Legado Demoníaco
1 Prólogo
Notas iniciais
Rússia, 1789
Anastácia tinha tido o dia puxado e fora das paredes de seu quarto quente e pequeno nevava muito. Com as janelas fechadas e as luzes apagadas a aspirante à bailarina, desolada na colcha macia, chorou.
Chorou por não ter conseguido o papel no colégio de ballet e se xingou, baixinho, lembrando dos erros que a professora adorou apontar na frente de toda a turma. Era o terceiro ano seguido que Anastácia perdia aquela oportunidade e cada vez a perspectiva de ascender e realizar seu sonho parecia mais distante.
Dançar profissionalmente no Teatro Bolshoi, o principal teatro de São Petersburgo.
No cubículo que havia se tornado sua casa, no subúrbio da cidade, sem pais ou parentes vivos a garota desabou com o futuro sombrio que se erguia a sua frente. Deixando as lágrimas lavarem seu rosto, sem medo, ela desejou poder realizar seu sonho.
E do fundo do coração dela um sentimento de desolação começou a preenchê-la.
Junto com ele um vento raivoso tomou seu quarto, bagunçando o armário velho e derrubando os cosméticos acima dele, assim como fazendo voar roupas espalhadas e papéis das peças que ela ensaiara durante a semana.
Assustada com a sua única luz disponível, a de um lampião suspenso, vacilando com a ventania Anastácia correu no automático para fechar a janela. Em choque constatou que a mesma estava trancada.
Com os olhos azuis arregalados, pronta para gritar e sair correndo, ela viu da única parte sem móveis do lugar, num espaço minúsculo no assoalho, surgir um rapaz. A luz avermelhada que o acompanhava a deixou cega por breves segundos e ela piscou aturdida.
Quando o caos de vento e luz cessou, com uma única folha ainda pairando a alguns metros do chão presa no telhado baixo, a figura sobrenatural que surgiu sorriu para ela, mostrando dentes brancos e um sorriso que tirou todo seu fôlego.
— Quem é você?
A pergunta dela, sussurrada, foi seguida de suas próprias mãos escondendo seu corpo, coberto por uma camisola fina e longa. O recém-chegado a esquadrilhou de cima a baixo com o movimento e mordeu os lábios.
— Foi você quem me chamou.
Anastácia negou com a cabeça, pronta para correr até a porta, mas ponderou a corrida pois um único movimento dele a interceptaria. O rapaz, praticamente lendo seus pensamentos, deu um passo para o lado, a encurralando.
Ele ainda sorria e passado o caos de sua chegada Anastácia prestou mais atenção em sua aparência, angelical, com cabelos de um loiro claro, cheio de cachos, e olhos azuis da cor do céu. Suas vestes eram confusas, numa mistura de camisa e calça, estranhamente gastas.
De algum modo, depois disso, a garota se sentiu com menos medo.
Apesar da sua consciência estar em alerta, tentando fazer voltar a seu corpo o perigo bem a sua frente, escondido nos olhos claros e no sorriso radiante.
— Não, não chamei.
— Seu coração me chamou, Anastácia.
Ele se aproximou ainda sorrindo e ela não recuou.
— Foi o seu desejo, tão forte, que me puxou para cá. Você precisa de mim.
Os olhos dela, incertos, cruzaram o rosto dele procurando alguma mentira. Ele tinha chegado do chão do seu quarto, se não fosse um alçapão, o que ela tinha certeza que não era, algo muito estranho estava o envolvendo. Algo sobrenatural.
Os pelos dela se arrepiaram. Sua mãe sempre lhe contara sobre Deus, um ser misericordioso, criador de todas as coisas, que estava sempre olhando pelos humanos. Talvez, então, Deus o tivesse enviado? Para ajudá-la?
— O que eu pedi?
Anastácia o testou e o sorriso no rosto dele lentamente se elevou para o lado.
— Pediu para sair daqui, desse lugar horrível, pediu para alcançar o sonho que sempre desejou nos palcos.
Andando mais um passo ele ficou na frente da morena tocando informalmente no rosto dela. O toque quente de seus dedos fez o coração de Anastácia acelerar e ela o olhou sem acreditar, mas sentindo todo seu corpo amolecer frente a ele.
O que estava acontecendo?
— Eu não pedi isso.
— Foi seu coração – ele aproximou o rosto do dela e Anastácia automaticamente fechou os olhos – senti seu desejo do fundo do seu coração.
— E como você pode me ajudar?
Voltando a se afastar e aumentando o sorriso o rapaz fez com que a morena novamente abrisse os olhos, vendo os dele brilhantes frente a aceitação.
— Posso fazer tudo, fui enviado para tornar seu sonho realidade.
— Você vai...?
A mão de Anastácia, involuntariamente, se esticou na direção dele e ele a segurou delicadamente levando-a aos lábios. O sopro quente da respiração dele na sua pele acelerou as batidas de seu coração.
— Você precisa me pedir claramente, Anastácia, vamos.
A voz dele, suave e sedutora, a preencheu, e todos os pensamentos racionais foram embora. A jovem assentiu, hipnotizada.
— Eu desejo dançar profissionalmente no melhor teatro de São Petersburgo.
O sorriso do loiro se tornou de prazer ao ouvir aquelas palavras e ainda com a boca na mão delicada da morena ele a mordeu, tão suavemente que a garota sequer sentiu. Sugando o sangue dela para si ele a puxou vagarosamente, pegando sua cintura e descendo a boca para sua orelha.
— Seu pedido é uma ordem.
Quando o estranho a beijou Anastácia sentiu o gosto metálico do sangue, mas o gosto dele era muito melhor. Doce, quente e gostoso. Ao redor deles a luz que preencheu o vão com a chegada do estranho voltou a iluminá-lo, desta vez vindo diretamente dela.
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