assim mesmo. – Ela sorriu. – Da mesma forma que você tem de lagartixas, ela tem de aranhas.

– Mas eu não sou histérico, nem tampouco jogaria um raio numa lagartixa. – Falei despreocupadamente. Mas, quem sabe no futuro eu poderia repensar se caso tivesse uma arma daquele porte e uma lagartixa grudada na minha parede.

– Duvido muito. Bem, vamos andando. – Ela me deu as costas e começou a andar.

– Nem precisava daquele escarcéu todo. – Deixei que a aranha continuasse seu caminho. – Você nem deve causar estragos, como alguém pode ter medo de você? – Segui Vitória.

Assim que fiquei ao lado da filha de Nikê, ela me olhou de forma questionável.

– O que foi agora? – Falei aos cantos da boca com uma expressão de emburrado aos cantos dos lábios.

– Agora eu entendi por que ela tem medo de aranha.

– Eu também, ela não quer picada e virar e Genderbend do Homem Aranha?

– Hãm?

– Peta Parker? Mulher Aranha? Homem Aranha versão feminina?

– Não, eu só ia dizer que tem uma aranha do tamanho da sua mão nas suas costas, mas já que não tem medo, ignora.

– TIRA ESSA COISA DE MIM!

(...)

No fim do corredor uma enorme sala dava acesso á um elevador. Entramos com receio de que alguém poderia estar nos esperando do outro lado e apertamos o botão do quarto andar – pois era o elevador só atendia até ele –, mas quando surgiu o tick das portas para nossa sorte não havia ninguém. Não havia ninguém a não ser uma ilógica ponte de madeira que regia um estreito compartimento que era do meu tamanho, mas depois que Vitória e eu atravessamos a ponte, tivemos certeza que o compartimento crescia até se tornar suficientemente grande para que nós atravessássemos. Só havia um problema; o único lugar que podíamos pisar era em pilastras – que serviam de plataformas de pedras – de um pouco mais de um metro de cumprimento e largura. Isso por que abaixo daquelas pilastras o cenário era composto por lava fumegante, dez metros abaixo. Até que não era tão difícil assim né, por isso eu decidi que seria mais fácil eu ir primeiro.

– Está de brincadeira com a minha cara? – Eu devo ter nascido virado com as nádegas pra lua, por que assim que dei um passo à frente inúmeros machados afiados se desdobraram do teto e começaram a se balançar de um lado para o outro.

O machado chegava até zunir o ar com a tamanha força empregada nas lâminas. O único modo de passar seria ser mais rápido que o machado, e nisso, torcer para que tenha acertado a pilastra. Mas, ao que pelo menos notei eram três machados que contornavam o caminho – e cada uma tinha um movimento em particular. A primeira se movia da direita para a esquerda, enquanto a segunda se movia num movimento totalmente contrário. A terceira era ainda mais difícil de lidar, pois ela não vinha diretamente do teto, mas sim, das paredes laterais. Não havia jeito algum de evita-las, uma vez que as paredes eram compostas de espinhos.

– Vamos ter que ir de uma á uma. – Bradei sabendo dos perigos que se ocupariam no caminho.

– Eu percebi, teremos que sincronizar nossos movimentos. São apenas três pilastras até o outro lado, vamos conseguir.

Ela tinha razão, nós iriamos conseguir. Mas, mal sabíamos que iriamos quase parar no submundo. Assim que aspirei ar suficiente deixei que a primeira arma passasse diretamente a minha esquerda, e cerca de um segundo depois me aventurei pelos ares. Meus pés se firmaram na pilastra com muita facilidade, e depois que estive de pé aproveitei para abrir espaço para que Vitória também conseguisse a mesma proeza. A segunda; deveras fácil repetir o mesmo movimento da primeira – o que mudou foi que ao invés de esperar a arma ir para a esquerda, foi para a direita – e lá fui eu pular para a segunda pilastra. Meus pés roçaram no cascalho da borda da pedra, mas eu consegui manter o equilíbrio em tempo de não dar de cara na lava borbulhante. Porém, quando eu estava quase me mantendo em pé, um breve vislumbre me fez abaixar-me totalmente quando o terceiro machado cruzou centímetros da minha cabeça. Eles levantaram arrepios de medo por todo o meu corpo, e o único movimento que pensei em fazer foi pular para a borda que ligava a porta – eu estava salvo. Vitória, por sua vez não ligou que sua pilastra estava desmoronando, e quando notou teve que pular descoordenadamente para frente. Porém, ela não atingiu atitude suficiente e ficou aos prantos com os dedos enroscados na extremidade da borda, totalmente ao relevo do ar e pendurada sobre a possível divisão da morte e da vida.

– Droga! Socorro! – Ela se debatia tentando firmar suas duas mãos sobre a plataforma.

– Vitória, tenta firmas seus pés dentro dos buracos da pilastra.

Naquela altura minhas dicas já não se faziam suficientemente altruístas para falar a verdade: ela estava em maus bocados. Mas, eu tinha certeza que ela poderia sair daquela enrascada se fizesse algum movimento para cima, se ao menos projetasse o seu corpo. Contudo, as outras duas anteriores plataformas já tinham se rendido a lava e despencaram por conta do nosso peso – mas elas levaram alguns segundos para que isso acontecesse – segundos que tinham acabado de se esgotar. Assim que ela começou a se mexer para frente meu coração caiu em disparada. Vitória esbravejava maldições contra tudo e todos, mas depois sua indignação virou medo. A pilastra se projetou para frente num solavanco rápido e, por sorte escapou do julgamento do machado que passou metros sobre eles. Assim que toda a pilastra tombou, Vitoria conseguiu desferir alguns passos para cima e assim que a plataforma se chocou com a parede de onde eu estava, Vitoria se jogou para cima e esticou sua mão.

Todo o sentimento de medo que uma hora eu guardava foi-se com a minha mão suada se encaixando na da minha companheira. Ela deslizava pouco a pouco, mas, abaixei-me e empenhei o máximo de força possível para que ela conseguisse colocar os pés para cima e agarrar a superfície. E depois de alguns segundos ela estava salva, e eu, aliviado.

– Fico te devendo essa. – Ela exclamou em resposta a minha ação.

– Tudo bem, só fique viva.

Assim que abrimos a segunda porta um enorme salão nos encheu os olhos com uma estatueta de Zeus que se se empunhava sobre um enorme pilar de forma majestosa. O deus dos ventos estava de costas para nós, contudo, de longe podíamos ver seu enorme raio mestre exposto em seu punho direito. Ele vestia um espécime de toga por entre seu enorme corpo, e cada detalhe de suas costas pareciam terem sido esculpidos por algum magnífico arquiteto. Vitória e eu contemplamos aquela tamanha estátua com tamanha admiração, porém, quando ficamos de fronte ao rei dos céus notamos perturbadores e zombeteiros desenhos no mesmo. Nas suas barbas havia desenhos de cobras nos lugares em que antes tinham as representações de raios. E em seu rosto divino uma espécie de óculos redondos desenhado com uma caneta de tinta preta ao redor dos olhos, e por falar neles, pintaram-nos com cores vermelha com três pontos negros. Olhei de relance e meu TDAH traduziu a legenda esculpida na bochecha do deus como “look to my eyes”, resumidamente Zeus possuía dois Sharingans.

Na testa franzida da estátua tinha um rabisco épico, um “n” no mesmo lugar e tamanho da cicatriz do Harry Potter. Será que você-sabe-quem teria feito aquilo? Acredito que não, hehe. Nas coxas do deus, uma notável assinatura nos encheu os olhos; By: Julia. Isso por que a garota era filha dele, imagina se não fosse. Dentre tudo que acabara de prestigiar o que me deixou mais perplexo foi a enorme semelhança daquelas esculturas e suas poses em comparação com as nossas do acampamento meio-sangue. Passou por um segundo na minha cabeça que elas teriam alguma ligação, mas acredito que isso seja besteira. Pois se existisse tal laço, qual seria?

Atrás de nós havia uma porta com o número dois, e nela entramos sem demorar. Não demorou muito para entendermos que aquelas portas era uma contagem exata dos doze deuses olimpianos. Passamos por lá observando cada detalhe feito pelos desordeiros renegados, Hera com fantasia de vaca, Poseidon com olhos de ostras e Deméter como uma fazendeira sexy. Era realmente hilário cada gesto de amor que eles exibiam para seus pais, pois cada estátua tinha uma assinatura especifica – da Hera eram muitas assinaturas. Contudo, quando chegou a estátua do meu pai tive vontade de matar o criador de tais ofensas. A única frase que consegui ler – dos muitos rabiscos – era a seguinte colocação Jacinto seu amor, entendedores, entenderam. O mais confuso era que os rabiscos estavam assinado como “Apolo Júnior”.

Quando chegamos ao número onze, Hermes, um brilho magnifico percorreu sobre a sua superfície de pedra. Os movimentos circulares contornavam os pilares até a cabeça do deus mensageiro em uma onda de energia. Tal onda, tão forte e coordenada uma com a outra explodiu em uma cintilante chuva de faíscas que esparramou sobre nossas cabeças. Obviamente Vitória e eu ficamos totalmente paralisados com tamanha surpresa que Hermes poderia ter nos planejado, pois mesmo sendo estátuas eu acredito que os deuses ainda mantém o devido controle sobre seus joguetes.

– Então Mama estava correta, as sandálias aladas de Hermes estão á solta. – A filha de Nikê esboçou uma expressão séria. Sua espada trinava-lhe uma com a outra conforme ela se mexia. O barulho do metal naquela circunstância era um doce alívio de segurança para nossos ouvidos.

– Sim, os outros estão indo atrás dela. – Eu a olhei com uma centelha de certeza. – Não é nossa preocupação.

– É, é verdade.

Finalmente a estátua de Dionísio apareceu. O pequeno pano que era tido como roupa cobria poucas partes do corpo do jovem. Ele exibia tamanha ostentação de cachos de uvas e uma taça de vinho que recaia sobre sua mão direita, e em seu peitoral aberto. Tive uma pequena dúvida de que o arquiteto que fizera essa estátua com desejos oprimidos – não que eu tivesse algo contra, e não tenho. Por incrível que pareça aquela era a única estátua que não estava toda depredada como as outras, será que não havia algum filho de Dionísio que havia rompido os laços com o pai? Olhei atentamente todos os detalhes que aquela estátua poderia oferecer, havia alguma coisa de errado ali dentro daquela sala. Uma força exalava de forma atrativa, mais forte que a chuva de faísca de Hermes. Quando minha vista vasculhou cuidadosamente a mão canhota do deus, notei o objeto brilhante e roxo na ponta dos dedos de pedra da estatua. Dionísio estava com a boca aperta e a pedra brilhante pendia sobre ela.

– Aquela é a pedra de Dionix. – Esbravejei em reconhecimento ao objeto.

– Sim, é ela mesmo.

– Vou pegá-la, espere aqui.

– Lyu, espera...

Como eu queria sambar por um tempo indeterminado na cara da Julia. Afinal foi ela quem assassinou Laura por aquele objeto – e quase me levou para o submundo também. Para o azar dela Munhoz apareceu nos últimos segundos com o mesmo poder em mãos para fulminar em uma conflitante e estrondosa explosão de raios. Lembro-me até hoje o ensurdecedor barulho percorrer meus ouvidos.

Mas como diz minha mãe – quem vive de passado é museu –, e tampouco deveria me abster a lembranças que não me levariam a nada. Mas, o único prazer de relembrar algo trágico, como a morte de Laura, era que eu iria simplesmente tomar aquilo que eles tinham. Ao menos, era esse o meu plano. Um plano falho.

Assim que coloquei as mãos na camada de pedra do pano de roupa e os pés dentro da pilastra do deus, tentei projetar meu corpo sobre ela e começar uma pequena escalada. Porém, uma enorme energia saiu da portarius e envolveu a estatua num brilho lilás com força suficientemente forte para me arremessar longe. Meu corpo se projetou três metros acima do chão e minhas costas se chocaram rudemente contra a sólida parede de mármore. Para minha sorte eu tinha os vans escaladores, e estes grudaram na superfície antes que eu pudesse cair de cabeça no chão. A dor na lombar de forma incomoda, mas tinha certeza de que isso passaria.

– Apenas os filhos do deus patrono podem tirar ou colocar as portarius nas devidas estatuetas de seus pais. – Assim que bati com o corpo no chão Viória cruzou os braços, logo acima de mim. – Da próxima me escute, seu idiota.

Em partes ela realmente tinha razão. Eu deveria escutar mais as pessoas antes de fazer quaisquer coisas que podem causar impactos contra nós. Contudo, eu era muito impulsivo e nunca escondi isso de ninguém. Acredito que muitos de nossos defeitos devem ser comparados e analisados dos dois lados. E eu estaria mentindo se não dissesse que acho impulsividade tanto um defeito como uma qualidade. Orgulho-me da forma que vejo cada característica, pois da mesma forma que as pessoas julgam determinado tributo como uma forma de defeito, eu, por outro lado somo o pequeno fragmento dele e o transformo em algo benéfico para mim. Os que julgam ser defeitos na verdade são uma barreira para que ninguém possa me atingir.

– Pega leve, minha memória não é o meu ponto forte.

– Nem a sua inteligência. – Ela estendeu a mão para mim.

– Isso é questionável. – Eu aceitei a ajuda.

O mero vislumbre do grandioso salão e nos fez desviar totalmente a atenção da portarius que eclodiu num brilho ensurdecedor. Levamos nossas mãos para os olhos, e graças a isso não ficamos cegos. Assim que o objeto se apagou uma horda de leões humanoides apareceu. A quantidade não era consideravelmente grande, mas eu tinha certeza que se uma garra daquelas criaturas meio humanas e leões acertassem alguma parte de nosso corpo seria um belo estrago.

– Eu já estava achando tudo isso muito fácil. – Vitória retirou as duas lâminas de sua cintura com um assoalho de metal.

– Isso foi um obrigado? – Saquei meu arco dourado e juntei meus dedos atrás das minhas costas para pedir uma flecha normal da minha aljava mágica, e não demorou para que ela atendesse meu pedido.

– Só tente não morrer, tá? – Ela sorriu. – Hora de esmagar um pouco desse cancro do tártaro.

Vitória era a filha da deusa Nikê, e obviamente odiava perder mais que tudo. Suas lâminas se movimentavam rapidamente de um dedo á outro, e assim que ela partiu para cima dos monstros não demorou muito para que as lâminas da garota ficassem retesadas com o líquido que perpetuava uma camada tênue sobre o aço; o vermelho do sangue. Vitória era mais esperta do que parecia, pois quando seus inimigos vinham com muita sede ao pote ela enfiava uma de suas lâminas até transpassar totalmente o corpo do mutante leonino. Logo, ela usava o corpo do falecido leão como forma de escudo para poder lidar com os outros. A quantidade que vinha em torno de Vitória era razoavelmente controlada, ela não tinha quaisquer problemas.

Não demorou muito para que as feras leoninas viessem atrás de mim. Uma delas parou no meio do caminho quando uma de minhas flechas normais cruzou sua testa e seu corpo caiu no chão com um baque surdo. Antes de aquela carcaça explodir em pó, ela conseguiu a proeza de derrubar os outros dois que estavam vindo com os dentes infatigáveis – eles estavam a cerca de dez metros de mim e onze da porta, que estava logo atrás das minhas costas. Por um leve vislumbre eu achei que eles tombariam e seriam alvos fáceis para minhas flechas, mas, assim que os pés humanoides se desequilibraram as feras logo assumiram uma posição quadrúpede e rugiram em resposta da sua fome. Eles corriam para buscar o seu jantar numa velocidade mordaz, e de longe conseguia sentir o apetite de ambas as criaturas estranhas.

Eles corriam para buscar o seu jantar numa velocidade mordaz, e de longe conseguia sentir o apetite de ambas as criaturas estranhas. Eles eram rápidos, mas eu deveria ser mais rápido do que eles.

Não titubeei e no instante seguinte uma nova flecha surgiu entre meus dedos. Tamanha rapidez fora incumbida em minha mão direita que alinhou a arma com as linhas resistentes do arco que se flexionaram com a fuga da arma mágica de bronze celestial. Sua trajetória foi em linha reta, – logo no meio de ambas as criaturas. Elas acharam que simplesmente o ataque não surtiria qualquer efeito pelo modo com que a flecha zunia logo no centro dos corpos, contudo, quando a flecha alcançou a distância necessária o dispositivo de rede se abriu e os englobou em linhas fortemente revestidas com camadas grossas e mágicas.

– Menos dois! – Exibi o arco na mão como se eu fosse o maior campeão de tiro ao alvo de todos os tempos e finquei duas flechas nos leões presos, eles explodiram em cinza. Meu notável sorriso era a prova de que a minha satisfação fora atingida com a minha mira, tal que, eles não estariam mais naquele mundo para contar história.

Por meros segundos meu semblante confiante deu lugar ao susto. Uma lâmina curva passou rente aos meus olhos com movimentos circulares e arrematou um monstro humanoide que pulava com as garras prontas para me retaliar. Olhei ao lado e a lâmina se prendeu na parede de pedra com um baque forte, ao menos, o leão havia virado cinza.

– Nunca baixe á guarda. – Ela passou por mim me encarando e foi até a sua espada. – Se não da próxima você vira comida de leão. – Com apenas uma mão ela retirou a lâmina cravada da parede e colocou em sua cintura.

O cabelo castanho da branquela esvoaçou num solavanco magistral quando ela apertou o globo vermelho no centro do seu peito. Tal que, com traje camuflador desativado, uma renovada imagem dela se mostrou totalmente descolada e simples, porém, atraente. Ela usava um short jeans, mas, não pude ter certeza do cumprimento dele por que havia uma blusa xadrez amarrado na cintura dela, não que eu esteja interessa em saber né. As lâminas se prostraram logo ao cinto, e quando a filha de Nikê amarrou os cabelos em um cock tive impressão que a cor era um tênue vermelho e não uma cor de castanho claro – isso sempre me deixava confuso.

– Oshi, o que foi? – Ela me questionou, curiosa.

– Nada ué, observar agora paga? – Retruquei levantando as duas mãos para trás como se fosse um sinal de “desculpa ai srta. Rainha”.

– Depende de quais suas intenções.

– Relaxa, não quero ter um filho com você.

– Sua sinceridade me comove Lyu.

Os corpos ao nosso redor foram totalmente sugados pela terra. Engolidos pelo poder da portarius como um sinal de encerramento do show de horrores provindo da Dionix. Vitória e eu sabíamos que aquele acontecimento nos traria não apenas encrenca com os monstros, mas sim, com os renegados. E não demoraria muito para que eles percebessem que nós entramos em suas instalações e que tentamos remover a pedra de Dionísio. Assim que batemos a porta do salão doze uma renovada atmosfera de luxo nos mostrou que estávamos perto de algo importante. Antes o chão entrava em sincronia com as paredes de mármore, mas agora eram longos tapetes de camurça por todos os lados. As luzes simultaneamente começaram a se acender e notei que tinha uma porta de titânio atrapalhando nosso caminho. Havia muitas delas, contudo, dos três corredores que cruzavam nossa frente apenas um tinha a proteção que nos impedia de prosseguir. Só havia um modo para ultrapassá-las, e teríamos que ter o cartão especifico para que o reconhecimento digital nos deixasse explorar o restante da sala.

– Aquela é a sala de câmeras. – Ela apontou para o largo corredor fechado na nossa frente, e aos lados os dois caminhos livres exibiam suas incógnitas escadas para o escuro.

– Como sabe que lá é a sala das máquinas? – Questionei-a, curioso.

– Está escrito bem na lateral, olhe lá.

– É, verdade. Mas se lá é a sala das câmeras por que não nos deparamos com nenhuma ainda? Por que se eu fosse o dono desse castelo enorme, ao menos eu colocaria inúmeras para me certificar que ninguém vai invadir.

– Isso é verdade, mas talvez eles tenham se preocupado com os andares inferiores. – Vitória disse.

– Creio que não. – Nada fazia sentido, e minha cabeça matutava exatamente isso. – Pensa o seguinte; a Dionix está logo ali atrás, por que não ter câmeras vigiando a portarius?

– Bem, é, mas...

– Temos que entrar lá pra descobrir onde tem câmeras. O que ferra é que temos que conseguir um cartão de acesso. – Eu a olhei. – Conseguindo o cartão, conseguimos a localização de Letkaske.

As coisas parecem muito mais fáceis quando no papel, mas sabemos que na prática é totalmente diferente. Obviamente iriamos suar para conseguir um cartão daquele, contudo, teríamos que ter um de qualquer maneira. Quem o possuía? Como encontra-lo? Perguntas que se tivessem respostas seria o menor de nossos problemas. Andamos para frente e decididos que iriamos adentrar a direita, mas assim que iriamos dobrar a esquina um movimento robótico nos tirou o foco. A bendita câmera, sim, aquela na qual acabamos de reclamar sobre sua ausência havia finalmente aparecido. Para minha sorte Vitória me puxou de volta assim que ela completou um giro de 180° graus, e por isso ficamos fora do campo de visão. O mecanismo daquele instrumento melancolicamente apelidado como “dedo duro” era totalmente regular. Ela demorava alguns segundos para completar a volta, e logo depois que ela foi para a direita nós corremos e ficamos exatamente de baixo da câmera – longe da visão dela.

As câmeras não foram nossos problemas, afinal. Foi totalmente fácil á passagem dos corredores até estarmos numa espécie de laboratório. Ele era muito bagunçado, muitos dos frascos de experimentos estavam com seres vivos saltitando e líquidos borbulhando. Havia uma prancheta em cima de um balcão, e mais três deixam a sala em forma quadricular. Esqueletos e estruturas moleculares num quadro branco dava a ideia ainda mais de um laboratório escolar, e assim que percebemos que a luz da sala dos fundos estava ligada, notamos que havia alguém ali.

– Vamos sair daqui logo, ele pode sair a qualquer momento. – Vitória nos alertou.

– Veja se tem algo útil aqui na sala, sei lá, vai que tem algo de ajuda aqui. – Bufei com os olhos na porta.

Eu esperava sempre o pior quando a luz tremeluzia, mas quando Vitoria exauriu um sussurro de alegria em ter achado um cartão de acesso ao lado da prancheta, saímos do mesmo modo que entramos – aos dedos dos pés. Mas antes, tive a obrigação de colocar uma cadeira sobre a maçaneta, quem quer que seja a pessoa que foi usar o banheiro, ela estava a partir de agora presa. Refizemos o mesmo caminho até darmos de frente com o portão. A tarja magnética brilhou quando entrou em contato com a chave de porta, e então, ela se abriu lentamente. Foi então que meus olhos arregalaram quando se depararam com aquilo na nossa frente.