Legacy | Bucky Barnes ︎
48 XLVIII - Interlúdio
Final do campeonato Nacional Universitário de Ginástica Artística,
Centro Poliesportivo da Universidade de Nova Iorque,
Ilha de Manhattan, NYC
2018
UM ESTALO, ela tinha ouvido um estalo. E, por algum motivo, aquilo fez com que o tempo parasse.
Aquele não havia sido o primeiro, contudo.
Desde o dia anterior sentia aquilo; um fio invisível de tensão no ar, como se algo muito ruim estivesse à espreita. No começo, é claro, tentou ignorar. Se houvesse algum perigo, que os Vingadores se encarregassem daquilo, era o trabalho deles, afinal.
Então, sentada na arquibancada, ela sentiu... a energia.
Fechou os olhos, expandiu seu poder e sentiu um feixe escarlate, o poder caótico emanado por ele e um estouro amarelo que fez com que o mundo parasse por alguns instantes; como se duas forças da natureza estivessem lutando entre si. Arfou, seu poder recuando em assombro.
O que aconteceu em seguida... não era natural.
Uma perturbação no espaço e no tempo. O coração disparou.
Um alerta de perigo martelava sem parar em sua cabeça. Era como se aquela ameaça estivesse pairando sobre ela. Sobre o mundo. Sobre... sua neta. Ela se concentrou outra vez, tentando entender o que estava acontecendo e...
"Você... deveria ter mirado na cabeça..."
Ela arfou outra vez. De onde viera aquilo? Aquela voz... não era de ninguém no estádio. Então, ela ouviu.
Tec.
Um estampido metálico frio e que parecia ecoar por sua mente. Pelo mundo. Por todo o maldito universo.
Expandindo... expandindo... expandindo...
Então, o silêncio.
Ela olhou ao redor. Viu a neta jogando o corpo para trás, prestes a completar a série perfeita a qual tanto se dedicara. Viu Íris Miller ao seu lado, reunindo fôlego para outro grito de apoio. Os jurados do outro lado da arquibancada riscando papel. A plateia... todos eles alheios ao que sentia. Congelados, como numa fotografia.
Olhou para a neta outra vez. Sua menina estava tão feliz, tão realizada. Não poderia permitir que nada arruinasse aquilo. Mas o que ela poderia fazer a respeito?
O próprio universo parecia estar se dobrando. Aquela fração de segundo se estendendo por minutos. Horas. Dias.
Ela se levantou e saiu do prédio em passos apressados. Mas a rua estava do mesmo jeito e ninguém além dela parecia ter notado aquela perturbação, as pessoas andando e dirigindo e... então ela viu.
O mundo estava voltando a girar, mas... o motorista do carro.
Em um segundo estava ali e no outro... não. Ele não era o único. Uma mulher que passava do seu lado avançou um passo e esvaneceu.
Não demorou mais de três segundos até que o caos se instaurasse.
Aquele carro sem motorista bateu na traseira de outro carro, que bateu em outro e outro... um gigantesco engavetamento se espalhou feito fogo na avenida. Ela olhou para trás. Pessoas começaram a correr. Coisas explodiram.
Alguém gritou um palavrão.
Dezenas, não, centenas de pessoas em pânico. Muitas mentes confusas e barulhentas martelando, berrando, implorando por respostas. Ela massageou as têmporas. Odiava quando coisas do tipo aconteciam. A última vez havia sido em 2012 e...
— Cuidado — berrou um homem. Ela o encarou.
Um helicóptero... caindo.... a mente dele completou.
Mas antes que pudesse piscar, aquela aeronave caiu em cima do prédio que tinha acabado de sair. O chão estremeceu. Outra explosão. Mais pessoas corriam em todas as direções feito baratas tontas. Ela xingou e se espremeu em direção da entrada do prédio, mas estava sendo praticamente arrastada para o lado oposto. E, no meio daquilo tudo, mais pessoas sumiam.
Se concentrou na neta. Onde estava? Já tinha saído? Estava segura?
"Isabel," ela ouviu seu nome sendo soprado de algum lugar, com a doce voz de sua neta, "onde você está?"
"Estou aqui, querida. Estou chegando," respondeu.
Mas a neta não ouviu. Sua presença estava enfraquecendo. Ela continuou correndo e correndo. Mas antes que pudesse alcançar a arquibancada, uma viga caiu, impedindo sua passagem.
O tempo continuava se contraindo e alongando, como um tecido velho rendo rasgado e remendado ao mesmo tempo. Que merda estava acontecendo ali?
Onde estavam os malditos Vingadores?
— Vou buscar ajuda — um ganido. Íris Miller. — Vai... vai ficar tudo bem.
Procurou e procurou, até que encontrou um buraco pelo qual conseguiu passar, bem a tempo de ver a menina Miller saindo e sua neta... Deus, nunca deixava de se impressionar com o poder que corria nas veias de sua garotinha. A única coisa que impedia que o prédio desabasse era... ela.
Abriu a boca, mas a voz morreu quando sentiu aquilo. A mente de sua neta estava esvanecendo. Mais fraca. Mais dispersa. E tudo que estava pensando era em como manteria aquele prédio em pé até que sua amiga estivesse a salvo.
Então, exatamente como homem do carro e a mulher de antes, sua neta, Serena Valente, esvanecia. As pernas, o tronco, os braços... explodindo em poeira diante de seus olhos.
— Serena? Serena?
Então... nada. Serena tinha sumido.
Os joelhos falharam. Ela usou seus poderes outra vez. Expandiu e expandiu a mente, em busca dos pensamentos dela, da essência dela, mas não encontrou nada. Nada.
"Serena...Serena... por favor... responda..."
Ela... ela não conseguia. Não conseguia sentir sua neta. Não ouvia seus pensamentos. Lágrimas começaram a escorrer de seus olhos.
Não. Não. Por favor, ela não.
Serena... sua linda garotinha... uma parte de seu coração... havia simplesmente desaparecido diante de seus olhos.
Ela gritou.
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