Legacy | Bucky Barnes ︎
12 XII
ENQUANTO SERENA USAVA O MODELADOR DE CACHOS, James estava todo esparramado em cima da jaqueta de couro preta que usaria naquela noite, enchendo-a de pelos.
Não que se importasse com aquilo, é claro.
Sua maior preocupação naquele momento era saber se não estava exagerando com as roupas. Não queria impressionar ninguém, mas... seria péssimo passar a impressão errada para a noiva de Íris. Que Serena não conhecia.
Como ela era? Será que se dariam bem?
Não fazia ideia.
E, foi por este motivo que escolhera as velhas roupas de sua curta fase de noitadas da faculdade: um cropped preto, com uma camiseta diáfana em tom de petróleo por cima para não ficar com a barriga tão exposta; jeans escuros e seu coturno favorito. Isso somado ao batom cor de ameixa brilhante e ao delineado de gatinho a deixava parecendo com uma das panteras, mas até que gostou do resultado. Ao menos parecia confiante por fora.
Ela deu um sorriso plácido para o espelho. Tinha tudo sob controle.
A bem da verdade, Serena nunca gostou de bares ou casas noturnas, mas, anos antes, quando saiu de casa, tinha prometido a si mesma que se permitiria ter a experiência universitária completa. Era por este motivo, imaginava, que quando Íris a convidava para ir até aquele barzinho ou em qualquer tipo de festa acadêmica insalubre, sempre acabava cedendo.
Mesmo que a música alta a irritasse ou a bebida fosse de péssima qualidade e não tivesse o menor interesse em beijar ou transar com ninguém, era bom se divertir um pouco, como pessoas normais de sua idade faziam.
— E aí, como estou? — Ela murmurou para o felino deitado na cama.
James, porém, deu um olhar indolente e desceu da cama, desfilando corredor afora, provavelmente até a cozinha.
Estava bem, pensou, satisfeita com sua aparência, embora o medalhão da avó pesasse uma tonelada em seu pescoço. Ela o tocou, como sempre fazia quando ficava inquieta.
Inquieta, apenas.
Não estava nervosa em se encontrar com a ex-colega de quarto outra vez. Ou em voltar até o antigo bar que frequentava em tempos mais simples, como se nada tivesse mudado. Não estava sentindo um aperto inexplicável no peito por causa da sensação nostálgica que tudo aquilo causava nela.
Tudo estava bem.
Serena deu uma última olhada no espelho, ajeitou a franja, guardou o medalhão por dentro das roupas e pegou a jaqueta, andando em direção a sala.
O relógio na parede marcava pontualmente sete e meia da noite. Chegaria bem a tempo no bar. Então, não tomaria mais que dois Long Island Ice Tea, jogaria conversa fora com Íris e sua noiva e, depois, voltaria para o apartamento, pontualmente às onze da noite, onde vestiria seu pijama cor de rosa favorito e poderia ter uma boa noite de sono.
Sem arrependimentos e, mais importante, sem ressaca.
— Tem ração no pote — Serena ciciou para James, que a olhava da bancada de mármore como se pudesse entender cada palavra dela — vê se não come tudo de uma vez. Prometo que não vou demorar.
Com as chaves e o celular em mãos, saiu do apartamento. O carro que chamara pelo celular chegaria em menos de cinco minutos e, considerando a paciência dos motoristas, era melhor que já estivesse no saguão esperando quando chegasse. Ela então seguiu para o elevador, mas...
Parou de supetão bem na porta. Ele estava descendo até o térreo.
Serena olhou para a escadaria. Não estava tão atrasada assim, mas... eram cinco lances. Ia demorar muito. Ela olhou para o elevador de novo. Se mais ninguém estivesse esperando, voltaria em breve; seria bem mais rápido. O problema, era que Serena detestava o maldito elevador. Ele a fazia se sentir presa.
E ela odiava se sentir presa.
Só que se não fosse pelo elevador, talvez se atrasasse. Ela esticou o braço, mas hesitou. Arg, porque tem que ser tão patética, Serena? Talvez devesse desistir da coisa toda e passar a noite assistindo uma série com um balde de pipoca.
É, parecia o melhor a se fazer.
— Algum problema, coisinha?
Serena quase deu um salto. Era Bucky, maldito fosse. Em que momento ele tinha chegado por trás dela, tácito daquele jeito?
— Porque a pergunta, sargento? — respondeu ela, disfarçando o torpor que a presença repentina dele causara.
— Está parada em frente ao elevador como se não quisesse descer — ele observou.
Ela fez um estalido com a boca.
— Estou pensando se vale a pena esperar ou não.
Ele deu um sorrisinho jubilante.
— Sabe que enquanto perde tempo pensando, já poderia estar na metade do caminho pelas escadas, não sabe?
Dito isso, ele seguiu até a escadaria. Serena, por outro lado, parecia dividida entre a pressa, a resignação e a preguiça.
— Dane-se — resmungou ela, seguindo-o — dois minutos não fazem tantadiferença.
— Mudou de ideia? — questionou Bucky, olhando-a de esguelha.
Serena revirou os olhos.
— Estou com um pouco de pressa — respondeu.
— Vai sair com alguém? — disse ele, como quem não quer nada.
Seu olhar, no entanto, a media da cabeça aos pés.
— E o que te faz pensar que vou sair com alguém?
— É a primeira vez desde que me mudei pra cá que a vejo sem os sapatos de palhaço — seu tom era bem neutro, apesar da complacência e do sorriso enviesado.
— Eles se chamam crocs — Serena explicou — e são muito confortáveis.
— São horríveis — ele corrigiu.
Babaca, ele era um babaca.
— Na verdade, vou sair com alguém sim — Serena tornou em um ímpeto.
— Hun — foi tudo que ele respondeu.
E continuou descendo.
Que merda aquilo significava?
— O que foi?
— Nada — disse, taciturno, mas Serena logo notou que ele estava olhando-a de novo — que bom para você.
Ela olhou sutilmente para baixo.
— Tem algo de errado com minhas roupas?
Bucky fez uma careta.
— Eu não disse isso.
— Não foi o que pareceu — Serena rebateu — acha que estou malvestida?
Outra olhada.
Ele ergueu um lábio para cima.
— Nem de longe — ele respondeu, indolente.
— Então qual o problema?
Houve uma pausa. Uma daquelas tortuosas pausas que ele volta e meia fazia. Eles desceram quase um lance inteiro de escadas até que Bucky voltasse a abrir a boca.
— Só estava... pensando.
— Pensando em quê?
Quando chegaram no corredor do segundo andar, ele repentinamente parou. Serena o analisou melhor. O sargento usava o mesmo tipo de roupas da última vez, mas a jaqueta de couro era em um tom de vermelho bordô que contrastava muito bem com seus olhos azuis tempestuosos. Aquela deveria ser a cor dele, o vermelho — embora verdade fosse dita, o maldito ficaria bem até com verde vômito.
— O que você faz quando... sai com pessoas? — Ele perguntou, como se realmente estivesse curioso.
Serena esticou os lábios.
— Não sabe o que as pessoas fazem quando saem, sargento? Achei fosse intuitivo.
Bucky, porém, fechou a cara.
— Você entendeu o que eu quis dizer.
— Ah eu entendi, mas me surpreende um pouco descobrir que o senhor “nunca precisei me esforçar muito para conseguir atenção de alguém” — ela o imitou, forçando uma voz grave e desnecessariamente arrastada — não saiba como é um encontro.
— Eu não falo — Bucky fez um estalido com a língua quando olhou para a expressão bravata dela — deixa pra lá.
E voltou a descer as escadas, desta vez, um pouco mais rápido. Serena o acompanhou, com uma risada jubilante.
— Não precisa ficar tão emburrado — disse ela, pulando de dois em dois degraus, para conseguir acompanhá-lo — mas se quer saber, os encontros de hoje não são tão complicados. Alguns saem para jantar; outros vão aos bares ou baladas; shopping e cinema também são opções e outros vão direto ao ponto. Mas suponho que para alguém que vem de uma época em que moças solteiras não podiam nem sair na rua sem um acompanhante, é um baita avanço.
— Acompanhante? — resmungou ele, enervado — de onde acha que eu vim? Inglaterra Vitoriana?
Ela deu uma risadinha. Não descreveria o sargento como um lorde inglês daquela série de época da Netflix, mas até que era engraçado imaginá-lo no papel.
— Qual o problema? Achei que tivesse mais de cem anos — ela sabia muito bem a diferença entre a era vitoriana e o período em que Bucky tinha vivido, meados dos anos trinta e quarenta, se não estivesse enganada. No entanto, era divertido torrar a parca paciência dele — não me parece tão diferente assim.
— Eu nasci em 1917. No Brooklyn — Bucky repreendeu-a — e vivi muito bem até 1945. São tempos e lugares totalmente diferentes.
— E qual a diferença? — Serena fingiu ignorância.
— Para começar, na década de quarenta, mulheres solteiras não precisavam que homens a acompanhassem para lugar algum. Elas saiam sozinhas. Trabalhavam e até votavam, pelo amor de Deus.
Ela ergueu os braços, risonha.
— Tudo bem, tudo bem. Admito que posso ter exagerado um pouco — disse — então, como realmente funcionavam os encontros no seu tempo, sargento? O que você gostava de fazer?
Bucky parou.
— Eu gostava de... — pela primeira vez, ele titubeou.
Serena o olhou com expectativa. Mas ele ficara taciturno outra vez.
— Bem, eu gostava de... — ele repetiu, como se fosse muito difícil continuar a frase.
E, por um breve instante, Serena poderia jurar que o vira corando.
Não tinha certeza se aquilo era possível. Bucky andava todo confiante e inexpressivo por aí, como se nada no mundo pudesse abalá-lo. Mas as bochechas dele estavam sim rosadas. Claro, era um tom bem leve de salmão e que ela mal podia ver, porque boa parte de seu rosto estava escondido debaixo de sua barba, não que aquilo fosse um defeito, nem de longe. Só que ainda estava ali, sentia isso.
— Gostava de? — Ela incentivou.
Ele resmungou alguma coisa que ela não ouviu. Um palavrão, provavelmente.
— Eu gostava de sair... para dançar — Bucky praticamente cuspiu as palavras. — Satisfeita?
— Dançar? — Serena repetiu, curiosa. — Tipo jazz edanças de salão?
Ele acenou com a cabeça. A boca de Serena abriu um pouco. Ela não esperava por aquilo.
Bucky era todo grandão e sério, jamais o imaginaria como o tipo de cara que frequentava clubes de dança ou gostava de jazz ou blues — francamente, ela achava bem mais a cara dele algum pé sujo de estrada, com mesas de bilhar e rock raivoso. Mas ela até que gostou daquilo.
— Isso é legal — disse, sincera.
Ele a olhou como se a reação dela fosse contraproducente ao esperado.
— O que foi? — Serena continuou — gosto de dançar também. Faz ideia de como é difícil conhecer gente que saiba dançar de verdade hoje em dia? Homens, principalmente.
— Ah é?
— Bem, alguns até dançam em casas de shows ou baladas, mas eu não gosto muito desses lugares.
Eles enfim estavam no saguão do prédio, parados no começo da escadaria. Serena estava três degraus acima dele, portanto, conseguia olhar diretamente nos olhos do sargento.
— Por quê?
— Baladas são lotadas e fechadas demais — admitiu ela, sabe Deus porque — é... sufocante.
Bucky a encarou daquele jeito pragmático dele. O que estaria passando dentro daquela cabeça?
— E o que você gosta de fazer?
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Em encontros?
Ele anuiu.
— Estou curioso — emendou, neutro.
Santo Deus. Aquele homem era uma grande incógnita.
Mesmo assim,Serena sopesou a pergunta. O último encontro que tivera... fazia tanto tempo. E tinha sido péssimo. Não sabia se queria ter outro em um futuro próximo. Mas... havia sim algo que gostava de fazer.
— Bem, eu gosto de lugares divertidos — ela admitiu, um pouco envergonhada. As pessoas costumavam debochar quando dizia que tinha preferência por lugares abertos e parques. Talvez soasse infantil para alguém da idade dela. E provavelmente era mesmo — os parques de Coney Island são meus favoritos desde que me mudei pra cá, embora faça um tempinho desde minha última visita.
— Coney Island — ele repetiu. Mas não havia deboche em seu tom de voz, apenas compreensão.
— Sei que parece infantil — ela rapidamente explicou, sabe lá por que — mas é legal.
— Tenho certeza de que é — ele concordou. —É só que... faz tanto tempo que não piso em um parque de diversões. E eu não fazia ideia de que aqueles parques em Coney Island ainda existiam — seu tom parecia repleto de nostalgia, e seu olhar mudara para algo... doce.
Serena gostou daquilo.
— Bem, não é nada como Epicot da Flórida, mas o lugar é arrumadinho e... — o celular em seu bolso vibrou. O carro estava chegando — bom, quem sabe não posso te mostrar um dia desses. Isso se tiver disposição para sair comigo, é claro — ela fez uma pausa e abriu um sorriso displicente — velhinho.
Ela então esticou a mão com uma expressão mordaz estampada na cara, como se quisesse fazer um firmamento. Bucky aceitou, com um sorriso enervado.
— Claro — ele então a puxou para perto dele. Pouco, mas ao mesmo tempo suficiente para que seus lábios ficassem próximos aos ouvidos dela e, sussurrou: — coisinha.
O apelido reverberou nos ouvidos dela, como uma promessa tácita. Ele então se afastou e saiu porta afora, sem dizer mais nada. O celular no bolso de Serena vibrou outra vez, freneticamente. O motorista chegara. Mas ela estava meio desconcertada enquanto andava em direção a calçada, era como se tivesse esquecido muitas coisas.
Como respirar ou andar direito, por exemplo.
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