Legacy | Bucky Barnes ︎
32 XXXII
— SANTO DEUS SARGENTO, VOCÊ NÃO SABE BRINCAR.
Bucky, que finalmente tinha arrumado um jeito de enfiar a pelúcia gigante e espalhafatosa na traseira da picape, ergueu um lábio para cima.
Talvez, pensou ele, escolher logo o maior bicho de pelúcia da galeria de tiros tivesse sido uma atitude infantil e mesquinha de sua parte.
Não se arrependia, no entanto.
Em sua defesa, a culpa era toda daquela coisinha, que decidira dar-lhe um lobo de pelúcia — ainda por cima insinuando que eram parecidos e... bom, era um homem competitivo.
Muito competitivo.
— Não, não sei — concordou ele.
— Esse trambolho vai ficar ótimo no seu apartamento — ela observou enquanto encarava a picape com um sorriso de puro escárnio — era justamente o tipo de decoração que estava faltando para alegrar o ambiente.
Ele fez uma rápida imagem mental daquela coisa verde e chamativa jogada no meio de sua sala e torceu o nariz. Não, nem fodendo.
— E quem disse que peguei isso para mim? — Bucky devolveu.
Serena ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços. O vestido esvoaçante que usava balançou um pouco com o vento oriundo da praia.
— E o que pretende fazer com ele? Vai vender? Boa sorte com isso.
— Ah não. Essa pelúcia — disse Bucky dando batidinhas na carroceria da picape — é todinha sua.
Serena contraiu o rosto.
— O quê? Nem pensar — resmungou, horrorizada — essa... coisa nem cabe na minha sala, para início de conversa.
Bucky, por outro lado, esticou os lábios. Não poderia dizer que não havia certa satisfação em vê-la com aquela careta fofa.
— Nunca te ensinaram que é feio recusar um presente?
— Presente de grego, você quer dizer — Serena retrucou — é a porcaria de um Grogu com mais da metade do meu tamanho. O espera que eu faça com isso?
— Achei que o nome dele fosse Yoda — ele comentou, ignorando a pergunta.
— O mestre Yoda é um personagem dos filmes — ela explicou, esticando os lábios. — Já o Grogu aparece em uma das séries.
— Série? — Ele repetiu, confuso. — Achei que Star Wars fosse uma franquia de filmes.
— Não, não. São três trilogias e... depois eu te mostro — prometeu ela, com um abano de mãos — o mais importante aqui é discutir sobre o lugar em que vou enfiar essa pelúcia do Grogu de quase vinte quilos.
Bucky encarou a traseira da picape.
"Grogu" era uma pelúcia orelhuda, verde, de olhos enormes e brilhantes e que não parecia com nenhuma forma de vida alienígena que tinha conhecido até então.
No entanto, o escolhera. Tinha visto um boneco parecido no quarto de Serena — provavelmente o mestre Yoda — e assumiu que seria algo de seu agrado, já que ela parecia ter uma obsessão pouco saúdavel por aqueles filmes.
Claro que o fato de ter escolhido um daquele tamanho talvez tivesse sido uma forma divertida de provocá-la.
Ele então olhou para ela e disse:
— Confio em seu bom gosto.
Ela apenas o encarou de volta. E sorriu.
Um sorrisinho lindo e diabólico.
— Beleza. Mas é você quem vai carregá-lo até meu apartamento.
— Justo.
— Pela escadaria — ela emendou, mordaz — sozinho.
Bucky revirou os olhos.
Poderia carregar a pelúcia — e a própria Serena — usando apenas umas das mãos de Coney Island até o apartamento e nem soaria. Mas achou que não seria de bom tom lembrá-la disso, não enquanto ela o olhava daquele jeito fofo, com as bochechas infladas e olhos brilhantes.
— Coisinha cruel — ele disse ao invés — podemos pelo menos comer um cachorro-quente primeiro?
Serena concordou e foi andando de volta ao parque, o vestido ainda balançando suavemente com a brisa do mar.
Ele a seguiu.
✧❄✧
— Então — Serena murmurou logo depois de engolir um pedaço do cachorro-quente — o gosto é o mesmo que se lembrava?
Bucky, que estava na última mordida do lanche, virou na direção dela e sopesou a pergunta.
A bem da verdade, não era exatamente a mesma coisa, mas como poderia esperar que os ingredientes e o modo de preparo continuassem exatamente iguais depois de setenta longos anos?
— Continua delicioso como sempre foi — ele respondeu, contudo.
E não era mentira. Continuava sendo o melhor cachorro-quente do mundo.
Era bom saber que certas coisas não tinham mudado.
Ou quase isso.
— Só que não precisava colocar — contrapôs, indicando o lanche dela — o que diabos é isso?
— Chili dog — Serena respondeu , indicando a quantidade exorbitante de comida que estava por cima do cachorro-quente que segurava — é feito com molho chili. Tem carne desfiada no lugar da salsicha. Também tem queijo, cebola, pimentão e temperos — e mordeu outra vez.
Ele torceu o nariz. Aquilo parecia tudo, menos um cachorro-quente.
— Não faça essa cara, sargento. É gostoso — dito isso, ela esticou o lanche na direção dele — aqui, experimenta.
— Passo.
Serena apertou os olhos.
— Lasanha ultraprocessada com ingredientes de baixíssima qualidade tudo bem, mas carne e molho no cachorro-quente... esse é seu limite?
Ele inclinou a cabeça.
— Por que odeia tanto lasanha congelada?
— É nojento — Serena respondeu, com uma careta — o molho é ruim, a massa fica toda molenga e a carne tem gosto de plástico velho. É uma ofensa a herança italiana de Isabel. Isso não responde minha pergunta.
— Prefiro meu cachorro-quente a moda antiga — disse ele — sem essas... frescuras.
Serena deu uma risadinha.
— É claro que prefere. Você sempre prefere as coisas à moda antiga, não é mesmo?
Bucky se virou.
— O que está insinuando, coisinha?
— Nada não — ela respondeu — velhinho.
Ele apertou os olhos.
Serena o mirava com um olhar cáustico e enfiou o último pedaço do cachorro-quente na boca, murmurando um "delicioso" pausadamente com a boca cheia. Aquilo, no entanto, não o irritou.
Pelo contrário, na verdade. Bucky até que gostava quando ela o provocava e o fazia se sentir... vivo.
Vivo. Sim, aquela definitivamente era a palavra que estava buscando. Quase sorriu. Era assim que se sentia quando Serena estava por perto. E, quando sorria para ele, com aqueles olhos enormes cor de avelã... merda.
— O que foi? — ela resmungou, ainda olhando para ele — por que está me encarando agora?
Respirou.
Inspirou. Expirou.
Tudo ao redor tinha o cheiro dela.
— Seu rosto — ele respondeu, meio atordoado — está sujo.
Serena ergueu a mão, mas ele a deteve.
— Aqui — emendou, passando o polegar no canto dos lábios dela, manchando um pouco daquele batom cor de ameixa brilhante que ela tinha retocado no espelho da picape, momentos antes.
As bochechas dela ficaram em um lindo tom de carmim com o simples toque dele. Seu coração pequeno e indefeso acelerou um pouco.
Bucky retesou.
Aquilo não deveria ter sido um flerte. Não estavam em um encontro nem nada do tipo, mas, ao tocar nos lábios macios dela, uma parte dele vibrou.
Ele então a olhou de novo.
Serena estava linda naquela noite, com um vestido de alcinhas azul turquesa que deixava boa parte de suas coxas torneadas à mostra — não que estivesse reparando —, argolas douradas nas orelhas e cabelo parcialmente preso por uma tiara branca.
Porra, linda não seria o bastante para descrevê-la.
Quando Serena batera em sua porta, praticamente intimando-o a acompanhá-la para sabe Deus onde, com aquela maldita roupa e sorriso estonteante ele ficou paralisado. Ela poderia ter pedido qualquer coisa e teria atendido de bom grado.
E aquela coisinha indolente e desconcertante até então não parecia ter notado o estrago que estava lentamente fazendo com a sanidade dele, embora achasse impossível que ela não tivesse noção do quanto era... deslumbrante.
Deslumbrante.
Sim, era essa era a palavra que estava procurando. Serena era deslumbrante. E, naquela noite, emanava uma luz, um brilho que não tinha notado antes e que reluzia nela. Em seus olhos castanhos, em seu sorriso doce e em suas bochechas fofas.
Mas aquele maldito vestido... ah, aquilo estava distraindo-o a noite toda.
Assim como aqueles lábios entreabertos e bochechas coradas, claramente constrangida pelo toque inesperado, embora não o tivesse rejeitado. E, por um breve instante, Bucky se pegou imaginando como seria o gosto daquela boca.
Seria tão doce quanto o batom?
Como seria tocar a pele aveludada e exposta da clavícula e então erguer a barra daquele vestido, apertar aquele par de coxas perfeitas e... em que merda estava pensando?
— Bucky? — ela soprou em um tom quase dengoso.
O que não ajudava muito.
— Pronto. Limpo.
E recuou antes que fizesse algo pelo qual acabaria se arrependendo.
Precisava se controlar. Estava pensando demais em Serena ultimamente e todo aquele papo de não fazer amizade com a vizinha havia desmoronado mais rápido que um castelo de areia na praia.
Aquilo não significava, no entanto, que os motivos pelos quais deveria afastá-la mudaram. Ainda era perigoso para ela se envolver tanto com alguém como ele.
Só que, àquela altura, Bucky já não tinha condições de afastá-la. Gostava de sua companhia e ela era teimosa demais para o próprio bem. Era melhor que ele ficasse por perto.
Para protegê-la.
O sargento piscou.
Quando aquilo havia começado? Em que momento passou a se preocupar tanto com a segurança dela? Era quase como se ele... como se eles...
— Ah, obrigada — disse ela, erguendo um lábio para cima — o que quer fazer agora?
Foi involuntário, mas Bucky olhou para a boca dela outra vez.
— Cyclone — ele respondeu, no entanto — quero descobrir se a Cyclone está do jeito que me lembro.
Serena anuiu. E se levantou do banco onde estavam sentados, andando em direção a lixeira mais próxima. Bucky a seguiu logo atrás, como se estivesse escoltando-a.
Os dois cruzaram um calçadão cheio de pessoas e brinquedos. Letreiros de néon apontavam para as atrações e luzes piscantes iluminavam ainda mais o ambiente. Várias barraquinhas intercaladas, pessoas entrando e saindo delas, crianças correndo de uma fila a outra, ansiosas pelo próximo brinquedo e, bem no fundo, Bucky viu.
A montanha-russa de sua infância e adolescência, a Cyclone, despontando no céu em seus imponentes vinte e cinco metros de altura. Era uma construção de madeira, cheia de curvas fechadas, quedas e, apesar de uma ou outra diferença, em essência, era bastante similar com a Cyclone que tinha guardado na memória.
— Está praticamente vazio — disse Serena, quando estavam perto do brinquedo, andando em direção a escadaria — sorte a nossa.
Bucky examinou a fila. Havia quatro pessoas na frente deles. Dois casais que conversavam animadamente entre si enquanto aguardavam o próximo carrinho.
Eram pessoas simples, que sorriam e trocavam animosidades sobre a vida. Pareciam felizes, vivendo em um mundo só deles.
E, por um breve momento, o sargento desejou a vida daquelas pessoas para si. Uma vida normal e simples. Uma vida... livre.
Livre, sussurrou Raynor outra vez em sua mente. Você está livre.
E, pela primeira vez, as palavras da terapeuta fizeram algum sentido para Bucky. Talvez, não fosse tão tarde assim; talvez, realmente fosse possível mudar seu destino no final da história; talvez...
— Próximo — disse alguém.
Mas Bucky ignorou aquilo. Estava a quilômetros de distância do parque. A vozinha de Raynor ainda reverberava em seus ouvidos, fazendo com que mil coisas passassem em sua cabeça.
O futuro, seu futuro, está em suas mãos.
E antes que pudesse se dar conta, futuros hipotéticos e nada apocalípticos piscavam em sua mente, cenários onde não precisaria ficar sozinho, se afogando nos próprios pecados. Futuros agridoces e que gostaria de concretizar.
— Bucky — uma voz melodiosa murmurou perto dele, tocando em seu braço esquerdo.
Ele olhou naquela direção e encontrou um par de olhos calorosos fitando-o como se fosse uma pessoa decente. Como se não fosse um monstro.
— É a nossa vez — Serena emendou e apontou com a cabeça para o carrinho de dois lugares vazio.
Ele sorriu e a acompanhou.
Serena foi na frente, saltitante como um esquilo do Central Park depois de ganhar uma noz, se sentando logo no banco da frente e passando o cinto em seguida.
Bucky fez o mesmo, se segurando na barra de segurança e olhou para o horizonte, a subida gigantesca de madeira despontando. É, a Cyclone continuava a mesma, concluiu ele, muito embora aquela montanha-russa já não o assustasse como o fazia na infância.
Ao seu lado, Serena batia os pés no chão, olhando ao redor, ansiosa. Eles estavam ombro a ombro, as mãos quase se tocando.
— Se ficar com medo, coisinha — disse o sargento quando o brinquedo apitou — pode segurar na minha mão. Prometo não contar para ninguém.
Ela, contudo, deu-lhe um olhar mordaz.
— E quem disse que estou com medo?
— Seu coração está batendo rápido — Bucky observou.
Era verdade, embora não fosse por esse motivo em específico que quisesse tanto segurar a mão dela.
— Você é muito metido, sabia? Não estou com...
Ela se interrompeu com um gritinho.
O brinquedo tinha dado o primeiro solavanco, indicando o início do passeio.
Bucky esticou os lábios. O carrinho começou a se mover devagar, em pequenos trancos, subindo lentamente em um ângulo de quase noventa graus até o primeiro pico.
Estavam no carrinho da frente, então a visão da paisagem era privilegiada. À direita, era possível ver o parque todo e, pela esquerda, o calçadão e o mar que seguia até onde os olhos podiam enxergar e, quando o carrinho chegou no topo, parou com outro solavanco.
Ao seu lado, Serena fez uma careta. O carrinho apontava para baixo, como se não houvesse um trilho que o mantinha preso a madeira. Era um pouquinho assustador, tinha de admitir. Ou seria, pensou, se ele já não tivesse pulado de alturas muito maiores antes.
Sem paraquedas.
— É, talvez fosse melhor ter ficado no banco do fundo — Serena resmungou.
Bucky ergueu uma sobrancelha.
— Com medo agora?
Ela olhou feio para ele, mas não teve tempo de responder a provocação.
O carrinho despencou.
E contraproducente às suas expectativas, Serena não gritou. Ao invés, deu risada, como se aquilo fosse a coisa mais divertida do mundo.
Devido a força do vento, seus olhos estavam fechados, mas ela gargalhava e dizia coisas desconexas enquanto carrinho subia e descia, com solavancos que os jogavam de um lado para o outro. O cabelo dela balançava para todos os lados, se desprendia da tiara, mas seu sorriso apenas alargava mais e mais a cada vez que se chocavam e quando ela enfim abriu os olhos e o encarou, Bucky sorriu também.
Serena estava radiante.
Quando o carrinho parou, dois minutos depois, a coisinha estava ofegante, de cabelo em pé e com o coração acelerado, embora o sorriso magnânimo continuasse estampado no rosto. Ela estava uma bagunça, concluiu.
Uma bela bagunça.
— Isso foi... uau — disse ela, entre arfadas.
Ele não podia concordar mais.
— Vamos de novo — continuou Serena, segurando na mão dele, já puxando-o para fora do carrinho.
Bucky não teve forças para resistir.
Ela estava apenas dois passos à frente, mas o sargento conseguia sentir o coração dela batendo e o sangue correndo nas veias, enquanto sorria. A brisa do mar balançava as saias do vestido e o cabelo, deixando-o ainda mais despenteado.
E mesmo assim, Serena continuava deslumbrante. Viva. Livre.
Naquele momento, Bucky se deu conta de independentemente de qual fosse o futuro que o aguardava, aquela coisinha faria parte dele.
Fale com o autor