Left Behind

4 Capítulo 4 - Risks


Notas iniciais
Enjoy ♥

Capítulo 4 — Risks

E L L I E

Eu manipulava o pedaço de papel velho e amaçado entre os dedos, observando os rostos sorridentes e imaginando que, talvez em algumas horas eu veria a mamãe. É claro que tudo não passava de uma grande fantasia em minha mente, eu sabia muito bem que levaria semanas, ou meses para encontrar alguma pista dela… Se ainda estivesse viva, é claro.

Suspirei, frustrada com a quantidade de pensamentos negativos que se acumulavam em minha mente, e cheguei à conclusão de que estava passando muito tempo com Sam.

Dobrei a foto e guardei-a no bolso da calça. Eu só desejava que ela e meu pai estivessem bem, e voltassem inteiros. Eu não conseguia sequer imaginar a possibilidade de perdê-los também.

Mas meu pai sabia se virar melhor que ninguém. Não era a toa que o Governador o selecionara para sua pequena “milícia”. Ele ficava nos muros vigiando, ou saía em buscas com os outros homens de Woodburry, com sua postura militar e a arma em riste. Aquilo me fazia lembrar de como ele e a mamãe haviam se conhecido. Quando casados, ambos não se cansavam de contar a história: o papai havia sido enviado em uma missão de paz para um daqueles países que viviam em constante guerra, e a mamãe coincidentemente havia se voluntariado para cuidar da população ferida por conta da guerra. Encontraram-se em um tipo de zona de refugiados enquanto a mamãe tratava de alguns pacientes. Eu costumava pensar que ambos terem se encontrado era coisa do destino, mas depois que se divorciaram eu já não tinha mais tanta certeza.

O relógio na parede marcava quase dez da manhã. Deixei o quarto, descendo para a rua, onde o movimento já era grande. As pessoas andavam, conversavam, sorriam. Era só mais um dia comum em Woodbury. Caminhei até a casa da sra. Lawson, que para a minha infelicidade, decidira que eu devia participar de suas “aulas”. Antes de o mundo ir para a merda, ela trabalhava como professora, e aproveitou para continuar a profissão, dando aulas para os jovens da cidade, com o intuito de prosseguir com a “sociedade”… É claro que fazia muito sentido aprender equações matemáticas enquanto os mortos devoravam os vivos lá fora.

Avistei o pequeno grupo esperando diante da porta da casa. Isaac estava encostado contra a parede, os braços cruzados e olhando para o céu, provavelmente “viajando” por aí, como sempre fazia.

— Ei! — cumprimentei-o, ele sorriu ao me ver.

— Achei que tinha ido com seu pai — disse ele.

— Eu não quis dar mais trabalho pra ele, sabe… Ele já vai ter que tomar conta da Sam.

— Tem razão… É uma pena, ela vai perder a aula hoje.

— Garanto que ela está muito preocupada com isso — brinquei. — Mas nós também vamos.

Puxei-o pelo braço para longe dali.

— Vamos? — repetiu ele.

— Já esqueceu? — perguntei. — Achei que estava te devendo…

Vi um pequeno sorriso formando-se em seus lábios.

— O que está tramando?

— Dá pra calar a boca e me seguir? — sorri. — Você vai ver.

Ele assentiu e me seguiu pelas ruas, algumas pessoas nos olhavam como se não devêssemos estar ali. Guiei Isaac até os limites da cidade, onde não havia tanto movimento. Seria, na verdade, praticamente deserto, não fosse pelos homens que guardavam o muro. Caminhamos uma longa distância até alcançar os últimos edifícios protegidos.

— Cara — ofegou Isaac. — Da próxima vez me avise quando for dar a volta ao mundo.

— Meu Deus, você é tão mole! Como quer fazer algo perigoso se não aguenta dar dois passos?

— Quem disse que eu não aguento? — riu ele. — Será que dá pra me dizer agora?

Ergui uma sobrancelha e apontei para além dos muros. A cidade continuava, porém, não tínhamos acesso a ela. Não havia tantos errantes próximos à barragem, pois os homens tratavam de cuidar deles.

— Ninguém nunca diz nada sobre o que têm depois do muro — falei.

— Isso é porque não têm nada de mais.

— Como você sabe disso? Já esteve lá?

— Não é tão difícil reconhecer um lugar desolado. Tudo o que têm lá são prédios abandonados e errantes.

— Parece o lugar perfeito — comentei. Ele me olhou confuso, mas logo pareceu entender.

— Então você quer pular o muro e enfrentar uma horda de mortos-vivos? — ele cruzou os braços.

— Não vai amarelar agora, vai?

— Não, eu não vou — riu ele. — Só quero saber como pretende fazer isso.

— Bem… Todos os prédios são colados uns nos outros — apontei. — Deve haver alguma passagem, ou qualquer coisa.

— Certo… Mas o que vamos fazer lá, além de correr para não sermos mortos?

— Eu ainda não tinha pensado nisso… Mas que se dane, vamos encontrar alguma coisa.

Ele riu, então nos direcionamos ao último prédio antes do muro. Caminhamos com passos leves para não chamar a atenção dos guardas. Eu só esperava que não houvesse ninguém no edifício.

Isaac abriu a porta com cautela, e adentramos a pequena loja. As prateleiras dispostas pelo recinto encontravam-se totalmente vazias, assim como os balcões. Tudo o que restava era a poeira que cobria as superfícies lisas.

Lentamente, subimos as escadas para o andar superior, e adentramos a primeira porta. Era um quarto bem iluminado, o papel de parede descascando, os lençóis bagunçados sobre a cama, alguns papeis espalhados pelo chão, e algumas fotos dispostas sobre a cômoda de madeira. Eram retratos de família. Fiquei imaginando se seriam de alguém que vivia em Woodbury. Isaac provavelmente percebeu meu interesse pelas fotografias, pois aproximou-se e parou ao meu lado para observá-las, com um olhar triste.

— Mary — ele apontou uma mulher de meia-idade na foto. — E a criança é a filha dela, Lucy.

— Você as conhece? — perguntei.

— Sim… O pai de Lucy estava com o Governador quando nos encontraram e nos trouxeram pra cá. Eles nos acolheram como ninguém, nos ajudaram a superar o que havíamos passado lá fora. — Ele suspirou. — Acho que nunca conheci pessoas tão boas antes do mundo acabar.

— E o que aconteceu? — perguntei da maneira mais gentil que pude, já temendo a resposta.

Seu olhar pareceu distante por alguns segundos, como se estivesse visualizando a cena em sua própria mente.

— Foi um erro de segurança… Uma hora estávamos jantando e conversando, e na outra estávamos correndo pelas ruas da cidade, com errantes por toda a parte. — Ele encarou o chão, com um semblante triste. — Não conseguimos salvá-los.

— Sinto muito.

Ele me lançou um sorriso triste.

— Não foi culpa sua.

Era incrível como o mundo levava as pessoas de nós, deixando apenas resquícios de lembranças dolorosas. Sugava tudo o que havia de bom, até não restar nada além da morte.

Continuei parada ao seu lado, sem saber o que dizer.

— Bem — suspirou ele. — Não viemos aqui pra chorar. Vamos indo.

Ele se recompôs e então continuamos nosso caminho até a porta que levava à sacada do quarto. Era um espaço particularmente compacto, e a grade que nos separava da queda livre estava velha e enferrujada. Há pouco mais de um metro encontrava-se a sacada do prédio à frente, se eu me esticasse bastante conseguiria alcançá-la com facilidade.

— Acho que dá pra passar — comentei. — Pulamos e depois saímos pelos fundos do prédio.

Isaac assentiu. Adiantei-me a subir sobre a grade, mas ele impediu-me, travando a passagem com o braço. Então apontou para baixo, onde, no corredor entre os dois edifícios, meia dúzia de errantes nos esperavam, caso caíssemos.

Ele baixou o braço, liberando a passagem. Segurei-me nas barras de ferro enferrujado e subi na superfície, cautelosamente.

— Sam vai ficar furiosa se souber que estou te ajudando a arrumar confusão — disse Isaac.

— Ajudando? — repeti. — Eu arranjo confusão muito bem sozinha, ela sabe disso.

Ele riu.

Equilibrei-me sobre a estreita superfície, pondo-me de pé. A grade tremeu com meu peso, ameaçando soltar-se, e imediatamente Isaac me segurou. Por pouco não gritei, e ao olhá-lo, notei que eu o agarrava com mais força do que desejava.

— Sozinha, não? — brincou ele.

Resisti ao impulso de empurrá-lo, provavelmente porque eu cairia do segundo andar se o fizesse. Ele me ajudou a equilibrar-me novamente, então me estiquei até a grade oposta. Minhas pernas tremiam, mas eu me negava a pensar no medo que sentia, e em como seria estraçalhada caso a grade cedesse e me derrubasse. Isaac segurava-me firmemente, enquanto eu permanecia com um pé em cada extremo, e alguns metros abaixo de mim, os mortos gemiam e tentavam alcançar-me, sem sucesso. Respirei fundo antes de dar o próximo passo, então peguei impulso com o pé direito e arremessei-me para a sacada oposta. Assim que meus pés tocaram o chão, agarrei-me à parede de tijolos por alguns segundos, agradecendo por estar viva.

Do outro lado, Isaac ria, divertindo-se.

— Tá rindo do quê? — perguntei — Agora é sua vez.

Cruzei os braços, aguardando a minha hora de diversão. Ele engoliu em seco.

Equilibrou-se sobre a grade, tremendo, e eu não pude evitar rir, por mais perigoso que fosse o gesto.

— Você acha graça, mas pelo menos tinha alguém te segurando! — ralhou ele.

— Pare de reclamar e vem logo pra cá! Não temos o dia todo, bebezão.

Ele ignorou o último comentário e focou-se no que estava fazendo. Começou a esticar-se para me alcançar, mas a grade tremeu violentamente e ele ergueu os braços desesperadamente, tentando equilibrar-se. Estendi as mãos tentando segurá-lo.

— Não olhe pra baixo! — falei. — Vamos você consegue.

Ele parecia muito tentado a desistir, mas em um último impulso de coragem, pulou para a sacada, caindo ao meu lado.

— Você está bem? — perguntei, com preocupação. Ele parecia ter entrado em estado de choque por alguns segundos, mas logo um sorriso abriu-se em seu rosto e ele riu, ou melhor, gargalhou.

— Ei! Eles ainda podem nos escutar, gênio — empurrei de leve seu ombro.

Ele me olhou com divertimento.

— Você sabe que estamos prestes a fazer a coisa mais idiota das nossas vidas, não sabe?

— Eu sei — respondi. — Por isso é tão divertido.

Ele assentiu, e quando suas pernas pararam de tremer e ele pode se levantar, deixamos a sacada e adentramos o cômodo. Atravessamos o quarto, passando pelo corredor, cozinha e por fim a sala, onde saímos do apartamento pela porta de entrada. Um errante perambulava logo à frente, e ao ouvir o ruído da porta, passou a caminhar em nossa direção. Imediatamente minha mão deslizou para a faca de caça em meu cinto, mas Isaac me deteve.

— Nem pense nisso. — Ele desembainhou a própria faca e preparou-se para o errante, como se quisesse me proteger.

— Tudo bem, pai. — Falei, com divertimento. — Fique à vontade.

Ele avançou contra o morto-vivo e chutou seu joelho, fazendo-o espatifar-se no chão. Em seguida, cravou a lâmina em seu crânio.

— Sempre derrube eles primeiro — disse, orgulhando-se de si mesmo. — Assim não terão a chance de te agarrar quando for dar o golpe final.

— Certo. Ótima estratégia — comentei. Apesar de já saber daquilo, resolvi concordar para deixá-lo contente.

Deixamos o prédio pela saída dos fundos e nos encaminhamos para a rua paralela à qual se encontravam os muros. Alguns errantes caminhavam muito ao longe, e não haviam nos notado. Prédios e lojas com aspectos antigos cercavam a rua, completamente abandonados. Alguns tinham tábuas de madeiras bloqueando as janelas, outros se encontravam escancarados e destruídos. Andamos alguns metros antes de escolher o que antigamente era uma loja de eletrônicos, O letreiro estava tombado, algumas janelas quebradas, e em seu interior, as prateleiras dispunham-se de maneira desorganizada, com aparelhos caídos e papeis espalhados pelo chão. Isaac se distraiu com os televisivos nas vitrines, enquanto fui ao interior da loja. Deslizei os dedos sobre o balcão empoeirado enquanto observava as fotografias dispostas na parede, identificando os “funcionários do mês”. E pensar que tudo o que importava antes era ter uma boa posição no trabalho, ter uma família feliz e uma vida bem sucedida. E agora, ter uma lata de feijões em conserva te tornava o rei do mundo.

— Você tem que ver isso — ouvi a voz de Isaac, e notei que havia adentrado a loja há algum tempo. Dirigi-me até ele, que estava parado diante da parede, olhando uma espécie de quadro. Parecia fascinado com o que via. — É um walkman.

Olhei para onde ele apontava e notei que era na verdade um quadro de vidro, e dentro dele, exposto, estava o tal walkman. Talvez estivesse ali como uma relíquia a ser exibida, um lembrete da antiguidade em meio a toda a tecnologia disponível nas prateleiras. Isaac retirou o quadro da parede, e descobriu que havia uma abertura na parte de trás. Puxou o fecho, e abriu-a, retirando o aparelho para fora.

— Acho que ainda funciona — disse ele, observando-o entre os dedos. Havia uma fita qualquer inserida no dispositivo e a bateria encontrava-se em seu devido lugar. Isaac apertou o botão para ligá-lo, e segundos depois a melodia preencheu o ambiente, um pouco mais alta do que esperávamos. Isaac e eu nos encaramos, perplexos, então ele sorriu como uma criança que acaba de ganhar um doce.

— Isso é… — comecei, mas fui interrompida por um estrondo que ecoou pela loja, como se alguma coisa batesse contra as paredes. Nos entreolhamos, alarmados, então ergui a cabeça procurando a origem do som.

Isaac desligou a música, mas o barulho não cessou. Afastei-me um pouco, cautelosamente e com a faca em riste. O barulho vinha dos fundos da loja, e ao me aproximar, descobri que havia uma porta escondida entre as prateleiras, a qual eu não notara antes. Algo por trás dela a empurrava freneticamente, e com tamanha força que fazia com que a porta tremesse por inteira. Antes que eu pudesse ter qualquer reação, ela se abriu violentamente, liberando dezenas de errantes, que com uma rapidez assustadora, deixaram o aposento aos montes e espalharam-se pela loja. Corremos para a saída, e Isaac tratou de abrir a porta, mas desesperou-se após algumas tentativas frustradas de empurrá-la.

— Emperrou! — ele jogava o peso do corpo contra a porta repentinamente, enquanto eu recuava cada vez mais. O primeiro errante aproximou-se, então chutei seu joelho, e quando caiu, enterrei a faca em seu cérebro.

— Isaac… — chamei com a voz trêmula. Nunca tivera tanto medo até aquele momento.

Não havia saída, iríamos morrer ali, pela nossa própria estupidez. Os errantes nos rasgariam por inteiro e devorariam nossa carne, e não havia nada que eu pudesse fazer. Mas eu jamais me entregaria tão facilmente.

Reuni minhas forças e corri contra a porta, arremessando todo o meu peso contra a ela, ao mesmo tempo em que Isaac. Ela enfim cedeu, nos levando diretamente ao chão de cimento. Por pouco apoiei as mãos na calçada, sustentando o peso do corpo. Isaac levantou-se rapidamente e me ajudou a me recompor, então disparamos rua abaixo, com os errantes em nosso encalço.

— Precisamos nos esconder! — ofegou Isaac.

— Onde?! — Eu olhava para todos os lados mas não conseguia encontrar uma saída. Olhei para trás rapidamente, e notei que os mortos-vivos estavam há poucos metros de nós.

— Por aqui! — Isaac dobrou a esquina e aceleramos o passo, deixando os mortos um pouco para trás.

Avistamos um carro parado logo à frente, e sem pensar duas vezes nos jogamos contra o chão e nos arrastamos para baixo do veículo. Simultaneamente, a horda de errantes dobrou a esquina, eu só podia rezar para que não nos vissem. Isaac estava deitado ao meu lado, os olhos fechados com força, os punhos cerrados, e ofegando de uma maneira descomunal, como se não houvesse ar em seus pulmões. Eu podia ver claramente o esforço para conter a respiração estampado em seu rosto. Eu já havia visto algumas pessoas naquela situação, e não conseguia imaginar a agonia pela qual Isaac estava passando naquele momento. Ele estava tendo uma crise de asma.

Os minutos seguintes foram os mais longos de toda a minha vida. Meu coração saltava em meu peito, e eu tive medo que os errantes pudessem ouvi-lo bater. As dezenas de pés arrastavam-se contra o asfalto, e os gemidos ecoavam pela rua de forma assustadora. Isaac abriu os olhos e eu soube que ele não podia segurar por mais tempo. Seu rosto estava vermelho e seu corpo tremia. Olhei no fundo de seus olhos e segurei sua mão, tentando lhe passar alguma tranquilidade. Ficamos assim até que toda a horda se distanciou do veículo, e foi seguro se mexer.

Isaac desesperadamente vasculhou o bolso da calça e puxou um inalador portátil, direcionou-o à boca e sugou o ar três vezes. Tossiu um pouco e por fim deixou-se relaxar contra o asfalto.

— Você é asmático — minha voz tinha um tom de perplexidade. Ele me olhou, sem reação. — Seu doido.

Ele se permitiu rir, talvez por alívio, ou pelo simples fato de ainda estar vivo. Ergueu-se alguns centímetros do chão e tirou algo debaixo de seu abdômen.

— Pelo menos não foi em vão — comentou com a voz fraca, mostrando o walkman.

***

Retornamos à Woodbury depois de nos recuperarmos da correria. Na volta, encontramos uma loja de doces e pegamos alguns chocolates vencidos para comer no caminho. Eu não sentia o sabor alucinante de um chocolate há muito tempo, então desfrutei cada segundo. O sol começava a baixar quando pulamos as sacadas e voltamos para a zona segura. Estávamos um pouco sujos e suados, mas quem suspeitaria de que duas crianças pulariam os muros para explorar o lado de fora?

Correndo riscos ou não, com certeza eu repetiria a dose sem arrependimento. Era bom fazer algo idiota e divertido para variar. A vida sem riscos não tinha a menor graça.

Estava prestes a me despedir de Isaac e voltar ao quarto quando uma mão agarrou meu ombro. Virei-me, assustada e reconheci Lauren, uma mulher de meia-idade que costumava ajudar a dra. Stevens a cuidar dos feridos.

— Você tem que vir comigo — disse ela, com uma expressão sombria no rosto. — Agora.

— O que houve? — perguntei, mas ela já corria pela rua, esperando que eu a seguisse. Isaac e eu nos entreolhamos e a seguimos até a enfermaria, que eu não visitava desde que havia chegado à Woodbury.

Lauren diminuiu o passo e adentrou o local. Parei diante do aposento, com receio, imaginando o que estaria acontecendo, e a preocupação me consumindo. Com passos lentos, caminhei até a porta e olhei para dentro, ainda segurando o batente. O que encontrei foi pior do que esperava.

Meu pai estava deitado em uma das macas, desacordado, enquanto bandagens ensanguentadas envolviam seu ombro. Sam estava ao seu lado, suas mãos tremiam violentamente e estavam cobertas de sangue. Ela ergueu o olhar para mim, e eu não pude decifrar o que ela queria dizer. Alguns homens e o próprio Governador cercavam a cama, e discutiam freneticamente, até que a dra. Stevens me avistou.

— Silêncio! — gritou ela, e os homens se calaram, desviando a atenção para mim.

Aproximei-me da cama e postei-me diante de meu pai. As lágrimas encheram os cantos dos meus olhos e as palavras pareciam se recusar a sair por minha boca.

— E-ele está… — comecei.

— Não — cortou Sam. — Mas ele perdeu muito sangue.

— Precisamos fazer algumas transfusões — explicou a dra. Stevens.

— Meu sangue não é compatível com o do papai — disse Sam. — O seu é.

Balancei a cabeça positivamente e imediatamente ergui a manga da blusa. A dra. Stevens começou a preparar as agulhas.

— O que houve? — perguntei, sem conseguir tirar os olhos do papai.

O olhar de Sam se agravou e ela gesticulou Merle e os outros homens.

— Pergunte a eles.

— Tudo não passa de um mal entendido — explicou-se o Governador. — Merle pensou que fosse um estranho… Uma ameaça, então atirou.

Você atirou no meu pai?! — minha voz saiu mais ofensiva do que eu esperava. Toda a raiva que eu já havia sentido em toda a minha vida reuniu-se naquele momento, se direcionando diretamente à Merle e aos homens parados ao seu lado. Agarrei o que parecia ser um bisturi disposto em uma bandeja de metal e o brandi, avançando contra Merle. Isaac me segurou antes que eu pudesse alcançá-lo, então as piores baixarias que poderiam ser ditas saíram por minha boca, enquanto eu tentava me desvencilhar dos braços de Isaac.

Merle riu debochadamente e se aproximou de mim.

— Devia estar agradecida, loirinha. Seu pai ainda está vivo por minha causa também.

— Pode ter certeza que você não vai estar por muito tempo, seu filho da puta!

— Chega! — interviu o Governador. — Vamos indo. Deem o fora daqui.

Os dois homens o seguiram e Merle me fitou por alguns segundos antes de deixar o aposento.

Soltei-me dos braços de Isaac e joguei o bisturi de volta à bandeja. Ele, Sam e a dra. Stevens me encaravam. Sam parecia entediada.

— Terminou com seu teatrinho? — disse, entre dentes.

Senti-me tentada a avançar contra ela também, mas controlei os nervos e sentei-me na cadeira disposta ao lado da cama onde meu pai repousava.

— Não podemos nos dar ao luxo de sentir raiva agora — continuou. — Estamos correndo muitos riscos aqui.

— Do que está falando? — perguntei, esfregando a testa.

Ela conferiu se não havia mais ninguém por perto da porta antes de prosseguir.

— Acho que eles sabiam que era o papai. — Falou, em um tom quase inaudível. — Por isso atiraram.

Notas finais
Hey! Perdão por qualquer erro no capítulo, e espero que tenham gostado. Até o próximo!