Legado Demoníaco

5 [Mundo Humano] - Basquete e chocolates


Madame Boulevard, 2018

Batidas na porta alertaram Cali de que alguém a estava procurando. Ao girar a maçaneta, tentando desamarrar o avental no processo, a jovem encarou o rosto velho de Mariane, com seu óculos de descanso pendurado no pescoço.

— Você está bem?

A garota sorriu de lado, sem saber ao certo como responder. Finalmente conseguindo desatar o nó da roupa abriu espaço para a mulher entrar, apoiando o avental no gancho próximo.

A janela do quarto estava aberta e lá fora a noite começava a se tornar madrugada, deixando o frio preencher o cômodo. Uma luz fraca iluminava uma mesinha baixa e próxima, onde jazia uma longa e fina espada negra com a bainha ao lado, feita de um minério reluzente.

— Não sei o que seria estar bem – murmurou a jovem sentando na cama.

Mariane a observou e suspirou entrando no quarto pequeno.

— Quem era o menino que estava aqui? No beco?

A morena fitou a mulher por alguns segundos antes de falar. Havia contado praticamente tudo para a dona da lanchonete, praticamente.

— Um amigo.

— Amigo? – Mariane não pareceu convencida – Que a faz chorar?

Um incomodo se instalou no peito da garota com as palavras da sua chefe. Ela havia chorado sim, impotente como a humana que estava sendo, com a sobrecarga de ter tanta responsabilidade sobre si e as falhas em suas tentativas, mas não era culpa de Thomas. Na verdade, não era culpa de ninguém. E se ela podia culpar alguém culparia Dante e seu sequio, assim como os grão-duques envolvidos no golpe.

Lembrando do caos que estava o inferno, sua casa, ela soltou um longo suspiro.

— Não foi culpa dele, eu só estou sobrecarregada.

— Você não pode carregar o mundo nas costas – a mulher se aproximou, maternal – uma coisa de cada vez, Cali.

A morena olhou nos olhos castanhos e calorosos da mulher e quis acreditar nela. De verdade, acreditar que podia simplesmente fugir e deixar tudo para trás, viver a vida que havia sido roubada dela no passado.

Mas não podia. Tchort dependia dela e o inferno dependia de Tchort. E ela já não podia mais viver como humana, Cali sabia. A energia infernal dentro dela a consumiria quando chegasse ao fim, porque sua alma estava morta há muito tempo. Ela não era demônio, nem humana.

Sorrindo de volta para a mulher Cali assentiu, fingindo aceitar o conselho, deixando Mariane satisfeita. Remexendo no bolso ela tirou um envelope pondo-o carinhosamente nas mãos da jovem.

— Aqui está o seu primeiro pagamento – a velha olhou ao redor – podia começar comprando outra roupa para você além daquela que parece uma fantasia. A que usa na lanchonete também não é muito boa para sair por aí.

Cali riu, agradecida.

— Vou comprar sim.

— E outra coisa. Acho que deveria começar a pensar em ir para a escola.

— Escola?

Mariane assentiu e cruzou os braços.

— Você tem o que? Dezesseis? Dezessete anos? Tem que começar a pensar no futuro. Não pode ficar trabalhando nessa lanchonete para sempre.

Cali resmungou que tinha bem mais anos, mas foi baixo o suficiente para a sua chefe não ouvir. Não precisava ir para a escola, escola nunca a ajudou em nada em sua vida.

Mas era uma ótima ideia.

Sorrindo de lado a morena encarou as cédulas dentro do envelope.

— Vou pensar nisso também.

•••

Na segunda-feira, antes de sair de casa, Thomas levou consigo um iogurte de morango a mais. Cali tinha comentado com ele o quão pouco conhecia da comida humana atual e como pedido de desculpas ele pensou que pudesse dar um iogurte a ela. Ela com certeza ia gostar, assim como gostou do pão. Iria arriscar seguir a história dela em relação aquilo como uma trégua.

Não queria deixá-la mal.

Grunhiu com o pensamento. Não devia se sentir tão culpado em relação a uma garota maluca que invadiu seu quarto e o seguia todos os dias falando besteira. Não devia, mas se sentia. Queria pensar exatamente isso quando a via e deixar qualquer sensibilidade de lado, mas não, apesar de repetir isso sempre para si não conseguia levar a sério.

Cali era mais do que aquilo.

Quando saiu de casa, entretanto, não a encontrou. Resmungando por ter sido bobo ele jogou a bebida na mochila e foi em passos pesados até o colégio, pensando consigo que provavelmente Cali não voltaria depois do que acontecera no beco.

Ele viu os olhos dela e se sentiu mal durante boa parte do final de semana lembrando que tinham sido as palavras dele que a magoaram. Que a fez chorar. Pela primeira vez Thomas se sentiu mal com uma garota chorando, talvez porque a culpa fosse inteiramente dele dessa vez, e das outras sabia que as lágrimas eram para manipulá-lo.

Talvez, ou talvez só se importasse mais com essa estranha do que conseguia admitir.

Entrando no terreno do colégio ele interagiu com alguns grupos pequenos no caminho até a sala, combinando com os colegas do basquete o treino daquela tarde. Subiu as escadas para o segundo andar conversando com a representante da sala ao lado e parou na soleira da sua própria sala para continuar batendo papo com ela.

Sônia era loira e tinha sardas no rosto inteiro. Sempre animada e estudiosa andava para cima e para baixo com seus livros, estes que segurava enquanto ria com o garoto sobre um programa de televisão que haviam visto. Era bonita e Thomas sempre conversava com ela, ela era agradável.

— Bom dia Sô.

Lucas sorriu se apoiando no ombro do castanho recebendo um sorriso e um aceno da garota.

— Bom dia Lucas. Certo, tenho que ir Thomas, depois conversamos mais.

Ele sorriu e acenou ao vê-la virar.

— Não acredito que ela dê tanta moral assim pra você – resmungou o moreno, se afastando e encerrando a simpatia – você é um péssimo amigo.

Thomas riu.

— Se está tão interessado nela vá e faça você mesmo, não ligo com quem ela vai ficar, mas de mim não espere nada – abriu um sorriso de lado para o garoto – porque se ela me escolher, não quero ter a consciência pesada com você.

Lucas rosnou atuando estar indignado e entrou na sala correndo atrás do castanho, pronto para cinco minutos de soco sem perder a amizade, quando acabou escorregando e caiu sobre uma das mesas. Pior, derrubando e esmagando um corpo macio.

— Desculpa, eu...

Lucas afagou a cabeça e pulou, levantando, pronto para ajudar a garota, esperando intimamente que não fosse Elisa – porque ela definitivamente acabaria com seu couro – quando viu os olhos azuis fitarem-no surpresos e o risinho da figura no chão.

— Você é a garçonete!

A afirmação aguçou a audição de Thomas, que tinha corrido pro final da sala se proteger usando a lata de lixo, e ouviu a risada dela, inconfundível.

— Pensei que fosse pedir desculpas antes.

Lucas trocou os pés, envergonhado, e estendeu a mão ajudando a morena a levantar. Ela aceitou a mão, ainda rindo, vendo-o corar no processo.

Bonitinho.

— Me desculpe, eu não queria mesmo...

— Está tudo bem, você é um dos garotos da...

Ela pareceu pensar como descrevê-lo, mas Lucas já a respondia balançando a cabeça freneticamente, sorrindo por ter lembrado dele.

— Sim, sou eu! Que surpresa boa ver você aqui e... – ele notou o uniforme dela – vai estudar conosco?

Cali sorriu mais abertamente, estendendo a mão para o moreno, que a pegou de imediato.

— Sim, sou Cali, é um prazer conhecê-lo oficialmente. Foi um ótimo... cumprimento.

Ambos riram e Thomas os encarou incomodado, saindo dos bastidores do final da sala para perto da dupla.

— Thomas! Sua amiga está aqui.

Lucas sorriu para ele, animado, enquanto o amigo se aproximava. Algumas pessoas ao redor começavam a conversar sobre o acontecido, enquanto outras ignoravam o moreno e seu jeito desengonçado de sempre.

— Cali?

A fala do castanho foi mais uma constatação que uma pergunta, porque sabia que era ela no momento em que ouviu sua voz. Inexplicavelmente começava a ficar estranhamente atento nela, isso não era bom.

— Olá Thomas, bom dia, demorei?

Ela lhe lançou um sorrisinho travesso.

— Não sabia que você vinha estudar no nosso colégio – interveio Lucas, ajeitando a cadeira e o banco que derrubou.

— Ah, eu não vinha – ela pegou o estojo e um caderno pequeno, pondo-os na superfície – não acho estudar importante.

Porque precisa salvar o inferno, o pensamento veio automaticamente para Thomas, que sorriu para si. Lucas pareceu confuso e pegando uma borracha que havia saltado um pouco mais longe, o castanho se aproximou.

— Então por que está aqui?

Ele já sabia a resposta, mas ainda assim fez a pergunta. Soube antes dela olhar para ele, sorrir e dar de ombros displicentemente, balançando os longos cabelos negros presos no costumeiro rabo de cavalo.

— Por causa de você, é claro.

A declaração deixou Lucas com a boca aberta, expressivo como era, e alguns poucos estudantes próximos olhando a cena surpresos. Thomas, por outro lado, sorriu de volta para ela.

Por alguns segundos, enquanto eles se entreolhavam, tudo pareceu certo. Alguns minutos antes ele estivera resmungando sobre ela e agora estava ali, com uma alegria enorme o tomando dentro do peito. Inexplicável. E estranho.

O professor despontou na entrada da sala, dispersando a atenção, e no mesmo instante em que Lucas dava novamente boas vindas a morena Thomas remexeu na bolsa tirando o iogurte.

Pareceu besteira antes. Agora parecia necessário.

— Pra você.

Ela olhou com curiosidade tanto para o garoto quanto para a garrafinha e ainda sorrindo aceitou o estranho presente. Era meio bobo, ela pensou, mas a satisfação no rosto dele foi o suficiente para que aquilo se tornasse um presente especial.

— Desculpa.

As últimas palavras dele foram um sussurro enquanto voltava para sua banca, na parte traseira da turma, do lado oposto a dela, mas Cali o ouviu e sentando percebeu com a garrafinha parcialmente descongelando na mão, que além de um presente aquilo era um pedido de desculpas.

Ao mesmo tempo em que os alunos se organizavam entre as bancas de madeira a morena abriu o iogurte, cheirou a mistura rosada e depois do primeiro gole sorriu, apreciando intensamente o sabor.

Doce, pensou, olhando disfarçadamente para a cabeleira castanha do outro lado e seu dono, que ria com um de seus amigos, desculpas aceitas.

Obrigada.

•••

Se alongando no corredor longo e bem iluminado, depois de uma aula maçante sobre história humana e outra com cálculos desnecessários, Cali se perguntou se talvez trabalhar na lanchonete não fosse melhor do que ali. Olhando além de uma das janelas, para o pátio verde e movimentado de alunos, com a brisa mexendo seus cabelos, soube a resposta.

— Claro que não, na aula eu posso dormir— pensou alto.

— Falar sozinha faz parte da agenda do inferno?

Sorrindo automaticamente Cali se virou para Thomas que se apoiou preguiçoso no beiral da janela logo ao lado. Ele parecia relaxado e diferente daquele primeiro dia no quarto, bagunçado e de samba canção, a jovem percebeu que até que ele não parecia tão patético.

Os olhos tinham um quê de realeza, também, com uma estranha intensidade que roubava seu fôlego. Como fazia ali, apenas parado na janela e a encarando.

— Está me seguindo, Thomas?

— Achei que esse fosse o seu papel, não?

Ela aumentou o sorriso. Até que gostava do humor dele.

— Pronto para me ouvir?

— Você veio até aqui realmente por minha causa?

Thomas perguntou baixinho. Pensou sobre isso durante toda a aula e não fazia sentido. Cali não tinha família? Como podia entrar tão facilmente numa escola só para convencê-lo? Até onde ia a fantasia?

E até onde era fantasia?

Thomas chegou a cogitar, por alguns minutos, que Cali tinha realmente vindo do inferno, por isso não tinha onde ficar, não tinha família, trabalhava e morava nos fundos de um restaurante e ia, todos os dias de manhã cedo, pedir que fosse salvar o submundo.

Mas, cético, ele desistiu logo depois da conclusão de tudo aquilo. Não queria ir ao inferno, não queria cogitar Cali lá. Não queria acreditar.

— Acha realmente que iria aturar história humana e cálculos de física por livre e espontânea vontade?

A expressão no rosto dela o fez rir.

— Não, acho que ninguém em sã consciência iria querer.

Ela o acompanhou.

— Mas hoje não posso, tenho treino de basquete daqui a pouco. Poderia fazer seu monólogo amanhã?

— Treino de basquete?

Cali pareceu curiosa.

— Sim, nunca viu? Não tem esportes no inferno?

A morena sorriu de lado.

— Claro que temos esportes, mas eles envolvem espadas, adagas e algum sangue. E eu conheço basquete, não sou tão leiga quanto ao mundo humano. Só... nunca vi.

— Quer ir ver?

Ela fitou os olhos de Thomas desconfiada, mas vendo-o dar de ombros, erguendo as sobrancelhas, se sentiu muito bem convidada.

— Não vou dizer que sou o melhor jogador do mundo, mas...

— Eu adoraria ir, posso?

Desencostando da beirada ele aprumou a mochila no ombro.

— E desde quando você precisa pedir para me seguir?

Balançando a cabeça, ainda que sorrindo, Cali começou a acompanhar os passos dele no corredor pouco movimentado.

— Eu sinto que criei uma péssima impressão.

— Invadindo meu quarto? Claro que não.

Eles se entreolharam e fizeram careta, rindo em seguida.

•••

Enquanto Thomas corria de um lado para o outro na quadra, seguido dos amigos, passando a bola e pulando para acertar as cestas, Cali observou tudo com atenção. Ele parecia brilhar no meio do tablado e era ágil com a bola. Lhe dissera que não era o melhor jogador do mundo, mas definitivamente era um bom jogador.

Thomas se esquivou e lançou a bola pela lateral para um dos garotos que correu para fazer a cesta. Nesse instante ele olhou para a morena, sentada na arquibancada, e corou quando a viu sorrir e fazer sinal de positivo com as mãos.

Envergonhado e sorrindo de lado ele voltou a correr, desta vez tentando impressionar um pouco mais a garota sentada ao longe. Mesmo sem saber ao certo pra quê. Talvez quisesse mostrar suas qualidades como filho do rei demônio, riu internamente.

Além de Cali, sentadas a algumas bancas de distância, mais próximas da quadra, estava um grupo ruidoso de garotas. Elas gritavam quando havia cestas, quando algum dos garotos acenava para elas ou simplesmente quando eram olhadas.

A morena também apreciou a juventude delas, flertando com eles e conversando bobagens entre si. Ouviu comentarem sobre um álbum horroroso de música que tinha saído recentemente e sobre o lançamento de uma nova linha de maquiagem. Arrumando os cabelos umas das outras para ficarem apresentáveis e contando amenidades sobre o dia a dia.

Lembranças antigas, quase esquecidas, voltavam ao vê-las. Cali não tinha ido para o colégio quando viva. Não tinha amigas, não teve família ou uma casa amorosa, tão pouco podia se dar ao luxo de fazer algo que não sobreviver. Pensando em retrospectiva, talvez tudo que ela tivesse feito na vida foi lutar. Inclusive ali, parada na quadra de uma escola observando Thomas girar no tablado.

Quando ela pediu por ajuda aquilo aconteceu. Quem sabe lutar para sempre fosse seu destino. Sozinha, ela suspirou se recostando e apertando as bolsas que guardava consigo. Mas agora ela tinha uma meta e por ela faria qualquer coisa.

Houve um apito e o treinador decretou pausa.

A maioria dos jogadores caíram exaustos no chão, sentando com tudo, e Cali riu ao ver Thomas fazer o mesmo. Estava ali uma coisa nova sobre ele: gostava de basquete e era bom. O castanho a fitou, todo suado e ofegante, erguendo a sobrancelha para ela.

Cali retribuiu, mesmo sem saber porquê, e riu. Sentia que começava a se comportar como uma criança na presença dele. Só não sabia até onde aquilo podia ser ruim, afinal, se precisava se mostrar madura para levá-lo e protegê-lo no inferno, tinha que começar com sua imagem.

Do outro lado Thomas também riu, se esforçando para levantar. Com uma toalha e água, retirada do cooler compartilhado, ele seguiu em direção as escadas e Cali o acompanhou com o olhar, um tanto quanto orgulhosa.

Sua postura, o suor e os passos firmes a lembravam uma figura imponente. Não ia mentir para si mesma ao dizer que quando viu Thomas pela primeira vez achou que ele seria o trunfo perfeito para salvar Tchort. Na verdade, ele era a única opção e sua aparência tão humana não a deixou muito confiante.

Entretanto, em algum momento, ela o conheceu. Descobriu que Thomas era bom em basquete, era rápido e tinha condicionamento físico. Boas características para um guerreiro. E descobriu também, meio que sem querer, que tinha um coração bom apesar de ser tão reativo, se oferecendo para ajudá-la com homens abusados e lhe dando um iogurte como pedido de desculpas.

No final, ele era muitas coisas.

E até que era bonito.

Próximo aos primeiros degraus uma das garotas nas arquibancadas mais baixas interceptou o castanho, sorrindo.

— Você foi ótimo hoje Thomas – ela remexeu numa bolsa a tira colo – aqui, energia pra você.

O castanho pegou a barra pequena de chocolate e sorriu em retribuição. Patrícia tinha sido uma das garotas com quem ele tinha saído algumas semanas atrás e terminado um pouco depois. Não entendeu muito bem o súbito interesse nele, mas aceitou educado o doce, agradecendo-o e ouvindo, por mais alguns minutos, uma chuva de elogios.

Curioso ele arriscou um olhar rápido para Cali, logo acima, deduzindo que provavelmente o ataque Patrícia tinha a ver com rivalidade feminina, afinal ele não tinha saído com mais ninguém depois dela, nem levado alguém para os treinos com ele, como fizera com ela. Mas se havia rivalidade, era apenas por parte da jovem a sua frente, porque a morena logo acima parecia relaxada e o olhava com uma estranha satisfação no rosto.

Rindo internamente Thomas interrompeu um dos elogios da garota, agradeceu de novo e subiu até Cali, que tirou a mochila ao seu lado para que ele sentasse, claramente o convidando. Um pouco mais animado do que deveria ele sentou tentando arrumar sem sucesso o cabelo bagunçado.

— E então, o que achou?

Lá embaixo o treinador bateu palmas agudas seguindo poucos jogadores até bancos de apoio.

— Incrível! Thomas Diaz você é muito bom... – ela gesticulou, procurando a palavra – nisso. Como é? É difícil?

Ele ficou encabulado por alguns segundos, revirando o chocolate em mãos, coisa que fazia com frequência quando ansioso.

— Um pouco, mas com o tempo você pega o jeito. É bom pra relaxar o corpo. Correr, suar, ganhar.

Thomas sorriu.

— Eu odeio perder.

Cali sentiu alguma coisa revirar dentro dela em concordância e retribuiu o sorriso.

— Eu também.

Os olhos azuis voltaram a quadra que ainda estava cheia de garotos jogados no chão recuperando o fôlego, enquanto alguns poucos discutiam algo com o treinador em seu boné vermelho e expressão de seriedade. Ela lembrou de se sentir cansada, suada, exausta também. Dia após dia. Mas feliz.

— Você gosta?

Ela piscou algumas vezes, percebendo que tinha sido vaga.

— Quero dizer, quando joga você se sente feliz?

A pergunta era estranha, mas se tudo ao redor de Cali também não o fosse não teria sentido, então acompanhando o olhar dela até os outros jogadores, Thomas sorriu.

— Sim, eu fico feliz.

— É isso que importa – ela deu de ombros.

O castanho assentiu.

— Qual seu sobrenome?

Cali o fitou confusa, mas o garoto a rebateu curioso.

— Você sempre usa meu nome e sobrenome, qual o seu?

A expressão que cruzou o rosto dela foi indecifrável.

— Já tive um nome e um sobrenome, mas não mais. Meu nome agora é Cali. Tchort quem me deu e o uso com orgulho.

Thomas suspirou com a resposta, mas não a rebateu, tendo aprendido com o episódio no beco. Então alongando o pescoço e abrindo o chocolate, o mordeu e inclinou a barra na direção da morena.

— Pode pegar um pedaço.

Os olhos dela esquadrilharam o rosto relaxado do castanho um pouco surpresa por ele não tentar encontrar outra lógica para seu nome, aceitando receosa o pedaço amarronzado. Que depois da primeira mordida se mostrou uma delícia.

O gemido de satisfação dela o fez rir.

— Gostoso?

Demais. Vou usar o resto meu salário comprando alguns desses – murmurou o final encarando um dos pedaços que ainda tinha nas mãos e limpando a outra, melada, na boca.

— Ainda trabalhando na lanchonete?

— Sim, meio período. Depois do colégio.

Thomas murmurou em concordância e juntos acompanharam o início de um novo jogo, com outro grupo de garotos. Enquanto mordiscavam o chocolate e o compartilhavam o castanho comentava, vez ou outra, o nome dos movimentos e quais jogadas eles tentavam fazer.

Começaram em algum momento uma disputa tentando adivinhar os possíveis movimentos dos jogadores e riram quando ambos erraram os palpites. Thomas dividiu a água com a morena e Cali se aproveitou um pouquinho mais do que tentou admitir do calor confortável do corpo suado ao seu lado.

Baunilha, Thomas repetiu para si o cheiro suave que vinha da morena, que querendo ou não ele notou gostar bastante.

Mais embaixo algumas garotas cochichavam entre si sobre um novo romance se formando, outras estavam vidradas no jogo, dividas entre torcer e xingar os garotos quando erravam. Só uma, em específico, não fez nem um nem outro, e saiu da quadra resmungando que tinha gastado dinheiro com o chocolate pra nada.

•••

Depois do apito do treinador Thomas arfou, se apoiando nos joelhos sem fôlego. Os sons agora não eram mais de sapatos agitados contra o piso, mas sim de diversos sapatos cansados indo em direção a saída. Não tinham mais garotas nas arquibancadas e lá fora o sol começava a esvanecer, mergulhando o espaço num mix de vermelho, rosa e laranja.

— Você foi bem nessa última, mas não tinha o que fazer – Cali se pronunciou entrando na quadra depois de descer das arquibancadas – eles foram melhores do que você.

O castanho a encarou com raiva e bufou, endireitando a coluna. Os últimos colegas de time já saiam pela entrada lateral.

— Não precisava dizer dessa forma. Eu só estava cansado, só isso.

Cali lentamente ergueu uma das sobrancelhas.

— Tenho noção desse tipo de coisa e posso dizer com tranquilidade que você deu seu máximo.

Desta vez Thomas a lançou uma expressão que praticamente a pedia para parar. Ela abriu um sorriso de empatia.

— Mas se você prefere acreditar nisso...

Deu de ombros entregando a mochila a ele.

— Obrigado – murmurou abrindo o zíper e a pondo sobre um dos bancos.

A morena o observou tirar com raiva a camisa fina que usava por cima da roupa, e que indicava seu time, e riu consigo. Ele realmente não gostava de perder. Era uma boa motivação caso fossem à guerra.

Girando em seu eixo ela observou a quadra da perspectiva central e se admirou com o tamanho e altura do lugar, assim como o teto abobado logo acima. No inferno poucos lugares eram fechados e lá era comum ver a penumbra negra que os cobria acima, quase um céu sem estrelas.

Ali ela não conseguia ver o céu, o verdadeiro, e a percepção a lembrou um pouco de casa.

— Isso não quer dizer que você é ruim, sabe disso, não é?

Thomas soltou um suspiro exasperado. Cali não precisava mesmo ficar lembrando a perca ridícula que ele havia sofrido.

Antes de virar e retrucar, abandonando a garrafa no banco perto da bolsa, ele ouviu o som da bola contra o piso. A observou imitar os movimentos dele, um tanto desengonçada, quase perdendo a bola da mão algumas vezes e riu.

Cali devolveu o olhar num claro desafio.

— Só preciso de prática.

Com sua melhor pose de arrogância ele cruzou os braços, sorrindo e elevando as sobrancelhas. Franzindo as suas Cali tentou mais uma vez imitar os movimentos do castanho e até conseguiu andar alguns poucos segundos mantendo a bola no ritmo, mas a deixou sair quicando logo depois.

Encarando o globo alaranjado se afastar a morena colocou as mãos na cintura.

— Viu só? Você é bom.

Quando ela o olhou por cima do ombro e sorriu, correndo logo em seguida para pegar a bola antes que sumisse debaixo de algum banco, Thomas entendeu o que ela estava fazendo. Ou deduziu que seria isso, algo próximo com um consolo pós derrota.

Seu coração se aqueceu e quando a jovem voltou, correndo e pronta pra guardar o objeto, ele a interceptou.

— Você precisa fazer esse movimento com os joelhos e com os pés para conseguir se mover melhor.

Cali o fitou curiosa e atenta, acompanhando quando ele correu pela quadra encenando dribles e sustentando a bola em sua posse. Antes dele lhe dizer mais alguma coisa a morena correu e tentou interceptar o movimento e juntos eles ficaram alguns minutos numa guerra pelo controle no tablado.

Pararam apenas quando Thomas marcou uma cesta, fazendo o globo saltar para longe deles. Ofegantes eles se entreolharam e sorriram.

— Certo, eu sou bom.

•••

Naquela noite Cali deitou na cama, mas não conseguiu dormir. O problema não era o cansaço ou qualquer outra coisa, mas uma energia inquieta dentro de si. Sua energia infernal estava reagindo a algo. Estava acontecendo alguma coisa no inferno, uma coisa grande.

Temerosa ela embolou entre os lençóis recém lavados no quarto vazio e silencioso. Precisava ficar mais atenta a partir de agora, ainda mais quando tão próxima de Thomas. Tinha que protegê-lo.

Encarando a espada repousando inútil sobre a superfície de madeira logo ao lado Cali suspirou baixinho. Não tinha poder que pudesse usar sem esgotar a energia infernal e tão pouco podia sair por aí brandindo sua espada sem ser presa pela polícia. Tudo com o que podia contar era sua habilidade física e talvez um pouco de sorte.

Como não gostava de contar com sorte Cali decidiu, levantando e desistindo de dormir, que iria cuidar de perto de Thomas. Tempos sombrios podiam vir mais rápido do que ela imaginava.

Olhando além da janela ela lembrou do dia que passaram juntos e sorriu, tocando suavemente na lâmina negra de sua Matadora de Bestas. Iria protegê-lo como disse a Tchort.

Notas finais
Eita, o inferno está pegando fogo (perdoem o trocadilho ahsjasj)