Legado Demoníaco
10 [Mundo Humano] - Ralé demoníaca
Auditório do Colégio Axel, 2018
— Hillarion morreu também – explicou Ryan – mas aí teríamos muita história pra contar e enxugamos ao máximo.
Thomas assentiu. Estava sentado agora na primeira fileira do auditório, esperando Cali, com Ryan parcialmente sentado no braço do assento ao seu lado e Lucas do outro, perguntando sobre a história que até então parecia não saber muito.
— E a espada? Por que ter uma espada foi tão chocante?
O amigo abriu um sorriso de presunção, como quem vai começar a contar uma longa história e mostrar seu conhecimento, mas foi interrompido pela chegada da morena, que tocou em seu ombro, mas estava sorrindo para os outros dois sentados.
Os cabelos negros estavam soltos e ela agora usava a roupa preta que o visitara durante o jogo. No rosto a maquiagem cintilante permanecia e sob a luz do sol que se esvaia os olhos azuis pareceram brilhar.
Thomas!, se repreendeu.
— Apenas nobres tinham espadas naquela época.
Lucas assentiu convencido e Ryan murchou, por ter sido interrompido, mas logo voltou aos ânimos, olhando para a garota ao seu lado como se tivesse ganhado na loteria. Talvez o beijo houvesse subido na cabeça dele, Thomas o encarou.
— Ficou incrível a apresentação, Cali, parabéns. Você dança muito!
A morena sorriu e corou levemente, fazendo o castanho sentado também sorrir consigo. Ela realmente dançava muito bem.
...fechado de 2005 à 2012...
Thomas piscou consigo, lembrando do que vira sobre o teatro. Um pouco menos encantado ele fitou a garota atentamente, tentando decifrar algo em seu rosto. Ela pareceu notá-lo e rebateu o olhar, sorrindo.
— Vamos? Daqui a pouco o show vai começar e estou morrendo de fome – murmurou Lucas, levantando.
Por alguns segundos a morena olhou para ele vendo um conhecido comilão. Piscando, para afastar a lembrança ruim, sorriu, tirando a mão do ombro de Ryan. O ex-Albrecht choramingou baixinho, mas também se levantou, seguido de Thomas.
— Preciso de um pastel enorme. Ser o protagonista é muito cansativo.
Lucas riu e seguiu o amigo pelos degraus baixos da saída do auditório, com Cali e Thomas em seu encalço. Andando mais lentamente do que deveriam a dupla traseira se afastou alguns passos dos companheiros em um movimento quase combinado.
— Não achei que viesse.
O castanho ergueu a sobrancelha.
— Você foi ao meu jogo, não deixaria de vir.
Ela assentiu devagar.
— Mas balé e basquete são extremos – sorriu de lado – obrigada por vir me ver. O que achou?
— Da história? Meio brega.
Cali riu.
— Sim, meio brega é uma boa definição. Mas estou falando de mim – murmurou meio envergonhada por perguntar.
Não dançava há séculos, literalmente, e sabia que não estava dançando tão bem quanto nos seus dias de glória. Apesar disso queria saber a opinião do garoto. Em algum grau isso parecia importante.
Thomas sorriu de lado e olhou pra frente, pras costas de seus amigos terminando de subir as curtas escadas.
— Você foi incrível, Cali, parecia um anjo no palco.
A morena abriu um sorriso torto, com aquela afirmação lhe enchendo de algo imensurável.
— Anjo? Quanta ironia.
Ele rebateu seu sorriso.
— Logo a garota envolvida com demônios.
Cali suspirou ainda um pouco sonhadora.
— Gisele era inocente e meiga, pura. Depois da morte as Willis foram apenas uma fatalidade. Tenho certeza de que ela iria para o céu.
— E você?
A garota olhou dentro dos olhos de Thomas, ainda vendo neles o ceticismo. Aquilo, agora, doía. Doía porque em algum momento entre seus treinos e momentos em grupo ele tinha se tornado especial e importante. Já não como filho de Tchort, mas como ele mesmo.
Agora ele era Thomas e Thomas importava. Que tolice havia feito, se recriminou.
— Não tenho como saber – respondeu meio que num murmúrio, adiantando o passo – ah, estou louca para comer bolinho de queijo!
Notando a troca de assunto Thomas se retraiu, culpado. Mas Cali sorriu para ele, realmente empolgada em comer bolinho, e ele deixou de lado a sensação apressando o passo.
Lá na porta da saída Lucas acenava apressando-os.
•••
O final do dia passou rápido e o show começou, com música alta no palco instalado no campus, do lado oposto das tendas. Ryan e Lucas se misturaram na multidão em frente a banda enquanto Thomas e Cali riram, sentando num lugar nem tão longe nem tão próximo, ainda comendo os bolinhos da garota.
— Você está calada.
O comentário fez Cali olhar para ele e em seguida para a multidão. Um calor descomunal emanava do meio, a maioria dos seus colegas ali, rindo, gritando, cantando. A vida daquele lugar a assolou.
Assim como suas lembranças. Ela encarou um bolinho.
— É só... bobagem. Nada demais.
— Nunca é bobagem.
Thomas, que até então estivera de pé, sentou ao lado da morena. Uma pequena multidão passou bem em frente a eles, seguindo na direção da atração. Cali suspirou mordendo o bolinho e mastigando lentamente para adiar a resposta.
— Você pareceu triste no palco – ele continuou, surpreendendo-a – tem algo a ver com isso?
Cali encarou atentamente a imagem de Thomas ao seu lado, nas roupas que usou para jogar basquete. Ainda tinha os cabelos castanhos bagunçados, mesmo que a faixa que usara na cabeça durante o jogo não estivesse lá. Parecia aberto para ela, não mais cético.
Não ainda.
— Sim, tem – Cali encarou a multidão – a história dela me lembra um pouco a minha. Uma ironia ter dançado ela, na verdade, também morri por causa dele, afinal.
— O demônio que ajudou você?
Ela assentiu vagarosamente. A risada conhecida ecoando em seus pensamentos.
— Ele não tinha ido me ajudar – sussurrou, largando o último bolinho no prato de plástico ao seu lado – ele fez um pacto comigo. Eu não sabia que era um pacto, já que acreditava que Deus tinha tido piedade de mim, mas só de dar seu sangue pra alguém com energia infernal você liga sua alma a dele.
Cali limpou os dedos com guardanapo.
— Esse demônio me enganou durante o tempo em que ficamos juntos, foi gentil e amoroso, atencioso. Um Albrecht. Mas quando meu pedido se realizou ele arrastou minha alma com ele sem o menor remorso, rindo da tola que fui. Assim como o nobre que abandonou Giselle. E assim como ela, eu morri.
Thomas gentilmente tocou na mão da garota que a apertou de volta, como fizera na lanchonete. Alguns segundos depois ele levantou se alongando, tentando deixar de imaginar a cena de Cali fragilizada nos braços de um homem ruim.
— Eu fui salva – continuou, com o garoto já de pé – por Tchort. Ser uma humana no inferno é impossível, existem energias que iriam consumir minha alma, então ele me deu uma fonte limitada de energia infernal. Eu me tornei algo como eles, mas não era como eles.
Cali suspirou olhando pra Thomas que a olhava atento.
— Não sei por que estou lhe contando isso. Você não vai acreditar.
Pela primeira vez, depois da determinação dela, todos os dias, lhe contando sobre o inferno e de como ele podia salvá-lo, Thomas sentiu que Cali desistia. Ela estava desistindo dele, Thomas se sentiu mal.
Mesmo que aquilo fosse tudo que mais pediu no início.
— Em algum momento, Thomas, você já acreditou em algo que eu falava?
Sim.
— Não. Não acredito em inferno ou demônios, Cali, desculpe.
A morena sentiu o chão sob seus pés desaparecer, apesar de saber que aquilo sempre fora nítido. Mas uma ínfima esperança, aquela esperança humana e tola, tinha lhe sustentado todos aqueles dias. Quando o viu usando o colar, quando ele a acolheu no quarto e quando aceitou aprender a lutar.
Mas tinha sido mentira. Tudo fora mentira. Ele só a acolheu porque não podia ignorar uma garota chorando, assim como havia se oferecido para protegê-la no beco. Thomas tinha um bom coração e por isso ela acabou se deixando enganar.
Tudo estava claro agora. Cali fingiu para si mesma que insistir com Thomas, dia após dia, daria algum resultado. Ainda assim, era uma mentira tão clara que agora ela se sentia envergonhada ao pensar sobre isso.
No início, tinha sido Tchort, mas em algum momento no meio de tudo aquilo Cali só queria ter motivos pra continuar perto dele, só isso. Seu coração humano era tolo e fútil, como Dante tantas vezes dissera.
Como cuspira na sua cara naquele dia, rindo e zombando enquanto ela era tragada pelo miasma do inferno, sem escapatória.
Cega pela afronta dele a morena nunca se deixou pensar que isso fosse verdade. Mas frente a Thomas tudo era claro, um livro aberto, e ela já não tinha o que fazer.
A verdade era que Thomas não iria para o inferno. O tempo que ela temia perder já devia ter acabado há muito tempo e os demônios já procuravam por ele. Se não conseguiria ir salvar Tchort, com seu plano falhando miseravelmente, Cali ao menos protegeria seu filho. Como disse que iria fazer.
Como vinha fazendo.
Sorrindo para o castanho ela também se levantou.
— Entendo.
Aquela não era uma resposta boa. Thomas tentou decifrar algo nos olhos azuis impenetráveis. Mas não havia nada.
— Vamos?
•••
Cali, Thomas, Ryan e Lucas pularam e gritaram no meio da multidão. Diferente de todo calor que a rondou na sua vida no submundo aquele calor mundano era inexplicavelmente atrativo. A morena ria esbarrando nas pessoas, tocando informalmente Thomas ou os meninos, sentindo a vida pulsar em seus ouvidos.
Foi bom, libertador, intenso. Cali precisava disso depois de todos aqueles dias. O inferno era uma realidade distante, um passado que nunca aconteceu. Sua realidade era aquela agora: calor, alegria e vida. Se no passado nunca tivesse feito o pacto, talvez...
A morena calou seus pensamentos gritando a parte da música que tanto ouviu de Lucas mais alto do que eles. Riu com os garotos quando eles a viram fazer isso e memorizou cada detalhe deles, dos dias, do quanto gostava de todos.
Seus olhos foram para Thomas e ele a olhou de volta, sorrindo.
Ryan sumiu depois de alguns minutos com uma garota e o trio restante, ainda pulando e cantando, saiu da multidão para uma das barracas atrás de algo para beber. Cali sorriu para Thomas e ele a correspondeu, sentindo normalidade voltar entre eles depois da estranha conversa mais cedo.
Thomas não soube dizer o que achava de tudo aquilo. Era loucura, insanidade, mentira. Sempre fora cético quanto a coisas religiosas, apesar de ir quando mais novo as missas durante o domingo com a família. Para ele agora tanto deus quanto o diabo eram invenções humanas, assim como os pecados e as várias histórias presentes na bíblia.
Quando Cali lhe dizia que vinha do inferno, ele simplesmente não conseguia acreditar. Mas ela não era louca como achou que fosse, ao menos depois da invasão de seu quarto. Ficara muito assustado na época, que parecia tão distante agora, mas com o costume tudo se assentou e ele havia acostumado com Cali e suas histórias malucas.
Naquele banco, mais cedo, apesar de ter ficado aliviado por ver que claramente ela desistira da sua história fantasiosa, ele se incomodou. Queria conhecer a verdadeira garota por detrás de toda aquela história, a adolescente sozinha e machucada que ela era, sem ter que imaginar que seu ex, apesar de ter sido um cretino, era um demônio.
Ele pesquisara sobre transtornos que pudessem estar envolvidos, mas em nada lhe ajudou. Apesar disso agora estava ali livre. Cali não mais tentaria o convencer a ir para o inferno e podiam, finalmente, ter uma relação saudável. E com isso não estava falando sobre romance...
Os olhos do garoto, depois de pagar pelos refrigerantes, caíram sobre a figura esguia mais ao longe, sentada numa elevação da grama, alongando os braços e observando a multidão. Seu corpo esquentou.
Certo, talvez estivesse sim.
Lucas e Thomas se aproximaram com refrigerantes e Cali os respondeu com um sorriso que mal preencheu seu rosto. Thomas parou alguns segundos a observando agradecer pela bebida e tomar um longo gole pensativa. De alguma forma ela estava mais calada do que de costume.
Em algum momento, Thomas, você já acreditou em algo que eu falava?
A pergunta dela voltou e enquanto Lucas discorria alegremente sobre a história da banda, com a morena acenando a cada palavra dele, Thomas sentiu o peito apertar.
Entendo.
Ele devia acreditar?
— Ah, vou pegar um doce que você vai adorar! – Lucas levantou num pulo, sorridente – Volto já.
Cali olhou ele sair correndo e sumir entre as pessoas e tomou mais um demorado gole de refrigerante. De repente, toda sua animação tinha esfriado. Os prazeres corporais eram tão etéreos e fugazes. Ela sentiu frio ao lembrar do calor das pessoas.
Ao lembrar da resposta de Thomas.
Ao lembrar do olhar de Tchort antes de mandá-la embora.
Um movimento ao seu lado voltou a aquecê-la e os olhos azuis caíram curiosos sobre Thomas, que se ajeitava na nova posição elevando a latinha de refrigerante com um sorriso de lado. Por alguns instantes os pensamentos sumiram e ela achou o sorriso dele muito bonito.
— Parabéns pela apresentação.
Um mínimo sorriso surgiu nos lábios da garota que elevou também a sua latinha batendo na dele.
— Parabéns pelo jogo.
Juntos eles tomaram mais alguns goles. Afastando a lata da boca Thomas soltou um chiado olhando para a banda além da multidão.
— Fico feliz que esteja aqui.
Cali piscou, confusa.
— Com a gente – ele virou o rosto, sorrindo pra ela – comigo.
A visão do garoto ao seu lado fez o corpo inteiro dela acelerar. Cali abriu a boca pra tentar dizer algo, mas parecia que não tinha palavras. Que sequência louca de eventos era aquela?
— Cali?
Ela piscou mais uma vez e encarou os olhos castanhos por longos segundos antes de encontrar a voz.
— Sim?
A música pareceu ficar mais alta, a multidão gritou a plenos pulmões e os instrumentos se tornaram estridentes. Tudo aconteceu em míseros segundos e a boca de Thomas foi contra a dela. A corrente elétrica que sempre os percorria no toque explodiu e foi um misto de sensações.
Cali não esperava que Thomas a beijasse, não mesmo. Mas percebeu que ansiara pelo contato dele como uma louca durante os dias em que passaram separados pelos ensaios. Queria tocá-lo, queria vê-lo, queria senti-lo.
Os lábios se separaram brevemente e os olhos do garoto buscaram qualquer confirmação no rosto de Cali de que ela também o queria. O rosto enigmático derreteu e as maçãs do rosto dela se avermelharam.
Antes que ele pudesse falar, se desculpar ou implorar por um sinal, a morena o beijou de volta, envolvendo-o com seus dois braços, deixando a sua latinha de refrigerante rolar preguiçosa pela elevação gramada.
Era fogo, necessidade, desejo. Aquele calor e aquele beijo queimaram Cali de dentro pra fora, fazendo-a implorar por mais, buscando a língua e os lábios de Thomas desesperadamente. Ele a puxou contra si, contraindo seu corpo no dela, o máximo que conseguiam sentados na elevação.
Não havia mais música ou pessoas gritando, tudo apenas era ruído e a respiração dela, acelerada e descontrolada, era tudo que o garoto podia escutar. E era só isso que queria.
As mãos de Cali deslizaram pelos cabelos castanhos, pela camisa ainda molhada de suor, os braços rígidos e pelas costas largas. Entendia, agora, tomada pelo êxtase do desejo que estar com Thomas, mesmo sabendo da inevitável recusa dele quanto a sua insistência pelo inferno, era tudo que ela queria. Pra ter ao menos um pouco daquela sensação quente que a tomava ao estar nos braços dele. Ao lado dele. Ao ouvi-lo. Ao vê-lo sorrir.
Tola, boba, ridícula. Ela repetia em looping essas palavras em sua cabeça enquanto se entregava completamente aquela tentação, ao desejo, ao pecado. Não devia ter ficado atraída por ele, não devia estar o correspondendo.
Seu dever era protegê-lo, não ficar excitada com ele.
Eles se separaram e arfaram.
— Isso é.. isso...
Ela lentamente abriu os olhos voltando forçada aquela realidade.
— Isso é um erro.
Thomas piscou aturdido com as palavras dela. Imaginou que ela diria incrível, espetacular, delicioso. Porque era exatamente isso que se passava por sua cabeça, seu corpo, a ponta dos seus dedos ainda enrolados nos cabelos negros.
A realidade dessas palavras o travou.
— O que?
Delicadamente Cali tirou as mãos dele, claramente a contra gosto, e o encarou, ainda ofegante e corada, uma reação destoante das suas palavras.
— Eu não deveria ter feito isso – ela tomou uma longa respiração e o garoto recolheu suas mãos em choque – Tchort me pediu para protegê-lo, não...
A cabeça de Thomas começou a doer ao ouvir novamente o nome do maldito rei demônio.
— Não podia ter...
— Não podia ter me beijando? – ele rosnou, se afastando mais, deixando o calor que acolhia o corpo da morena se esvair – Não podia me desejar? Seu rei demônio é tão possessivo assim com você?
A morena não se encolheu ao sentir a raiva na voz dele.
— Você não entenderia. Sou uma guerreira, meu dever aqui é protegê...
— Para o inferno com isso!
Ele gritou mexendo os braços com raiva.
— Para o inferno com tudo isso! Rei demônio? Guerreira infernal? Demônios? Eu estou de saco cheio!
Algo dentro de Cali se retorceu em dor.
— Você e seu mundo de fantasia estão me deixando louco! Não quero saber de demônios, nem do inferno, nem desse seu rei. Não ligo pro que acontecer com ele, nem o buraco de onde ele vem!
Ele soltou um suspiro forte e carregado, pondo as mãos sobre a cabeça.
— Você pode não querer se abrir comigo sobre sua vida, mas saiba que foi você quem invadiu meu quarto! Você entrou na minha vida como um furacão e fica mentindo pra mim. Mentindo pra mim o tempo todo! E agora eu não posso... Eu não posso...
Ele a olhou com dor nos olhos. O beijo foi sincero, ele sentiu, por que ela também não podia ser?
— Sua história maluca não me deixa te beijar?
Sua indignação por causa de um beijo era ridícula, Thomas percebeu. Mas não era pelo beijo, foi por ela ter dito que tinha sido um erro. Como podia ser um erro?
— Pra mim já chega – ele murmurou, mais triste do que irritado.
Os olhos dela permaneciam nos dele, mas como sempre ele não conseguia decifrá-la. O que Cali estava pensando? Quem era Cali?
— Thomas...
A voz dela baixa, sussurrada, saiu quase cortada. Ele a encarou, esperando mais, uma explicação, desculpas por ter ficado todo aquele tempo inventando histórias para ele. Mas a morena piscou várias vezes encarando a grama abaixo deles e não disse mais nada.
Por longos segundos.
— Melhor eu ir.
Ela levantou e, por impulso, ele levantou junto. Sua mão segurou o pulso dela e Thomas praticamente a forçou a olhar para ele e ali, na imensidão azulada que era seus olhos, ele viu tristeza e dor. Viu desejo também e algo que também sentia. E por um momento percebeu que não eram os olhos ou a expressão dela que eram indecifráveis. Era ele. Ele que não queria ver.
— Não. Não vá. Eu...
— Você está certo – ela abriu um sorriso pequeno – fui eu quem me precipitei.
Cali puxou seu braço vagarosamente e o garoto soube que, se quisesse, ela teria se soltado com facilidade mesmo se ele a segurasse. Como se levado pelo momento os cabelos negros se enrolaram suavemente no braço afastado.
— Acho que nunca pedi desculpas por ter invadido seu quarto. Erro meu.
Ele balançou a cabeça.
— Não precisa se desculpar, você sabe que não precisa.
— Não – ela riu sem vontade – cheguei como um furacão. Ninguém gosta de furacões.
— Eu gosto – ele viu a expressão de confusão no rosto dela – eu gosto, droga, eu gosto de você.
Os olhos azuis se arregalaram.
— Eu não teria ficado tão frustrado com isso se não gostasse. É isso, meu deus, como é claro agora. Eu gosto de você.
Thomas a encarou surpreso com a própria constatação. Ele gostava dela, por isso ficou tão irritado. Não queria que fossem um erro, queria que fossem certos. Tudo parecia certo nos momentos ao lado dela, tudo era certo.
Cali engoliu a própria saliva tentando controlar o choro que exigia subir sua garganta. O coração estava acelerado, mais do que poucos minutos atrás, e suas mãos tremeram. Como ele podia dizer algo assim? Como podia dizer que gostava dela depois de gritar que era uma mentirosa?
— Como... – os pensamentos saíram pela ponta da língua dela – como pode dizer isso?
Ele piscou, menos deslumbrado com a recente descoberta e a encarou atentamente. Os olhos azuis estavam avermelhados.
— Como pode gostar de uma mentirosa?
Pela primeira vez, desde que conhecera Cali, ele a ouviu gritar. Os cabelos negros se assanharam e as pessoas ao redor olharam curiosas e espantadas pelo grito. A expressão no rosto da morena, entretanto, era de dor.
— Como pode me atacar e depois dizer que gosta de mim?
Ela riu sem forças.
— Que tipo de sentimentos são esses?
Thomas viu, através dos olhos dela, quando o coração dela se trancou.
— Humanos nunca se importam com os outros mesmo – ela cuspiu essas palavras e o garoto sentiu-as o atingir no peito – sempre egocêntricos e narcisistas.
Cali o encarou e pôs a ponta do seu dedo no peito dele. Uma corrente elétrica passou por ambos, alheia a discussão, e Thomas se sentiu horrível. A desejava, gostava dela, mas não acreditava. Não acreditava nos demônios dela, na sua história, nos seus fantasmas.
Ele não os faria dar certo.
— Você não pensa em mim. Nunca pensou.
— Mentira.
— Não me diria coisas tão cruéis se o fizesse – o rosto dela se contorceu em amargura – eu me abri com você.
Novamente o peito dele doeu. A mão da garota caiu, flácida, ao lado do seu corpo. Os olhos eram cristais de gelo cortantes.
— Mas saiba, Thomas, que nunca esperei nada de você. Nem que acreditasse, nem que entendesse.
Mentira.
Cali controlou mais uma vez as lágrimas e quis socá-lo. Derrubar ele no chão e cravar sua espada no peito daquele humano estúpido. Mas sabia que não queria isso de verdade. Sabia que o protegeria por Tchort, o egoísta e arrogante filho dele. O humano estúpido pelo qual tinha se deixado atrair.
Romance nunca acabava bem pra ela mesmo.
Em passos firmes, deixando a imagem de Thomas retraído, Cali foi embora. Desceu da elevação, chutando sem querer a latinha, e saiu furiosa em meio a multidão para a lanchonete. Estava irritada consigo, com Thomas, com tudo. Além de raiva também tinha tristeza, porque tinha se deixado levar pelo garoto.
Saber que ainda o queria tanto era sufocante. Era a mesma sensação de quando chegara ao inferno e mesmo ressentida com Dante, o procurava com os olhos pelos lugares. Queria vê-lo, ver seu sorriso, ouvir sua voz, tola que era, idiota.
E agora, mesmo machucada como a humana ridícula que era, Cali ainda o desejava. Sentimentos humanos eram um complexo emaranhado de contradições. E ela odiava todas elas.
Saindo da escola, praticamente correndo, ela parou na entrada para recuperar o fôlego. O frio da chegada da noite soprava os cabelos longos e negros e o dia inteiro passou como um flash por sua cabeça.
Ela ainda sentia o toque dele em sua nuca, a boca quente contra a sua, o calor explosivo que corria por ambos. Beijar Thomas não tinha sido um erro, tinha sido certo. Certo como tudo que fazia com ele.
Mas esses sentimentos eram errados. Esse envolvimento era errado. Ela não era humana, não estava viva, não queria sofrer de novo. Por que, apesar de tudo, ela sentia que também estava gostando dele.
E só iria se machucar. De novo.
•••
— Ué, cadê Cali?
— Foi embora – Thomas resmungou, sentado na elevação encarando a multidão – você demorou demais.
Lucas ergueu a sobrancelha comendo um dos doces que demorou tanto pra comprar.
— É que vi vocês se beijando não quis atrapalhar.
Thomas se engasgou com a própria saliva e encarou com os olhos arregalados o amigo, que sorriu travesso.
— Viu como sou um bom amigo?
O garoto suspirou ainda mais pesaroso. Já não bastava ter brigado com Cali, e ele percebeu que era a primeira vez que o fazia, ainda teria um espectador do erro que cometera.
Não tinha sido um erro, repetiu internamente, contrariado.
Mas ele era errado como um todo. Não devia ter a chamado de mentirosa, não devia ter reagido tão mal. Não devia ter deixado ela ir embora daquele jeito, não queria ter a machucado.
Por alguns minutos ele refletiu sobre isso, com seu amigo sentando ao seu lado também em silêncio. As mãos roçaram, vagarosamente, sobre o colar com a pedra que ela lhe dera, escondido dentro da camisa.
Ele queria conseguir acreditar nela. De verdade.
•••
Thomas foi pra casa com Lucas e Ryan, que surgira como um fantasma depois da última música da banda. O trio caminhou despreocupado pelas ruas frias, mas movimentadas da noite na cidade. Lucas não perguntou nada ao amigo durante aqueles longos minutos de silêncio, comendo despreocupado seu docinho, aceitando que algo havia acontecido e não tinha sido bom.
Ryan, por outro lado, alheio ao acontecido foi todo o caminho liderando a conversa, falando sobre garotas, beijos e uma sala de aula pouco utilizada. Thomas ficou com raiva do amigo pelo tema tão incisivo, mas ignorou o incômodo e os chamou para irem a sua casa, jogar um pouco e ajudá-lo a esquecer os problemas.
Então foi assim que Lucas e Ryan acabaram jogados na cama do garoto, disputando uma partida de futebol no console dele, enquanto riam e comiam pipoca. Thomas estava sentado atrás deles remexendo no colar enquanto torcia por Lucas depois de perder, já que o garoto prometera a ele um hambúrguer se o fizesse, quando, após um gol, notou o que fazia.
O polegar passou lentamente pela parte lascada da pedra em seu pescoço e ele suspirou, lembrando da discussão com Cali. Dos olhos dela, das histórias longas e detalhas que ela lhe contava. Com cuidado ele tirou o colar sentindo-se estranhamente vazio.
— Já chega de inferno e demônios – murmurou para si pondo o cordão sobre sua mesa de cabeceira.
No mesmo instante ele sentiu algo o incomodando. Uma faísca de inquietação, algo que o puxava e não o tirava do lugar. Algo que já tinha sentido antes, ele tocou no peito, sentiu antes de Cali surgir no seu quarto.
A parte irracional lembrou das histórias dela, mas ele a jogou fundo na mente, resmungando que tudo não passava de...
Uma explosão estraçalhou uma das paredes do quarto do garoto e pedra e poeira caíram sobre o trio que tossiu desesperadamente procurando o que diabos havia causado aquilo. Do outro lado do quarto, de pé, com asas negras enormes e um corpo corcunda e torto estava uma criatura horrenda, com olhos vermelhos que pareciam feixes neon.
A mão de Thomas tremeu e o pensamento anterior se completou audivelmente, junto com a percepção cruel que se assinava a frente dele.
— Mentira.
Lucas foi o primeiro a gritar com a visão e seu grito fez com que o bicho estranho avançasse com tudo sobre eles. O trio se jogou no chão, rolando sobre os destroços e se arranhando no processo. O guincho da criatura foi aguda e sons de passos na escada alertaram os garotos.
Ryan tentou correr até a porta, mas outra silhueta surgiu, tão magra e torta quanto a primeira e guinchou o atacando. O sangue do garoto escorreu fresco por suas costas quando os dedos deformados e afiados entraram com tudo em seu abdômen, junto com o grito agonizante dele.
Thomas ficou paralisado onde estava com Lucas se arrastando o máximo de que conseguia para longe do monstro e da cena horrenda que se desenrolava a sua frente. O segundo bicho focou neles, mas a porta se abriu num baque e a figura dos pais de Thomas, assim como seus gritos, distraíram ele.
O que era tudo aquilo? O que estava acontecendo?
Me chamo Cali e sou uma cavaleira infernal. Thomas Diaz, venho informar que você é filho do Rei Demônio e que o inferno precisa da sua ajuda.
As coisas começaram a se encaixar e, em câmera lenta, ele viu as asas do monstro baterem e sua mandíbula afiada se abrir na direção deles enquanto o outro lançava o corpo mole de Ryan para longe. Seus pais gritaram de novo, desesperados e em pânico, mas os bichos sabiam do que estavam atrás.
Seu pai me pediu que você ficasse com isso. Vai ajudá-lo contra os demônios que vierem atrás de você.
Os olhos dele caíram sobre o punhal, intocado em cima da mesa de cabeceira, e em seguida para o colar, abandonado ali.
O encantamento que o esconde dos demônios vai sumir em algum momento quando o inferno sucumbir. Fique com isto, é para sua segurança.
Ele tirou o colar. Eles o acharam por causa disso.
— Droga.
Sem escolha ele se lançou sobre a cama, agora cheia de pó e escombros, e desviou do ataque da criatura. O demônio rosnou e guinchou, voltando seu ataque novamente para ele. No chão, quase acertado pelo bicho, Lucas se debatia em terror repetindo que aquilo era mentira, coberto de arranhões.
Thomas quase caiu, mas desviou do segundo ataque, lembrando, agora mais agradecido do que nunca, das aulas com Cali. Conseguiu agarrar o punhal antes do terceiro ataque, mas foi atingido por um ataque surpresa do segundo demônio, que o lançou com arma e tudo para o outro lado do quarto.
Suas costas bateram contra a parede e o ar lhe faltou. Com uma careta pra aguentar a dor e a falta de oxigênio Thomas tentou rolar no chão e no seu periférico viu Lucas engatinhar até a porta, onde seus pais viam horrorizados e em choque o filho ser atacado.
— Corram!
Sua voz saiu fraca, mas alta o suficiente pra despertar os adultos na porta. Lucas começou a seguir as palavras dele, mas parou no corpo de Ryan, mole e pálido, e começou a puxar o amigo consigo, ainda meio desesperado, ainda meio em pânico. O sangue do garoto marcou o chão por onde Lucas passava.
— Temos que fazer alguma coisa!
A voz da mãe de Thomas, estridente, o fez se reequilibrar mais rápido e evitar o ataque duplo que veio em seguida e derrubou mais uma das paredes de seu quarto.
Seu corpo ainda estava fraco pelo impacto e ele cambaleou pro lado contrário a sua família com urgência por sua vida e pela deles. Os guinchos foram agudos quando os demônios avançaram e mesmo com o punho doendo Thomas se esquivou, cravando, com dificuldade na pele enrugada e dura, o punhal de seu suposto pai.
O efeito foi instantâneo e o monstro desapareceu em cinzas bem na sua frente, pendendo o corpo do garoto pra frente, onde havia se apoiado pra cravar a lâmina. Ele piscou, atônito, ainda sem conseguir pensar em nada direito e avançou raivoso contra a segunda criatura que o arranhou no ombro tentando fugir instintivamente da lâmina que destruíra seu companheiro.
Mas Thomas o acertou em cheio no peito e as cinzas se misturaram ao seu redor, num redemoinho de pó sobre ele.
Por mais que esteja evoluindo, tome cuidado. Use o colar e a lâmina. Demônios são traiçoeiros e espertos, sabem que não podem morrer no mundo humano. Mas o punhal que lhe dei é capaz disso. Se for atacado, use.
As pernas do garoto cederam e ele caiu no chão, num baque, trêmulo e encarando a lâmina em suas mãos. Se não fosse por ela, ele estaria morto agora. Se não fosse por...
— Ryan, responde! Por favor!
O grito de agonia de Lucas despertou Thomas que virou para trás no momento em que sua mãe, desesperada, chegou e o abraçou, com lágrimas rolando em seus olhos. Lágrimas quentes lamberam o próprio rosto dele, de medo e dor.
— Meu filho, meu deus, ainda bem, ainda bem.
— Ryan!
Lucas soluçou e o pai de Thomas se ajoelhou ao lado do corpo mole do garoto, sentindo sua pulsação, tentando estancar o sangramento, fazendo qualquer coisa pra ajudar. Mas seu pai não era médico, então, depois de tudo isso, ele parou, triste, olhando o amigo de seu filho com pena.
— Ainda está vivo, mas...
Lucas soluçou e se encolheu em posição fetal ao lado deles encarando sem realmente ver o que se passava ali. Thomas tremeu sob os braços da mãe, com as lágrimas nos olhos quentes contra o vestido gasto dela.
— O que foi tudo isso? O que eram essas coisas? – a mulher grunhiu em dor, apertando ainda mais o filho contra si.
— Eu...
O som de asas batendo tomou o lugar e todos se calaram ao mesmo tempo, com olhos arregalados e um súbito frio na espinha. Não eram dois pares dessa vez e olhando para cima, com receio, eles encontraram uma dúzia de monstros iguais aqueles, com olhos vermelhos e sedentos por sangue.
— Não!
O grito da mãe de Thomas pareceu alertá-los e boa parte desceu direto neles, rápidos e ansiosos. Os guinchos eram altos e estridentes, tinham fome, tinham desejo. O coração de Thomas gelou e o punhal pequeno pareceu inofensivo sob sua mão.
Não conseguiria contra tantos deles. Era o fim.
— Thomas!
Lucas gritou, desesperado, quando as primeiras criaturas despontavam com suas garras afiadas a poucos metros acima dele, indo, certeiros, no garoto e sua mãe. Mas uma sombra se ergueu a frente deles e ricocheteou a garra, que se partiu e voou longe, cravando no que sobrou da parede destroçada, derrubando o restante dela no processo.
Os pés suaves pousaram com graça entre Thomas e os monstros, com a lâmina negra coberta de chamas sobrepondo as luzes dos postes que adentraram no vão destruído. O coração do garoto acelerou e Lucas, do outro lado, disse o que estava preso na garganta do castanho.
— Cali?
Os cabelos negros se tornaram um borrão quando ela pulou novamente e atacou, destruindo, com maestria, as asas e as garras dos bichos. Eles grunhiam e caiam, um a um, sob as labaredas de sua espada. Foi rápido e o sangue deles preencheu as paredes restantes. Quando ela parou, no meio do quarto, ofegante e coberta de vermelho na roupa preta, sem mais nenhum inimigo no céu, finalmente olhou para Thomas.
Os olhos azuis faíscaram contra os dele e foi de alívio que ela suspirou, guardando, num movimento fluído, a espada na cintura onde, ele percebeu, a morena sempre parecia tentar puxá-la. O fogo cessou no contato com a bainha.
— Seu idiota!
O grito dela fez com que o pai e a mãe de Thomas tivessem um sobressalto.
— Eu disse a você que o colar...
O choro da mãe do garoto interrompeu a reprimenda da morena que parou onde estava e olhou além do garoto no chão. Viu a mulher de meia idade, as paredes destruídas, o homem sério e chocado com finos óculos ao lado de Lucas e, por fim, o corpo pálido de Ryan no chão.
O coração dela se apertou.
— Não – sussurrou incrédula.
Correndo, desesperada, ela se jogou no chão ao lado do amigo que respirava com dificuldade, o sangue saindo aos montes e preenchendo o chão ao seu redor. Sangue esse que respingou sobre ela com o movimento, um entre tantos que a cobriam.
— Desgraçados!
— O que aconteceu? O que eram aquelas coisas Cali?
Lucas, sentado desajeitado, a fitou com medo. Medo, desespero, dor. Seu amigo morria em seus braços bem ali e ele nada podia fazer. Estiveram bem alguns poucos minutos atrás, jogando, rindo, brincando e agora só havia sangue, morte e destruição. O que estava acontecendo?
— Coisas demais pra explicar. Vocês precisam sair daqui.
Ela tocou na mão fria de Ryan que tinha uma pulsação fraquíssima, quase nula. Seu coração apertou. Se tivesse sido mais rápida em perceber os sinais da chegada deles, se seu corpo mortal não fosse fraco e frágil, teria chegado a tempo. Teria...
Mas ela ainda podia fazer algo.
— Cali, me desculpe.
A voz de Thomas, logo atrás dela, trazendo uma mãe trêmula fez o peito da garota apertar ainda mais. Queria culpá-lo por não ter acreditado nela, queria gritar e xingar Thomas de todos os jeitos possíveis, mas o corpo de Ryan estava indo embora mais rápido do que demonstrava.
– Eles não vão parar de vir se você continuar sem o colar – disse, ríspida.
Como se lembrado da estupidez que havia feito o garoto entregou a mãe ao pai, que a abraçou ainda em silêncio, e correu com dificuldade até a mesa de cabeceira, passando o cordão automaticamente pelo pescoço.
Olhando diretamente para Lucas, ainda acuado, a morena tomou fôlego. Não tinha escolha, ela os sentia chegando. Era agora ou nunca. Tudo ou nada. Era uma aposta e Cali desejava poder estar apostando certo.
E salvá-los com isso.
— Aqueles são a ralé demoníaca – começou a falar, descendo os olhos para o rosto de Ryan e passando delicadamente a mão sobre o peito dele sentindo-o respirar com dificuldade – não tem nomes, são subordinados aos grandes generais. São a massa das legiões.
O casal mais velho olhou para ela e se encarou, céticos e crentes, com as evidências de monstruosidades caídas mortas bem ao seu lado. A mulher se apertou contra o marido buscando apoio e ele a acolheu.
Thomas encarou a figura de Cali parado ao lado do que sobrara da sua cama, que perdera alguns de seus pés e tivera o colchão rasgado. Foi culpa dele tudo aquilo. Se ele tivesse acreditado desde o início...
Uma sombra escura lhe tomou o coração, fria e dolorosa. Culpa.
— Virão mais e virão logo. Vocês precisam sair daqui.
Encarou o casal ao seu lado séria. O homem lhe olhou de volta e assentiu vagarosamente.
— Quem é você?
O sussurrou da mãe do garoto foi um sopro enquanto o marido a ajudava a levantar. Cali não a encarou e ao invés disso lançou seu olhar para Thomas, do outro lado, de pé, a fitando de volta.
— Sou Cali e sou uma cavaleira infernal.
E agora, pela primeira vez, Thomas acreditou nas palavras dela.
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