Notas iniciais
Como eu havia dito nas notas iniciais, Legacy é um projeto que teve seus primeiros passos lá em meados 2021, ainda na pandemia. Aquele foi um período muito complicado da minha vida e meu único refúgio em meio ao caos foram os livros, a escrita e, sobretudo, o universo da Marvel. Desde muito nova sou muito conectada a esse universo e ter a oportunidade de escrever sobre isso, mesmo que em uma fanfic é muito gratificante. Toda a história de Legacy tem um paralelo implícito com o que eu — e certamente muitas pessoas — passaram durante esse período. Primeiro, a incerteza, depois, a instabilidade. O principal conflito da Serena, a perda da bolsa e a incapacidade de conseguir se manter no esporte que tanto amava é uma “referência” a uma experiência bem pessoal minha, onde devido a minha formação, a retomada pós-pandemia foi muito lenta, o que me fez repensar várias vezes sobre mim mesma, minhas capacidades e se eu estava no lugar certo. Spoiler, eu estava. Ainda estou. O que quero dizer com tudo isso é que, às vezes, vale a pena insistir naquilo que nos faz bem. Seja uma escolha de carreira, um hobbie, um esporte ou qualquer outra coisa, por mais boba que pareça... apenas insistam. Insistam em vocês. Boa leitura!

Final do campeonato Estadual de Ginástica Artística, eliminatórias para o Nacional

Novo Centro Poliesportivo do Brooklyn,

NYC, 2026

BUCKY BARNES NUNCA soube ao certo o que gostaria de ser. Desde muito novo, a vida parecia um leque de infinitas possibilidades a serem exploradas.

Ainda assim, em dado momento, as circunstâncias da vida o fizeram seguir rumos completamente inesperados.

Como quando foi recrutado para o exército na década de quarenta — e a sequência de merdas que aconteceram nas oito décadas que se seguiram. Como quando — graças a Thanos — se tornou um Vingador. Ou como, mais recentemente, ingressou na política.

Não havia sido uma decisão fácil, a bem da verdade. Ou rápida.

Tinha passado muito tempo refletindo e refletindo antes de perceber que queria aquilo de fato. A princípio, a ideia de passar dias e noites dentro do congresso, assistindo reuniões, elaborando projetos de lei e participando de todo o circo do poder legislativo soara ridícula. Ele, tão acostumado a resolver as coisas com as próprias mãos, preferindo a burocracia? Impensável.

Mas aquele era o novo mundo.

Um mundo sem os Vingadores, mas que ainda precisava de símbolos, de pessoas dispostas a lutar por aqueles que não conseguiam. Um tipo diferente, mas não menos importante, de heroísmo, segundo Sam.

Se bem que Sam Wilson, ao contrário dele, parecia ter se adaptado bem aos novos moldes daquele mundo, assumindo o manto de Capitão América da forma que deveria ser. As pessoas o respeitavam. O ouviam. Se espelhavam nele. Bucky não conseguia imaginar forma melhor de respeitar o legado de Steve Rogers senão aquela.

Sam, no entanto, não podia fazer todo o trabalho sozinho. E, sem Thanos, Hidra, Apátridas ou ameaças cósmicas pairando sobre a terra, a melhor maneira que Bucky havia encontrado para fazer parte daquilo fora mirando no cerne do problema, o governo.

Depois de décadas de experiência em governos corruptos e, especialmente, depois de tudo que vivenciara dois anos antes, Bucky queria impedir que novos Orlovs surgissem. Enquanto vivesse, não permitiria que mais ninguém sofresse o mesmo mal que Serena havia passado.

E faria aquilo com as próprias mãos.

Quando contou o plano a Sam, ele — surpreendentemente — o apoiou de imediato. O apoiou na pré-candidatura, o ajudara com discursos e, até mesmo usou um pouco — só um pouquinho — de sua influência como Capitão América para ajudá-lo algumas vezes. A maior parte do trabalho, no entanto, precisou fazer sozinho.

Bem... quase sozinho.

Ele encarou a fachada do prédio e sorriu. Alguns repórteres o cercavam e tiravam fotos.

— Congressista Barnes — disse um homem, segurando um gravador — Edward Brock, Clarim Diário. Sua presença não era esperada na cidade hoje. Foi uma mudança de última hora? Pode responder algumas perguntas a respeito do incidente em Washington?

Bucky piscou.

Céus, odiava aquela parte. As entrevistas. Falar em público. Interagir com pessoas. Honestamente, lidar com super soldados e alienígenas era muito mais fácil. Mas não havia muito a se fazer sobre aquilo. Males do ofício.

— Eu... não estou aqui a trabalho — declarou ele, dando um passo para frente, enquanto torcia para que o deixassem em paz.

Obviamente, não funcionou.

— Mas...

— Preciso entrar agora — Bucky insistiu, forçando um sorriso — podemos conversar mais tarde?

Não esperou pela réplica do repórter antes de dar-lhe as costas e entrar no prédio.

Quando estava longe o suficiente, soltou um palavrão.

Ah, aquilo com certeza estaria nas redes sociais mais tarde, pensou, aquelas coisas sempre acabavam por lá. Até conseguia ler a manchete: "Congressista Barnes destrata jornalista." E lá se iam mais duas semanas de conversas com assessores de marketing e... arg.

Não era hora de pensar naquilo.

Bucky cruzou o corredor e logo avistou a arquibancada abarrotada de gente. Música tocava e uma mulher de collant fazia movimentos graciosos em cima de uma trave. Merda, estava atrasado. Serena o mataria.

— Aqui, Bucky — gritou alguém, chamando sua atenção. Íris Miller. — Estamos aqui.

Em passos largos, subiu pela arquibancada e se sentou ao lado de Íris, como se estivesse ali o tempo todo.

— Está atrasado, senhor congressista — Amanda completou, erguendo uma sobrancelha — Íris estava prestes a te buscar pessoalmente em Washington.

Bucky suspirou.

— Eu sei, eu sei — ele as poupou de explicar a bagunça que o parlamento tinha virado depois do presidente ter se transformado em uma gigantesca massa vermelha de raiva e na dor de cabeça que aquilo traria futuramente. — Ela já entrou?

Íris apontou para o telão.

Então ele a viu. E perdeu o fôlego.

Serena.

Estavam juntos há mais de dois anos e, mesmo assim, Bucky ainda sentia o coração palpitar sempre que Serena estava por perto. Quando sorria e chamava carinhosamente de sargento. Céus, como a amava.

E, quando ela estava com os trajes de competição, aquele sorriso doce e olhar obstinado prestes a fazer o que dominava, ele a amava ainda mais — e nem julgava que aquilo seria possível.

Mas era a verdade. A cada dia que se passava Bucky a amava mais e mais.

Serena então olhou ao redor, como se estivesse procurando por alguma coisa. Alguém.

— Serena — gritou Íris — aqui!

Mesmo do canto oposto da quadra, Serena ouviu os gritos da amiga. E sorriu. Mas não era Íris a pessoa que ela encarava quando ergueu o braço esquerdo e acenou, a aliança de noivado reluzindo no dedo anelar.

O mundo ao redor perdeu completamente a importância.

Noiva. Aquela mulher incrível era sua noiva.

E apesar do pedido ter vindo dele — mais de uma vez — ainda não conseguia deixar de se sentir eufórico quando a compreensão do que aquilo significava o atingia. Que nunca mais estaria sozinho. Que seria dela e apenas dela até o último suspiro.

Bucky acenou de volta com o braço de vibranium. Sua aliança também estava ali.

Amo você, pensou, coisinha.

O locutor anunciou o nome de Serena no megafone. Era a hora.

Ela então o encarou uma última vez, deu uma piscadela e subiu no tatame, pronta para conquistar o mundo.

Notas finais
Antes de me despedir para valer, preciso agradecer imensamente a todos que abraçaram a minha premissa, que leram, comentaram, e surtaram nos comentários — eu amo muito isso e sempre estou de olho em vocês — e saibam que NADA disso teria sido possível sem o carinho e apoio de cada um de meus leitores. Espero vê-los em breve, em minhas próximas histórias. Um beijo, Polaris
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!