A atmosfera na Grande Sala do Capítulo não tinha o calor familiar das reuniões anteriores. O ar era pesado, impregnado de incenso e de um frio que parecia emanar das paredes de pedra. O Clero de Astúria, representado pelo Cardeal Roma — um homem cuja influência se estendia além das fronteiras e cuja palavra era tida como a própria vontade divina —, estava sentado em oposição a Caelum.

​O Rei estava sozinho. Ele havia pedido que Arthur e Siena permanecessem afastados, querendo protegê-los do julgamento ácido da Igreja até que o caminho estivesse pavimentado.

​— Majestade — começou o Cardeal Roma, sua voz era um sussurro seco, mas que cortava o ambiente como uma foice. — Ouvimos os rumores que circulam pelos corredores. Rumores de que o senhor pretende unir a Princesa Herdeira ao Capitão Arthur em matrimônio sagrado.

​— Não são rumores, Cardeal — afirmou Caelum, mantendo a postura firme, embora sentisse a hostilidade no ar. — É uma decisão de Estado e de coração. Arthur é um herói de guerra, um Mackenzie de sangue puro e o melhor apoio que Siena poderia ter para governar.

​Roma soltou um riso sem alegria, ajustando suas vestes escarlates.

— Sangue puro, sim. Tão puro que corre nas mesmas veias. Eles são primos, Majestade. Primos carnais. A Igreja vê essa união como um nó que estrangula as leis naturais. É uma afronta à moral que sustenta o trono.

​— Em muitas linhagens reais, alianças entre primos são a base da estabilidade! — rebateu Caelum, inclinando-se para frente. — Arthur não é apenas um parente; ele é a força que Siena precisa. Eles se amam, Roma. E o povo os respeita. O que é uma lei escrita por homens diante da sobrevivência e da felicidade de uma dinastia?

​O Cardeal levantou-se lentamente, sua sombra projetando-se longa sobre a mesa de pedra. O olhar que ele lançou ao Rei era de uma severidade absoluta.

​— A sobrevivência de uma dinastia não depende de sentimentos, mas da aprovação dos céus, da qual eu sou o guardião — sentenciou Roma. — Se esse casamento ocorrer, Majestade, eu não apenas me recusarei a dar a bênção. Eu declararei a união profana. Retirarei o apoio do Clero, e o senhor sabe o que acontece quando a fé se volta contra a coroa.

​Caelum sentiu um calafrio. Sem a Igreja, os nobres das províncias teriam o pretexto perfeito para uma rebelião.

​— Você está ameaçando o meu reino? — a voz do Rei baixou perigosamente.

​— Estou profetizando o seu fim — disse Roma, aproximando-se da saída. — Se a Loba e o Falcão se unirem sob o altar, o senhor não terá um herdeiro; terá um escândalo. O povo se levantará, os reinos vizinhos usarão isso como justificativa para invasão e o nome de Astúria será apagado dos mapas. Se esse casamento acontecer, o seu reino estará acabado antes mesmo de a primeira vela da cerimônia se apagar.

​Roma saiu, deixando o som de seus passos pesados ecoando no silêncio mortal da sala. Caelum permaneceu sentado, o rosto escondido entre as mãos. Pela primeira vez, a força de seu exército e a bravura de Arthur não pareciam suficientes. O Rei acabara de perceber que a maior batalha de seus filhos não seria vencida com espadas, mas contra uma força que governava as almas de seu povo.

​Lá fora, a tempestade começava a se formar, e o peso da coroa nunca pareceu tão esmagador. O destino de Arthur e Siena agora pendia por um fio de seda sobre um abismo de excomunhão.