Legacy | Bucky Barnes ︎
21 XXI
QUANDO BUCKY DESPERTOU NAQUELA MANHÃ, sentiu um peso incômodo em seu peito. Tentou ignorar aquilo, afinal mal tinha amanhecido e estava estranhamente confortável no chão frio da sala.
Só que o peso se moveu e começou a tocar em seu queixo.
Bucky apenas continuou ignorando, o sono prestes a reivindicá-lo outra vez. O peso, contudo, não desistiu e os toques se transformaram em tapas. Então abriu um olho e encontrou uma enorme bola de pelos pretos encarando-o.
O gato endiabrado de Serena, percebeu, que mesmo para um felino, tinha a postura altiva demais. O gato, olhando-o nos olhos, bateu com a patinha peluda no queixo dele outra vez e deu um daqueles miados irritadiços, como se quisesse que Bucky acordasse. O sargento, no entanto, o encarou de volta com a mesma intensidade.
— O que você quer?
O felino miou outra vez, deu as costas e saiu andando até a reentrância do corredor balançando a cauda, como se tivesse atingido seu objetivo. Arg, gato dos diabos. Bucky soltou um palavrão e olhou para o relógio da cozinha.
Seis e meia da manhã, quem diria.
Tinha realmente conseguido voltar a dormir depois do pesadelo, um maldito milagre. Se bem que... devia o feito àquela coisinha que fazia seu braço direito de travesseiro, dormindo tranquilamente. Serena. Não levou nem cinco minutos até que ela pegasse no sono depois de se acomodar ao lado dele. Ele esticou os lábios.
Aquela coisinha abusada tinha adormecido toda torta apoiada na parede, a cabeça encostada em seu ombro esquerdo. E, embora Bucky estivesse ciente de que o mais sensato a se fazer seria levá-la de volta ao quarto — o que não seria nenhum problema para ele, visto que era tão pesada quanto um travesseiro — não conseguiu. Serena estava em um sono tão tranquilo que parecia um crime incomodá-la.
A pior parte era que Bucky tinha gostado daquilo, da proximidade.
Ela se sentia confortável com ele ao ponto de dormir profundamente apoiada em seu braço de vibranium, enquanto a maior parte das pessoas sequer conseguia encará-lo por mais de dez segundos. Por quê? Por que agia daquela forma?Seria mais uma de suas atitudes impulsivas ou ela realmente o considerava como alguém de confiança? Ele passou um tempo se martirizando sobre isso, até que algum momento o sono o consumiu também.
Bucky então virou o rosto. A respiração de Serena ressoava baixinho. Uma mecha grossa de cabelo caia sobre as bochechas, impedindo que ele visse a cara amassada, mas os cílios longos de boneca ainda eram perceptíveis. Quase um anjo.
Ele precisou controlar o ímpeto de afastar aquela mecha que o impedia de ver os traços do rosto com clareza. Era uma sensação tão diferente, a de acordar com alguém ao seu lado. Face a face. Quando havia sido a última vez que sentira tão leve, como se o mundo não estivesse prestes a desabar sobre ele?
Naquele instante a sala, o apartamento todo, pareceu menos frio e vazio. Era... era... bom, Bucky concluiu. Tão bom que poderia acabar se acostumando com aquilo.
— Talvez... — ciciou, baixo feito uma prece.
E, talvez, ele pudesse. Pudesse de verdade.
Bucky já tinha feito aquilo antes. Tinha sim tentado conhecer pessoas; viver uma vida normal — ao menos tão normal quanto o possível — mas..., mas..., nunca dava certo. Ele nunca conseguia ir adiante, como se uma parede invisível o impedisse de avançar em qualquer tipo de relação íntima. Provavelmente porque, lá no fundo, Bucky sabia que não merecia nada daquilo.
Não enquanto sangue escorresse por entre seus dedos.
— Você fala dormindo, sargento? — a voz rouca de Serena o despertou de vez — que fofo.
Olhos cor de avelã brilharam enquanto ela se espichava feito um gato preguiçoso.
— Eu apenas observei que você baba enquanto dorme, coisinha — ele respondeu, com um sorriso faceto.
Serena se levantou em um rompante, com uma mão na boca.
— Mentiroso — disse ela, a voz abafada — eu não faço isso.
Bucky precisou conter o ímpeto de rir.
— Ah, faz sim. Ronca também — ele continuou com a provocação — alto pra caramba. Mal consegui dormir a noite.
— Babaca — Serena devolveu, com um tapa no peito dele — você é muito babaca, sargento.
— Estou dizendo a verdade.
Ela deu com a língua para ele como uma criança mimada e se sentou, cruzando as pernas. Bucky fez o mesmo, alongando o corpo travado.
Ele deveria começar a fazer alguns alongamentos de vez em quando. Certamente ajudaria. Isso porque, embora seu corpo de super soldado o isentasse de maiores problemas nas costas, os ossos ainda se contraiam e tensionavam como de qualquer pessoa e, por esse motivo, vivia com dores musculares. Especialmente depois de tanto tempo deitado no chão.
Os braços eram os piores.
Mesmo sem osso algum — ou músculos, ou carne — do lado esquerdo, a região da escápula era sensível devido aos ligamentos da prótese com os nervos do tronco.
Talvez, refletiu ele, fosse mais sensato — e confortável— remover o braço durante a noite. Evitaria muitos problemas. Mas Bucky jamais se permitiria ficar sem o maldito braço de vibranium. E ficar vulnerável? Preferia acordar dolorido pelo resto da vida.
De soslaio percebeu que Serena aguçou o olhar quando ele fez um movimento humanamente impossível com os dedos, um estampido metálico ressoando na sala.
Não tinha nada demais naquilo. Na verdade, aquele era apenas um gesto que ativava os neurotransmissores da prótese e o permitia movê-la com mesma naturalidade do braço direito — ah, a tecnologia de Wakanda nunca deixaria de surpreendê-lo —, mas ela olhava para ele como se fosse um terceiro braço tivesse brotado nele.
— Algum problema? — Bucky falou, tenso.
Talvez não devesse ter feito aquilo na frente dela, pessoas comuns não estavam acostumadas com aquelas merdas.
— Como funciona... — ela murmurou, no entanto, resignada — como funciona, o seu braço?
Ele ergueu uma sobrancelha.
— É uma prótese. Faz tudo que um braço comum deveria fazer.
— Uma prótese...— Serena repetiu, esticando os lábios — com sistema de luzes integrado — seus olhos tinham um brilho travesso enquanto encarava as linhas douradas — não é pesada? Quero dizer, é mesmo de metal, não é? Incomoda?
Ela estava... curiosa?
— Vibranium, na verdade — ele corrigiu, com a pompa de um adolescente querendo impressionar uma garota — e não, não me incomoda. Às vezes até me esqueço de que é uma prótese.
Serena, contudo, não parecia muito impressionada.
— Vibranium — repetiu, o rosto franzido — devo fingir que sei o que isso quer dizer?
Desta vez foi Bucky quem sorriu.
— É um metal raro. Só existe em Wakanda, na África — ele então esticou o braço, permitindo que Serena o tocasse — é leve e ao mesmo tempo resistente, e, tem a capacidade única de absorver impacto. As luzes, na verdade são dispositivos que armazenam energia cinética e a redistribuem pelo braço.
Ela correu os dedos pelo metal gelado, se demorando nas linhas douradas, e que, de fato, reluziam com a fraca luz do sol. Bucky continuou falando:
— Isso significa que posso absorver golpes, como um escudo.
— E depois devolvê-los para o inimigo? Tipo... explodindo? — ela completou, ainda focada no braço.
— Mais ou menos — ele começou a explicar — é algo semelhante a uma onda mecânica. Imagine como um pulso de força ou elétrico dependendo do tipo de golpe que o braço está absorvendo no momento.
— Não sei se consigo visualizar uma coisa dessas — ela admitiu.
— Funciona assim — em uma demonstração improvisada, o sargento deu um soquinho no chão de taco. O vibranium reagiu, emitindo um brilho amarelado fraco, absorvendo o impacto. Ele sentiu a energia circulando por seus dedos e o concentrou no polegar por alguns instantes até que o liberasse um pulso com a força de uma brisa, balançando os cabelos dela.
Serena piscou, encantada.
— Isso é... legal.
— Em escala maior — ele prosseguiu — posso facilmente absorver o impacto de um carro em movimento e criar um pulso forte o bastante para lançá-lo longe, por exemplo.
— Metido — Serena resmungou, embora ainda estivesse correndo os dedos pelo braço — mais alguma função interessante que eu deva saber?
— Porque um braço de vibranium que absorve energia cinética é pouco para você?
— Meu apple watch atende chamadas — ela devolveu, jocosa.
Ele balançou a cabeça.
— Também dá pra usar o spotify e, tem calendário — Serena deu um olhar mordaz — é útil.
— Você tem razão, um calendário no braço é muito melhor que vibranium — disse ele, com um sorriso complacente.
Ela revirou os olhos.
— Não seja tão cínico, sargento — murmurou ela, ao se levantar.
— Algum problema? — disse, olhando para ela — ainda é cedo.
Serena fez um ruído pouco compreensível com a boca.
— Infelizmente para mim — ciciou ela, olhando para o relógio preso na parede — preciso me arrumar para trabalhar. Meu carpete não vai se pagar sozinho.
Ele piscou algumas vezes.
— Ah, sim, claro — chiou, com um pigarro — trabalho.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Você fala como se não tivesse um emprego.
Bucky não respondeu. Provavelmente porque estava pensando em como diabos explicaria para Serena como funcionavam seus esforços de reparações. Diria que trabalhava para o governo? (Mesmo não fosse bem verdade). Diria que seu trabalho era, para dizer o mínimo, controverso?
Bom, talvez, ele devesse ter dito alguma coisa, porque Serena teve a própria interpretação da falta de resposta dele.
— Não me diga que...
— Olha, é complicado — ele rapidamente completou.
Ela, contudo, abriu um sorriso cáustico.
— Aí meu Deus — Serena entoou, rindo — você é aposentado?
Ele fechou a cara.
— Não seja ridícula.
— E por que não? Até que faz sentido — uma pausa. Ela precisava recuperar o fôlego, ao que parecia — considerando sua idade.
Bucky soltou um palavrão que fez Serena rir ainda mais.
— O que você faz durante as manhãs? Xadrez no parque? Alimentar os pombinhos? Agora tenho certeza de que frequenta o centro comunitário com o senhor Nakajima.
— Não sou aposentado, coisinha — ele disse, enfático — meu corpo é o de uma pessoa de trinta. Bom, talvez um pouco mais — ainda mais considerando as dores musculares, quase completou.
Ela deu uma piscadela, como se dissesse "jura? Não tinha percebido até você falar" e seguiu até a ilha de mármore que separava a sala da cozinha. O gato endiabrado e Alpine até então escondida sabe Deus onde, a seguiram feito duas sombras.
— Sendo assim — Serena falou — acho que não vai ter problemas com cafeína — e pegou um bule — e aí, como prefere seu café?
— Forte — ele resmungou, se levantando também— e sem açúcar.
Ela concordou e ligou o fogão. Bucky por sua vez, pegou o controle e ligou a televisão, mudando no canal de notícias locais.
— Gosta de ouvir as notícias pela manhã?
Não, quase respondeu. A bem da verdade o que ele queria era...
... sobre o acidente nas docas da última segunda-feira...
Serena ergueu o rosto, embora estivesse de costas, enchendo o bule com água da torneira.
— Aumente o volume — ela murmurou.
Bucky obedeceu. E se virou para a televisão.
Algumas imagens amadoras e desfocadas da explosão, feitas por algum morador quadras a frente das docas, piscavam na tela e ele só conseguia agradecer internamente pela sorte de não haver nenhuma câmera de vigilância naquela região.
... a perícia continua apurando as causas do da explosão, mas após análise da arcada dentária das vítimas foram identificados: Adam Deep, Ryan Storm e Igor Vronsky...
Ele continuou assistindo a reportagem, esperando que mencionassem seu nome e expelissem um mandado de prisão, mas nada daquilo aconteceu. Fotos de Vronsky e seus assistentes apareciam na tela e, ao que parecia, a hipótese que a perícia trabalhava era a de um acidente por vazamento de gás. Ele piscou. Ninguém além dele sabia o que realmente tinha acontecido. Era um maldito sortudo.
Quer dizer, quase ninguém.
Ainda havia aquela figura, a verdadeira responsável pela morte daqueles homens e... ele espantou aquilo. Não queria pensar muito à respeito daquela figura encapuzada no momento.
Quando a pauta mudou, Bucky se virou para Serena outra vez, que exibia uma expressão plácida no rosto. Parecia estar prendendo o ar nos pulmões.
— Algum problema, coisinha?
O rosto dela parecia ter perdido a cor. O coração retumbava no peito.
—N-não — soprou, tensa — é só que... ainda não acredito que... Deus, estávamos tão perto. Quero dizer, e se estivéssemos uma quadra acima? E se eu estivesse... eu podia muito bem ter... — Ela se interrompeu, desviando o olhar.
Bucky se sentiu péssimo. Aquilo poderia ter terminado tão mal...
— Não vale a pena pensar muito sobre isso — se estava dizendo para Serena ou para ele mesmo, jamais descobriria.
Ela acenou com a cabeça. E respirou fundo.
Uma. Duas. Três vezes.
— Você tem razão, não vale. Acabou — e levou a mão ao peito, agarrando a gola da camiseta — acabou.
Bucky abriu a boca, mas Serena foi mais rápida.
— O café está pronto — emendou enquanto erguia a garrafa fumegante, a voz nervosa.
Ele aquiesceu e pegou uma xícara.
Nenhum dos dois disse mais nada pelo resto da manhã.
✧❄✧
Bucky não gostava de pensar muito sobre seus pesadelos, principalmente porque sempre que se afundava demais naquelas lembranças, elas o prendiam em uma patética espiral de melancolia e autopiedade.
Naquela manhã, contudo, depois que o furacão Serena deixou a cozinha com o gato dos diabos a tiracolo e o apartamento voltou naquele estado de silêncio mórbido, o pesadelo da noite anterior voltara especialmente para assombrá-lo.
Era tão estranho e confuso, pensou, ao lembrar da cena.
O Soldado Invernal tinha matado aquela agente, tinha certeza daquilo. A lembrança do som do pescoço dela quebrando era nítida e perturbadora demais para que seu cérebro permitisse esquecer. Só que desde aquela noite com Vronsky e o laboratório nas docas, Bucky começou a se perguntar se não estava deixando algo importante passar. Era como se algo a mais tivesse acontecido, algo que não entendia e, a bem da verdade, nem tinha certeza se queria entender.
Ele massageou as têmporas. Ainda havia aquilo, a expressão de Serena assistindo a explosão. Ela tinha corrido um risco imenso por culpa dele. E se estivesse um pouco mais perto? E se tivesse sido atingida? E se...
— James — a voz de Raynor, a terapeuta, o despertou — você parece um tanto aéreo hoje. Aconteceu algo fora do comum desde a última sessão?
Bucky piscou algumas vezes. Ah sim, a terapia. Ainda estava na terapia.
— Não — respondeu ele — não aconteceu nada.
— Não? — ela repetiu naquele maldito tom complacente de terapeuta.
Silêncio. Ninguém disse mais nada por um tempo. Até o momento em que Raynor se cansou da teimosia lendária de Bucky e deixou escapar um suspiro combalido e plácido, como se estivesse profundamente desapontada com ele.
— Sabe — ela esbravejou — um dia você vai ter que se abrir e perceber que algumas pessoas querem te ajudar, e, que pode confiar nelas. Por mais difícil que pareça.
Bucky deu um estalido com a boca. Era infantil, ele sabia, mas àquela altura, Raynor já estava acostumada com a personalidade dele.
— Eu confio nas pessoas — ele devolveu, tão plácido quando a terapeuta — outro dia mesmo deixei a garçonete abrir minha garrafa de cerveja.
Ela apertou os olhos.
— Isso não é confiança, James — o tom era o mesmo de quem falava com uma criança emburrada.
— Ela poderia ter envenenado a garrafa — Bucky, no entanto, argumentou — ou pior: poderia ter me dado uma cerveja quente.
Raynor o encarou como se ele fosse um caso perdido. Talvez fosse mesmo, dadas as circunstâncias. E outro daqueles malditos silêncios desconfortáveis se instaurou na sala. Era sempre assim quando não queria falar. Na primeira sessão, Bucky conseguiu ficar mais de quarenta minutos ininterruptos sem dizer uma única palavra.
Infelizmente para ele, Raynor não era do tipo que se intimidava facilmente.
— Tem respondido as mensagens de Sam? — disse ela, aparentemente deixando o comentário anterior de lado — sei que anda ignorando-o.
Bucky desviou o olhar.
Lembrou-se da última conversa que tiveram, no que Sam havia feito com o escudo; no que havia feito com Steve; no que havia feito com... ele.
O sargento simplesmente não entendia. Se estivesse no lugar de Sam jamais faria aquilo. Sequer cogitaria. Como? Como ele havia sido capaz de fazer uma coisa daquelas? Mas, não, Bucky não queria falar sobre o assunto com a terapeuta naquele momento. Não queria falar sobre aquilo nunca, com ninguém, no que dependesse dele.
Só que Raynor, maldita fosse, era insistente.
— Ao menos tem interagido com outros seres humanos? — ele abriu a boca, mas ela rapidamente o cortou — e antes que pergunte: não, pedir um capuccino na Starbucks do shopping não conta como contato direto com outro ser humano.
Outro silêncio fúnebre.
— James...
— E um vizinho, conta? — disse Bucky, mas apenas para não ter que voltar a pauta Sam Wilson, Steve Rogers ou escudo.
A terapeuta levantou uma sobrancelha, como se ele tivesse dito um absurdo.
— Você pediu para segurar o elevador?
— Não.
— Então ele pediu para segurar elevador?
Bucky revirou os olhos. Odiava ser tratado com tanta complacência.
— Também não — ele fez uma pausa, se perguntando se deveria compartilhar aquilo com Raynor. Mas, pensou ele, não tinha começado aquilo tudo pela terapia? Então, por que não compartilhar? Suspirou. E continuou: — Há algumas semanas, conheci uma das vizinhas do apartamento. Estamos conversamos desde então — uma meia verdade, mas suficiente para o momento.
Ela não disse nada por um tempo.
Muito tempo, na verdade. Por longos minutos, Raynor apenas fez anotações naquele maldito caderninho que levava a tiracolo em todas as sessões.
— Fiz algo de errado? — Bucky perguntou, quando o som da caneta riscando o papel já estava a um passo de levá-lo a loucura — achei que quisesse que eu voltasse a socializar.
— Não, isso é... — ela respondeu, ainda anotando — é apenas... novo. E interessante.
— Não é nada demais.
Mais anotações.
— Discordo — devolveu ela, sem nem olhar para Bucky — você já a conhecia?
— Não.
Raynor poderia escrever um livro se continuasse naquele ritmo.
— Ela morava no prédio antes de você?
Ele piscou.
— Sim.
— E por que só a procurou agora?
— Não a procurei.
— Claro que não procurou — disse Raynor, virando a folha — essa mulher, ela sabe alguma coisa sobre...
— O Soldado Invernal? — ele completou, tentando disfarçar o crescente incômodo de ter virado um rato de laboratório nas mãos da terapeuta — sim, ela sabe.
— Você contou?
— Não — disse ele — ela descobriu sozinha — ou quase.
Raynor esticou os lábios.
— E como foi a reação?
Bucky suspirou.
— Melhor que das outras vezes em que isso aconteceu, devo admitir.
— Interessante — a terapeuta ciciou pausadamente, enquanto escrevia o que mais parecia com uma parte de sua tese de doutorado — muito interessante.
— Vai me dizer o que está anotando neste maldito caderno?
Como se finalmente se lembrasse que Bucky era um ser humano, não um experimento social, ela fechou o caderno abruptamente.
— Não vem ao caso — e o deixou na mesinha ao lado da cadeira — o que interessa é: como você se sente com isso tudo?
Bucky suspirou.
Como se sentia perto daquela coisinha de olhos enormes e sorriso mordaz? Bem? Mal? Confuso pra caralho? Difícil dizer.
Ele então pensou na expressão dela ao acordar ao lado dele. Naquele sorriso, na forma como o provocava e... o rosto pávido dela assistindo ao noticiário o atingiu feito um soco.
— Normal — disse o sargento, no entanto — como eu acabei de dizer, não tem nada demais nisso.
Era como se um balde de água fria tivesse sido jogado em Raynor, mas Bucky não acreditava que mentir seria justo com ela. Ou com Serena, a bem da verdade. Não eram amigos, não deveriam se aproximar. A noite anterior não poderia se repetir em hipótese alguma.
Nada de fazer amizade com a vizinha, uma vozinha em sua cabeça o lembrou, não acabaria bem.
— James, escute — disse Raynor cruzando as pernas, olhando-o com esgar — para poder te ajudar na terapia, preciso que seja sincero comigo, e acima de tudo eu preciso que seja sincero consigo mesmo — ela fez uma pausa, como se quisesse que ele absorvesse as palavras dela. Pura baboseira melodramática — meu objetivo aqui é te ajudar a superar seus traumas. Mas eu não consigo te ajudar se você não estiver disposto e se ajudar.
Bucky não disse nada. Não era preciso. Ela continuou:
— Você está sozinho. Tem cem anos de idade. Não tem raízes ou uma família. Tem que desenvolver amizades, criar laços com alguém — aquilo o pegara um pouco, mas não demonstraria, não daria a ela aquele gostinho — se Sam, sua vizinha ou qualquer um por aí estiver minimamente disposto a se aproximar de você, por que não deixar? Por que não dar um voto de confiança? Talvez seja algo bom, talvez faça bem para você.
— Eu já disse que confio...
Ela fez um barulho de puro deboche com a boca. Bucky não achou aquilo muito profissional.
— Quando digo confiar — ela entoou — falo em confiança de verdade. Não só das pessoas ao seu redor. James, você precisa confiar em si mesmo, precisa aceitar que tem vulnerabilidades, assim como qualquer ser humano tem e, mais do que isso — mais uma pausa dramática — tem que se aceitar do jeito que você é. O passado não pode ser desfeito. Mas o futuro, seu futuro, está em suas mãos.
— Uma bela frase — desdenhou ele — tirou isso de onde? Um livro de autoajuda?
— Estou dizendo a verdade, embora você se recuse a enxergar qualquer coisa que esteja um palmo a sua frente — Raynor devolveu a provocação — olhe ao redor. Agora tem sua mente de volta, e está sendo perdoado. Por tudo. O que quero dizer é que estão acontecendo coisas boas e você merece isso. Está livre. Finalmente.
Bucky deu um crispar de lábios.
— Livre — ele repetiu, a frustração explodindo pelas veias — livre para fazer o quê exatamente?
Raynor então se levantou da cadeira, sem tirar os olhos dele
— Isso, James — murmurou ela, indo até a porta — cabe a você decidir. Não a mim. Não a Sam, muito menos ao fantasma de Steve Rogers.
Ele sentiu o corpo gelar. Aquele sem dúvidas era um terreno proibido.
— Sei o que Sam fez com o escudo — ela murmurou — e foi uma escolha dele, seguir em frente. Talvez esteja na hora de você fazer o mesmo. Pense nisso.
Bucky se recusou a respondê-la e deixou a sala sem nem ao menos olhar para o maldito sorriso complacente de Raynor.
— Mesmo horário na próxima sessão — ouviu a voz dela soprando enquanto se afastava.
Não era uma pergunta, muito menos um pedido. Era um lembrete, uma intimação. Porque, veja só, ele não tinha escolha de porra nenhuma sobre a própria vida.
Livre, uma piada cruel.
Ele nunca seria livre, não de verdade. Nunca se livraria da terapia. Ou de Raynor. Do Soldado Invernal. De seus crimes. Muito menos de Steve Rogers.
Bucky continuou andando, para fora do prédio. Depois, para fora do quarteirão. A bem da verdade, sairia da porra do planeta, se fosse possível — na verdade até que seria, mas preferia a morte a correr o risco de cruzar o caminho do guaxinim falante outra vez—.
Ele andou e andou, até que...
— Quantas vezes preciso dizer que essa maldita lixeira é minha? — disse alguém, do beco ao lado do apartamento.
Bucky esticou os lábios.
Yori.
Fale com o autor